Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos

Part 9

Chapter 9 3,586 words Public domain Markdown

Comprehendo o silencio: não comprehendo a impudencia. Esses homens não teem sentimentos!

GONÇALO

Se tivessem sentimentos não faziam o que fazem. Eil-os ahi.

BOCAGE

Vamo-n'os então, nós. Custa-me a conter.

SCENA VII

OS DITOS, COMMENDADOR _e_ MORGADO

(_Gonçalo e Bocage vão a sair_. _Os dois veem entrando_. _Encontram-se_.)

COMMENDADOR (_indo prazenteiramente a Bocage, e offerecendo-lhe a mão_)

Oh! sr. Bocage! Como vae?

BOCAGE (_sem lhe dar a mão, passando_)

Vou para diante! (_Sae com Gonçalo para a outra sala_.)

SCENA VIII

COMMENDADOR _e o_ MORGADO

COMMENDADOR (_tirando a caixa e encolhendo os hombros_)

Mocidade imprudente!

MORGADO

Vê, commendador? Não temesse eu que fallassem, e saberiam...

COMMENDADOR

Não fallam. Se o podessem fazer, já o tinham feito.

MORGADO

O que lhe invejo é o socego.

COMMENDADOR

Claudiano diz: «O espirito do sabio é similhante ao cume do Olympo; fica tão superior aos ventos e ás nuvens, que nunca as tempestades o inquietam.»

MORGADO

Mas eu que não sou sabio... nem tenho pena... aqui estou agora... (_olhando em redor_) Ninguem nos ouve... Aqui estou agora sem dinheiro, sem casamento, e sem esperanças.

COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Sem esperanças!... Porquê?--Sua prima tem ainda a casa de Val-moreo. Cinco mil cruzados de renda, creio que me disse... Não é o mesmo, seguramente... um terço apenas do que era... mas nas suas circumstancias actuaes... Pela minha parte sou justo. (_olhando em redor, em voz baixa_) A escriptura de divida, não será já de trinta, será de dez mil cruzados. Dispenso a sege.

MORGADO

Pois teima ainda! Não se desenganou com o desastre do outro dia?

COMMENDADOR

O outro dia... veja o que tirou das suas duvidas e espalhafatos! Quintilliano tem por vergonha desesperar do possivel. Eu nunca me desengano em quanto vejo remedio.

MORGADO

Remedio! Mas que remedio? Não vê como o tenente anda todo derretido para minha prima? Não vê como ella o attende? E agora, de mais a mais, que está senhor de uma boa casa.

COMMENDADOR

Extranho-o. Pois é possivel imaginar que póde alguem competir com o Morgado?

MORGADO

Não digo isso...

COMMENDADOR

O tenente fica por minha conta. Tenho que lhe pagar uma divida... e ao Bocage tambem. Nós sabemos esperar... e nada esquecemos. Não ha inimigo peior do que o inimigo que espera e não se espera. _Inexpectatus hostis_, lhe chama Ovidio, Sulmonense.--Sua prima está já casada, porventura?

MORGADO

Mas aquelle ajuste que ella ouviu! a impressão que lhe ficou!

COMMENDADOR

Empregue tambem pela sua parte algum esforço. Não sejam tudo vozes vãs.--Se estivesse no seu logar, d'isso mesmo faria um merecimento mais. Attribua-me toda a culpa. Indigne-se bem contra mim: não tem duvida. Diga-lhe que foi a desesperação, o amor, o desejo de alcançar a sua mão. As damas raramente deixam de se convencer d'isso. Affirme-lhe que vive no meio de um incendio... como a salamandra... Ainda que Gesnéro assevera que a cinza de salamandra é remedio soberano, e d'ahi se deva concluir que mal poderá viver no fogo o que se reduz a cinzas... Em fim pinte-lhe ao vivo as chammas em que se abraza... (_enfastiado_) Isso é com o Morgado, não é commigo.--Convem-lhe ou não lhe convem ainda o casamento?

MORGADO

Se convem! O que eu não sei é como se ha de agora estorvar o tenente!

COMMENDADOR

Sei eu (_olhando para dentro_). Acabou o chá. Ahi vem todos outra vez. (_Vae ao F. dar o braço a D. Felicia para a conduzir para o seu logar_)

SCENA IX

OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, BOCAGE, GONÇALO, FRANCISCO _e_ CONVIDADOS

D. FELICIA

Que pena ter enrouquecido a menina Escholastica! Tambem, havia de ir logo sentar-se ao pé do corredor... Não foi senão o ar da porta com o calor do chá... (_á Dama_) Quer a sua pelicia, minha joia? (_gesto negativo_) Tomára que ouvissem!... Canta as modinhas brazileiras como ninguem... Tem uma graça n'aquelles tons menores!... É mesmo...

COMMENDADOR (_atalhando_)

Uma suspensão.--E é, na verdade, é.

GONÇALO (_a D. Maria Joanna_)

Não lhe dizia eu? Faltou-lhe o seu _tudo_.

D. MARIA JOANNA

Faltando-lhe... tudo, como havia de ter voz!

GONÇALO

São os namorados mais extremosos! Ella, sangrou-se ha tempos. Elle, foi logo procurar o cirurgião, e deu-lhe cinco moedas pela lanceta!

D. FELICIA

Felizmente veio o sr. Bocage. Não imagina como estamos impacientes por ouvil-o. (_Sentam-se_. _Tomam todos os seus anteriores logares_. _Unicamente D. Maria Gertrudes passa á E. de sua mãe_. _Bocage fica em pé junto a D. Felicia na extremidade E. e o Commendador em pé ao lado do Morgado, defronte_.) Aqui é melhor, não? O padre procurador não acaba com as suas historias!...

BOCAGE

Pedi já desculpa, sr.^a morgada. Fui passar o dia ao Lumiar. Na volta demorei-me mais do que desejava no Campo Pequeno. Ha toiros ámanhã.

GONÇALO

No Campo Pequeno? Tinham-me dado idéas. É cavalleiro o Manuel dos Santos, não?

BOCAGE

É. E o Romão a pé.

MORGADO (_intromettendo-se_)

Tem disposições o Manuel dos Santos. Chama bem á estribeira; mas não tem pulso para o rojão, e á espada é fraco. O Romão com as farpas não vae mal. Se um dia me resolver...

BOCAGE (_cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna_)

A sr.^a D. Maria Joanna vae?

D. MARIA JOANNA (_que estava entretida_)

Como, sr. Bocage? (_percebendo_) Não vou. Confesso que não é dos divertimentos mais do meu gosto.

D. FELICIA

Ouvi que se não correm touros em França. Naturalmente hão de dizer mal de nós por isso.

D. MARIA JOANNA

Nem todos. Ao conde de Saint-Germain, que os tinha visto em Hespanha no tempo de Filippe V, ouvi eu que era apaixonadissimo.

BOCAGE

No tempo de Filippe V! Quantos annos tem hoje esse conde de Saint-Germain, e quantos tinha quando esteve em Hespanha?

D. MARIA JOANNA

Esteve em Hespanha e percorreu o mundo. O conde de Saint-Germain é um viajante como não ha outro. Beijou a mão a Francisco I na vespera da batalha de Pavia; conheceu El-Rei D. Sebastião quando se preparava a expedição d'Africa; e teve em Cuba amisade com Fernando Cortez antes de este ir conquistar o Mexico.

BOCAGE (_rindo_)

Parece tão convencida! Ninguem dirá que está gracejando.

D. MARIA JOANNA

Mas não estou.

BOCAGE (_rindo_)

Ha então em França Mathusalens ainda? Julgava perdida a especie.

D. MARIA JOANNA

Um Mathusalem! Na apparencia não. Quem o vir dirá que tem a edade do sr. Morgado, pouco mais ou menos... (_maliciosa_) antes para menos que para mais.

MORGADO

E conheceu El-Rei D. Sebastião! Essa agora!...

D. MARIA JOANNA

Diz elle. Pergunte ao sr. Commendador, que o viu na embaixada, e lhe fallou nas salas do meu contra-parente D. Vicente de Sousa. É verdade, sr. Commendador?

COMMENDADOR

É verdade. E viu-o toda a gente em Paris. O conde affirma que possue o elixir da immortalidade. Só assim.--O grande Raymundo Lullio refere...

BOCAGE (_cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna_)

E os parisienses acreditam isso?

D. MARIA JOANNA

Acreditam.

BOCAGE

Fallem-me então na credulidade portugueza.

D. MARIA JOANNA

Duvidaram ao principio. Agora vão-lh'o negar! O conde sabia os segredos de todos... Não admira, tendo vivido e viajado tanto!... Está lá, ainda creio... Se acaso se lembra de dar uma volta por Lisboa... Ha de ser incommodo, um homem que está senhor dos segredos de toda a gente... Não lhe parece, sr. Morgado?

MORGADO (_balbuciante_)

Por mim...

D. FELICIA

Coisas de estrangeiros! Eu, se tal visse, tinha o meu hysterico, por força. Nome da Benta Hora! Credo!

BOCAGE

E eu quizera encontral-o, para satisfazer uma curiosidade. Desejava perguntar-lhe... visto que tanto andou e tanto sabe... se alguma vez, nas suas longas peregrinações, encontrou figurão mais sem pejo... do que dois sujeitos do meu conhecimento.

COMMENDADOR (_baixo ao Morgado_)

Estão apostados a molestal-o. Não succumba.

MORGADO (_idem_)

Vae vêr. Deixe... Deixe que vae vêr.

D. FELICIA (_a Bocage_)

Queria encontral-o? Não diga isso.--N'estas conversas se vae o tempo, e nada se faz.--Sr. Bocage... Um improviso dos seus... Quem dá mote?... Dê mote, sobrinha!

MORGADO

Versos a motes quem quer faz... Não tenho eu querido, senão... Versos a motes!... Sempre ouvi dizer que era o _A B C_... e está claro que é (_sem achar saída_), porque os versos com os motes e os motes com os versos... ou para fallar mais claro, os versos sem os motes e os motes sem os versos...

COMMENDADOR (_sugerindo-lhe indirectamente a idéa_)

O mote com effeito é uma sentença, que serve de assumpto, e põe a caminho o engenho. O principal está feito. O mais é ajustar palavras e combinar as rimas. Com algum exercicio não é difficil!

BOCAGE (_medindo-os admirado e retraido_)

Ah!

COMMENDADOR (_continuando_)

Mote querem alguns que venha do latim _motus_, que significa movimento. E bem se póde ter que assim é, porque do mote em verdade nasce o impulso que faz mover o estro...

MORGADO (_atalhando_)

É o que eu queria dizer. O mote vem a ser tudo... Mais por aqui, mais por alli, é tudo o mote.--O mote é o assumpto; não havendo mote não ha assumpto; e ahi é que está! (_satisfeito de si e com extrema volubilidade_) Fazer versos sem assumpto não é para qualquer: tem de se tirar tudo da cabeça, assim de repente, do pé para a mão, sem mais nem mais. Tambem não sei porque se ha de pedir mote. Quando uma pessoa monta a cavallo não precisa de mote para fazer os piafés, e as curvetas, e as balotadas, e as garupadas; nem tão pouco se dá mote quando qualquer mette mão á espada, e entra a executar batiduras, ligamentos, juntamentos, cambiamentos, tentamentos, e esquivamentos. Eis ahi. Isto é que eu queria... Chegar um homem, não esperar por mais, nem esfregar a testa, nem pôr os olhos em alvo, bater as palmas e logo alli, zás... como quem deita um foguete de sete respostas!...

BOCAGE (_atalhando e batendo as palmas_)

Lá vae!

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Sem assumpto?

BOCAGE

Está ahi defronte, o assumpto.

Famosa geração de falladores Consta que foi, Morgado, a origem tua, Que nem todos os cães, ladrando á lua, Tiveram que fazer com teus maiores:

Um a lingua ensinou dos palradores; Outro, o motu continuo achou na sua; Outro, além de encovar toda uma rua, Açaimou n'uma junta a cem doutores:

Teu avô, santanario venerando, Soube mais orações que mil beatas, Com reza impertinente os ceus zangando:

Teu pae foi um trovão de pataratas: Teu tio, o bacharel, morreu fallando; Tu, fallando sem tom, não morres--*matas*!

TODOS (_applaudindo_)

Bravo! bravo!

MORGADO (_engasgado de raiva_)

Sr. Bocage!... Sr. Bocage!...

BOCAGE (_fitando-o serenamente_)

Que é?...

COMMENDADOR (_com o seu sorriso, ao Morgado_)

Agasta-se? De quê? Não tem rasão... São facecias innocentes, e muito graciosas na verdade!... (_Gonçalo passa disfarçadamente para o lado de Bocage_) Mais picantes ainda as fez Juvenal!... Se fosse verdadeiramente improviso, era deveras um primor... E não digo que não seja... Mas é facil trazer estas coisas estudadas já... (_Bocage estremece de indignação ante a contradictoria perfidia_.--_Gonçalo que lhe está ao pé detem-o_.)

GONÇALO (_baixo_)

Querem fazel-o sair de si. Com algum fito é. Modere-se.

COMMENDADOR (_observando_)

Depois, os conceitos naturalmente andam preparados com antecedencia.

BOCAGE (_sem poder ter-se, batendo as palmas_)

Lá vae!--Sr. Commendador, permitta-me descrever-lhe um certo individuo... do nosso conhecimento... á moda de Juvenal!

Do Sena, que foi ver por seu desdouro, Um pedante voltou, de escassa fama, Que os livros cata, os cartapacios ama, E n'elles julga os annos um thesouro:

Traz laivos de francez, arranha o mouro, Sabe que Deus em turco _Allah_ se chama, Que no grego alphabeto o _G_ é _gamma_, Que _taurus_ em latim quer dizer touro:

Tem de velhos canhenhos chocho extracto; Abocanha talentos que não gosa; Se rosna, prega unhadas como um gato:

Achareis na pintura rigorosa Um fofo sabichão, posto em retrato, Que é nada em verso, quasi nada é prosa!

(_Impressão de assombramento_. _Ninguem ousa applaudir_. _Segredam todos mutuamente_.)

COMMENDADOR (_parecendo satisfeitissimo_)

Muito bem, muito bem, sr. Bocage. Esse sim. A isso é que se chama responder _apposité_. (_O escudeiro, vem apressadamente a D. Felicia, e falla-lhe em voz baixa_) Retrato lhe chama, não? Vê-se que é: ha de mostrar-me o original. Mas cuidado, não o saiba elle!...

D. FELICIA (_ao escudeiro_)

Que me diz! (_erguendo-se alvoroçada_) Meus senhores, o sr. marquez de Marialva está ahi. (_levantam-se todos_.)

SCENA IX

OS DITOS _e_ MANUEL SIMÕES

MANUEL SIMÕES (_alvoroçado_)

O meu compadre! Está ahi o meu compadre? (_a Francisco_.) Olha que é o teu padrinho, Francisco.

D. FELICIA

Valha-me Deus! Sem estar nada prevenido... Mande abrir já o portão, João Rodrigues. (_O escudeiro sae vivamente para a E._) Querem fazer-me o favor de me acompanhar?...

MANUEL SIMÕES

Vamos esperal-o todos!

D. FELICIA

Vamos receber sua excellencia.

(_Saem todos_. _Fica só o morgado passeiando agitado, e o commendador observando-o_.)

SCENA X

COMMENDADOR _e_ MORGADO

MORGADO (_depois de os ver sair_)

Ter a confiança de me tratar por tu!... D'esta vez faço uma fallada!... Ambos... hão de ser ambos!... Fizeram bem em aproveitar a occasião de se esgueirar.... Não podia já conter-me!... E agora...

COMMENDADOR (_tomando-lhe o braço_)

Deixe-se d'isso.

MORGADO (_forcejando para se desembaraçar, e mais agitado_)

Não me sustenha, commendador, não me sustenha!

COMMENDADOR (_largando-o_)

Aonde quer ir?

MORGADO

Aonde quero ir? Boa pergunta! Aonde quero ir!... (_forcejando como antes_.) Não me sustenha... (_vendo que o não sustem, e hesitando_.) Quê?... (_em grandes passos_.) Não me sustenha... Quero dizer, sustenha-me, sustenha-me, senão vou fazer uma grande desgraça!...

COMMENDADOR

Accommode-se. Não ouviu quem vem ahi?

MORGADO (_estacando transido_.)

São elles?

COMMENDADOR

Não, homem. Não sabe que é o marquez?

MORGADO

Não são elles? (_recomeçando as bravatas_.) Podéra! Olhem se nos apparecem agora! Olhe lá se voltam senão no meio de toda essa gente!... Cobardes!

COMMENDADOR

Esteja quieto. Estamos aqui sós... e já nos conhecemos!

MORGADO

Então isto hade ficar assim?--Não é senão o tenente que mette a caminho o Bocage para nos chasquear. Não o viu ha pouco ir ter com elle?--Isto hade ficar assim!...

COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Não lhe disse já que não... Andam a semear!... Deixe, que hão de colher!... Ouve? O marquez subiu já. Vamos tambem. (_Dirigem-se á porta da E._. _Entra o escudeiro, corre o reposteiro, e colloca-se á humbreira_. _Os dois tomam tambem de uma e outra parte logar á porta_.--_Entra o marquez, ao lado de D. Felicia, e seguido de toda a companhia anterior_.)

SCENA XI

MARQUEZ, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MANUEL SIMÕES, FRANCISCO, GONÇALO, BOCAGE, COMMENDADOR, MORGADO _e_ CONVIDADOS

MARQUEZ

Se soubesse que vinha incommodal-a, sr.^a morgada...

D. FELICIA

Incommodar-nos, v. ex.^a! Estava bem longe de esperar tamanha honra, e por isso...

MARQUEZ

Cheguei ha pouco de Cintra, e achei em Belem uma carta de Martinho de Mello, que me obrigou a vir logo aqui.--Passei por sua casa, Simões... Disseram lá ao meu volantim, que tinha ido com seu filho de visita á sr.^a morgada.--(_a D. Felicia_.) Vim assim mesmo, com as minhas saragoças... Não esperava encontrar tão luzida companhia.--Como é caso de pressa não queria perder a occasião.

MANUEL SIMÕES (_sem perceber_)

V. ex.^a dignou-se passar por minha casa... é negocio de pressa...

MARQUEZ

Um negocio com o meu afilhado... Onde está elle?

FRANCISCO (_apresentando-se respeitoso_)

Meu padrinho!

MARQUEZ (_em confidencia_)

Teu pae sempre o hade saber... e mais vale que seja agora, diante de mim. (_alto_.) A nau de viagem sae para a semana. Já vês que se não póde perder tempo.

MANUEL SIMÕES (_attonito_)

A nau de viagem... o Francisco!...

D. FELICIA.

O sr. marquez de pé! (_offerecendo-lhe o canapé_.) Sr. marquez...

MARQUEZ

Não me demoro... (_indicando a cadeira junto ao bufete_.) Prefiro aquella cadeira. Está alli um tinteiro, e hade ser preciso... (_a Francisco_.) Fui eu mesmo fallar a Martinho de Mello. Achei-o em boa occasião. Serviu-me logo, sem objecções... que é raridade. Pediu-me só que lhe mandasse o nome por escripto... Não sei como... as minhas distracções do costume... passou-me de todo. Agora, á volta de Cintra, recebo uma carta d'elle, e dentro o decreto já assignado, dizendo-me que fôra expedido com o nome em branco para não causar atrazo, vista a proximidade da partida... Venho remediar o esquecimento. (_Dirige-se á cadeira indicada, e senta-se_. _Sentam-se as damas_.)

MANUEL SIMÕES

Mas, meu senhor... V. ex.^a foi fallar ao ministro da marinha? Por causa de meu filho?... Traz-lhe um decreto!... Sou pae, sr. marquez... não se hade estranhar... Um decreto de quê?

MARQUEZ

De guarda marinha para Gôa.

MANUEL SIMÕES (_atterrado_)

Guarda marinha!... Para Gôa!... quando eu pensava... quando esperava... E pediu meu filho similhante coisa a v. ex.^a... pediu-lh'o sem me dizer nada!

MARQUEZ

Ponderei-lhe isso mesmo... aconselhei-o... Deu-me razões que me convenceram. Entendo que faz bem... As viagens são distracções poderosas... são convenientes á mocidade... Voltará quando fôr tempo... e espero que será breve... Se lhe não convier a vida do mar, dará baixa... Agora é bem que vá.--Simões seu filho está formado, não se lhe póde oppôr... Dê-lhe o seu consentimento. Peço-lhe que dê, e digo-lhe que o deve dar... (_a Francisco_.) Aprompta-te quanto antes. Embarcas para a semana.

D. MARIA GERTRUDES (_sem poder já, levando a mão ao coração_.)

Ai! Jesus!

D. FELICIA

Que tens... que tens, Maria?... (_vendo-a debulhada em lagrimas_.) Ai! a minha filha... A agua de Melissa... a agua da Rainha d'Hungria!... (_acodem todas as damas a soccorrel-a_.) Não repare v. ex.^a, sr. marquez... é minha filha!

MARQUEZ (_erguendo-se_)

Sei... sei já... É coisa de cuidado?

D. MARIA JOANNA

Não é nada. Um pequeno espasmo. Passa já.

GONÇALO (_de parte a Bocage, indicando D. Maria Gertrudes_)

Vê?

(_Bocage contempla-a meditativo_.)

D. MARIA GERTRUDES (_com esforço_)

Não foi nada... Um affrontamento.

FELICIA

O melhor é recolheres-te ao teu quarto. Queres?

D. MARIA GERTRUDES (_vivamente_)

Não, não, minha mãe... Não é nada.

(_Retomam todos os seus logares_. _O marquez senta-se de novo_.)

MARQUEZ (_a Manuel Simões_)

Então, Manuel Simões, consente?

MANUEL SIMÕES

Que remedio... É desejo d'elle... e v. ex.^a approva.

MARQUEZ (_tirando o decreto, desdobrando-o sobre a meza, e tomando a penna_.)

Vamos... é pôr o nome, e podemos dar os parabens ao novo guarda marinha.

(_Bocage passa lentamente por detraz de todos dirigindo-se ao bufete_.)

MANUEL SIMÕES (_tristemente, ao filho_)

Sempre cuidei que te acharia ao pé de mim... para me fechar os olhos.

FRANCISCO (_lançando-se-lhe commovido nos braços_)

Meu pae!

MARQUEZ (_acabando de ler o decreto_)

«Samora Correia, em 31 de janeiro de 1786. Com a rubrica de Sua Magestade.»--Está em ordem. (_Sem levantar os olhos_.) O nome todo?

BOCAGE (_atraz do marquez_)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage!

(_Espanto nos circunstantes_.)

MARQUEZ (_erguendo attonito o rosto, e depondo a a penna_)

Quê?

BOCAGE (_mostrando Francisco nos braços do pae_)

Será elle que deva partir?

MARQUEZ

Mas sabe porque o meu afilhado quer embarcar?

BOCAGE

V. ex.^a deseja-o feliz?... Deseja... é o seu coração, e o seu costume. Permitta-me que faça por um momento as suas vezes, e verá... (_indo ao grupo do pae e do filho_.) Desculpe, sr. Manuel Simões. (_tomando Francisco pela mão, em voz baixa_.) Não viu já que o ama? (_indo a D. Maria Gertrudes, em voz baixa e rapida, indicando-lhe Francisco_.) Quer-lhe como ninguem. (_alto a D. Felicia_.) Sr.^a morgada da Torre da Palma, estou auctorisado a pedir a mão de sua filha para o sr. dr. Francisco Pedro Simões. (_Attenção geral_.)

D. FELICIA (_assombrada_)

A mão de minha filha... Se não fosse o respeito do sr. marquez, tinha o meu hystérico!... A mão de minha filha!... D'esse modo!... tão de repente!... (_depois de breve pausa_) O sr. Manuel Simões é um homem honrado; estimo-o; sou-lhe obrigada, não nego... mas... mas elle bem sabe que a nossa jerarchia... (_O marquez ergue-se_. _Erguem-se todos_.)

MARQUEZ (_intervindo_)

Perdoe, sr.^a morgada... O meu afilhado segue uma profissão nobre... Doutorou-se... poderá em breve alcançar algum despacho de Juiz de fóra... Como seu padrinho tenho obrigação de lhe dar um presente de noivado. (_baixo_) Fallei já á rainha, minha senhora, a respeito da sr.^a D. Felicia.--O presente que destino ao meu afilhado é um alvará de açafata para sua sogra.

D. FELICIA (_encantada_)

Ai! sr. marquez! Devéras? Filha, filha, a minha agua da rainha d'Hungria!...

MANUEL SIMÕES (_baixo ao commendador em tom supplicante_)

Sr. commendador, posso dizer que sim ao casamento?

COMMENDADOR

Embarca o Bocage? (_Gesto affirmativo de Manuel Simões_) Póde.

MARQUEZ (_proseguindo a D. Felicia, mais baixo_)

Depois, Manuel Simões dá ao doutor quarenta mil cruzados. Excellente occasião de restaurar a Torre da Palma, que o precisa. (_a Manuel Simões_) Não dá quarenta mil cruzados a seu filho, Simões?

MANUEL SIMÕES (_no auge de alegria_)

Não, meu senhor. Dou sessenta.

MARQUEZ (_baixo a D. Felicia_)

Por causa de sua filha, queria o meu afilhado embarcar! (_indicando Francisco e D. Maria Gertrudes_.) E veja... Terá coração para fazer dois desgraçados? (_alto_.) A sr.^a morgada diz que sim.

FELICIA

Basta ser vontade do sr. marquez. (_comsigo_) Açafata do paço!

MARQUEZ (_que passou a Bocage, em jovial confidencia_)

Acertou, sr. Manuel Maria.

BOCAGE

Então ganhei o meu decreto.

MARQUEZ

Insiste?

BOCAGE

Espero só que v. ex.^a me faça a honra de escrever o meu nome.

MARQUEZ (_indo sentar-se ao bufete_)

Veja bem. Pensou?

BOCAGE

Pensei. Meu pae deixou-me a vocação livre. O mar é a minha vocação. (_dolorosamente_) Se tivesse aqui um affecto, se podesse haver esperança que me prendesse... Não tenho. Não ha. E é justo. (_com profunda amargura_) Nós os poetas cantamos tanto o amor, que o amor todo nos vôa no canto!

MORGADO (_baixo ao commendador_)

Que lhe parece? Vae para Goa..

COMMENDADOR

Em Goa temos gente tambem.

MORGADO

E se voltar?

COMMENDADOR

Está cá o Santo Officio.

MARQUEZ (_dispondo-se a escrever_)

Repita-me o nome por inteiro... Bem sabe a triste memoria que tenho... Está a tempo ainda. Considere.

BOCAGE (_decidido_)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage. (_Marquez escreve lentamente_) Meu avô, Gil de Bocage, foi coronel do mar. Herdei talvez a inclinação com o sangue.

FRANCISCO (_indo a Bocage_)

Não o conhecia ainda... (_intencionalmente_) Ninguem agora o admira mais.

GONÇALO (_apertando-lhe a mão_)

Regosije-se. Felicito-o. É uma nobre acção.

BOCAGE

Começo outra vida, rude vida de ancias e trabalhos, mas vida explendida de alvoroços e promessas. (_inebriando-se das proprias palavras_) Oh! quem me déra já nas solidões do oceano, entre os dois abysmos, para não ver mais do que o eterno lampadario dos astros, para não ouvir mais do que o magestoso hymno das vagas!... (_como vendo o que repete_) Ondeante á pôpa a bandeira que recorda as margens distantes... a melancolia da saudade!... Diante de mim os horisontes infinitos... a incerteza do futuro!... Aos meus pés a voragem tumultuosa... a advertencia dos desenganos!... E além... lá bem ao longe, a nossa India... a India que démos de presente ao mundo!... o recesso dos mysterios... a terra dos prodigios... crivada dos nossos padrões, povoada das nossas memorias, cheia ainda do nosso passado, repetindo de todos os angulos a maravilhosa historia que os povos decoraram em todas as linguas!... além as grandes recordações dos grandes feitos... os grandes éccos dos grandes nomes... as grandes imagens das grandes edades!... além emfim a perenne e inflammada visão, que acima da escuridão dos tempos e do luto das catastrophes, como um pharol no meio das trevas, ergue rutilante do berço do sol a gloria da patria!