# Os Simples

## Part 1

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GUERRA JUNQUEIRO

*Os Simples*

PORTO

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

MDCCCXCII

OS SIMPLES

IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

1 exemplar em papel pergaminho 16 exemplares em papel Wathman

Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

GUERRA JUNQUEIRO

*Os Simples*

PORTO

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

MDCCCXCII

A F.

_Querida:

É este por emquanto o meu melhor livro. Pertence-te.

teu J._

*PRELUDIO*

I

A CAMINHO

(_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos, olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

Um Lavrador

(_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança, Ides de caminho para algum logar?

O Peregrino

Vou dar volta ao mundo...

O Lavrador

Sem arnez ou lança?! Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança, Penas e miserias é o que ireis achar!...

Uma Velhinha

(_mais adiante_)

Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes, Ides com cuidados para um tal andar!...

O Peregrino

Vou a prender monstros, combater serpentes...

A Velhinha

Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes, Os dragões ferozes vam-no espostejar!...

Uma Joven Camponeza

(_mais adiante_)

Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados, Ides pela fresca para algum pomar?

O Peregrino

Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados...

A Camponeza

Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados, Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!...

Uma Pastorinha

(_mais adiante_)

Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes, Vossos olhos disem que ides p'ra casar...

O Peregrino

Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes...

A Pastorinha

Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes, Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!...

Um Mendigo

(_mais adiante_)

Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, Vossos olhos ardem como a luz solar!...

O Peregrino

Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!...

O Mendigo

Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!...

A Estrella D'Alva

Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos, Por infernos deixas tua paz, teu lar!...

O Peregrino

(_desaparecendo ao longe_)

Florirei as pedras pelos maus caminhos! Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!...

II

DE VOLTA

(_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando, esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

Um Lavrador

(_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

Mendigo d'olhos sem esp'rança, Vaes-te perder na escuridão... Entra em meu lar; dorme, descança...

O Pobresinho

(_andando sempre_)

Quem dera a paz divina e mansa, Velho, que tens no coração!...

Uma Velhinha

(_a resar à porta do moinho_)

Mendigo d'olhos sem ventura, Dentro da azenha ha um enxergão; Terás lençoes, terás fartura...

O Pobresinho

(_andando sempre_)

Eu só quizera essa candura, Irmã da Graça e da Ilusão!...

Uma Camponeza

(_que vem da vindima_)

Mendigo d'olhos d'engeitado, Na nossa casa ha vinho e pão; E ha leite fresco; e ha mel doirado...

O Pobresinho

(_andando sempre_)

Tua alegria sem cuidado, Eis o que eu busco... em vão! em vão!...

Uma Pastorinha

Mendigo d'olhos de coveiro, Trago a merenda no surrão; O queijo é bom, mas é grosseiro...

O Pobresinho

(_andando sempre_)

Dá-me o teu riso feiticeiro, Lirio do monte inda em botão!

Um Pedinte

Mendigo d'olhos na agonia, Dou-te o meu manto e o meu bordão; Nada mais levo... a noite é fria...

O Pobrezinho

(_andando sempre_)

Apenas ai! desejaria Tua cristã resignação!...

A Estrella Vesper

Ó sonhador louco d'outrora, Teus sonhos lindos onde estão?! Ebrio da luz, rico d'aurora, Vi-te partir... e vejo agora Um morto erguido d'um caixão!

Teus olhos fulvos namorei-os De dia e noite, da amplidão: Vi-os sorrir entre gorgeios, Vi-os cantar e vi-os cheios De pranto e febre e indignação! Regressa emfim, é teu destino, Á paz obscura, á submissão... E outra vez meigo e pequenino Deixa dormir, como um menino, Teu velho e exhausto coração!...

O Pobresinho

(_chorando_)

Só tu, estrella, me conheces Em minha dor, minha aflição!... Só tu não dormes, não esqueces... Só tu ouviste as minhas preces... Bemdito, estrella, o teu clarão!

Setembro--91.

I

*A MOLEIRINHA*

A MOLEIRINHA

Pela estrada plana, toc, toc, toc, Guia o jumentinho uma velhinha errante. Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes que anoiteça, toc, toc, toc, A velhinha atraz, o jumentito adiante!...

Toc, toc, a velha vae para o moinho, Tem oitenta anos, bem bonito rol!... E comtudo alegre como um passarinho, Toc, toc, e fresca como o branco linho, De manhã nas relvas a córar ao sol.

Vae sem cabeçada, em liberdade franca, O gerico russo d'uma linda côr; Nunca foi ferrado, nunca usou retranca, Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca Com o galho verde d'uma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, Toc, toc, toc, que recordação! Minha avó ceguinha se me representa... Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta, Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

Toc, toc, toc, lindo burriquito, Para as minhas filhas quem m'o dera a mim! Nada mais gracioso, nada mais bonito! Quando a Virgem pura foi para o Egipto, Com certeza ia n'um burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa! Nascem as estrellas, vivas, em cardume... Toc, toc, toc, e quando o galo canta, Logo a moleirinha, toc, se levanta, P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume...

Toc, toc, toc, como se espaneja, Lindo o jumentinho pela estrada chan! Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade de o levar á egreja, Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga, Toda, toda branca, vae n'uma frescata... Foi enfarinhada, sorridente amiga, Pela mó da azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros com luar de prata!...

Toc, toc, como o burriquito avança! Que prazer d'outrora para os olhos meus! Minha avó contou-me quando fui creança, Que era assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou nas palhas o menino Deos...

Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos, Moleirinha branca, branca de luar!... Toc, toc, e os astros abrem diamantinos, Como estremunhados cherubins divinos, Os olhitos meigos para a ver passar...

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro, Entre os milhões d'astros o luar sem veo, O burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem será que moe estas farinhas d'oiro Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!...

Novembro de 1888.

II

*CADAVER*

I

PRESTITO FUNEBRE

Que alegrias virgens, campezinas, fremem N'este imaculado, limpido arrebol! Como os galos cantam!... como as noras gemem!... Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem, Refulgente e novo passarinha o sol!...

Pela estrada, que entre cerejaes ondea, Uma pequerrucha,--tro-la-ró-la-rá!-- Vae cantando e guiando o carro para a aldeia... São os bois enormes, e a carrada cheia Com um castanheiro apodrecido já.

Oh, que donairosa, linda boieirinha! Grandes olhos garços, sorrisinho arisco... D'aguilhada em punho lepida caminha, Com a graça aerea d'ave ribeirinha, Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

Loira, mas do loiro fulvo das abelhas; Fresca como os cravos pelo amanhecer; Brincos de cerejas presos nas orelhas, Na boquita rosea tres canções vermelhas, Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo, Nada mais esvelto, mais encantador! Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo... O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo, A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!...

E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos, Na aleluia imensa, triunfal, da aurora, Vão como bondosos monstros enigmaticos, Almas por ventura d'ermitões extaticos Ruminando biblias pelos campos fora!...

Ao arado e ao carro presos noite e dia, Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão! E, submissos, uma pequerrucha os guia! E nos sulcos que abrem canta a cotovia, As boninas riem-se e amadura o pão!...

Levam as serenas frontes magestosas Enramalhetadas como dois altares: Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas, Abelhões ardentes desflorando rosas, Borboletas claras em noivado, aos pares...

E eis no carro morto o castanheiro, emquanto Melros assobiam nos trigaes alem... Heras amortalham-no em seu verde manto... Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto... Que feliz cadaver, que até cheira bem!...

Musgos, lichens, fetos,--chimica incessante!-- Fazem montões d'almas d'essa podridão... Já n'esse esqueleto seco de gigante, Sob a luz vermelha, n'um festim radiante, Mil milhões de vidas polulando estão!...

Sempre á fortaleza casa-se a doçura: Como o leão da Biblia morto n'um vergel, Do seu tronco ainda na caverna escura Um enxame d'oiro rutilo murmura, Construindo um favo candido de mel!...

Oh, os bois enormes, mansos como arminhos, Meditando estranhas, incubas visões!... Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos, E por sobre os longos, torridos caminhos Dos seus olhos caem bençãos e perdões...

Chorarão o velho castanheiro ingente, Sob o qual dormiram sestas estivaes? Almas do arvoredo, o seu olhar plangente Saberá acaso misteriosamente Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!...

Castanheiro morto! que é da vida estranha Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu, E criou raizes, e se fez tamanha, Que tresentos anos sobre uma montanha Seus tresentos braços de colosso ergueu?!...

Onde a alma, origem d'essas formas bellas? Em tão varias formas que sonhou dizer? Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas? E desfeito o encanto, que nos não revelas, Que aparencias novas tomará teu ser?...

Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso, Boieirinha linda, linda d'encantar, É d'essa inocencia, d'esse paraiso, Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso, Da candura d'alva que ha no teu olhar!...

Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha, Quem me dera a vossa mansidão christã! Arrotear os campos, fecundar a vinha, E nos olhos garços d'uma boieirinha, Ter duas estrellas virgens da manhã!...

E tambem quizera, mortos castanheiros, Como vós erguer-me para o sol a flux, Dar tresentos anos sombra aos pegureiros, E n'um lar de choça, em festivaes braseiros, A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!...

1889.

II

IN PULVIS...

Oh, que noite negra, que invernia brava! Nem uma estrellinha pelo ceo reluz! Chora o vento ao longe com a voz tão cava, Como quando dizem que de dor chorava Toda a santa noite em que expirou Jesus!...

Vem sanguinolentos gritos muribundos Das soturnidades torvas do horisonte!... Já nos ermos andam lobos vagabundos... Já os rios cheios, com bramidos fundos, N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!...

Em casal de serras arde o castanheiro, Lampada de pobres a fazer serão; De redor do grande, festival braseiro, A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro, A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

Queima-se o gigante, rude centenario, Que jamais os astros hão-de ver florir... E do seu cadaver o esplendor mortuario Faz d'essa choupana quasi que um sacrario Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!...

Tem o velho ao colo o seu netinho doente; --Morte negra, foge do telhado, ó, ó...-- E no lar as brasas simultaneamente Dizem para o anjo:--tudo é oiro ardente... Dizem para o velho:--tudo é cinza e pó!...

Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes Em pequeno, alegre como um colibri, Não trepara aos braços todos verdejantes D'esse castanheiro, que n'alguns instantes Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!...

Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno! Quantas noites, quantas! elle ali dormia Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno, E das restolhadas, quentes como um forno, Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!...

Como não sentir um entranhado afecto, Como não amal-o com veneração, Se lhe dera a trave que sustenta o tecto, Se lhe dera o berço onde repoisa o neto, Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

Fez com elle o jugo e fez com elle o arado; Fez com elle as portas contra os vendavaes; E com elle é feito o velho leito amado, Onde se deitara para o seu noivado, E onde já morreram seus avós, seus paes!

E o bom velho embala o seu netinho doente... --Morte negra, foge... dorme, dorme... ó, ó...-- E, fitando as chamas simultaneamente, Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente, Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!...

A velhinha resa, resa afervorada... Tão velhinha e branca, branca de jasmins, Que a idealiso e creio d'esplendor banhada, Entre palmas verdes até Deos levada N'um andor de rosas pelos serafins...

Resa pelos mortos... resa á virgem pura... Desde a sua infancia tão ditosa e bella, Já d'essa choupana (como a noite é escura!) Quantos tem partido para a sepultura, Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!...

Dentro d'alma d'ella, triste campo santo, Muitas almas vivem mortas a sonhar!... Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto... Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto, Nos seus labios roxos fosforece o luar...

E essas almas fluidas que ella traz comsigo, --Talisman da crença, magico poder!-- Frias como a neve vem do seu jasigo, Vem sentar-se todas no logar antigo, A chorar á roda do braseiro a arder!...

Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras, Nem velhinhas santas que lhe deem luz! Sob leivas, onde ninguem põe roseiras, Umas sobre as outras juntam-se as caveiras, Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz...

D'esses desgraçados, mortos no abandono, Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez? Quando o vento uivando lhes perturba o somno Pela treva errantes, como cães sem dono, Andarão perdidas a ulular talvez!...

Pois até por essas que ninguem conforta A velhinha chama... e todas ellas vem... --Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!) Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta, A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!--

E a dos olhos garços pastorinha bella Fia no seu fuso linho por corar; É trigueiro o linho, trigueirinha é ella... Rodopia o fuso... quando for donzella, Já terá camisas para se ir casar!...

E esse fuso alegre onde se enrosca o linho Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas: Deu já cachos brancos como o branco arminho, Já sobre elle a ave construiu seu ninho, Já sobre elle amando palpitaram azas!...

Fuso como giras em dedinhos breves Prasenteiramente, com tão louco ardor! Que estarás fiando?... que enxovaes?... que neves? Se serão camisas, ou mortalhas leves, Cama para bodas, ou lençoes de dor!...

No vetusto escano o lavrador sombrio Pensa na courela... Santo Deos, Jesus! Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio, Como é que hade o gado pelo ardor do estio Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!...

Choram ventanias!... panica tristeza!... Sentem-se na loja bois a ruminar... Queixas insondaveis vem da naturesa!... Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa, Contemplando a Noite sem poder fallar!...

Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato. Almas misteriosas, em que sonharão?... Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto, De ter sido tigre lembra-se inda o gato?... De ter sido hiena lembra-se inda o cão?...

Eis as brasas mortas... Eil-o já converso O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz... Luz e fumo e cinza tudo irá disperso Reviver na vida eterna do universo, Circulo de enigmas, que ninguem traduz...

Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama Viverão, morrendo a toda a hora... sempre!... Nuvem que troveja, calix que enbalsama, Planta, pedra, insecto, humanidade, lama, Serão tudo, tudo!... inconcebivel!... Sempre!

Mas a alma, as almas quem as ha criado? Qual a origem d'onde a sua essencia emana?... Ah, em vão levanto o triste olhar magoado Para os olhos d'ouro que do azul sagrado Lançam as estrellas á miseria humana!...

Oh em vão!... que os astros, onde em sonho habito, São tambem fogueiras sobrenaturaes, Que na pavorosa noite do Infinito Crepitando espalham seu clarão bemdito, Suas alvoradas roseas, virginaes,

Para em torno d'ellas se aquecerem mundos A tremer com frio, a soluçar com dor, Miseraveis monstros cegos, vagabundos, Atravez d'eternos turbilhões profundos, N'um virtiginoso, angustioso horror!...

E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros, No Infinito imenso ou n'um tugurio assim, Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros, Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!...

E o mundo e os mundos a girar na altura Como vós, ó velhos, morrerão tambem... Blocos de materia fria, sem verdura, Errarão na vaga imensidade escura, Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!...

Dormirão? oh, nunca!... vão eternamente Circular na eterna vida universal: Nebulosa fluida, lavareda ardente, Lodo, o mesmo lodo, como antigamente, Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!...

Formas da materia, que eu em vão desnudo, Que invisiveis forças, e almas encobris? Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo... Mas o enigma impresso no seu labio mudo Só na treva aos mortos é que a morte o diz!...

Só a Morte o sabe... mais a Fé que abrasa, Que penetra as coisas com o seu olhar! Não ha fé na alma, não ha luz na casa... A rasão é um verme, mas a crença é aza... Verme! aos infinitos poderás chegar!...

Ó velhinha santa, minha boa amiga, Resa o teu rosario, move os labios teus!... A oração é ingenua? Vem de crença antiga? Não importa! resa, minha boa amiga, Que orações são lingoas de falar com Deos!...

Ha pedintes cegos de inspiradas frontes, Com estrellas n'alma, com visões mentaes, Que atravessam rios, que vão dar com fontes, Que andam por agrestes, solitarios montes, Sem errar a estrada, sem cahir jamais!...

Pelos bosques ermos, onde venta e neva, Com os seus farrapos mais o seu bordão, Marcham por milagre na continua treva... Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva? Que prodigio oculto? que invisivel mão?

Pois, velhinha branca, tua crença pura, Tua resa antiga, que me faz chorar, É egual aos cegos, que na noite escura Não precisam d'astros para ver a altura, Não precisam d'olhos para ter olhar!

No Infinito mudo tua ingenua crença, Tremula ceguinha de risonho alvor, Eil-a andando, andando, como que suspensa, Pelos descampados d'uma noite imensa, Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!...

E onde a aguia, o genio de pupila ovante, Tem vertigens, auras, desfalece e cae, A ceguinha debil, vagabunda, errante, D'olhos ás escuras. Infinito adiante, N'um enlevo aereo perpassando vae!...

Branca e pequenina, ligeirinha e leve, Corta por abismos, plagas sem faroes, Stepes infindaveis que ninguem descreve, Lugubres desertos de mudez e neve, Bategas de brasas, turbilhões de soes!...

Vae andando, andando, té que emfim cercada D'uma aleluia mystica de luz, Com o bordãosinho que a amparou na estrada Bate ás portas d'oiro da feliz morada, Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!...

Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa Põe-se de joelhos, em adoração... Diz-lhe o anjo:--Toma, guarda esta lembrança: Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança, Que á velhinha humilde levarás na mão!

E, ave pressurosa recolhendo ao ninho, Já com alimento para os filhos seus, Eil-a que regressa por egual caminho, E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho, Tão amada ofrenda que te envia Deos!...

Resa esse rosario, santa lagrimosa! Sobre os teus joelhos deixa-me deitar! Triste da minh'alma!... vê, que desditosa!... Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!... Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!...

Resa-lhe baixinho, minha boa amiga! Resa-lhe rosarios de orações ideaes! Morta de miseria, morta de fadiga, Deixa que ella durma na pureza antiga... Que ella durma... sonhe... e não acorde mais!...

89.

III

*EIRAS AO LUAR*

EIRAS AO LUAR

Alvor da lua nas eiras, Nem linhos de fiandeiras, Nem veos de noivas ou freiras, Nem rendas d'ondas do mar!... Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras, Na aleluia argentea do clarão do luar!...

Bailae sob as lagrimosas Estrellinhas misteriosas, Scintilações, nebulosas, Fremitos vagos d'empyreos!... Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas, Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!...

Ai, medas de prata e oiro, De lua branca e pão loiro, Malhadas no malhadoiro, A enfeitiçar e a fulgir!... Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro, Que é a codea negra que ceaes a rir!...

Quem nas ladeiras e prados, Com as lanças dos arados, Abriu sulcos e valados Na terra gelida e nua? Oh, bailae á volta desses bois deitados, Que estão d'olhos tristes adorando a lua!...

Que bandos de passarinhos, Vem lá de campos maninhos, De fraguedos, de caminhos, Jantar aqui, merendar!... Oh, bailae em volta de milhões de ninhos! Oh, bailae cantando para os acordar!...

Entre as palhas do centeio, Quantas esmolas no meio, Que deixam lirios no seio E as mãos escorrendo luz!... Oh, bailae em volta do celeiro cheio! Oh, bailae á volta dos mendigos nus!...

Quanta hostia consagrada, --Pão da ultima jornada!-- Dorme na meda encantada Ao luar tão leve e tão lindo!... Oh, bailae em volta d'essa mó doirada, Que bailaes á volta de Jesus dormindo!...

Alvor da lua nas eiras, Nem linhos de fiandeiras, Nem veos de noivas ou freiras, Nem rendas d'ondas do mar!... Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras, Na aleluia argentea do clarão do luar!...

Setembro--91.

IV

*AS ERMIDAS*

AS ERMIDAS

Alvas ermidinhas sob azues maguados, Vejo-vos de longe n'uma adoração, Como ninhos brancos de Ideal pousados Lá n'esses fragosos montes escalvados, Onde não ha agoa, nem germina o pão.

Serranias ermas, solidões contritas... Azinheiras como velhos Briarcus.... Pedras calcinadas... gados parasitas... Tristes montes ermos! ermos cenobitas, Que em burel d'estevas amortalha Deos!...

Pelas torvas, fundas noites de invernada, Quando os lobos uivam, quando a neve cae, Que infinitos sustos n'uma tal morada, Para debil virgem tão desamparada Com um inocente nos seus braços... ai!

Como é que não treme pelo seu menino? Como é que não chora seu piedoso olhar? Como é que o seu labio, fresco e matutino, Se abre n'um sorriso, precursor divino Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

Não receia feras quem de rosto ledo Sofre sete espadas sobre o coração!... E ao filhinho a noite não lhe causa medo, Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo, Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!...

Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas, Sem o bafo impuro que dos homens vem, É que a mãe de Christo com as andorinhas, E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas, N'um casebre terreo se acomoda bem.

Bispos não precisa; servem-na pastores, Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal... Lampada ás Trindades, chão varrido, flores, Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores, N'uma egrejasinha que é como um pombal.

E nas brutas, rudes solidões tão calmas Ai, muito se engana quem a julga só! Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas, Para lá caminham romarias d'almas... Todos nós lá fomos com a nossa avó!...

Oh, as invisiveis procissões piedosas, Romarias fluidas, sobrenaturaes! Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas, Fica nos espaços um alvor de rosas E uma angelisante tremulina d'ais!...

Almas de velhinhas, do palor silente D'uma estrella, quando desmaiando está... Vão buscar alivios p'ro netinho doente, Vão pedir noticias d'algum filho ausente, Vão rogar a Gloria para os mortos já...

Almas de meninos, loiras como abelhas, A sorrir ao colo d'almas a cantar... Almas em noivados, roseas e vermelhas... E almas de pastores ofertando ovelhas, Chocalhinhos d'astros, velos de luar...

Almas d'assassinos dos montados ermos, Com o seu remorso como um javali... Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos... Almas vagabundas, de perdidos termos, Que atravessam agoas p'ra chegar ali!...

Almas das corolas matinaes, dos ninhos, Das aradas verdes, da campina em flor... Almas de borregos, touros, passarinhos... E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos, Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!...

