Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos

Part 8

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Sr. commendador, não se envileça mais... nem faça envilecer mais o sr. morgado! A cegueira de um homem, que já não vive, privou sua propria filha do nome e dos bens que lhe pertenciam... O temor da hora extrema corrigiu essa injustiça... (_crescendo em indignação_) Sobre este erro, que é para chorar, sobre este remorso, que devia ser sagrado, ajusta-se um pacto infame... (_Movimento dos dois_.) Infame, repito!... Um mercadeja a honra, outro a consciencia!... Um sacrifica a natureza, outro o decóro!... Isso tudo que é senão valor para traficar, fazenda para vender?... Que importa a filha desherdada? Que importa a mulher offendida? A mulher ha-de calar-se e consentir. É o seu interesse... Pensaram isso?... Pensaram, e nem lhes passou pelo rosto o pejo de o pensarem! É o mal das indoles corrompidas não admittirem sequer a existencia de corações sãos e inteiros, para quem a satisfação do dever seja a primeira riqueza! Fizeram-me o ultrage de me julgar por si. Não o podiam imaginar maior!--Sr. morgado, esse papel!... Sr. commendador, esse papel!

MORGADO

Se outra pessoa que não fosse a prima se atrevesse a dizer-me similhantes coisas!...

(_Bocage quer adiantar se; Gonçalo detem-n'o_.)

COMMENDADOR

Estes papeis pertencem-n'os!

D. MARIA JOANNA (_mais exaltada_)

É a minha tia que pertencem. Sou eu que lh'os quero entregar!... Sou eu que devo entregar-lh'os!... Não me obriguem a...

GONÇALO (_adiantando-se e interpondo-se com respeitosa serenidade_)

Perdôe, sr.^a D. Maria Joanna Galvão... Uma senhora da sua qualidade não póde entender-se com estes senhores.

BOCAGE (_com ironia mal dissimulada_)

Estes senhores vão pôr já nas suas mãos os papeis que lhes não pertencem.

GONÇALO (_com terrivel frieza, crescendo contra o morgado, que recua na sua presença_)

O sr. morgado não ha-de querer desattender sua prima!--O papel?

BOCAGE (_do mesmo modo ao commendador_)

O sr. commendador de certo não falta ao respeito a uma dama.--O papel?

(_O Morgado e o Commendador, tranzidos e suffocados, entregam os papeis aos homens que teem diante_.)

GONÇALO (_entregando reverentemente o papel a D. Maria Joanna_)

Aqui está.

BOCAGE (_idem_)

Aqui está.

SCENA XIV

OS DITOS _e_ D. FELICIA, _entrando do F. pelo braço de_ MANUEL SIMÕES, _que vem sem chapeu_

MANUEL SIMÕES

Isto é coisa que se creia! Obrigar-me a sair assim pela rua fóra, eu, um compadre dos dois marquezes!

D. FELICIA

Queria que entrasse pelos armazens, ou désse o braço ao escudeiro? Viu-o na loja... chamei-o para me acompanhar. Vinha com o meu hysterico, e já não podia...

D. MARIA JOANNA (_correndo a ella e atirando-se-lhe ao pescoço_)

Minha tia! minha tia! Mal sabe...

D. FELICIA

Credo, sobrinha! Olhe que me desmancha o penteado. Isso são modos de uma senhora?--A afilhada não está na sua companhia?

MANUEL SIMÕES

Está lá dentro com a mana Monica.

D. MARIA JOANNA (_alvoroçada_)

A sua... a minha... (_dando-lhe o braço do outro lado e levando-a comsigo_.) Venha, venha, que a espera uma grande alegria.

D. FELICIA (_toda turbada_)

Que dia de juizo é este!--Não me largue o braço que não estou boa, sr. Manuel Simões.

(_Saem pela porta do 2.^o plano da D._--_D. Maria Joanna puxando por D. Felicia, D. Felicia puxando por Manuel Simões_.)

SCENA XV

BOCAGE, GONÇALO, COMMENDADOR _e_ MORGADO

(_Pausa em que os quatro se medem reciprocamente_.)

GONÇALO (_rindo, para Bocage_)

Conhece alguma coisa mais horrenda do que o sr. morgado quando se faz amarello?

BOCAGE

Conheço: é o sr. commendador quando se faz verde.

MORGADO

Oh! que se eu me não contivesse... Mas contenho-me.

COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Motejos sempre, sr. Bocage! Plinio, o moço, celebra como coisa de muito apreço a graça das palavras!

BOCAGE (_a Gonçalo_)

Está mais verde ainda... Foi a peçonha que se lhe derramou!

MORGADO

Oh! que se eu me não contivesse!...

GONÇALO

Já disse isso!

BOCAGE

Que lhe parece, sr. Gonçalo Mendo! Acabamos com esta raça damninha? (_indo á janella_.) A altura é soffrivel. Dêmos um exemplo.--Deitemos _isto_ á rua. (_indica os dois_.) Limpamos a cidade.

(_Morgado recua aterrado_.)

COMMENDADOR (_sorrindo mais_)

Tem graça o sr. Bocage, tem muita graça!

GONÇALO (_fitando o commendador_)

É a praga de todos os tempos!... Deixe... Espera-os a publica justiça, que hade chegar... Em gente d'essa não põem mão homens de bem. As viboras esmagam-se com o pé! (_Indicando-lhes a porta, com um gesto a que os dois logo obedecem_.) Temos que fallar com o dono da casa!

(_Cae o pano_)

FIM DO TERCEIRO ACTO

ACTO IV

Em casa da morgada D. Felicia, ás Portas da Cruz.--Sala de visitas dando para outra.--Ao F. a porta que abre sobre esta.--Á E. a porta da ante-sala, fechada com reposteiro de pano azul, orlado de amarello, com as armas da casa ao meio.--Á D. duas portas. Para o F., á E. da porta de communicação com a outra sala, um bufete com tinteiro, etc.--_Trumeaux_, cadeiras o canapés; a mobilia branca e dourada de meias canas.

SCENA I

(_Ao levantar do panno, um grupo de homens á porta do F. como vendo e admirando o que se passa na outra sala.--Ouve-se n'esta uma rebeca terminando o minuete da côrte.--Apenas acaba, muitas palmas em que toma parte o grupo da porta. Logo depois entram os personagens da scena seguinte, e a sala toma o aspecto de uma reunião ou assembléa do tempo.--As damas vêem successivamente sentar-se na ordem adiante designada.--Os homens ficam pela maior parte em pé diversamente grupados_.)

SCENA II

D. FELICIA _pelo braço do_ COMMENDADOR; _successivamente_ D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MORGADO, GONÇALO MENDO, DAMAS _e_ CAVALHEIROS CONVIDADOS

D. FELICIA (_para fóra_)

Não o faz melhor o proprio Dupré!... Admiravel!... Divino!... Uma suspensão!... (_ao commendador_.) Ninguem dança o minuete da côrte como o sr. Thomaz Xavier... Uma gravidade... um garbo!... Viu, aquelle rasgado das cortezias?

COMMENDADOR

E a sr.^a D. Angelica?... Uma magestade... um donaire!

D. FELICIA.

É o par mais completo!... (_procurando com os olhos em redor_.) Maria?... A minha filha?...

MARIA GERTRUDES

Estou aqui, minha mãe!

D. FELICIA (_sentando-se_)

Isso... Bem ao pé de mim, filha. (_ao commendador_) Não repare... Não me canço de repetir este nome de filha... Tinha-o quasi desaprendido!... Ainda o não creio... Ainda me parece tudo um sonho... Foi milagre, sr. commendador, não foi?

COMMENDADOR

Com razão symbolisaram os doutos e discretos o maternal affecto na ave chamada pelicano, figurando-a o dar-se a morte para dar vida aos filhos. (_continúa como conversando_.)

GONÇALO (_dando o braço a D. Maria Joanna_)

Se sua tia soubesse com quem desafoga aquelles enlevos!

D. MARIA JOANNA

E para que o ha de saber? Mais lhe vale ignorar sempre similhantes vilanias. (_sentando-se_.) Foi meu cumplice no cumprimento do dever. Seja-o no segredo d'essas iniquidades.--É dever tambem.

GONÇALO

A que não me obrigará com a perspectiva de tal cumplicidade?--Cumplice!... Mediu bem a palavra?

D. MARIA JOANNA (_graciosamente_)

Medi. (_continuam conversando_.)

(_Entra Francisco, como procurando alguem. Vê D. Maria Gertrudes, e vae tristemente encostar-se ao trumeau fronteiro_.)

SCENA III

OS DITOS _e_ FRANCISCO

D. FELICIA (_beijando D. Maria_)

A minha filha!... Bem parecia que me adivinhava o coração!... (_vendo Francisco_.) Sr. dr. Francisco Pedro, seu pae está na roda do _isque_?... Estas modas novas de Inglaterra fazem os homens bem pouco sociaveis!

FRANCISCO (_com melancolica resignação_)

Não, minha senhora... Não é homem de modas, meu pae.--Creio que o vi ao pé do padre procurador de S. Vicente.

D. FELICIA

Ai! se elle se fica a ouvir as historias que o sr. D. frei Caetano conta ás meninas, não sae de lá tão depressa... (_abanando-se_.) Porque não nos tem apparecido, sr. morgado da Gesteira?

(_Acham-se todos dispostos como segue: D. Felicia n'um canapé á E., tendo ao lado D. Maria Gertrudes em cadeira.--N'outro canapé, defronte, D. Maria Joanna, e Gonçalo Mendo proximo, em pé.--O Commendador, que passou á extremidade D., sentado conversando com uma dama. Junto d'este o morgado em pé.--Do mesmo lado, encostado ao trumeau, Francisco Pedro extatico para D. Maria Gertrudes, que não ousa levantar os olhos para elle_.)

MORGADO

Não tenho tido mãos a medir, sr.^a D. Felicia, não tenho tido mãos a medir... Fui passar quatro dias ao pé da Arrabida... Não me deixava um amigo, homem poderoso, que tenho para aquelles sitios... Tudo por causa d'uma caçada de javardos... Sem mim não se podia fazer... Fui eu que dispuz os emprazadores. Fui eu que dirigi os couteiros. Fui eu que fiz chapear os cavallos por causa dos estrépes, e metter-lhes as çapatilhas e peitoraes de matto como é indispensavel. Fui eu que determinei a _calcada_... Finalmente, bateram-se duas moitas, e trouxemos nem menos de seis rezes grandes, uma cerva, dois vareiros e trez javardos... Só eu á minha parte, a tiro e á faca, matei sete.

COMMENDADOR (_sorrindo_)

Trouxeram seis, e matou sete!

MORGADO

É verdade. Perdeu-se um bique enorme... Sumiu-se no brejo que não foi possivel achal-o.

COMMENDADOR

Fez tudo o morgado. E os outros caçadores?

MORGADO (_ao commendador_)

Admiraram. (_a D. Felicia_) Antes de hontem passei a tarde n'uma academia de espada... (_ao commendador_) em casa de mestre Estevão da rua das Hortas... (_á companhia_) Ia lá um genovez de quem se diziam maravilhas. E com effeito é homem desembaraçado na arte. Tirou a melhor de quantos contenderam. Eu estava alli a vêr, e não queria assim sem mais nem menos entrar em assalto com um estrangeiro, que não sabe a gente quem é... Mas os amigos, que me tinham levado alli... provavelmente já de proposito... começam a dizer-me: «Sr. morgado, isto é uma vergonha para o reino!... Sr. morgado, só v. s.^a póde desaffrontar a nação!... Sr. morgado, isto são pontos d'honra!...» Atacaram-me pelo meu fraco... Não pude resistir... (_fazendo menção de despir_) Largo o josésinho... pego na espada... colloco-me no recto... Ao terceiro passe, o genovez tira-me de quarta a fundo... Paro de forte contra forte!... Faço um prendimento rapido... Estava desarmado o homem! (_Gonçalo sorri_.) Não é por me gabar: confessou elle mesmo que nunca vira pulso tão rijo, nem uma agilidade assim!

GONÇALO (_com obsequiosidade ironica_)

Estava em boas mãos... a honra nacional!

MORGADO (_seccamente_)

Favores! (_continuando_.) Hontem fui a uma corrida de pombos a Carnide. (_negligentemente_) Não enfiei senão cinco. Deram-me para correr um cavallo quasi serril... E era á gineta, que se fosse á brida!... Hoje estava convidado para jantar em casa d'um desembargador da Casa da Supplicação, meu amigo de tu. Chegou-lhe um cosinheiro de França, que faz na perfeição a sopa de natas e as tortas de espargos.--O meu amigo, sabendo como sou entendedor, fazia empenho no meu voto.--É tambem tarde de opera na Rua dos Condes. Representam uma coisa italiana que se chama... que se chama...

COMMENDADOR

_Il Mercato di Malmantile_... Uma opera nova.

MORGADO

Creio que sim. A estas primeiras representações nunca falto.

D. FELICIA

E não foi? Um peralta de quarto voto, como o sr. morgado!

MORGADO

Não fui... só para não faltar aqui logo no principio, e vir aos pés da sr.^a morgada!

D. FELICIA

Já vejo que me queixei sem razão. Uma pessoa como o sr. morgado nunca é senhora de si. (_ao commendador_.) E que tal é a opera?

COMMENDADOR

Não são para mim similhantes futilidades. Em coisas de theatro só acho sabor aos gregos e romanos.--Sabia o titulo da opera nova, porque o vi na _Gazeta_ de terça feira. Aqui a trago eu. (_tira do bolso uma folha impressa, em papel pardo, em quarto pequeno_.)

D. MARIA JOANNA

A opera nova?

COMMENDADOR

Não, minha senhora... a _Gazeta_. Já se sabe a razão por que o eleitor de Saxonia toma parte tão activa na liga germanica. Eu prophetisei-o sempre!

D. FELICIA

Não gosta do nosso theatro? Não tem razão. Queria que visse aquella peça intitulada... _As lagrimas da bellesa são as armas que mais vencem_... que se representou o anno passado no Bairro Alto... Faz chorar as pedras... E já não é o que era, aquella casa. Viu, sobrinha?

D. MARIA JOANNA (_que conversava com Gonçalo_)

Não vi, minha tia.

D. FELICIA

Em França tambem ha theatros e peças bonitas? Se hade haver! Tem gracioso em todas, como cá? E magicas?

D. MARIA JOANNA

Ha de tudo, e com abundancia.--Para mim nunca achei auctor que me deleitasse como um chamado Molière. Não é dos modernos, nem está agora em voga; mas escreveu comedias, que ainda não li outras de egual verdade... duas sobre tudo... o _Tartufo_... Não conhece o _Tartufo_ sr. commendador?

COMMENDADOR (_um pouco turbado_)

Não conheço senão os antigos... Terencio, Plauto, Aristóphanes...

D. MARIA JOANNA

Que pena! Pois é excellente comedia o _Tartufo_... E acho tambem um sainete particular ao _Importuno_... O sr. morgado da Gesteira devia dar uns annos de folga á monteria, ou á esgrima, ou á gastronomia, e aprender o francez... só para ler o _Importuno_!... Estou que havia de gostar.

(D. FELICIA _que a ouvia admirada_)

Vês, filha, que de coisas se sabem lá por fóra?

MORGADO (_a D. Maria Joanna_)

Os homens da minha condição não perdem o seu tempo com...

D. MARIA JOANNA (_atalhando ironicamente_)

Com um insignificante como Molière. Acho-lhe razão.

D. FELICIA

Em operas, vi eu já o que se póde ver. Quem assistiu em Queluz á opera da Galathea!... Eram os annos do principe D. José, e estavam para se ajustar as pazes com a Hespanha... Quem assistiu a uma coisa d'aquellas...

D. MARIA JOANNA

Ah! esteve no theatro da côrte?

D. FELICIA (_hesitando um pouco_)

Estive... alguma coisa de longe... Não era onde devia estar... mas estive... Alcancei entrada pelo sr. marquez de Marialva, que esse sabe dar estimação a quem a merece... Estive... Por signal fui achar entre as açafatas a mulher d'aquelle da alfandega... que se não sabe d'onde lhe veiu o dom... Não tem senão um criado d'almofada... e quando lhe vão visitas, chama pelo nome e sobrenome o criado de porta abaixo, que não ha outro na casa, para figurar de escudeiro... Estava lá, estava alli, ella, em quanto pessoas que sempre se trataram á lei da nobreza... Açafata aquillo!... Não foi senão por empenho do Estacio, o bobo do paço, algum dia que teve a fortuna de fazer rir Suas Magestades... Aquillo açafata!... Ai!... Ai!... Maria, filha... a agua de Melissa... depressa!...

D. MARIA JOANNA E D. MARIA GERTRUDES (_erguendo-se como para socorrel-a_)

Tem alguma coisa?

D. FELICIA

Não é nada... o meu hysterico!...

D. MARIA JOANNA (_ameigando-a_)

Passou?... Passou... (_voltando a sentar-se_.) E a Galathea?

D. FELICIA

Isso sim!--A Galathéa, de Metastario, com musica do Antonio da Silva... a orchestra dirigida pelo João Cordeiro... tudo professores da real capella!... Pois os cantores!... Vindos de Italia de proposito... o Romanini, o Violani... o Violani principalmente... Umas volatas... uns gorgeios... uma... uma suspensão!... Não espero tornar a ouvir cantar assim... E depois o baile d'Alberti!--E as pessoas reaes!... E toda aquella côrte... Não se via senão sedas, veludos e oiro!... E que tellas, que pinturas, que lustres!... Theatro aquelle! Opera aquillo!... o mais...

SCENA IV

(_Entra um escudeiro velho e dirige-se respeitosamente a D. Felicia_.)

D. FELICIA

Que quer, João Rodrigues? (_a D. Maria Gertrudes_)--São já sete horas?

D. MARIA GERTRUDES (_distraida, e sem levantar os olhos_)

São.--Hão de ser.

D. FELICIA (_vivamente_)

Que tens?... Triste agora!

D. MARIA GERTRUDES (_constrangendo-se_)

Triste, eu?--Nunca estive tão alegre!...

(_O escudeiro diz algumas palavras em voz baixa a D. Felicia_.)

D. FELICIA (_ao escudeiro_)

Já sei, já sei. Ponha a banca e as urnas na outra sala. (_Levanta-se, e todos_. _Aos circumstantes_.) São horas do nosso chá. (_indo a uma das damas presentes_.) A menina Escolastica hade-nos cantar depois aquella modinha brazileira com primeiras e segundas... tão linda, tão linda... uma suspensão mesmo!... Aquella... Recorda-se?... (_achando_.) Ah! «_Os Melindres da Sinhá_!» Canta, riquinha, sim?

D. MARIA JOANNA (_a Gonçalo_)

Se não estiver com a rouquidão do costume.

GONÇALO

Está decerto, em quanto não chegar o seu tudo.

D FELICIA (_a outra_)

A sr.^a D. Euphrasia das Neves faz a segunda e o sr. D. frei Caetano acompanha-as ao cravo... (_a uma dama_.) Alli onde o vê, o meu cravo foi o primeiro cravo de martellos que veiu a Lisboa... já depois da guerra de 62, creio... Mandou-o vir Sua Alteza o sr. conde de Lippe, que era grande tocador, e muito divertido, (_a Gonçalo Mendo_.) Lembra-se da guerra de 62?...

GONÇALO

Uma guerra que não passou do principio?

D. FELICIA

Desculpe... Não póde lembrar-se... Tive um primo nos reaes voluntarios... foi morrer á India. A proposito, o nosso cadete? O seu amigo Bocage demora-se... Estou vendo que nos falta hoje!... Logo hoje que não veiu outro, e estão cá tantas pessoas para o ouvir!...

GONÇALO

Não falta. (_em voz baixa_) Mas pelo amor de Deus, sr.^a morgada, não lhe diga isso...

D. FELICIA

Isso o quê?

GONÇALO

Que lhe faz falta por não ter outro. É capaz de se declarar mudo... se não fizer peior!

D. FELICIA

Sempre lhe digo que tem um tal genio, o cadetinho!

GONÇALO

Desculpe-o. Não é poeta como os outros.

D. FELICIA

Fazem-se sempre assim. Em ganhando fama!... (_como em confidencia ao commendador, que veiu dar-lhe o braço_) É a novidade, que eu cá para mim acho mais chiste ao padre Braz... e mesmo ao Caldas.

COMMENDADOR

Pois tem dúvida!--Chamarem áquillo poeta!...

D. FELICIA

Ai! nem tanto!... (_Saem_.)

(_Vão saindo todos_. _Fica em ultimo logar Gonçalo Mendo com D. Maria Joanna pelo braço_.)

GONÇALO (_em quanto os outros saem_)

Que me diz ás nossas assembléas? Francamente, lembra-se com pena do seu Paris?

D. MARIA JOANNA

Pensa que não há ridiculos tambem? Não tenho pena! Vaidades? Ólhe a lucta de Marmontel e do abbade Arnaud por causa de Gluck e do Orlando. Vicios? Ólhe o processo do cardeal de Rohan o anno passado, a prisão da condessa de la Mothe, e as negras machinações de Cagliostro!... Se visse o que de lá me escrevem!

GONÇALO

Devéras; não lhe dão saudades?

D. MARIA JOANNA (_gentilmente_)

Cada vez menos.

GONÇALO (_transportado_)

Oh!... Quando poderei eu ter esperanças?

D. MARIA JOANNA (_como acima_)

Não começou já?

SCENA V

OS DITOS, BOCAGE (_da E._)

GONÇALO (_vendo Bocage_)

Ah!... Ahi chega o nosso poeta. Permitte-me que lhe falle em quanto vão ao seu chá? (_conduzindo-a á porta da outra sala_.)

D. MARIA JOANNA

Permitto que vá da minha parte agradecer-lhe.

SCENA VI

GONÇALO _e_ BOCAGE

BOCAGE

Pelo que vejo parece-me que lhe posso dar os parabens.--Pois dou, e de todo o coração. É mais do que formosa a sr.^a D. Maria Joanna... é mais do que discreta... é uma alma grande, d'essas que é fortuna encontrar. Como ella se despojou facilmente e alegremente da maior parte dos bens, que desde pequena tinha como seus!

GONÇALO

É o menos, isso. Era dever: bastava. Tem raras qualidades em tudo... por isso a adorava já de longe...

BOCAGE

Ah! confessa?

GONÇALO

Posso confessal-o... agora.

BOCAGE

Porque a adora... de perto. Foram então a proposito os parabens!

GONÇALO

Os parabens, ainda não.

BOCAGE

Mas não podem tardar.

GONÇALO

Mais caso de parabens é o seu. A transformação da menina da casa engrandece o objecto das suas predilecções. Em vez da humilde afilhada, pobre e dependente, acha uma boa familia e uma rica herdeira!

BOCAGE (_despedidamente_)

Por causa d'isso estive para não vir!

GONÇALO

Porquê? Não lhe tem já amor? Bem me dizia então...

BOCAGE

Dizia mal... O que lhe dizia não se entendia com esta!... Não lhe tenho já amor? Tenho. E bem devéras, e bem de dentro... De certo o primeiro da minha vida... e... quem sabe?... talvez o ultimo! Mas o que provocou este amor desappareceu. Foi-se o que lh'o fazia grato, o que m'o fazia generoso. Foi-se-lhe com a condição, foi-se-lhe com a orphandade.

GONÇALO

Se tem esse modo de encarar as coisas...

BOCAGE

Poucos me hão-de entender. Poucos me entendem com effeito. Mas entende-me o sr. Gonçalo Mendo... Sei já que entende.--Rica! Rica? E eu que lhe levo em troca?... Dirão que lhe procuro a riqueza!... Dirão que fiz do affecto um pretexto, do carinho um degrau, da paixão uma usura!... «A poesia áquelle serviu», repetirá contente por ahi a turba vilan dos malevolos e dos zoilos... Arrendou-a por contrato... poz a lyra a juros... vende mais caro o coração que as obras.»--Dirão isto, dirão... e Deus sabe o que mais... E o grande numero crê... e não poucos applaudem...--Vender-me, eu!... Eu, Bocage!... Vender o coração! vender a musa!... esta musa indomita e indomavel!... Oh! basta que o suspeitem!

GONÇALO (_calorosamente_)

Pois a taes considerações sacrifica a felicidade? Pois...

BOCAGE

A felicidade?... Seria... Aqui presinto que era... Mas o orgulho a sublevar-se-me de continuo!--Resistiria a felicidade a similhante procella?--Podia a donzellinha modesta ser a estrella pollar do poeta sem graus nem haveres... Podia em quanto era o infortunio... Deixou de ser a constellação melancholica das noites saudosas; fez-se o astro d'oiro dos dias refulgentes!... Era... era a felicidade no amor casto, no puro enlevo... Veiu a fatalidade, e levantou em seu logar o idolo das multidões.--Esse não póde ser o idolo de Bocage!

GONÇALO

Tudo exagera... tudo leva ao extremo. É de condição distincta. Casando com a herdeira, póde desafogadamente cultivar o talento, aproveitar o estro, e servir a patria... O que recebe em fortuna, paga-o em gloria!

BOCAGE

Bocage casar! Casar eu!... Curvar o collo a esse jugo!... roxear os pulsos com esses grilhões! Sujeitar-me a esse perenne captiveiro!... Eu!... Que mal me conhece!--É pouco para mim o ar e o espaço... Toda a idéa de sujeição me opprime como as grades de um carcere... Alexandre de Macedonia, no auge do poder, visitou em Corintho o philosopho que da miseria extrema fazia officio e gala.--«Pede sem receio. Que queres de mim?» disse o grande conquistador.--«Que te affastes d'ahi, para me não tirar o sol,» respondeu o festivo indigente. Tenho alguma coisa do espirito d'esse philosopho... Acima de todas as venturas ponho uma... a verdadeira, a maior, a superior, a unica... a minha independencia!

GONÇALO (_severamente_)

Que quer então fazer? Desvalida ou abastada, a menina da Torre da Palma é uma flor de candura.--Quer-lhe inutilisar sem fito os breves annos juvenis?... Quer-lhe immolar a mocidade?... A quê?... Ainda ha pouco estava ahi um pobre moço, penando por ella que fazia dó... penando uma paixão sincera e sem egoismo. Sabe quaes são os intentos d'esse mancebo? Deixar o lar e a patria... só para não vêl-a indifferente!...

BOCAGE (_arrebatado_)

Quem é?

GONÇALO

Conhece-o já... É o filho de Manuel Simões, que se doutorou ultimamente.--É um rapaz honrado... é rico tambem... e começa uma carreira estimada. Podia fazel-a feliz... e fazia de certo. Com que direito a priva se não póde compensal-a? Julgaria elle destino invejavel o que o sr. Bocage reputa insupportavel prisão!

BOCAGE (_pensativo_)

E ella?

GONÇALO

Ella, a pobre innocente, sabe lá!--Diga-me, o que quer fazer?

BOCAGE (_pensativo_)

Não sei. (_reparando para dentro_) É o morgado da Gesteira, e o commendador de Monsarás, que vejo na outra sala?

GONÇALO

São.

BOCAGE

Aqui? ambos!

GONÇALO

Ambos.--A sr.^a D. Maria Joanna deseja formalmente que se não falle do que se passou com elles em casa do mercador. E tem rasão. Impõe-lhe este dever a delicadeza. Não podemos publicar a parte vergonhosa, que tiveram no caso, sem dar occasião a divulgarem elles a fraqueza do capitão-mór.--Isso quer evitar a sr.^a D. Maria Joanna por attenção á memoria de seu tio. Calando nós, calam-se forçosamente os dois. Que estamos todos na resolução de nos calar, já o Commendador percebeu, e d'ahi tiram ambos a audacia.--Comprehende agora o nobre silencio da sr.^a D. Maria Joanna, e a presença do Commendador e do Morgado?

BOCAGE