Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos
Part 7
Viu-se nunca uma coisa assim! Ainda em cima! É ella que me faz a vontade!... (_passeiando agitado_.) Quem me havia de dizer?... Com aquelles modos innocentes... Ah! mulheres, mulheres! O que são as mulheres!... Que heide agora fazer? Queria-lhe mais que á vida, mas humilhar-me, não... Embarco... é o verdadeiro... Embarco... vou para longe. Tomára eu uma vida em que nem ouvisse fallar de mulheres... Meu pae não consente de certo... Ah!... Meu padrinho... Vou hoje mesmo fallar a meu padrinho para que me alcance...
SCENA VI
FRANCISCO _e_ MANUEL SIMÕES
MANUEL SIMÕES (_á porta do escriptorio_)
Falta a escriptura do arrendamento da Carvoíça. Tenho-a na carteira do armazem... Trago-a já.
FRANCISCO (_correndo ao pae_)
Meu pae, quer-me ouvir.
MANUEL SIMÕES (_complacente_)
Ai! é o sr. doutor... Deixa-me que estou com pressa.
FRANCISCO
São duas palavras. Pensei melhor. Escusa de fallar á sr.^a D. Felicia... Não caso já com a afilhada.
MANUEL SIMÕES (_indignado e attonito_)
Que é isto! Então assim se fazem e se desfazem essas coisas! «Dei-lhe palavra!... Já não caso!...» Assim zomba de seu pae, sr. Francisco Pedro!... Cuida que por ter o grau, já não sou quem sou?... Desembargador do paço que fosses, não consentia que me faltasses ao respeito... Já não casas!... Agora?... Depois de te formares, que era só o que faltava!... Tinha que ver!... Costumei me a considerar a pequena como filha!... E não sabes tambem que já dei uns longes á morgada?... (_Entra o commendador_.) Queres que passe por um catavento n'aquella casa, que por fim de contas é uma casa honrada!... Pensasses antes.--O dito, dito: casas... Queiras ou não queiras, has de casar!
SCENA VII
OS DITOS _e o_ COMMENDADOR
COMMENDADOR (_intervindo a Manuel Simões_)
Faça a vontade a seu filho. (_a Francisco_) Descance que não casa.
MANUEL SIMÕES (_furioso_)
Quem diz que não casa?... (_vendo o commendador, e moderando-se_.) Ah! é o sr. commendador... Se fosse outro!... Isto são coisas de familia... V. s.^a não sabe...
COMMENDADOR
Sei... e hade chegar-se á razão.
MANUEL SIMÕES
Pois eu na minha casa, não posso...
COMMENDADOR (_tomando-o de parte_.--_Francisco affasta-se_)
O padre Ignacio deseja que se não faça este casamento.
MANUEL SIMÕES (_respeitosamente_)
O padre Ignacio!
COMMENDADOR
Bem sabe o que lhe deve, e o que deve aos padres da Companhia!... O irmão Simões não quer desobedecer decerto... e fazia mal se desobedecesse, que o nome acabou, mas o poder hoje revive!
MANUEL SIMÕES (_fitando-o aterrado_)
O sr. commendador tambem é?... (_o commendador faz-lhe signal de silencio: a meia voz_.) Os padres sabem que nunca desobedeço... Mas que interesse pódem ter...
COMMENDADOR
Não é preciso que o saiba.
MANUEL SIMÕES
E quem me assegura...
COMMENDADOR
Que o não engano? Veja este bilhete. (_dá-lh'o_.)
MANUEL SIMÕES (_lendo_)
«Faça quanto lhe disser o sr. commendador de Monsarás.--Padre Ignacio!» (_resignado_.) Não casará.
COMMENDADOR
Agradeça a seu pae, que por minha intercessão lhe faz o gosto.
MANUEL SIMÕES (_comsigo_)
Com esta gente nem pae se póde ser!...
FRANCISCO (_humilde e tristemente_)
Meu pae...
MANUEL SIMÕES
Está bom, está bom... O sr. commendador deseja mais alguma coisa?
COMMENDADOR
Tenho ainda que lhe fallar a respeito do negocio de um amigo meu, que hade aqui vir ter commigo.--Está occupado agora?
MANUEL SIMÕES
Estava ajustando umas contas, e confesso que muito desejo concluir.
COMMENDADOR
Conclua, conclua. Não tenho pressa, e o meu amigo ainda não chegou. Esperarei, se m'o permitte.
MANUEL SIMÕES
Está em sua casa. Dando-me licença, vou acabar. (_comsigo_.) E o tempo que já tenho perdido!... (_como occorrendo-lhe_.) Olha, Francisco... Vae lá abaixo ao armazem... abre a carteira... aqui tens a chave... (_dá-lha_) hasde achar ao canto da direita um masso pequeno, atado com um nastro encarnado. Manda-m'o aqui ao escriptorio, e a chave tambem... Pódem vir de roda para não incommodar o sr. commendador e o seu amigo, se já tiver chegado. (_Francisco sae_. _Para o commendador_.) Aproveito o obsequio, e abreviarei o que poder.
SCENA VIII
COMMENDADOR _só, pouco depois_ MORGADO
COMMENDADOR (_saboreando uma pitada_)
Bem diziam os escriptores da gentilidade: estavam fóra de si os deuses quando inventaram o homem, e mal recobraram o tino desataram a rir pondo os olhos na sua obra. Tudo n'elle é vão. _Vana mortalitas_, como lhe chamava Plinio, o Historiador. Movem-se por um fio... (_sentando-se_) Tudo está em saber-lho atar. (_Entra o morgado esboforido e derreado_.) Chega a proposito, morgado... ia-me tardando... Que é isso?... Teve alguma coisa?... Aposto que fez das suas... Não quer domar esse genio!...
MORGADO (_lisongeàdo_)
Não posso. Muitas vezes quero ter mão em mim... mas qual... todo eu sou fogo.
COMMENDADOR
Deixe, deixe. «Casarás, amansarás!»--Foi briga, pendencia, rixa, desafio?... Pois nem pensando em sua prima, deixa descançar a espada! Quer ser como Lucio Licinio Dentato, que oito vezes em repto singular saiu vencedor á vista de dois exercitos?...
MORGADO (_mais lisongeado_)
Cada vez o vejo mais: o commendador é um amigo devéras... um amigo como ha poucos...
COMMENDADOR (_sorrindo_)
Ainda agora dá por isso!--Homem, é boa a fama de valente para captivar as damas, mas nem tanto que assuste. Brigou?
MORGADO
Nada. (_com fatua arrogancia_.) Não acho já quem queira.
COMMENDADOR (_comsigo_)
_Miles gloriosus_!
MORGADO
Quê?
COMMENDADOR
Estou morto por saber o que teve... que o morgado não vinha no seu natural.
MORGADO
Que havia de ser?--Esta manhã, para matar o tempo, fui até á feira das cavalgaduras... alli pela banda do nascente do passeio... Bem sabe o meu fraco. Estava na barraca dos juizes, segundo o costume... Tudo entendedores de mão cheia... Não sei como se passou o tempo... o caso é que deram dez horas... Era a hora a que tinhamos ajustado o nosso encontro aqui... Despedi-me á pressa... instaram-me que ficasse... Se elles não pódem passar sem mim! Foi preciso dizer-lhes que tinha que fazer na baixa, e era tarde já... O Domingos Sanches... aquelle polvorista rico... Decerto conhece... (_gesto negativo do commendador_.) Ora, não conhece outra coisa!... O Domingos Sanches quiz por força que viesse no seu lasão... um lasão melado... bonito animal... mas de maus signaes... gazio dos olhos, e bebendo em branco... «Não és boa peça, não,» disse eu logo commigo... «esperem que vão ver o que é o morgado da Gesteira a cavallo!...» (_enthusiasmando-se_.) Estava tudo attento... Monto... como eu costumo montar... O cavallo, apenas me sente, começa a defender-se, e a negar-se... Eu aperto-lhe as esporas... Elle atira dois saltos encabritados... Eu cozo-me com a sella... Elle furta-me o corpo...
COMMENDADOR (_depois de breve pausa_)
E depois?
MORGADO
Depois... caí!
COMMENDADOR (_erguendo-se, sem poder suster o riso_)
Caiu?... Cuidei... Caiu!...
MORGADO (_mais enthusiasmado_)
Mas como eu cai!... com todos os preceitos... Ficou tudo pasmado!
COMMENDADOR
Creio, creio... E o cavallo?
MORGADO
Fugiu.--Para não perder tempo, vim ás carreiras... Ahi tem a razão da demora.
COMMENDADOR
Bem empregada foi, visto que lhe proporcionou triumpho similhante.--Tacito conta que Julio Cesar, o fundador do imperio, tambem caiu d'um cavallo... Provavelmente caiu assim.
MORGADO
Favores, favores.--E a respeito do meu negocio? Fallou já a Manuel Simões?
COMMENDADOR
A respeito do seu negocio ainda não. Está ajustando umas contas, não tarda. E primeiro temos nós que fallar, porque emfim... (_Sussurro na rua_.--_applicando o ouvido_.) Espere. Não ouve?
MORGADO
Oiço. Parecem gritos de agarra! (_Chegam ambos á janella do 2.^o plano, e debruçam-se para ver_.)
SCENA IX
OS DITOS, MANUEL SIMÕES, _e_ D. MARIA JOANNA (_á porta do escriptorio_)
MANUEL SIMÕES
Enganou-se o Francisco. Não era aquelle o arrendamento... (_vae a avançar, e detem-se vendo os dois_) Ai! que já me não lembrava.
D. MARIA JOANNA (_rapidamente_)
É o commendador Louzéllos, e o morgado da Gesteira?
MANUEL SIMÕES
São.
D. MARIA JOANNA
Quizera esquivar-me ás suas importunidades.
MANUEL SIMÕES
Não a viram. Póde esperar no escriptorio... O peior é que talvez tenha de me demorar um pouco. São horas de enfardar as fazendas, e...
D. MARIA JOANNA
Vá, vá... Não tenho pressa. Espero.
MORGADO (_attento para fóra_)
Vê o que é?
COMMENDADOR
São os rapazes a correr... Ah! agora... É um cavallo solto... e é lasão... Será o tal?
MORGADO (_affirmando-se_)
É, é!
MANUEL SIMÕES (_rapidamente a Maria Joanna_)
Se lhes não quer fallar...
D. MARIA JOANNA (_fechando a porta_)
Até logo. (_fecha vivamente a porta_.)
SCENA X
OS DITOS, _menos_ D. MARIA JOANNA
MORGADO
E como elle se leva! Não o apanham, não.--Já se não vê.
COMMENDADOR (_voltando tambem e rindo_)
Em vez de vir o Morgado atraz do cavallo, veiu o cavallo atraz do Morgado. (_vendo Manuel Simões_) Ah! Sr. Manuel Simões! Acabou já as suas contas?
MANUEL SIMÕES
Ainda não. São horas de carregar as fazendas que hão de embarcar ao meio dia, e se eu não assisto... Não tendo v. s.^a coisa de maior urgencia... Na minha vida não se póde perder um instante!...
COMMENDADOR
Já lhe disse que o não quero estorvar.--Sei o que é a lida de uma casa, no ponto a que chegou a sua... (_intencionalmente_) Vamos, que lhe não tem corrido mal... Passei ainda agora pela loja, e vi a azafama que por lá ia... Uma fileira de carros á porta, e um deitar abaixo de fazendas das prateleiras, que era um terramoto!
MANUEL SIMÕES (_cobrindo o rosto com as mãos_)
Um terramoto!... Jesus! Santo nome de Jesus, sr. Commendador! Pelo amor de Deus, não diga essa palavra diante de mim! Já lá vão trinta annos, e ainda me parece ver as torres da Sé a dançar!... E a minha casa!... E a minha pobre mulher, a primeira, que alli ficou!... E toda essa ira de Deus!... (_benzendo-se_) Em nome do Padre, do Filho, e do Espirito Santo!... Todo eu me arripio ainda.
COMMENDADOR
Tem razão... não direi mais... Mas o que lá vae, lá vae! E dê graça a Deus (_intencionalmente_) pelas boas protecções que tem tido!
MORGADO (_cumprimentando obsequiosamente_)
Sr. Manuel Simões!
MANUEL SIMÕES (_seccamente_)
Viva, sr. Morgado! (_ao Commendador_) É o amigo que esperava?
COMMENDADOR
Em pessoa.
MANUEL SIMÕES (_ao Commendador_)
D'aqui a meia hora, o mais, estou ás suas ordens.
COMMENDADOR
Não se apresse... Temos tempo.
SCENA X
MORGADO _e_ COMMENDADOR
MORGADO
Vê como elle me trata? Oh! que se não fosse...
COMMENDADOR
Quando estiver de posse da casa de Carregueiros, faça-lhe o mesmo.
MORGADO
Oh! isso!... E ha-de ser quanto antes. Estou resolvido a acabar de vez com estas incertezas e duvidas de minha prima. Tenho o remedio na mão.
COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)
Tem?... (_indo examinar a porta do F. e a da D., 2.^o plano, e depois voltando_.) Ninguem na casa de fóra, nem no corredor... Estamos sós e á vontade... Podemos conversar um pedaço.--Com quê... resolveu casar com sua prima quanto antes? Faz muito bem. Casar, e casar rico, era já conselho de Plauto. _Nubere in divitias_!
MORGADO
Faço muito bem? É devéras a sua opinião, Commendador?
COMMENDADOR
Pois porque não há de ser?
MORGADO
Quer que lhe diga uma coisa?
COMMENDADOR
Diga.
MORGADO
Andei muito tempo desconfiado... Loucuras minhas, agora vejo!... Uma pessoa prudente e de juizo, como o commendador?...
COMMENDADOR
Diga sempre. De que andou desconfiado?
MORGADO
Tinha-me querido parecer que se inclinava a galantear tambem minha prima.
COMMENDADOR (_tranquillamente_)
Não se enganou.
MORGADO (_sobresaltado_)
Não me enganei?
COMMENDADOR
Socegue. Passou-me isso pela cabeça na jornada em que a acompanhei de Paris... Mas reflecti depois.--Socegue. Já lá vae.--Escreveu-me um antigo conhecimento de Santa Clara.
MORGADO (_malicioso_)
Ah! chegaram-lhe lembranças dos doces e da grade!
COMMENDADOR
Reflecti... dês que o encontrei.
MORGADO (_lisongeado_)
Dês que me encontrou?
COMMENDADOR
E principalmente quando o conheci a fundo. Cada vez tenho por mais seguro que ninguem convem tanto a sua prima... nem a mim.
MORGADO (_admirado_)
Nem ao Commendador?
COMMENDADOR
Reflecti muito.--Sua prima está ainda no calor da mocidade, não lhe ficaram as melhores impressões do primeiro matrimonio, e ha-de querer indemnisar-se... O segundo marido leva grande responsabilidade e grandes trabalhos!... Eu, o que preciso é descanço... Mesa substancial, o meu copo do Porto velho, os meus livros... e uma boa sege á bolea. A doirada mediania, de que falla Horacio Flacco, o Venusino.--N'isto assentei... e veja como o tenho ajudado.
MORGADO (_convencido_)
Assim é, assim é. Realmente, não sei como lhe hei de pagar tantas obrigações!
COMMENDADOR (_sorrindo_)
Ah! isso não lhe dê cuidado.--O Bocage não o affronta já: está todo captivo da afilhada de D. Felicia... E a afilhada de D. Felicia... não lh'o prognostiquei?... deu já de mão ao filho do mercador. O tenente, de um momento para o outro... D'esse depois se tratará, sendo preciso.--Bem vê como lhe abro praça, e o deixo só em campo tornando-lhe facil a victoria. (_vae sentar-se á E._)
MORGADO (_recuando com uma especie de terror_)
E tudo por amizade!
COMMENDADOR
A amizade é o meu fraco. Chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que importa. (_O morgado senta-se-lhe ao pé_.) Manuel Simões não parece muito disposto a dar-lhe ao cincoenta moedas de que me disse precisava infallivelmente.
MORGADO
E preciso. Que faria eu diante de minha prima sem real?
COMMENDADOR (_preparando a caixa para tomar uma pitada_)
Mau era na verdade... Mas a Gésteira, que nunca chegou para muito, já não dá para mais... As vinte moedas, qne lhe arranjei o anno passado, foram-se n'um instante á banca, e ao loto de Génova... Manuel Simões sabe tudo isto perfeitamente, vê-o afogado n'um diluvio de hypothecas, e não é homem que deite o seu dinheiro pela janella fóra... (_offerecendo-lhe a caixa_) Toma?
MORGADO (_erguendo-se consternado_)
Mas então como ha de ser? Se me mandou vir aqui só para me dizer isso!...
COMMENDADOR
Hade ter as cincoenta moedas; abono-o eu.
MORGADO (_sentando se e abraçando-o_)
Isto é que é um amigo.
COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)
Que rendimento terá a sr.^a D. Maria Joanna? Já averiguou?... Hade ter averiguado.
MORGADO
Só da casa de Val-Moreno, que recebeu pela mãe, anda por cinco mil cruzados.
COMMENDADOR (_offerecendo-lhe tabaco_)
Serve-se? (_Morgado tira machinalmente uma pitada_.) É isso.--Quanto aos vinculos de Fresnos e Carregueiros... que lhe tocaram por parte do pae, e que o pae tinha herdado de seu irmão o Capitão-mór, marido de D. Felicia, que morreu sem filhos... quanto aos vinculos de Fresnos e de Carregueiros, deve andar cada um para mais ainda... principalmente o de Carregueiros.
MORGADO
Não tem menos de quinze a dezeseis mil cruzados ao todo. Mas a que proposito...
COMMENDADOR
Calculos necessarios. Vinte moedas em junho passado, cincoenta agora, fazem setenta... que o morgado vem a dever-me.
MORGADO (_como protestando_)
Devo, devo... Heide dever, e heide pagar... juro-lhe. Juro por... pela cruz da minha espada.
COMMENDADOR
Se podesse jurar por outra coisa!
MORGADO (_offendido_)
Duvída?
COMMENDADOR
Ha viver e morrer.--Homem, a commenda, bem sabe, apenas me chega para viver com decencia... e parcimonia.--Suetonio, e outros auctores, louvam a parcimonia como virtude; mas Terencio tem que a dureza da vida não é para gente adiantada... e eu sou da opinião de Terencio!--O morgado não ha-de querer que perca assim setenta moedas!
MORGADO (_desconfiado_)
Deseja alguma segurança?
COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)
Quasi nada. O morgado faz-me uma escriptura de divida de trinta mil cruzados!... e sou eu que lhe hei-de pôr a data!
MORGADO (_erguendo-se de subito e exclamando furioso_)
Trinta mil cruzados! Dois annos de rendimento da casa de minha prima!...
COMMENDADOR (_tranquillamente_)
Não grite.--Ólhe se estivesse ahi alguem perto?
MORGADO (_contendo mais a indignação_)
Trinta mil cruzados para pagar setenta moedas!
COMMENDADOR
Quem lhe diz isso? Para deitar sege, e ter honradamente as commodidades que me faltam.--Oiça, e entre na razão. Desistindo de aspirar á mão de sua prima, renuncio áquella riqueza toda. Não tem valor isto? E faço mais; trabalho para desafogal-o de rivaes perigosos... perigosos, podemos dizel-o entre nós. Não merecerão estes serviços trinta mil cruzados? Contou bem. São dois annos do rendimento de sua prima. Póde pagar em quatro. Fica-lhe ainda metade. Veja quem lh'o fazia por menos.--Não recuse, ou ponho-lhe quarenta por condição.
MORGADO
Por condição?
COMMENDADOR
Por condição. E hei-de obtel-a.--Ha condições de muitas especies. No codigo de Justiniano, e nos cincoenta livros dos Pandectas, que lhe servem de commentario...
MORIGADO (_atalhando-o desesperado_)
Quaes Pandectas nem qual Justiniano! Esse pinhal de auctores e de latins, é um pinhal da Azambuja. (_passeiando agitado_) Trinta mil cruzados!... Nada, não me deixo roubar... Tão tolo era eu que assinasse similhante escriptura!... Poem-me condições!... a mim!... Sempre quero vêr!...
COMMENDADOR (_cruzando a perna tranquillamente e tirando um papel do bolso_)
Hade ver.
MORGADO
Poem-me condições!... E d'essas!... É muito caro o seu auxilio, commendador. Dispenso-o. Tenho outro modo de convencer minha prima, mais seguro e mais barato.
COMMENDADOR
Mais barato, duvido.
MORGADO
Verá.
COMMENDADOR
O seu famoso segredo?
MORGADO
Verá.
COMMENDADOR (_socegadamente_)
Pois então experimente. (_O morgado pára e fita-o_.) Vá dizer a sua prima: «Prima, tenho aqui uma declaração, que me entregou nos ultimos momentos a Simôa da Torre da Palma...» É provavel que a traga no bolso... (_O morgado leva vivamente a mão ao bolso, como para verificar se lá está o papel indicado_.) Traz, descance!...
MORGADO (_mais tranquillo_)
Conjecturas para pescar verdades... O ardil é velho.
COMMENDADOR
Quer saber o que diz a declaração? (_desdobra o papel que tem na mão_. _Estão ambos attentissimos um para o outro_. _Descerra-se mansamente a porta do escriptorio, e D. Maria Joanna apparece alli, a rapidos intervallos, observando_.)
SCENA XII
OS DITOS _e_ D. MARIA JOANNA (_meia occulta_)
COMMENDADOR (_lendo_)
--«Por temor de Deus, e amor da verdade, eu Joaquina Simôa, familiar da casa da Torre da Palma, tendo presentimento de que me chegará breve a hora de dar contas, e não querendo condemnar a minha alma, declaro o seguinte, que n'esta hora confirmo com juramento aos Santos Evangelhos, em presença do reverendo padre cura de Vayamonte, e por sua exhortação e conselho...» (_O morgado, primeiro attonito, depois aterrado, tem tirado do bolso a outra declaração, como para comparar com o que ouve, e parecendo duvidar ainda_.) É exactamente isto?
MORGADO
Ou o commendador tem parte com Satanaz... ou é verdade o que dizem!
COMMENDADOR (_negligentemente_)
Então que dizem?
MORGADO
Dizem que é um jesuita... dos que não trazem roupeta.
COMMENDADOR (_severamente_)
Sr. morgado, não repita levianamente as maledicencias do vulgo, que se póde arrepender!--Quer verificar o resto da declaração? Conta n'ella a Simôa:--como estando já separada do marido a morgada da Torre da Palma, a filha della Simôa adoecéra;--como o capitão mór, em casa de quem a mesma Simôa nascêra e se criára, a reduzira a prometter-lhe que, se a creança morresse, lhe substituiria a filha d'elle e de D. Felicia, e faria passar por morta a herdeira, tudo isto para que os bens de Carregueiros passassem a varão;--como o escudeiro Luiz Manuel fôra mandado administrar uma herdade da casa ao pé de Olivença, até á morte do Capitão-mór, para que nem elle soubesse do segredo, de que a mulher ficava unica depositaria;--finalmente como a Simôa, levada das obrigações que devia á casa do Capitão-mór, tivera a fraqueza de ceder, e criára como sua a filha de D. Felicia, até que esta a mandou buscar já crescida cuidando ser a afilhada.--Está tudo claramente explicado, e devidamente datado e assignado.
MORGADO (_subjugado_)
Essa declaração passou das mãos da Simôa ás minhas... nunca a mostrei... nunca a larguei... Como é possível sem ser por artes sobrenaturaes...
COMMENDADOR
Tem innocencias!--Dei uma volta a Vayamonte. O cura é... É meu amigo. Não me podia negar a minuta do papel que elle mesmo escrevêra. (_sentando-se de novo_) Como iamos dizendo... O morgado vae a sua prima... mostra-lhe esse documento, e diz-lhe: «a supposta afilhada de sua tia D. Felicia é sua prima direita, e herdeira da casa de seu tio Capitão-mór. Este papel e este segredo valem dois terços da sua riqueza. É a unica prova. Se quizer que tal prova desappareça, case commigo. Nada tenho de Adonis; sou um tanto nescio; fallador insoffrivel e farfante rematado.» (_Movimento do morgado_) É tudo isto, é, morgado... e mais alguma coisa. (_Como se proseguisse o discurso do morgado_.) «Mas,--continuará,--rasgando este papel é como se lhe trouxesse em dote os vinculos de Fresnos e de Carregueiros.» O argumento conclue. Entra na ordem d'aquelles a que Cicero chamava: _argumento premente_. Ora como o tenente Gonçalo Mendo não é ainda coisa certa, e como ninguem perde de vontade dez mil cruzados de renda, sua prima fecha os olhos, convence-se, e o morgado casa. Com isso conta, e faz bem em contar. Nada mais solido, mais engenhoso e brilhante. Que pena, se apparecesse esta minuta, e pela data se visse que o sr. morgado tem ha oito mezes em seu poder a declaração, sem a entregar!... Era deitar tudo a perder!--Verdade, verdade; não vale quarenta mil cruzados?
MORGADO
Quarenta agora!...Trinta!...Tinha dito trinta!...
COMMENDADOR (_abrindo a caixa_)
Tinha? Enganei-me. Quem se não engana? Lucio Floro, da nobre familia dos Anneanos, conta que um engano decidiu uma batalha, e Seneca chama-lhe _allucinatio_ para mostrar a perturbação mental que o determina (_voltando-se mesmo sentado, inclinando-se sobre a esquerda, como para evitar que a pitada que vae sorver lhe macule a tira_.) Foram quarenta, nem menos um real... E se hesita...
MORGADO (_acudindo_)
Não hesito... Assigno-lhe a escriptura.
D. MARIA JOANNA (_que se adiantára sem que os dois, absorvidos na conversação a presentissem, apresentando-se entre ambos com jovial placidez_)
E eu sirvo de testemunha!
COMMENDADOR (_erguendo-se sobresaltado_)
A sr.^a D. Maria Joanna Galvão aqui!
D. MARIA JOANNA (_com o mesmo modo prazenteiro_)
Porquê? Não sou interessada?
MORGADO (_enleiado_)
A prima, naturalmente, não sabe ainda...
D. MARIA JOANNA (_atalhando como transfigurada, com grave altivez o severa dignidade_)
Sei... Sei que o sr. morgado da Gésteira me entrega immediatamente esse papel... e o sr. commendador esse tambem!
SCENA XIII
OS DITOS, BOCAGE _e_ GONÇALO MENDO, (_apparecendo ao F. e detendo-se a observar_)
MORGADO
Ha de perdoar, prima. Este papel foi-me confiado.
D. MARIA JOANNA (_como acima_)
De que modo correspondeu á confiança?--Esse papel é o allivio d'uma saudade, a consolação de uma familia, a restituição d'um patrimonio... Esse papel é a consciencia e o dever. Tem direito de o conservar nas suas mãos?
COMMENDADOR (_de parte ao morgado_)
Não ceda. Se fica ella com a prova, fica o morgado sem o casamento!
D. MARIA JOANNA (_sem os perder de vista_)