Os Simples

Part 2

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E essas almas todas ella apasigua Com o dos seus olhos balsamo eficaz: Verte sobre as penas sugestões de lua, Mantos dá d'estrellas á miseria nua, Lagrimas aos crimes e ao remorso paz...

Esconjura demos, bruxas, feiticeiras, E dos sonhos loucos o torpor febril... Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras, Faz bailar as moças ao luar nas eiras, Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas! Que á romagem d'oiro não acodem já! Almas moribundas... Noites de procellas... Olha nos casebres tremeluzem velas!... É signal que a Morte anda a rondar por lá!...

Mas a sempre linda Virgem da Amargura Baixa do altarzinho toda afadigada, E atravez de serras, pela noite escura, De menino ao colo,--santa creatura!-- Lá vae ella andando, não tem medo a nada!...

Lá vae ella andando... no caminho estreito Deixa um rasto d'oiro pela escuridão... Deixa um rasto d'oiro de divino efeito, Porque as sete espadas, a fulgir no peito, Põem-lhe um setestrello sobre o coração...

E de povo em povo, que é de serra em serra, Almas na agonia visitando vae; Quando chega, a Morte já as não aterra, Ella lhes dá azas p'ra voar da terra, Seu menino beijos p'ra levar ao Pae...

Virgem das Angustias, Virgem da Bonança, Quantas noites, quantas! tremula de dor, Não vae ser parteira da ovelhinha mansa A parir, balando como uma creança, Entre fragaredos de meter horror!

A deshoras mortas eil-a vigilante, Prompta a dar socorros ao menor queixume: Acender estrellas para o navegante, Ir levar ás mães o cordeirinho errante, Defender das cobras a ninhada implume...

Pois como não ha-de consolar as dores Dos humildes, simples, engeitados, nus, Se inda se recorda de só ver pastores, Com cordeiros brancos, cantilenas, flores, Na sagrada noite em que pariu Jesus!...

Sim! adora a rude gente da lavoira, Sementeiras, gados, matagaes, lebreus, Porque não se esquece da vaquinha loira, Que se poz de joelhos ante a mangedoira, Quando nas palhinhas dormitava Deos...

E por isso arreda pestes, ventanias, Fomes e procellas, bruxas e trovão, Lá para malditas, negras penedias, Onde silvam cobras doudas e bravias, E onde não existe nem christão, nem pão!...

E por isso ex-votos, que relembram dores, Cobrem de ternura todo o seu altar: Bustos de meninos, mãos de cavadores, Tranças de donzellas, soluçando amores... Corações e peitos, de fazer chorar!...

Alvas capelinhas, sempre milagrosas, Sois n'essas alturas para os olhos meus, Como ninhos virgens d'orações piedosas, Miradoiros brancos de luar e rosas, D'onde as almas simples entreveem Deos!...

90-91.

V

*CANÇÃO PERDIDA*

CANÇÃO PERDIDA

Halitos de lilaz, de violeta e d'opala, Roxas macerações de dor e d'agonia, O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala...

Triste, canta uma voz na sincope do dia:

Alguem de mim se não lembra Nas terras d'alem do mar... Ó Morte, dava-te a vida, Se tu lha fosses levar!...

Ó Morte, dava-te a vida, Se tu lha fosses levar!...

Com o beijo do sol na face cadaverica, Beijo que a morte esvae em palidez algente, Eis a lua a boiar sonambula e chimerica...

Doce, canta uma voz melancolicamente:

O meu amor escondi-o N'uma cova ao pé do mar... Morre o amor, vive a saudade... Morre o sol, olha o luar!...

Morre o amor, vive a saudade... Morre o sol, olha o luar!...

Latescente a neblina opalica flutua, Diluindo, evaporando os montes de granito Em colossos de sonho, extasiados de lua...

Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

Quem dá ais ó rouxinol, Lá para as bandas do mar?... É o meu amor que na cova Leva as noites a chorar!...

É o meu amor que na cova Leva as noites a chorar!...

A lua enorme, a lua argentea, a lua calma, Imponderalisou a natureza inteira, Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...

Triste expira uma voz na canção derradeira:

Ó meu amor, dorme, dorme Na areia fina do mar, Que em antes da estrella d'alva Comtigo me irei deitar!...

Que em antes da estrella d'alva Comtigo me irei deitar!...

Maio--91.

VI

*O PASTOR*

O PASTOR

Sinos a defuntos! ai, quem morreria! Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!... Velho tão velhinho nenhum outro havia... P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia, Ha noventa e quatro que era já pastor.

Zagalzinho alegre, desde tenra infancia Já de surrãosito cheio a tiracol, A escalar montanhas com ardor, com ancia, Por pastagens bravas d'auroral fragancia, Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!...

A deserta, imensa, rustica paisagem, Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar, Tudo se invertera, por continua imagem, Em heroica, em livre candidez selvagem Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

Ordenhado o leite, cantarinho cheio, Ala para a aldeia, por manhãs sonoras, Mordiscando a codea do seu pão centeio, Arrancando á frauta um pastoril gorgeio, Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

Fez-se moço e grande pelas serras brutas, Onde as aguias pairam, onde o roble medra, E onde os fragaredos barbaros, com grutas, Se encastelam crespos, infernaes, em lutas, Tal como tormentas de trovões de pedra!

Cada serrania alcantilada e brava, Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó, Recozida a febre e atordoada em lava, Lagrimeja apenas d'uma rocha cava Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

E por essas fulvas, ingremes ladeiras Pastoreava o gado, quasi morto já: Só rochedos tristes, nus como caveiras, E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras, Acres como pragas d'uma boca má!

E depois as torvas, negras invernadas, Noites formidandas, lobos a ulular, Desmoronamentos, temporaes, nevadas, Carcavões abertos pelas enxurradas, Troncos de sobreiros de raiz ao ar!...

Oh, as noites tristes, alapado e quedo, N'um covil de feras, ou algar deserto!... E dormia ao lume sem temor, sem medo, Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo, Na ermidinha branca lhe ficava perto...

Mas no mez de Março pincaros maninhos, Montes cenobitas, d'ossos e burel, Vestem-se de trevos e de rosmaninhos, Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos, E distilam favos de inocencia e mel!...

Era então alegre como o sol nascente, Mais feliz nos campos do que Deos no altar! Anhos e cabritos, leite rescendente, Pastos tão mimosos, que quizera a gente Transformar-se em ave para os não calcar!

Tanto Abril florido, tanta calma adusta, Tantas inverneiras, sem pesar ou dor, Tinham-lhe gravado na expressão robusta Como que uma sombra de grandeza augusta, Junta a uma inocencia matinal de flor.

Que importavam gelos, ventanias, feras? Peito nu, aberto; construção de touro! Quasi me admirava que nas primaveras D'esse peito rude não brotassem heras, Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

Ao relento a cama no orvalhado pasto, Cerca dos carneiros e dos bons lebreus; Que divino leito primitivo e casto, Todo embalsamado de serpol, mentrasto, Sob a paz imensa do perdão de Deos!...

E esse gigantesco latagão corado Era, como os santos ermitões, frugal: Duas azeitonas, queijo do seu gado, E de rala escura meio pão migado N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

Não jantava morte, assassinato, dores, Hecatombes tristes que jantamos nós; E por isso ria como riem flores, Atrahindo em bandos aves de mil cores, Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!...

Sua rude frauta de pastor ouvindo Na misteriosa luz crepuscular, Iam-se as estrellas uma a uma abrindo, E desabrochava pelo azul infindo Soluçante a lua como um nenufar!...

Que trinados vivos, d'argentino encanto Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu, N'essa frauta, quando de cajado e manto Ia deitar loas ao menino santo No altar-mór da egreja sorridente e nu!

Fôra lá creança, magica ventura! Centenario quasi a derradeira vez... E gorgeava a frauta com egual candura, Pois a alma virgem, luminosa e pura, Conservara-a sempre como Deos a fez.

N'ella penetrava, n'ella se embebia Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão: Fremito de pomba, voz de cotovia, Canticos dos montes ao nascer do dia, Lagrimas dos astros pela escuridão!...

Longe dos Pecados de raivosas presas, Belzebuths famintos d'olhos de metal, Longe das horriveis tentações acezas No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas, Pululantes larvas, vibriões do Mal,

O pastor ditoso envelheceu ridente Por despenhadeiros, alcantis, calvarios, E na fronte augusta de ermitão, de crente, Lhe geavam anos luminosamente, Como as pombas brancas sobre os campanarios!

Das ovelhas meigas,--intimas heranças!-- Recolhera toda a abnegação christã: Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas, Que com vosso leite sustentaes creanças, E vestis os pobres com a vossa lã!

Aos noventa anos, festival, risonho, Alamo gigante d'agoa viva ao pé; Sim! inda na boca risos de medronho, E nos olhos lentos, a tremer em sonho, Dois miosotis virgens de candura e fé!

Com seu manto branco de burel grosseiro, Cans de puro arminho, baculo na mão, Alembrava um santo feito pegureiro, Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro D'uma ogiva d'astros, em adoração!

Centenario quasi, recordava aspectos De lendario tronco n'um feliz vergel, Moribundo em meio de seus verdes netos, Com a Providencia a agasalhal-o em fetos, Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

E que surdo á voz dos ledos passarinhos, E que cego ao ether de esplendor ideal, Com o ai extremo lança dois raminhos, A chamar ainda por canções de ninhos E a dizer aos astros um adeos final!

Tal o pastor santo, já de vez cahido, Já corcovadinho, flebil, quasi morto, Arrimado ao velho baculo torcido, Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido, Vagamente olhando com o olhar absorto,

Ia pelos montes na tristeza infinda D'um coração ermo, com a morte aceite, A pedir aos anjos para ouvir ainda Badalar ovelhas n'uma noite linda, Quando a lua os campos alagasse em leite!...

Seu bisavô fora guardador de gado, Guardador de gado seu avô, seu pae; Creou filho e netos como foi creado, E morreu ditoso porque o seu cajado Seu rebanho ainda pastoreando vae!

Candido, na paz das solidões dormentes, Ignorando o mundo rancoroso e vil Aos cem anos inda, com a fé dos crentes, Punha olhos claros, simples, inocentes, Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

Levará no esquife para os ceos a palma Da grandeza mansa, da virtude austera. Realisou no mundo a perfeição da Alma: Porque foi bondoso como a lua é calma, Porque foi um santo sem saber que o era!...

Vós, ó semideuses do entremez da Gloria, Cesares, tiranos, capitães, heroes, Epicas figuras de imortal memoria, Que de serro em serro iluminaes a historia Como crepitantes, tragicos faroes,

Na região do Imenso, no Infinito puro, Onde me deslumbra, como um sol, Jesus, Não sois mais que larvas a tremer no escuro, Que ninguem conhece, que eu em vão procuro Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio, Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas, Tão asselvajado, cabeludo e feio, Que dissereis quasi que esse monstro veio Da matriz da terra, como as pedras brutas,

Já liberto agora da Ilusão do mundo Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor: Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo, São rebanhos d'almas pelo azul profundo As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!...

90-91.

VII

*O CAVADOR*

O CAVADOR

Dezembro, noite, canta o galo... Rouco na treva canta o galo... --Oh, dor! oh, dor!-- Aldeão não durmas!... Vae chamal-o, Miseria negra, vae chamal-o!... --Oh, dor! oh, dor!-- Bate-lhe á porta, é teu vassalo, Que traga a enxada, é teu vassalo, Miseria negra, o cavador!

O vento ulula... Tremem ninhos... Na noite aziaga tremem ninhos... --Oh, dor! oh, dor!-- A neve cae, fria d'arminhos... Na escuridão, fria d'arminhos... --Oh, dor! oh, dor!-- Passa maldito nos caminhos, D'enxada ao hombro nos caminhos, Fantasma negro, o cavador!

Vem roxa a estrella d'alvorada... Vem morta a estrella d'alvorada... --Oh, dor! oh, dor!-- Montanhas nuas sob a geada!... Hirtas, de bronze, sob a geada... --Oh, dor! oh, dor!-- Torvo, inclinado sobre a enxada, Rasga as montanhas com a enxada. Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou desde que é dia... Cavou, cavou... Bateu meio dia... --Oh, dor! oh, dor!-- De pé na encosta erma e bravia, Triste na encosta erma e bravia, --Oh, dor! oh, dor!-- Largando a enxada, «Ave Maria!...» Resa em silencio... «Ave Maria!...» Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou na serra agreste, D'alva á noitinha em serra agreste... --Oh, dor! oh, dor!-- E um caldo em premio tu lhe deste, Meu Deos!... seis filhos tu lhe deste... --Oh, dor! oh, dor!-- Batem trindades... «Pae celeste!... Bemdito sejas, Pae celeste!...» Resa, fantasma, o cavador!

Cavou cem montes... que é do trigo?! Gerou seis bocas... que é do trigo?! --Oh, dor! oh, dor!-- Bateu a Fome ao seu postigo... Bateu a Morte ao seu postigo... --Oh, dor! oh, dor!-- «Que a paz de Deos seja comigo! Que a paz de Deos seja comigo!...» Disse, expirando, o cavador!

Junho--91.

VIII

*OS POBRESINHOS*

OS POBRESINHOS

Pobres de pobres são pobresinhos, Almas sem lares, aves sem ninhos...

Passam em bandos, em alcateias, Pelas herdades, pelas aldeias.

É em Novembro, rugem procellas... Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

Vem por desertos, por estevaes, Mantas aos hombros, grandes bornaes.

Como farrapos, coisas sombrias, Trapos levados nas ventanias...

Filhos de Christo, filhos d'Adão, Buscam no mundo codeas de pão!

Ha-os ceguinhos, em treva densa, D'olhos fechados desde nascença.

Ha-os com f'ridas esburacadas, Roxas de lirios, já gangrenadas.

Uns de voz rouca, grandes bordões, Quem sabe lá se serão ladrões!...

Outros humildes, riso magoado, Lembram Jesus que ande disfarçado...

Engeitadinhos, rotos, sem pão, Tremem maleitas d'olhos no chão...

Campos e vinhas!... hortas com flores!... Ai, que ditosos os lavradores!

Olha, fumegam tectos e lares... Fumo tão lindo!... branco, nos ares!...

Batem ás portas, erguem-se as mães, Choram meninos, ladram os cães...

Resam e cantam, levam a esmola, Vinho no bucho, pão na sacola.

Fructa da horta, caldo ou toucinho, Dão sempre os pobres a um pobresinho.

Um que tem chagas, velho, coitado, Quer ligaduras ou mel-rosado.

Outro, promessa feita a Maria, Deitam-lhe azeite na almotolia.

Pelos alpendres, pelos curraes, Dormem deitados como animaes.

Em caravanas, em alcateias, Vão por herdades, vão por aldeias...

Sabem cantigas, oraçõesinhas, Contos d'estrellas, reis e rainhas...

Choram cantando, penam resando, Ai, só a morte sabe até quando!

Mas no outro mundo Deos lhes prepara Leito o mais alvo, ceia a mais rara...

Os pés doridos lh'os lavarão Santos e santas com devoção.

Para laval-os, perfumaria Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

E embalsamados, transfigurados, Tunicas brancas, como em noivados,

Viverão sempre na eterna luz, Pobres bemditos, amen, Jesus!...

Outubro--91

IX

*CAMPO SANTO*

CAMPO SANTO

Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!... Somno d'arminho... colxão de terra... lençol de flores!...

Cahi dormentes, Cahi exanimes, trementes, Palidos silencios do luar dorido! Litanias fluidas do luar dorido! Misereres brancos do luar dorido! Balsamos, piedades, orações dolentes Do luar dorido!...

Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!... Cama tão fresca!... cobertor branco, de jasmineiros...

Cahi maviosas, Cahi somnambulas, piedosas, Concavas tristezas do luar magoado! Resonancias d'orgão do luar magoado! Extrema-unções profundas do luar magoado! Sincopes, oblivios, quietações chorosas Do luar magoado!...

Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!... Cama de violetas!... que lhe fez a Virgem, sua madrinha...

Cahi radiantes, Angelisantes, Esfolhados lirios do luar divino! Musselina argentea do luar divino! Halitos de leite do luar divino! Perolas, opalas, beijos e diamantes Do luar divino!...

Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!... Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!... que sonho lindo!...

Cahi cantando, Cahi mas brando, muito brando, Misticas nevadas do luar de prata! Linho da candura do luar de prata! Angelus da ermida do luar de prata! Extasis boiando, sagrações ondeando No luar de prata!...

Dormi, dormi!... que bellas camas!... ai, que bons lençoes!... Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!...

Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!... Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!...

Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!... Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado...

Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas! Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas...

Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados... Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados...

Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos... Ai, que lindos fructos!... ai, que ricos vinhos!...

Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar, Que no ceo os anjos regam com luar...

Ordenhando ovelhas andam serafins, Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

Outros nas arribas crestam as colmeias, Grandes favos brancos como luas cheias.

Ai, que bom almoço, feito n'um vergel, Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!...

Para as avósinhas tem lá Deos bastantes Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes...

Como vós, ó moças, lá no ceo casaes, Ellas darão teias para os enxovaes...

Já no setestrello dançam nos terreiros, Tamboris e violas, frautas e pandeiros...

Já lá vejo os noivos, com S. João á espera, N'uma ermida branca revestida d'hera...

Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar, Que no ceo com anjos vos ireis casar...

Ai, dormi, creanças! que no azul divino Brincareis alegres com o Deos-menino...

Partirá comvosco, porque é vosso irmão, A laranja,--o mundo, que lá tem na mão...

Dormi, dormi, sem dor, sem penas... Dormi, dormi!... E em vossos leitos florescentes, De rosas brancas e assucenas, Caiam dormentes, Caiam exanimes, trementes, Graças do baptismo do luar alvissimo! Beijos do noivado do luar purissimo! Lagrimas da morte do luar tristissimo! Canticos d'exequias, orações dolentes Do luar santissimo!...

Abril--91.

*EPILOGO*

REGRESSO AO LAR

Ai, ha quantos anos que eu parti chorando D'este meu saudoso, carinhoso lar!... Foi ha vinte?... ha trinta?... Nem eu sei já quando!... Minha velha ama, que me estás fitando, Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida... Só achei enganos, decepções, pesar... Oh! a ingenua alma tão desiludida!... Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito... Vê que fundas maguas no embaciado olhar! Nunca eu sahira do meu ninho estreito!... Minha velha ama, que me déste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!...

Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho Pedrarias d'astros, gemas de luar... Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... Minha velha ama, sou um pobresinho... Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado, (Venho morto, morto!...) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso... Tristes, muito tristes, como á noite o mar... Canta-me cantigas para ver se alcanço Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço, Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!...

90.

*NOTA*

NOTA

É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas liricas ineditas. Os outros dois--_Flores de Ideal_--e _Infinito_ (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de mezes.

Duas palavras sobre os _Simples_.

Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_ (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes, revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de dizel-o, nem isso interessa seguramente.

A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes, muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e resoluto.

D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria, meramente verbal e de superficie.

No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são verdadeiramente a alma essencial e geradora.

Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os Simples_.

Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa, d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e desejaram.

É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a minha alma, com o meu proprio ideal.

Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros campestres e bucolicos.

A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante, subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_ minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto--_In Pulvis_ é já de todo transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama...

Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_ descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma penetração sublime e reveladora.

As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem, acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e divino espirito de Jesus.

Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.