Os sonetos completos de Anthero de Quental

Part 2

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Na esphera do invisivel, da intangivel, Sobre desertos, vacuo, soledade, Vôa e paira o espirito impassivel

presidindo á evolução dos seres (V. o soneto _Evolução_) desde a rocha até ao homem, evolução que seria absolutamente inexpressiva se não tivesse um destino, um fim, um ideal. A theoria do progresso indefinido é, com effeito, racionalmente absurda. Esse destino, para os neo-buddhistas, é o Nada transcendente; esse ideal é a Liberdade. A existencia está pois consagrada racionalmente: falta consagral-a sentimentalmente. Falta ainda ao systema um medianeiro: é o Amor.

Porém o coração feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do penar tornado crente,

Respondeu: D'esta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se é isto a vida, Nem foi de mais o desengano e a dor.

O Universo está pois construido e sanctificado na mente do poeta e na razão do philosopho. Dir-se-ha portanto que a chimera de que a principio fallámos ficou desvendada, o problema resolvido, conciliada a visão com a razão, e que nos não resta mais do que fazermo-nos todos buddhistas? Supprema illusão! Creia-o embora o poeta: eu, como critico, observando que o pensamento humano, desde que existe e trabalha, progride sempre, com effeito, mas progride em tres estradas parallelas que, por serem parallelas, nunca podem encontrar-se, atrevo-me a affirmar a irreductibilidade do mysticismo, racional ou imaginativamente concebido, e do naturalismo, ponderada ou orgiacamente realisado. Atrevo-me a dizer que estes dois feitios ou temperamentos são constitucionaes do espirito humano, e que da coexistencia necessaria d'elles resulta um terceiro--o sceptico, o critico, o que provêm da comparação de ambos, e por isso não tem côr, nem é affirmativo; dando-se melhor com a natureza do que com a phantasmagoria, preferindo a harmonia mais ou menos equilibrada, ou mais ou menos claudicante do hellenismo, á orgia desenfreada dos orientaes; considerando a existencia como um compromisso, o dever como uma condição da vida, mas tambem a fraqueza como uma condição dos homens. Estes tres temperamentos são correspondentes a typos eternos e irreductiveis da consciencia humana; e, se o buddhismo é a melhor religião para um mystico do seculo XIX, saturado de sciencia e derreado de cogitações, o christianismo, como directo herdeiro do hellenismo, hade eternamente satisfazer melhor os scepticos e os naturalistas, cujo numero é e foi sempre infinitamente maior, entre os europeos.

«Um hellenismo coroado por um buddhismo» eis a formula com que mais de uma vez Anthero de Quental me tem exprimido o seu pensamento--a sua chimera! Chimera, digo, por que a corôa não nos póde assentar na cabeça, sob pena de a crivar de espinhos e de a deixar escorrendo sangue. Fundar o principio da acção na inercia systematica, a realidade no não-ser, a vida no anniquilamento, só é praticamente acceitavel para o commum de homens quando acreditem na metempsycose, dogma tão infantilmente mythico do buddhismo como v. g. o inferno do christianismo. Ao christianismo, porém, tirando-se-lhe tudo quanto a imaginação semita deu para a sua formação, fica ainda o hellenismo, isto é, um idealismo mais ou menos pantheista e uma theoria moral--cousas que eu não affirmo que resistam a uma analyse rigorosamente logica, por isso mesmo que todo o nosso conhecimento racional das cousas assenta apenas sobre axiomas do senso commum--ao passo que, em se tirando a metempsycose ao buddhismo, o buddhismo reduz-se a uma nevoa de abstracções.

Pobre humanidade, se se visse condemnada á coroação buddhista! Nós europeos, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte, soffreriamos as agonias, experimentariamos as afflicções do poeta que, tendo no peito um coração activo, tem na cabeça uma imaginação mystica, e, para obedecer ao pensamento, tortura o coração, sem poder tambem esmagal-o sob o mando da intelligencia.

D'este cruel estado vêm os documentos que attestam a transformação soffrida pela ironia dos periodos anteriores. Que nome se hade dar ao sentimento que inspira os sonetos _Á Virgem Santissima_ e o _Na mão de Deus_ que fecha o volume? Eu por mim chamarei humorismo transcendente a essa liga intima da piedade e da ironia, e declaro que nunca vi cousa parecida posta em verso. Em prosa, ha mais de um periodo de Renan inspirado por um espirito similhante, embora menos agudo.

Ó visão, visão triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa, E deixa-me sonhar a vida inteira!

A visão é a Virgem Santissima, e a poesia é tão sincera, tão verdadeira, tão cheia de piedade e uncção, que eu sei de mais de um livro de resas onde andam copias escriptas.

Dorme o teu somno, coração liberto, Dorme na mão de Deus eternamente!

Um monge christão escreveria isto. E Anthero de Quental nem é christão, nem crê em Deus, nem na Virgem, segundo o sentido ordinario da palavra crer.

Blasphemar era bom n'outros tempos; para a ironia tambem a idade passou; finalmente para o _exercicio litterario_ nunca se inclinou a penna que o poeta molhou sempre no seu sangue. Como explicar, pois, o phenomeno?

Por acaso subiu já o leitor ao cume de um monte sufficientemente alto para que toda a paysagem lhe apparecesse á vista, fundida a ponto de não distinguir uma arvore de um cazal, nem um rio de um valle sem curso de agua? Pois succede assim nas campinas da historia do pensamento humano, quando as olhamos das cumiadas luminosas da critica. Vêem-se as cousas na sua essencia, não importam os accidentes. O fetiche que o selvagem adora, a imagem perante a qual se prostra o commum dos crentes, o architecto universal dos pensadores livres, e finalmente esse _quid_ innominado a que a philosophia moderna chamou Inconsciente--tudo isso é egualmente Deus: sómente é Deus percebido pela imaginação infantil, Deus percebido pela intelligencia vulgar, Deus percebido pelo saber incipiente, e Deus finalmente incomprehendido, mas sentido, pela sabedoria. E todas essas modalidades de uma mesma impressão, recebida e representada de fórma diversa, consoante a natureza e o estado de educação dos homens, são egualmente verdadeiras, egualmente santas e egualmente humoristicas, para aquelle que tem coração para sentir as cousas por dentro, e olhos para as ver de fora--objectivamente, como os allemães dizem, e nós diremos criticamente.

Eis ahi a suprema liberdade do espirito, o Nirvâna apenas intellectual, a que eu prefiro chamar impassibilidade subjectiva: um estado que permitte comprehender todas as cousas, analysando-as e classificando-as, sem todavia nos transmittir essa especie de frialdade de coração, propria dos naturalistas quando estudam uma rocha, uma planta ou um animal. O philosopho, impassivel ao analysar e classificar os phenomenos do espirito humano, ha-de misturar ao sorriso que provocam todas as vaidades e illusões, o amor que merecem todos os sentimentos ingenuos e fundamentalmente bons; hade alliar á comprehensão da nullidade extrinseca das cousas, a comprehensão da sua excellencia intrinseca; exigindo que o homem seja activo, porque a actividade é boa por ser indispensavel á saude do espirito, embora os objectos da actividade sejam as mais das vezes irritos e nullos, quando considerados em si proprios e isoladamente.

E eis ahi as razões porque eu não sou buddhista... nem Anthero de Quental o é, embora julgue sel-o. A evolução dolorosa que terminou com o seu ultimo soneto, esta longa e tempestuosa viagem atravez do mar tenebroso da phantasia metaphisica, parece ter concluido. A edade, talvez, acima de tudo, trouxe ao espirito do poeta uma paz illuminada de bondade e sabedoria, e como a sua alma é san e a sua intelligencia firme e sempre activa, é mais que provavel que o declinar da vida de Anthero de Quental enriqueça o peculio por signal bem pobre da philosophia portuguesa com algum trabalho tão digno de se conservar na memoria dos tempos, como estes _Sonetos_ que são as amargas flores de uma mocidade. Esse trabalho, porem, não será um cathecismo buddhista, não pode ser nenhuma revelação milagrosa do _verdadeiro_ systema, porque a sabedoria nos diz que toda a pretenção de Verdade é illusoria, pois sendo nós, a nossa intelligencia, os nossos pensamentos, simples e fugitivas contingencias, é loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento; e sabio é aquelle que se limita a registrar as relações das cousas.

III

Quem deante d'estes versos não sentir elevar-se-lhe o espirito, como n'uma oração, áquella especie de Deus que é compativel com o seu temperamento ou com o estado de educação do seu pensamento, é por que tem dentro do peito, no logar do coração, um seixo polido e frio. Quem, no meio do lidar da vida, roçando os braços pelas arestas cortantes que a erriçam de angulos, pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e não sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua limpida, é porque tem a alma feita apenas de egoismo. Quem, emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas paginas, e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua lingua perdeu o habito de fallar portuguez.

Um dos nossos mais queridos amigos, um dos que conhecem de perto Anthero de Quental--e sómente o conhece quem com elle viveu largo tempo na intimidade--interroga-me geralmente d'este modo: «E _santo_ Anthero, como vae?»

Dil-o com a convicção quente dos artistas, mas eu, que o não sou, tenho a pôr embargos, porque a santidade não é planta adequada ao clima do nosso tempo. Exige uma porção de sentimento ingenuo que já não ha nos ares que respiramos.

A vida contemplativa, porem, a vida asceta inclusivamente: essa virtude austera para comsigo, tolerante para com tudo e para com todos; esse observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom, embora indifferente com frequencia, aos que alguma vez o rodeiam; a caridade, o amor, a abnegação, as tentações, as crises, as lagrimas, as afflicções, as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que, reunido, forma uma alma mystica--tudo isso móra na alma d'este poeta arrebatada pela visão inextinguivel do Bem.

Só no meu coração, que sondo e meço, Não sei que voz, que eu mesmo desconheço, Em segredo protesta e affirma o Bem.

E para nada faltar a este mystico, anachronicamente perdido no meio do borborinho de um seculo activo até á demencia, tem tambem uma fé ardente--uma fé buddhista. Somente o seu Deus, Deus sem vontade, sem intelligencia e sem consciencia, é, para nós outros, a quem são vedados os mysterios da metaphisica buddhista, igual a cousa nenhuma.

Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no seculo VI ou no seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis. No seculo XIX é um excentrico, mas d'esse feitio de excentricidade que é indispensavel, porque a todos os tempos foram indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes.

_Oliveira Martins_.

OS CAPTIVOS

Encostados ás grades da prisão, Olham o céo os pallidos captivos. Já com raios obliquos, fugitivos, Despede o sol um ultimo clarão.

Entre sombras, no longe, vagamente, Morrem as vozes na extensão saudosa. Cae do espaço, pesada, silenciosa, A tristeza das cousas, lentamente.

E os captivos suspiram. Bandos de aves Passam velozes, passam apressados, Como absortos em intimos cuidados, Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os captivos: Na amplidão Jamais se extingue a eterna claridade... A ave tem o vôo e a liberdade... O homem tem os muros da prisão!

Aonde ides? qual é vossa jornada? Á luz? á aurora? á immensidade? aonde? --Porém o bando passa e mal responde: Á noite, á escuridão, ao abysmo, ao nada!--

E os captivos suspiram. Surge o vento, Surge e perpassa esquivo e inquieto, Como quem traz algum pezar secreto, Como quem soffre e cala algum tormento.

E dizem os captivos: Que tristezas, Que segredos antigos, que desditas, Caminheiro de estradas infinitas, Te levam a gemer pelas devezas?

Tu que procuras? que visão sagrada Te acena da soidão onde se esconde? --Porém o vento passa e só responde: A noite, a escuridão, o abysmo, o nada!--

E os captivos suspiram novamente. Como antigos pezares mal extinctos, Como vagos desejos indistinctos, Surgem do escuro os astros, lentamente.

E fitam-se, em silencio indecifravel, Contemplam-se de longe, mysteriosos, Como quem tem segredos dolorosos, Como quem ama e vive inconsolavel...

E dizem os captivos: Que problemas Eternos, primitivos vos attrahem? Que luz fitaes no centro d'onde saem A flux, em jorro, as intuições supremas?

Por que esperaes? n'essa amplidão sagrada Que soluções esplendidas se escondem? --Porém os astros tristes só respondem: A noite, a escuridão, o abysmo, o nada!--

Assim a noite passa. Rumorosos Susurram os pinhaes meditativos, Encostados ás grades, os captivos Olham o céo e choram silenciosos.

OS VENCIDOS

Tres cavalleiros seguem lentamente Por uma estrada erma e pedregosa. Geme o vento na selva rumorosa, Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas, Têm os corceis poentos e abatidos, Em desalinho trazem os vestidos, Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa, As fontes lhes curvou, com mão potente. No horisonte escuro do poente Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos tres, erguendo os braços, Diz n'um soluço: «Amei e fui amado! Levou-me uma visão, arrebatado, Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esphera Onde vivem as almas que se adoram, Livre, contente e bom, como os que moram Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor O sopro do desejo pestilente? Ai do que um dia recebeu de frente O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão Abre languida ao raio matutino, Mas seu profundo calix purpurino Só reçuma veneno e podridão.

Irmãos, amei--amei e fui amado... Por isso vago incerto e fugitivo, E corre lentamente um sangue esquivo Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavalleiro, Com sorriso de tragica amargura: «Amei os homens e sonhei ventura, Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente No meio das revoltas homicidas: Caminhando entre raças opprimidas, Fil-as surgir, como um clarim fremente.

Quando ha de vir o dia da justiça? Quando ha de vir o dia do resgate? Trahio-me o gladio em meio do combate E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial, Abrem, sem ler, o livro do futuro. O povo dorme em paz no seu monturo, Como em leito de purpura real.

Irmãos, amei os homens e contente Por elles combati, com mente justa... Por isso morro á mingoa e a areia adusta Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavalleiro: «Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo. Fiz do seu nome fortaleza e escudo No combate do mundo traiçoeiro

Invoquei-a nas horas affrontosas Em que o mal e o peccado dão assalto. Procurei-o, com ancia e sobresalto, Sondando mil sciencias duvidosas.

Que vento de ruina bate os muros Do templo eterno, o templo sacrosanto? Rolam, desabam, com fragor e espanto, Os astros pelo céo, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam... Tedio reçuma a luz dos dias vãos... Ai dos que juntam com fervor as mãos! Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda... Por isso vago sem conforto e incerto, Arrastando entre as urzes do deserto Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os tres, unindo a voz n'um ai supremo, E deixando pender as mãos cançadas Sobre as armas inuteis e quebradas, N'um gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa Da montanha calada e formidavel, Sumiram-se na selva impenetravel E no palor da noite silenciosa.

ENTRE SOMBRAS

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim --A noite desce, desfolhando as rosas-- Vem ter commigo, ás horas duvidosas, Uma visão, com azas de setim...

Pousa de leve a delicada mão --Rescende amena a noite socegada-- Pousa a mão compassiva e perfumada Sobre o meu dolorido coração...

E diz-me essa visão compadecida --Ha suspiros no espaço vaporoso-- Diz-me: Porque é que choras silencioso? Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços --Na noite funda ha um silencio santo-- N'um sonho feito só de luz e encanto Transporás a dormir esses espaços...

Porque eu habito a região distante --A noite exhala uma doçura infinda-- Onde ainda se crê e se ama ainda, Onde uma aurora igual brilha constante...

Habito ali, e tu virás commigo --Palpita a noite n'um clarão que offusca-- Porque eu venho de longe, em tua busca, Trazer-te paz e alivio, pobre amigo...

Assim me fala essa visão nocturna --No vago espaço ha vozes dolorosas-- São as suas palavras carinhosas Agua correndo em crystalina urna...

Mas eu escuto-a immovel, somnolento --A noite verte um desconsolo immenso-- Sinto nos membros como um chumbo denso, E mudo e tenebroso o pensamento...

Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto --A noite é erma como campa enorme-- Fito-a com olhos turvos de quem dorme E respondo: Bem sabes que estou morto!

HYMNO DA MANHÃ

Tu, casta e alegre luz da madrugada, Sobe, cresce no céo, pura e vibrante, E enche de força o coração triumphante Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza immensa No desolado coração. Mais quero A noite negra, irmã do desespero, A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro não palpita, Nem ave canta, nem susurra o vento, E adormece o proprio pensamento, Do que a luz matinal... a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser, Imagem do repouso inalteravel E do esquecimento inviolavel, Que anceia o mundo, farto de soffrer...

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto, O nada universal o pensamento, E despreza o viver e o seu tormento. E olvida, como quem está já morto...

E, interrogando intrepido o Destino, Como reu o renega e o condemna, E virando-se, fita em paz serena O vacuo augusto, placido e divino...

Porque a noite é a imagem da Verdade, Que está além das cousas transitorias. Das paixões e das formas illusorias, Onde sómente ha dor e falsidade...

Mas tu, radiante luz, luz gloriosa, De que és symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o coração humano Em rede de mil malhas, mysteriosa!

Symbolo, sim, da universal traição, D'uma promessa sempre renovada E sempre e eternamente perjurada, Tu, mãe da Vida e mãe da Illusão...

Outros estendam para ti as mãos, Supplicantes, com fé, com esperança... Ponham outros seu bem, sua confiança Nas promessas e a luz dos dias vãos...

Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia E que tortura ainda não provada Hoje me ensinará esta alvorada? E digo: Porque nasce mais um dia?

Antes tu nunca fosses, luz formosa! Antes nunca existisses! e o Universo Ficasse inerte e eternamente immerso Do possivel na nevoa duvidosa!

O que trazes ao mundo em cada aurora? O sentimento só, só a consciencia, D'uma eterna, incuravel impotencia, Do insaciavel desejo, que o devora!

De que são feitos os mais bellos dias? De combates, de queixas, de terrores! De que são feitos? de illusões, de dores, De miserias, de maguas, de agonias!

O sol, inexoravel semeador, Sem jamais se cançar, percorre o espaço, E em borbotões lhe jorram do regaço As sementes innumeras da Dor!

Oh! como cresce, sob a luz ardente, A seara maldita! como treme Sob os ventos da vida e como geme N'um susurro monotono e plangente!

E cresce e alastra, em ondas voluptuosas, Em ondas de cruel fecundidade, Com a força e a subtil tenacidade Invencivel das plantas venenosas!

De podridões antigas se alimenta, Da antiga podridão do chão fatal... Uma fragrancia morbida, mortal Lhe reçuma da seiva peçonhenta...

E é esse aroma languido e profundo, Feito de seducções vagas, magneticas, De ardor carnal e de attracções poeticas, É esse aroma que envenena o mundo!

Como um clarim soando pelos montes, A aurora acorda, placida e inflexivel, As miserias da terra: e a hoste horrivel, Enchendo de clamor e horisontes.

Torva, cega, colerica, faminta, Surge mais uma vez e arma-se á pressa Para o bruto combate, que não cessa, Onde é vencida sempre e nunca extincta!

Quantos erguem n'esta hora, com esforço, Para a luz matinal as armas novas, Pedindo a lucta e as formidaveis provas, Alegres e crueis e sem remorso,

Que esta tarde ha-de ver, no duro chão Cahidos e sangrentos, vomitando Contra o céo, com o sangue miserando, Uma extrema e importante imprecação!

Quantos tambem, de pé, mas esquecidos, Ha-de a noite encontrar, sós e encostados A algum marco, chorando aniquilados As lagrimas caladas dos vencidos!

E porque? para que? para que os chamas, Serena luz, ó luz inexoravel, Á vida incerta e á lucta inexpiavel, Com as falsas visões, com que os inflamas?

Para serem o brinco d'um só dia Na mão indifferente do Destino... Clarão de fogo-fatuo repentino, Cruzando entre o nascer e a agonia...

Para serem, no páramo enfadonho, Á luz de astros malignos e enganosos, Como um bando de espectros lastimosos, Como sombras correndo atraz d'um sonho...

Oh! não! luz gloriosa e triumphante! Sacode embora o encanto e as seducções, Sobre mim, do teu manto de illusões: A meus olhos, és triste e vacillante...

A meus olhos, és baça e luctuosa E amarga ao coração, ó luz do dia, Como tocha esquecida que allumia Vagamente uma crypta monstruosa...

Surges em vão, e em vão, por toda a parte, Me envolves, me penetras, com amor... Causas-me espanto a mim, causas-me horror, E não te posso amar--não quero amar-te!

Symbolo da Mentira universal, Da apparencia das cousas fugitivas, Que esconde, nas moventes perspectivas, Sob o eterno sorriso o eterno Mal,

Symbolo da Illusão, que do infinito Fez surgir o Universo, já marcado Para a dor, para o mal, para o peccado, Symbolo da existencia, sê maldito!

A FADA NEGRA

Uma velha de olhar mudo e frio, De olhos sem cor, de labios glaciaes, Tomou-me nos seus braços sepuleraes. Tomou-me sobre o seio ermo e vasio.

E beijou-me em silencio, longamente, Longamente me unio á face fria... Oh! como a minha alma se estorcia Sob os seus beijos, dolorosamente!

Onde os labios pousou, a carne logo Myrrou-se e encaneceu-se-me o cabello, Meus ossos confrangeram-se. O gelo Do seu bafo seccava mais que o fogo.

Com seu olhar sem cor, que me fitava, A Fada negra me qualhou o sangue. Dentro em meu coração inerte e exangue Um silencio de morte se engolfava.

E volvendo em redor olhos absortos, O mundo pareceu-me uma visão, Um grande mar de nevoa, de illusão, E a luz do sol como um luar de mortos...

Como o espectro d'um mundo já defuncto, Um farrapo de mundo, nevoento, Ruina aerea que sacode o vento, Sem cor, sem consistencia, sem conjuncto...

E quanto adora quem adora o mundo, Brilho e ventura, esperar, sorrir, Eu vi tudo oscilar, pender, cahir, Inerte e já da cor d'um moribundo.

Dentro em meu coração, n'esse momento, Fez-se um buraco enorme--e n'esse abysmo Senti ruir não sei que cataclismo, Como um universal desabamento...

Razão! velha de olhar agudo e cru E de halito mortal mais do que a peste! Pelo beijo de gelo que me deste, Fada negra, bemdita sejas tu!

Bemdita sejas tu pela agonia E o lucto funeral d'aquella hora Em que eu vi baquear quanto se adora, Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas bemfazejas Do desengano... pela paz austera D'um morto coração, que nada espera, Nem deseja tambem... bemdita sejas!

*1860--1862*

IGNOTO DEO

Que belleza mortal se te assemelha, Ó sonhada visão d'esta alma ardente, Que reflectes em mim teu brilho ingente, Lá como sobre o mar o sol se espelha?

O mundo é grande--e esta ancia me aconselha A buscar-te na terra: e eu, pobre crente, Pelo mundo procuro um Deus clemente, Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...

Não é mortal o que eu em ti adoro. Que és tu aqui? olhar de piedade, Gota de mel em taça de venenos...