Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos
Part 6
COMPADRE ANASTACIO (_impondo-lhe silencio_)
Mais devagar, compadre, mais devagar, que o Bernardo é familiar do Santo Oficio... como alguns fidalgos!
MORGADO (_do outro lado, ao commendador olhando para a janella dum 2.^o andar_)
Lá está uma palmilhadeira do meu conhecimento, no 2.^o andar, mesmo por cima da casa do mercador... (_depois de reflectir, como achando_) Ah!
COMMENDADOR (_ironico_)
Teve alguma lembrança feliz?
MORGADO
Tive. (_olhando para a D._) Cá vem o rancho outra vez! (_D. Felicia e D. Maria Joanna apparecem a uma das janellas do 1.^o andar da esquina_. _Maria Gertrudes a outra_. _Enchem-se as janellas_.--_Affluem suecessivamente os grupos_.) Verá Verá que vergonhaça!... Digam que não sei varar um gamo, nem pegar n'uma espada, nem determinar uma mesa, se o poeta não fica hoje corrido!... (_Sae precipitadamente pela D. dobrando a esquina_. _O commendador vê-o sair, encolhe os hombros desdenhosamente, e mette-se por entre os grupos_. _Compadre Theotonio e compadre Amancio giram na turba_. _Entra Bocage e os poetas_. _O grupo d'estes fica sobresaindo_.)
SCENA XIV
BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, COMMENDADOR, COMPADRE AMANCIO, COMPADRE THEOTONIO, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA _e_ MARIA GERTRUDES, (_nas janellas_) DAMAS, POVO.--(_Grande animação_)
1.^o POETA
Oh! agora está já tudo pelas janellas. Vamos, quem rompe?
BOCAGE
Eu não... Logo.
2.^o POETA
Rompo eu. (_para as janellas_) Mote... Venha mote, minhas senhoras!
(_Grupam-se todos curiosamente para ouvir_.)
D. FELICIA
Essas peraltas de agora, Eu não sei d'onde lhes vem.
2.^o POETA (_repetindo_)
Essas peraltas de agora... Eu não sei d'onde lhes vem.
(_Fica por momentos pensativo_.)
BOCAGE (_ao 1.^o poeta_)
Foi a morgada que deu o mote?
1.^o POETA
Foi. (_ao 2.^o Poeta_.) Glosa-lh'o ao geito, se queres que te applauda, a tartaruga!
2.^o POETA
Deixa. (_batendo as palmas_) Lá vae:
Cambrayas, sedas, matizes; Vermelhas capas bem fartas Forradas de pelles martas; Bons vestidos de paizes; Filós, rendas, pertiguizes; Sécias tudo, e a toda a hora; Sempre em visitas por fóra; Conhecendo toda a gente: Eis-aqui, succintamente, «Essas peraltas de agora;»
1.^o POETA (_interrompendo_)
Bravo!
D. FELICIA (_applaudindo_)
Bravo! Bravo!
BOCAGE (_de parte ao 1.^o poeta_)
Não é glosa: é rol da roupa!
2.^o POETA (_continuando_)
No dia cinco e seis vezes Correm, sem que isto as affronte, Dos perfumes do _Le-Conte_ Ás lojas dos genovezes; Não faltam nos entremezes; De casa, nem um vintem; Trazem fiado o que tem E na roca não põem mão: Ou é milagre, ou então «Eu não sei d'onde lhes vem!»
D. FELICIA (_debruçando-se encantada e applaudindo_)
Bravo!... Lindo!... Bravissimo... Uma suspensão!... uma suspensão!
(_Alguns applausos nos quaes se distingue Mestre Amancio_.)
2.^o POETA (_a Bocage rindo_)
Que tal?
BOCAGE
Um trocadilho de Luiz de Gongora!
COMPADRE AMANCIO (_como consultando Compadre Theotonio_)
Então?
COMPADRE THEOTONIO (_cheirando_)
Percebeu, compadre?
COMPADRE AMANCIO
Isso é seca, homem! Se percebesse, porque havia de applaudir?
VOZES (_no povo, que, olhando á E., se afasta como para dar logar_)
Olha! Olha! É o volantim do nosso Marquez.
COMPADRE AMANCIO
O volantim do Marquez... De qual Marquez?... (_olhando_) Ai! é o do sr. Marquez de Marialva! (_o volantim, passa, e dirige-se rapidamente á casa da D., que dobra_.) Lá vae... Como elle vae!... (_a onda do povo dirige-se para aquelle lado, como para observar_. _Compadre Amancio precede-a_.) Aonde irá? (_Olhando para fora_. _Attonito_.) A casa do mercador Manuel Simões!... Vae... Entrou... (_Voltando ao Compadre_.) Compadre Theotonio, compadre. Grande novidade!... Querem ver que o Marquez vem a casa do Manuel Simões!... (_observando_) Vem... Lá estão já os caixeiros com as tochas á porta, e o patrão no patim!
COMPADRE THEOTONIO
Nós que temos com isso?
SCENA XV
OS DITOS _e_ MORGADO (_que se aproxima procurando o Commendador_)
2.^o POETA
É feliz este Manuel Simões! Compadre do Marquez de Marialva!... e já o foi do outro... Por isso lhe chove a freguezia, que está podre de rico... (_a Compadre Theotonio_.)
COMPADRE THEOTONIO (_a Compadre Amancio_)
O Marquez de Pombal é que era o nosso!
COMPADRE AMANCIO (_baixo e vivamente_)
Cale-se! Quer que nos mettam na inquisição?
1.^o POETA (_ao segundo_)
Não ha nada como negociar!
2.^o POETA
O mau da poesia é não se medir aos covados.
BOCAGE
Estás enganado. N'esse ponto a poesia é como as fazendas da loja. Medidos se querem tambem os versos... e quem peior os mede mais lucro tira.
COMPADRE AMANCIO
Ahi vem o sr. Marquez de Marialva... ahi vem... Traz comsigo o Almeirão e o Gaeta. Olhe, compadre, o Gaeta, que em mettendo o rojão, deita sempre abaixo o toiro!
COMPADRE THEOTONIO
Cá por mim... o Fava-Secca!
COMPADRE AMANCIO
Deixou a sege na travessa, para não atropellar ninguem... Elle sempre é bom de lei!... Viva o nosso Marquez, que é pae do povo!
(_Entra o Marquez, 3.^o Poeta, o Gaeta, o Almeirão, sequito de picadores e escudeiros_.)
VOZES
Viva!
SCENA XVI
OS DITOS, _o_ MARQUEZ, 3.^o POETA _e sequito_
MARQUEZ
Obrigado! Obrigado! (_a um dos picadores_) Toma cuidado, Gaeta. O teu cardão tem um gavarro no pé esquerdo. Sente-se do casco ao bater na calçada. Está em principio ainda, mas se lhe não acodes, vae-se-te o animal, e é pena! (_aos poetas_) Então, tem-se poetado muito?... (_Olhando para as senhoras, que lhe fazem mesura_.) Com taes musas, muito e bem decerto (_a outro picador_). Almeirão, anda-me com tento no tordilho. É um cavallo fino, mas tem pouca escola ainda. Tira pela mão, e não ganhou união nos movimentos. Para praça não está capaz. (_olhando de novo para as janellas_) Oh! lá vejo a Morgada da Torre da Palma, e mais a sobrinha que veiu de França. (_Cumprimenta-as_. _Aos poetas_) É formosa, e dizem que não menos discreta... (_a Bocage_) Oh!... Manuel Maria... Está em Lisboa com licença, sabia já... D'esta vez ainda não foi ver-me a Belem.
BOCAGE
V. Ex.^a estava em Salvaterra.
MARQUEZ
Cheguei esta tarde, é verdade. Quero-o lá um dia cedo... Aqui lhes trago reforço. (_indicando o 3.^o poeta_) Foi esperar-me ao desembarque!
2.^o POETA
Tardava-nos o nosso pastor Albano!
MARQUEZ
Ahi está já o meu compadre Manuel Simões. Hãode me dar licença.--Manuel Maria, espero ter o gosto de ouvil-o hoje. (_Sae com o sequito para o F. acompanhado do grupo dos poetas_.--_As senhoras das janellas do mercador desapparecem momentaneamente_.)
SCENA XVIII
OS DITOS _menos_ MARQUEZ _e sequito_
VOZES
Viva o nosso Marquez! Viva!
MORGADO (_de parte ao Commendador_)
Verá agora a camisa de onze varas em que eu metti o poeta!
COMMENDADOR
Quem! o sr. Morgado? Hade permittir que duvide.
MORGADO (_impondo-lhe silencio_)
Pschiu!--Verá!
(_O grupo dos poetas volta alvoroçado_.)
3.^o POETA (_para as janellas_)
Mote, minhas senhoras.--Venha mote!
A PALMILHADEIRA (_no 2.^o andar_)
Sr. Bocage, sr. Bocage!
BOCAGE (_levantando a cabeça_)
Quem me honra?
PALMILHADEIRA
«O meu amor foi para a India!»
1.^o POETA
India!--Mais parece peça que mote!
MORGADO (_ao Commendador esfregando as mãos_)
Olhe como ficou embuchado!
BOCAGE (_comsigo, surprehendendo-lhe o movimento_)
Já vejo d'onde vem a chufa. (_aos poetas_) Será peça, mas se é, tenho pena de quem a quiz pregar. Seja quem for, é ainda mais asno que tratante.
3.^o POETA
A rima é difficil.
BOCAGE (_desdenhosamente_)
Difficil! Com dois verbos que remedeiam.--Guindar, findar; guinde-a finde-a. (_fitando o grupo do Morgado e do Commendador_) Nem sabem inventar difficuldades! (_Dá-lhes as costas e passa adiante_.)
PALMILHADEIRA
Sr. Bocage: «O meu amor foi para a India.»
BOCAGE (_voltando a cabeça_)
Sim? Pois quando vier... dê-lhe muitas saudades. (_Segue_.)
(_Riso_. _Applauso_.)
COMMENDADOR (_ao Morgado_)
Não lhe dizia eu?
(_As senhoras voltam ás janellas do mercador_.)
3.^o POETA
Mote, minhas senhoras... Mote.
D. MARIA JOANNA
«Ás ondas se lançou Ero formosa!»
(_Bocage aproxima-se; o 3.^o poeta fica meditando momentos_.)
2.^o POETA
O mote é conceituoso.
BOCAGE
É. Dá um banho de mar á formosura!
3.^o POETA (_batendo as palmas_)
«Ás ondas se lançou Ero formosa!»
Cançada de esperar o terno amante, Ero infeliz ao ceu se pranteava, E como que o futuro adivinhava, Aqui e alli corria delirante;
Da aurora em tanto a face radiante, Nos mares pouco a pouco se espelhava, E á frouxa luz ao longe se avistava Sobre ellas um cadaver fluctuante:
A triste vacilava suspirando Nos braços da incerteza suspeitosa, Até que emfim se vae desenganando:
Então, desesperada e lacrimosa, Do caro esposo os manes invocando. «Ás ondas se lançou Ero formosa!»
(_Alguns applausos_.)
2.^o POETA
Bravo, Albano!... Descriptivo e sonoro!
1.^o POETA (_a Bocage_)
Correcto, não?
BOCAGE
Correcto, mas frio. Não admira. Uma paixão que vae por agua abaixo!
2.^o POETA
Mote. Venha mote.
MARIA GERTRUDES
«Os roubos que me fez a má ventura!»
BOCAGE (_vivamente aos poetas_)
Este para mim. (_repetindo immediatamente_)
«Os roubos que me fez a má ventura!»
Eu deliro, Gertruria, eu desespero No inferno de incertezas e temores, Eu da morte as angustias e os terrores Por ti mil vezes sem morrer tolero!
Pelo céo, por teus olhos te assevero Que ferve esta alma em candidos amores: Longe a riqueza, e os seus vãos favores, Quero o teu coração, mais nada quero.
VOZES (_diversas_)
Bravo! Bravo!
BOCAGE (_continuando arrebatado_)
Ah! não sejas tambem qual é commigo A cega divindade, a sorte dura, A varia deusa, que me nega abrigo!
Tudo perdi; mas valha-me a ternura; Amor me valha, e pague-me comtigo «Os roubos que me fez a má ventura!»
(_Grande explosão de applausos_.)
2.^o E 3.^o POETAS
Bravo! bravo, Bocage.
1.^o POETA
Inimitavel!
3.^o POETA
Uma copia!
DIFFERENTES VOZES (_em torno de Bocage_)
Uma copia! uma copia.
COMMENDADOR (_junto a Compadre Amancio_)
Gertruria! Gertrudes!--Dava uma moeda de oiro só por uma copia d'este soneto.
COMPADRE AMANCIO
Uma moeda!... É devéras?
COMMENDADOR
Devéras.
COMPADRE AMANCIO
Aonde lh'a heide levar? (_Commendador diz-lh'o ao ouvido_.--_Misturam-se os grupos, continuando todos a felicitar Bocage_.)
MORGADO (_ao Commendador_)
Quer dar uma moeda de ouro por uma copia d'aquillo! Para quê?
COMMENDADOR
O sr. Morgado tem os seus segredos... Eu tenho os meus!
1.^o POETA (_a Bocage_)
Está aqui um amigo que nos convida a todos para o Izidro á meia noite.
BOCAGE (_rindo_)
Vem a proposito a ceia... para servir de jantar!
(_Ouvem-se á E. os clarins e tambores dos pretos, que logo se afastam_.)
VOZES
As charamellas! As charamellas!
(_Corre tudo á E._--_N'este movimento Bocage fica um pouco isolado_. _Compadre Amancio aproveita a occasião e aproxima-se-lhe_.)
COMPADRE AMANCIO (_tomando-o de parte_)
Sr. Bocage!
BOCAGE (_satisfeito do triumpho_)
Tambem por cá, mestre?
COMPADRE AMANCIO
Venho aqui pedir-lhe um favor, que é quasi uma esmola... O sr. Bocage bem me podia remediar a minha necessidade!
BOCAGE
Diga, mestre!
COMPADRE AMANCIO
Um ginja quer copia d'aquelles versos que recitou ainda agora, e dá por ella uma moeda d'ouro... (_instando_) Podiamos repartir ao meio...
BOCAGE (_atalhando_)
Fique-se ahi, ou estraga o negocio.--Ámanhã lhe dou a copia... se me lembrar ainda. E guarde para si o que lhe offereceram. O sr. mestre póde vender barbas e sonetos, se quizer... (_Compadre Amancio desfaz-se em agradecimentos_.) A lyra de Bocage ninguem a paga!
(_Repiques, foguetes ao longe_. _Afflue o povo_. _Está a festa no auge da animação_.)
OS POETAS
Mote, mote... Minhas senhoras, venha mote!
(_Cae o panno_)
FIM DO SEGUNDO ACTO
ACTO III
*Em janeiro de 1786*
Sala em casa de Manuel Simões. Mobilia dos meiados do seculo XVIII.--Porta ao _F._--Á _D._, no 1.^o plano, porta do escriptorio; no 2.^o plano, porta que leva ao interior da casa.--Á _E._ janellas de sacada.
SCENA I
D. FELICIA, D. MARIA JOANNA _e_ MARIA GERTRUDES
(_em trajo de passeio_)
D. FELICIA (_a D. Maria Joanna_)
Pois muito bem, sobrinha. Truxe já o meu escudeiro de proposito.--Aproveito a occasião para ir á festa de S. Domingos. Préga hoje o Padre Mestre fr. Joaquim do Rosario... Sabe? o Padre Mestre fr. Joaquim, que vae ás nossas assembléas, e canta á viola franceza «_De saudades morrerei_,» com tantos requebros, que é mesmo uma suspensão?
D. MARIA JOANNA
Sei. Póde ir descançada á sua festa.--Provavelmente preciso demorar-me com o sr. Manuel Simões, visto que em resulado de conselho seu lhe entreguei por uns mezes, como precisava, a administração da minha casa.
D. FELICIA
Não se arrependa. Honrado até alli. Depois que elle me administra... por obsequio, já se vê... é outra coisa. A minha pena é não lhe ter pedido ha mais tempo. Sermões não faltam, é verdade... o dinheiro espremido, que nem que fosse d'elle... mas prompto sempre, e incapaz de arredar um fio!
D. MARIA JOANNA
Acredito.--Tinha necessidade de descanço. Passei o verão no campo, e nada examinei ainda... Parece-me que é tempo.--Já lhe mandou recado?
D. FELICIA
Está lá em baixo nos armazens. Não tarda.--E foi só por isso que veiu?... Ai! sobrinha! não faz idéa que mal me sinto dos meus hystericos vendo tratar com tanto afinco d'essas coisas uma pessoa da sua edade, e no seu caso... com tantos vinculos... com...
D. MARIA JOANNA
Por isso mesmo!
D. FELICIA
Emfim, a sobrinha gosta de se entreter em negocios!... Cá por mim... _abrenuntio_!... Negocios, deixo-os a quem toca. Não são para senhoras da nossa jerarchia!... (_movimento de D. Maria Joanna_) Não digo nada, não digo nada... A sobrinha é senhora das sua acções.--É uma conferencia então? E hade ser longa!
D. MARIA JOANNA
Não se apresse, minha tia. Tem tempo para tudo, já vê.
D. FELICIA
Deixo-lhe a afilhada para a acompanhar. Venho logo buscal-a, e de caminho darei tambem duas palavras ao sr. Manuel Simões.
D. MARIA JOANNA (_sorrindo-se e ameigando-a_)
E dizia que era inimiga de negocios!
D. FELICIA
Jesus! Deus me defenda!... Ai! eu, são duas palavras só. Até logo. (_para sair, e voltando á afilhada_.) È verdade, Maria Gertrudes. Trazes-me ahi a minha agua da Rainha d'Hungria?
MARIA GERTRUDES (_dando-lhe um pequeno frasco_)
Aqui está, madrinha!
D. FELICIA (_recebendo-o, cheirando-o, e depois arrecadando-o_)
Não posso andar sem isto... por causa dos hystericos... Até logo, sobrinha.
SCENA II
D. MARIA JOANNA _e_ MARIA GERTRUDES
D. MARIA JOANNA (_voltando, e olhando meio impaciente para as portas da D._)
Demora-se!... (_pausa_.) Está triste, Maria?
MARIA GERTRUDES
Eu, minha senhora! Triste! Porque?
D. MARIA JOANNA
Não tem razão, decerto. Minha tia não a póde trazer mais estimada, e merece-lh'o.
MARIA GERTRUDES
A minha rica madrinha! Não sei como lhe hei de agradecer a creação que me deu... e o muito que me quer!...
D. MARIA JOANNA
Querendo lhe tambem, como faz.--Vamos, d'ahi não procede o mal. Do que de ordinario mais inquieta na sua edade menos ainda.--Se não me engano, está em Lisboa um certo cadete... já poeta de fama... cada dia de maior fama, que... É certo?
MARIA GERTRUDES (_atalhando, envergonhada_)
Oh! minha senhora!
D. MARIA JOANNA
Então que tem? Uma inclinação não está mal... Em se não faltando ao recato!... E elle mostra-se respeitoso, que é sempre bom indicio... Todos os casamentos por ahi principiam, e estou que não quer professar.--Que lhe diz o coração?
MARIA GERTRUDES (_olhando receiosa em redor_)
Nunca fallei n'isto, nem a minha madrinha!
D. MARIA JOANNA
Pudéra! Fallo-lhe eu, porque tambem lhe sou afeiçoada. Provavelmente não se entendia tão bem com minha tia.
MARIA GERTRUDES
O coração... Nem, eu sei.--O sr. Bocage diz-me coisas como ninguem... (_inadvertidamente_) mas o outro...
D. MARIA JOANNA
Ah!... Ah! temos outro!...
MARIA GERTRUDES (_toda balbuciante_)
Eu disse outro? (_animando-se_.) Disse. Disse, porque é verdade... (_acudindo_.) A culpa não é minha!
D. MARIA JOANNA
Está visto. Pois nós temos culpa nunca d'essas... complicações!--E o outro?
MARIA GERTRUDES (_quasi chorando_)
Foi um ingrato! Não posso, não devo mais lembrar-me d'elle...
D. MARIA JOANNA
Então d'ahi estamos desenganadas. Naturalmente fica preferido o poeta.
MARIA GERTRUDES (_hesitando_)
Ai! agora fica... (_mais decidida_.) Fica... mas...
D. MARIA JOANNA
Mas?... Suspeito d'esse _mas_.
MARIA GERTRUDES (_meio impaciente_)
Tomára quem me ensinasse como se conhece um amor verdadeiro. (_achando uma idéa_.) Ah!... A sr.^a D. Maria Joanna hade saber... É viuva, sabe... Diz-m'o?
D. MARIA JOANNA
Eu!... (_enleiada_.) Devia saber, devia... mas... (_comsigo_.) Aqui estou eu tambem a cair nos _mas_...
MANUEL SIMÕES (_dentro_)
Ainda agora m'o dizem!
D. MARIA JOANNA (_comsigo_)
Vem muito a proposito o sr. Manuel Simões.
SCENA III
AS DITAS, MANUEL SIMÕES (_da porta, 2.^o plano, á D._)
MANUEL SIMÕES
Que vergonha!... que vergonha para esta casa!...
D. MARIA JOANNA
Que é isso, sr. Manuel Simões?
MANUEL SIMÕES
Fazerem esperar tanto tempo s. s.^a!... N'este instante me deram o recado, aquelles brutos... Que hade dizer?... Hade dizer que nem sei tratar com pessoas de condição, eu, Manuel Simões, que toda a minha vida... com bem o digamos... fui favorecido da grandeza!... eu, um compadre de dois marquezes!... (_corrigindo-se_) De dois... de um, que o outro...
D. MARIA JOANNA
O outro já lá vae.--Não se afflija com isso. Esperei, mas não me enfastiei. E bem era que esperasse, que o negocio é meu...
MANUEL SIMÕES
Negocios!--É verdade... a sr.^a morgada? Em seu nome me levaram o recado.
D. MARIA JOANNA
Vim com ella. Foi á festa a S. Domingos. Volta logo.
MANUEL SIMÕES (_admirado_)
Negocios! V. S.^a! Commigo!
D. MARIA JOANNA
Pois não me tomou a administração?
MANUEL SIMÕES
Por pouco tempo, disse-lh'o logo... Estou já tão sobrecarregado!... Depois, estas administrações... afastam-me do meu giro.
D. MARIA JOANNA
Justamente. Ahi verá se precisamos fallar. Para não o incommodar mais, e tomar a direcção da casa, preciso examinar, preciso esclarecer-me... e agora ninguem melhor do que o sr. Manuel Simões.
MANUEL SIMÕES (_attonito_)
Ah!
D. MARIA JOANNA
Admira-se?
MANUEL SIMÕES
Admiro, porque não é o costume. Admiro, mas approvo. Quando quererá sua tia D. Felicia fazer o mesmo, ou pelo menos ouvir-me? Pois devia... devia, que se continua como vae, não sei como hade ser... Por mais que lhe peça, por mais que lhe diga, nada. Não quer saber senão de dinheiro... Como se o dinheiro se cavasse!... Quando lhe fallo em contas, dão-lhe os seus hystericos, e... acabou-se, não é possivel.--Os papeis estão todos em ordem no meu escriptorio (_indica a porta respectiva_). Não é casa costumada a donaires, mas se não a assusta...
D. MARIA JOANNA (_dirigindo-se á porta indicada_)
Pois a que vim eu?
MANUEL SIMÕES (_reparando em Maria Gertrudes e com certo affecto_)
Ai! a menina Maria Gertrudes! Já aqui lhe mando minha irmã Monica para lhe fazer companhia.
MARIA GERTRUDES
Não é preciso... Vou eu mesmo procural-a, se me dá licença.
MANUEL SIMÕES (_como acima_)
Bem sabe que é de casa! (_encaminha-se ao escriptorio.--Como lembrando-se de repente_) Oh!... (_Novamente ás senhoras_) Permittem? (_indo á porta da D., 2.^o plano_) Levem lá para baixo essas peças de saragoça, que hão de ir ámanhã para Abrantes... e arêjem-me as baetas, não se esqueçam... (_voltando_) Isto, se eu não determinar tudo!... (_inclinando-se e esperando á porta do escriptorio que D. Maria Joanna passe_.--_Sae D. Maria Joanna e Manuel Simões_.)
SCENA IV
MARIA GERTRUDES, _pouco depois_ FRANCISCO
MARIA GERTRUDES
Hade ser grande a demora e a espera. (_indo á janella_) Não são como as nossas estas ruas da baixa. É um borburinho de gente sempre! (_Chega-se á janella_.--_Entra Francisco do F. Vê-a e não póde reprimir um movimento de involuntario alvoroço_.)
FRANCISCO
Ah!
MARIA GERTRUDES (_voltando vivamente, vendo-o_)
Ah!
FRANCISCO (_constrangido_)
Desculpe... Não a esperava aqui... Já me retiro.
MARIA GERTRUDES (_do mesmo modo_)
Póde ter que fazer... Sou eu que vou procurar sua tia.
(_Dão alguns passos; elle dirigindo-se ao F.; ella passando á D._--_Quando vão a affastar-se, param e voltam-se quasi simultaneamente_.)
FRANCISCO (_com vivacidade_)
Chamou?
MARIA GERTRUDES (_de olhos no chão_)
Chamou?
FRANCISCO (_depois de pausa_)
Nada.
MARIA GERTRUDES (_idem_)
Nada.
FRANCISCO
Adeus, menina Gertrudes!
MARIA GERTRUDES
Adeus, sr. doutor.
(_A ponto de retirar-se, ella pela D., 2.^o plano, elle pelo F., Francisco torna atraz_)
FRANCISCO
Quer-me ouvir um instante?
MARIA GERTRUDES
O sr. doutor está em sua casa! (_de olhos baixos_.)
FRANCISCO (_picado_)
Ah! é só por isso? E porque me não chama Francisco como d'antes?
MARIA GERTRUDES
Um doutor, já formado!--E porque me trata por menina? Não era o seu costume.
FRANCISCO
São preceitos do seu poeta?
MARIA GERTRUDES
Receia que o vão dizer á sua apaixonada?
FRANCISCO
Uma apaixonada, eu!
MARIA GERTRUDES (_com impeto_)
Hade negar que teve o outro dia uma briga por causa da Esteireira que representa no Salitre?
FRANCISCO
Ia passando... É mulher... Insultavam-n'a... defendi-a.
MARIA GERTRUDES (_com ressentida ironia_)
Deu agora em defender todas as mulheres! até mulheres que representam no theatro!... E o que ella lhe está obrigada... E o que falla no senhor!... no sr. Doutor!... E o que...
FRANCISCO
Mas se lhe digo...
MARIA GERTRUDES (_atalhando_)
Não negue... sei tudo... Contou-me tudo a mulher de um torneiro, que tem o marido na cadêa, e vae lá ás vezes ás Portas da Cruz, fallar á madrinha para peditorios... (_elle quer atalhar; ella não o deixa_.) Conhece tambem a tal creatura, a mulher do torneiro... ouviu-lh'o mesmo da sua bocca... (_como acima_) Veja se é verdade, ou não!
FRANCISCO (_desesperado_)
Pois é verdade... será verdade... Porque não hei de estar apaixonado de uma comica, se a menina não vê senão o seu novo arrojado.
MARIA GERTRUDES (_quasi chorando_)
Ólhe? Confessa!
FRANCISCO
Nem se atreve a dizer que não!
MARIA GERTRUDES
Depois do que me tinha promettido!
FRANCISCO
Depois do que me tinha protestado!--E eu que voltei ainda tão descançado para Coimbra, depois d'aquella vespera do Corpo de Deus o anno passado!... Estava entretido a responder a meu padrinho quando por alli andavam os poetas a versar... Nem dei por cousa nenhuma... Parti logo no dia seguinte de madrugada, e demorei-me depois até me doutorar... Andava cego... Mas apenas cheguei ultimamente a Lisboa, tive logo quem me abrisse os olhos.
MARIA GERTRUDES (_vivamente_)
Quem?
FRANCISCO
Quem? É verdade, já vê.--Quem? Uma pessoa de porte e de respeito... uma pessoa que não mente!... (_mostrando um papel_) Lembra-se do soneto que fez o Bocage ao mote que lhe deu n'essa noite? (_lendo_.)
«Eu deliro, Gertruria, eu desespero.»
Gertruria, Gertrudes! É evidente. (_lendo_)
«Pelo ceu, por teus olhos te assevero Que ferve est'alma em candidos amores.»
Ferve-lhe a alma em amores... Escreve-se isto!... Querem-n'o mais claro?
MARIA GERTRUDES (_picada_)
Porque me não hade o sr. Bocage fazer versos, se o sr. Doutor tem a sua apaixonada!
FRANCISCO
Outra vez a apaixonada! Sim? Não tem mais que me dizer? (_suffocado_) Pois eu estava morto por encontral-a em liberdade, para lhe declarar... que está tudo acabado...
MARIA GERTRUDES
Isso esperava eu!...
FRANCISCO (_continuando_)
E para lhe jurar, por alma de quem Deus tem, que haja o que houver...
MARIA GERTRUDES
Não jure, sr. Doutor, não se cance... Não é preciso... (_com dignidade_) Sua tia está lá dentro, não? Sou pobre, sou humilde, mas não obrigo ninguem. Faço-lhe a vontade. (_Sae_.)
SCENA V
FRANCISCO, _só_