Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos
Part 5
Mandei logo buscar os machos, e puz-me a caminho. A resposta era obedecer. Que novidade foi esta, pae?
MANUEL
Estava tremendo não chegasses... (_em voz baixa_) Vem esta noite cá teu padrinho.
FRANCISCO
O sr. marquez!... a nossa casa!
MANUEL
Á nossa propria casa. Será o primeiro marquez que vem a casa de teu pae?
FRANCISCO
É verdade... o sr. marquez de Pombal era tambem padrinho de meu irmão, e tenho-lhe ouvido que...
MANUEL
Que me visitava em pessoa, elle mesmo... (_olhando em redor_) o grande marquez... E não foi só isso... De vez em quando mandava-me parar a sege á porta da loja... (_esquecendo-se_) É que tambem não torna cá homem como aquelle... (_caindo em si e olhando em volta_) que este não é somenos, em certas coisas! Vem, vem hoje... Podia lá deixar de lhe ter cá o afilhado! Vem hoje... hoje, em vespera de Corpo de Deus, faze idéa! E toda a gente pelas janellas!... E o que se hade fallar no arruamento!... E o que ahi não virá de encommendas!--Já mandei buscar mais um caixeiro.
FRANCISCO
Que não seja como o Zé Braga ou o Zeferino... Lembram-me ainda.
MANUEL
O Zé Braga estabeleceu-se na terra... e vamos, tem queda para o negocio... É nosso correspondente.
FRANCISCO
Ah!
MANUEL
O peralvilho do Zeferino... esse lá foi para esses Brazis... Não sae d'alli coisa de geito, verão... Confundia-me sempre o lemiste com os droguetes, e o panno jardo com as baetas!... Deu em fazer de faceira... já de chapeu á Anastacia... sempre em touros e presepios... Só lhe faltavam os polvilhos. Deixal-o. Cá me tenho remediado com outros dois novos, e marçanos não faltam.--Ai! nós aqui a fallar, a fallar, e lá em casa tudo cheio de gente!... A Monica estou que perde a cabeça!... Não me lembrava com o gosto de te ver, e de te fazer beijar a mão ao sr. marquez... que elle sempre hade puxar por ti!--Anda, rapaz, vamos... vamos!... (_em acto de partir_.)
FRANCISCO
Tudo cheio de gente lá em casa! É novidade... E quem está? Não me hei de apresentar n'este trajo de jornada, se são pessoas de respeito.
MANUEL (_voltando_)
Tens razão. Não vieras tu de Coimbra!... Com isto sempre me embalaram: «ou armas ou letras.» Quem está?... Has-de ir mudar de fato primeiro, has-de. Estão pessoas de consideração, e espero mais. Verás... Sujeitos de peso e de porte, que me honram com a sua amizade... (_comsigo_) e precisam do meu dinheiro... Pois n'um dia d'estes, e vindo cá teu padrinho!... Está a sr.^a morgada D. Felicia, que essa é já conhecimento velho... está...
FRANCISCO (_alvoroçado, vivamente_)
E a afilhada?
MANUEL
E a afilhada... bem sabes que nunca a larga... Está a afilhada, e vem tambem uma sobrinha, que chegou de França ha dias!
FRANCISCO (_em acto de partir_)
E nós aqui a perdermos tempo.
MANUEL (_detendo-o_)
Espera, espera. Que fogo te deu mal te fallei na morgada! Dar-se-ha caso... (_severo_.) Francisco?
FRANCISCO (_timidamente_)
Meu pae.
MANUEL
Esse alvoroço não é natural!
FRANCISCO (_como acima_)
Está fazendo falta de certo, pae.
MANUEL
Já vamos. (_Comsigo_.) A morgada não póde ser... a sobrinha não a viu ainda... Querem ver... (_com inteireza_) Sr. Francisco Pedro, forma-se este anno. D'aqui a tempos será juiz de fóra, desembargador, quem sabe?... Conversei já a seu respeito com o meu amigo João Pires... Conhece? O sr. João Pires, á Magdalena, que traz dois navios para a India, e tem uma filha que não anda por assembléas, mas leva quarenta mil cruzados de dote.--Quando pensar em casar, é a noiva que lhe convém.
FRANCISCO (_consternado_)
Oh! meu pae! Por quem é não disponha assim do meu coração!
MANUEL
Do seu coração! A que proposito vem o seu coração? Quer dizer que olhou para a afilhada da sr.^a D. Felicia? Ignora que é filha d'uma criada?
FRANCISCO
Mas educada com tanta estimação! O amor não mede distancias.
MANUEL
Ensinaram-lhe isso em Coimbra?... Não o tirasse eu do balcão!... Felizmente seu pae não dorme. Perca d'ahi o sentido. Já lhe disse o que lhe convinha. Escusa de se cançar... não costumo repetir as coisas duas vezes!
FRANCISCO
Não me permitte uma supplica ao menos?
MANUEL
Com tanto que seja breve.
FRANCISCO
Morro por ella... (_hesita_).
MANUEL
Se me não diz mais...
FRANCISCO
E dei-lhe palavra de casamento.
MANUEL
Deu-lhe palavra... (_furioso_) Porquê? Para quê?... Sem me consultar... sem consultar seu pae!... sem saber se lhe fazia transtorno!... Viu-se já!... (_fitando-o_) Estes rapazes!... (_mais brando_) Com que então deste-lhe palavra? (_Gesto affirmativo de Francisco_.) Pois se lh'a déste, cumpre-a.--Um Simões nunca faltou a ella!
FRANCISCO (_transportado_)
Consente!... Consente?... Como lhe hei de agradecer, meu pae!
MANUEL
Não é o que eu queria, e custa-me... Não te mandei a Coimbra para te empregar na filha d'uma criada!... Mas na nossa casa a palavra é escriptura. Pagamos á vista... sempre, e tudo: é o nosso brazão!
SCENA VI
OS DITOS _e o_ MORGADO
MORGADO
Ora até que o encontrei, sr. Manuel Simões. Procurei-o hontem, antes de hontem, esta manhã...
MANUEL (_interrompendo-o seccamente_)
Sei, sei... Bem sei.
MORGADO
Se me désse licença logo...
MANUEL
Tenho gente em casa, tenho muita gente... Hade-me dar licença.--Vamos, Francisco, vamos.
SCENA VII
MORGADO _pouco depois o_ COMMENDADOR
MORGADO (_desesperado e ameaçador_)
Se fôra da nobreza... e se não fôra a necessidade!...
COMMENDADOR (_que tem entrado_)
Que é isso, sr. Morgado? Quem o fez agastar?
(_Durante esta scena os creados acendem de dentro as illuminações das janellas_.)
MORGADO
Quem hade ser? Esta gente de negocio que na verdade...
COMMENDADOR
Não tem uso do mundo, é sabido... cança-se de dar dinheiro, e nem sempre se lembra das jerarchias!... Que quer? Na opinião de Cicero o dinheiro faz todos eguaes... e lá resa o nosso rifão: «negro è o carvoeiro, branco é o seu dinheiro!!»
MORGADO
Mas quem lhe diz...
COMMENDADOR
Que precisa de dinheiro? O sr. Morgado precisa sempre... Que o mercador lh'o recusa? Encontro Manuel Simões, e acho-o enfadado. Não é preciso ser astrologo para adivinhar. Excellentes astrologos são os olhos... que sabem ver. Bem o disse o poeta Manilio, e melhor o explica Julio Firmico Materno, contemporaneo de Constantino Magno, nos oito livros que escreveu sobre o assumpto.
MORGADO (_meio aborrecido_)
Oito? Admiro-lhe a paxorra.--Mas, vamos, sr. Commendador... Estão já accendendo as luminarias. D'aqui a pouco enche-se ahi tudo de gente.--Que noticias?--Sabe que morreu Salvador Teixeira, o irmão mais velho de Gonçalo Mendo? Ficou senhor da casa agora o tenente, e...
COMMENDADOR
E... receia o competidor.
MORGADO
Receial-o! Porquê? Em quê? Um homem como eu não teme nenhum rival... Minha prima é senhora de gosto e de juizo... E em ultimo caso tenho modo infallivel de supplantar o tenente... (_intencionalmente_) ou qualquer outro.
COMMENDADOR (_sorrindo_)
Infallivel!
MORGADO
Infallivel.
COMMENDADOR
Contra qualquer?
MORGADO
Contra qualquer.
COMMENDADOR
No dizer de Plinio poucas coisas se pódem julgar infalliveis.--Tem estado com sua prima?
MORGADO
Todos os dias.--Ainda antes de hontem em casa da morgada da Torre da Palma... ainda hontem a ver correr parelhas e alcanzias em Campolide.
COMMENDADOR
Então para que pergunta noticias?
MORGADO
Para saber o que se diz.--Posso contar com a sua amizade?
COMMENDADOR
Como eu com a sua.--Amizade de obras mais do que de palavras, como a quer Tito Livio.
MORGADO
Tambem... commigo póde o commendador contar para a vida e para a morte. O braço e a espada do morgado da Gesteira estão sempre ao seu dispor.
COMMENDADOR
Deseja saber o que ha?
MORGADO
Não se me dava... para afugentar de vez o primeiro que se atreva a galantear abertamente minha prima.
COMMENDADOR (_malicioso_)
Terá que fazer.--Veja o que Propercio diz da sua Cynthia... Póde fazer calar os requebros dos pintasilgos á aurora?
MORGADO
Pintasilgos, diz bem. Principalmente o cadetinho... o tal sr. poeta de loas, ou das duzias... Ia-me saindo das medidas na casa da Torre da Palma. Se não fosse a morte quasi repentina de Simôa!... Já o encontrei por ahi e não o perco de vista. Não que minha prima possa olhar para similhantes figuras...
COMMENDADOR
Eu sei, morgado. Elle é de boa gente, e as damas... Emfim a respeito d'esse, descance... Traz o Sentido n'outra parte.
MORGADO (_avidamente_)
Em quem?
COMMENDADOR
Ainda não reparou?... Na afilhada de D. Felicia.
MORGADO (_desdenhoso_)
Ah!... (_como reflectindo_.) Mas o filho do mercador? É correspondido, e está ahi.
COMMENDADOR (_sorrindo_)
Era correspondido... Verá como os dois se arrufam, como o poeta fica e é acceito, como... Isso corre por minha conta.
MORGADO
Por conta do commendador! (_desconfiado_.) E com que interesse?
COMMENDADOR
Interesse? Nenhum... Amizade... Desejo de lhe ser util... Não queria afugentar os galanteadores de sua prima?... Para isso vale mais a astucia do que a força, creia. O mestre das rhetoricas ensinava a Herennio «que a verdadeira prudencia era a sagacidade,» e como diz Cornelio Nepote, «mais poude a destreza de Themistocles do que as armas da Grecia.»
MORGADO (_pensativo_)
Não é fóra de rasão... ainda que nada d'isso vale uma recarga a tempo como a ensina o alferes Theotonio Rodrigues, ou uma flanconada como as queria o grande Montenegro. (_mirando-o de revez_) Com que o poeta desistiu já de minha prima?
COMMENDADOR (_sorrindo, e do mesmo modo_)
Respondo-lhe por elle.
MORGADO
O tenente, esse...
COMMENDADOR
Faz-se desistir.
MORGADO (_como acima_)
E depois?
COMMENDADOR
Depois... não ha rivaes que affrontem o sr. morgado. (_Cresce o numero dos passeiantes_.--_Ruido dentro_.) Ahi vem já o rancho dos poetas. Conhece-se pela algazarra.
(_Principiam a apparecer ás janellas algumas senhoras de gala, e toucadas_.)
MORGADO (_olhando para as janellas_)
Já as _madamas_ começam tambem a apparecer.
COMMENDADOR
Vou n'um instante a casa do mercador para lhe fazer a vontade. Volto logo.
MORGADO
Encontra lá minha prima.
COMMENDADOR
E não vem?
MORGADO (_despeitado_)
O sr. Manuel Simões não me fez a honra de me convidar.
COMMENDADOR
Que dissabor lhe ha de ser ter sua prima alli e ficar de fóra! Que quer? Diogenes, de Synope, comparava as riquezas ás plantas... que nascem em despenhadeiros! (_Sae tomando á esquina ao F._)
(_Entram logo Bocage, 1.^o e 2.^o poetas, companheiros, e Gonçalo Mendo, da E._)
SCENA VIII
BOCAGE, GONÇALO MENDO, 1.^o _e_ 2.^o POETAS
GONÇALO (_a Bocage, despedindo-se e indicando as janellas de Manuel Simões_)
Boa sorte e propicios amores!... Da inspiração não lhe fallo: nunca lhe falta, e hoje menos lhe faltará.
BOCAGE (_meio desconfiado_)
Já não quiz entrar commigo um instante no Nicola, e agora deixa-me!
GONÇALO
É noite de festas, e está ainda mal fechada a sepultura de meu irmão!
BOCAGE (_caindo em si_)
Tem rasão.
MORGADO (_chegando-se_)
Sube o desgosto que teve, sr. tenente Gonçalo Mendo... Muitos parabens... (_corrigindo-se_) dou-lhe os sentimentos, quero dizer... Seu irmão, tambem era doente... Quantos annos tinha?... Boa casa!... É uma boa casa, a casa de Mendél, dizem todos. E de mais a mais com os coutos de Sandim!... Deixou uma grande casa!... O sr. Gonçalo Mendo naturalmente larga a vida militar.--Com uma casa d'aquellas!
GONÇALO (_com inteireza_)
«Sr. morgado da Gesteira, a minha familia foi sempre uma familia de soldados. Alli cumprir a lei e servir a patria não é especulação, é preceito. Se meu irmão por fraco e enfermo não poude satisfazer a obrigação, por elle a satisfazia eu. Hoje, que me falta, essa obrigação fez-se duplicada: é a d'elle e a minha!»--Creio que o sr. Bartholmeu Tojo não vê no vinculo senão a renda. A mim ensinaram-me de pequeno a só considerar no patrimonio dos meus, como coisas superiores, o dever e o nome!--Adeus sr. Bocage! (_Sae_.)
MORGADO
E então! Dês que está senhor da casa parece que traz el-rei na barriga!
BOCAGE (_fitando-o_)
Engana-se. Tem o coração no seu logar... e não succede o mesmo a todos.
(_Signaes de approvação nos circumstantes_.)
MORGADO (_ameaçador_)
Isso entende-se commigo?
BOCAGE (_com obsequioso sarcasmo_)
De nenhum modo: era suppor-lhe coração!
(_Riso nos circumstantes_.)
MORGADO (_com satisfação_)
Logo vi que se não podia entender commigo.
(_retira-se magestosamente, e sae pela E._)
SCENA IX
BOCAGE 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, 1.^o _e_ 2.^o MANCEBOS, DAMAS, POVO
(_Vão-se povoando mais e mais as janellas; augmenta na rua a concorrencia_.)
1.^o MANCEBO
Sr. Bocage, sr. Bocage!
BOCAGE (_ainda agastado da altercação com o morgado_)
Que é?
1.^o MANCEBO
Fez-me o favor de limar aquellas decimas, que lhe entreguei o outro dia?
BOCAGE
Pois não!
1.^o MANCEBO
Queria ver se as recitava esta noite... Tem-n'as ahi?
BOCAGE
O que?
1.^o MANCEBO
As minhas decimas.
BOCAGE
Como hei de ter, se nada sobrou d'ellas.
1.^o MANCEBO (_pasmado_)
Não sobrou nada?
BOCAGE
Absolutamente nada. Ficou-me tudo na lima!
(_Riso nos circumstantes; o 1.^o mancebo mette-se na turba corrido_.)
2.^o MANCEBO
Sr. Bocage, um obsequio?
BOCAGE
Que temos?
2.^o MANCEBO
Faz annos, depois d'amanhã, um tio que eu tenho...
BOCAGE
A novidade seria fazer annos um tio que não tivesse.
2.^o MANCEBO
Compuz dois sonetos...
BOCAGE
Dois d'uma assentada! Já vejo. Monta um Pegaso manhoso que lhe desandou uma parelha de...
2.^o MANCEBO (_ingenuamente_)
Isso. Estão aqui os sonetos. Só lhe peço que me diga qual é o melhor... para o offerecer ao tio...
BOCAGE
Ao sr. seu tio... que vocemecê tem.--Deixe ver. (_2.^o mancebo entrega-lhe um papel de dois que tem na mão_.--_Bocage chega-se á luz das luminarias, e lê attentamente_. _Em quanto lê, o 2.^o mancebo responde aos poetas que parecem divertir-se com elle_. _Depois de ler, restituindo-lhe o papel e em tom decidido_.) Leve-lhe o outro.
2.^o MANCEBO
O outro! Mas ainda não viu o outro.
BOCAGE
É o mesmo... leve.
2.^o MANCEBO
Porquê?
BOCAGE
Porque não póde ser peior do que esse.
(_Riso dos circiumstantes; o 2.^o mancebo sae tambem corrido_.)
SCENA X
BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, DAMAS, POVO
2.^o POETA
Está de veia hoje, o nosso cadete.
BOCAGE
Menos isso.--O cadete ficou onde ficou a farda. Aqui está só o poeta.
1.^o POETA (_ao 2.^o_)
Condemnado como reu de lesa Arcadia. O Bocage tem razão. Será cadete no regimento; entre os pastores do Pindo é Elmano, o esperançoso Elmano, como tu és Alcino, como eu sou Lereno. A propósito, falta-nos Albano.
(_Bocage parece cair em profunda meditação_.)
2.^o POETA
Foi jantar a casa d'algum fidalgo. É o seu costume. Mas vem de certo. Disse-me que vinha.--Agora nego que fosse reu de lesa Arcadia tratando Elmano pelo grau militar.
1.^o POETA
Como provas essa?
2.^o POETA
Muito facilmente. Qual é n'este caso o distinctivo do vale e do soldado? Uma estrella. O mesmo em ambos. Cada qual tem a sua. Logo... (_declamando_)
O Appollo, e o Marte que zellas, Não se afastam grande espaço: Tem um a estrella no braço, Outro o braço nas estrellas!
1.^o POETA
Fóra o seiscentisto. Sempre te achei queda para os conceitos alambicados e antitheses retorcidas! Essa vem na _Phenix renascida_, ou nos _Desmaios de Maio_, aposto!--Bocage... (_reparando e tomando-lhe o braço_.) Bocage!... Em que pensas?... Que fizeste á picante jovialidade tão bem estreada, e que tanto promettia para esta noite?
BOCAGE (_como despertando_)
Que?... Eu?... (_comprehendendo_.) Ah!... Jovialidade lhe chamas? Não era, não. Era raiva, era furia, era...
1.^o POETA
Contra uns pobres rapazes! Deixa versejar a vadiagem. Cançará depressa. Não vale a indignação.
BOCAGE
Isso dizem todos, e d'isso sobra forças á mediocridade e a vilania, que são gemeas. Uns pobres rapazes! Hoje nescias vaidades apenas... ámanhã calumniadores invejosos!... Deixae-os medrar, deixae; e queixae-vos depois dos damnos que vos fizerem! E ha peiores ainda... Peiores e mais nocivos são os desalmados, que nem adivinham a alma, e d'esse aleijão moral fazem a bitola de todos os caracteres!... Que me hão de apparecer por toda a parte vilezas!... Não reparem, amigos... São restos da cólera em que me deixou esse homem, que até na morte vê o interesse sem lhe ver as lagrimas!... Quando estas ignominias me surgem diante, sou como aquelle tyranno antigo, que desejava um só corpo á humanidade, para a degollar d'um golpe!... Quizera tel-as tambem todas congregadas e encorporadas debaixo da mão, para lhes arrancar a mascara hypocrita, para as retalhar com o látego justiceiro, para apresental-as como são, hediondas e infames, perante a sociedade que illudem ou pervertem.--Desculpem a rajada. Vamos ao que importa. (_olhando para as janellas do mercador, ainda desertas_) Ficamos aqui?
1.^o POETA
Alcino tem uma Anarda alli n'um segundo andar do quarteirão immediato, e ella provavelmente traz-lhe mote preparado. Queres vir?
BOCAGE (_com os olhos nas janellas_)
Com tanto que voltemos depressa!
2.^o POETA
Percebo. Temos tambem por cá pastora! Uma Armia, uma Isbella, uma Anfrisa?
BOCAGE
Melhor do que isso. Uma esperança!
(_Gritos, tumulto fóra á E._)
2.^o POETA
Ha novidade, ao que parece.
(_Grande tumulto á E. fóra_. _Gritos_: Aqui d'el-rei! Agarra! _O povo afllue áquelle lado_.)
BOCAGE
É desordem?
1.^o POETA
O costumado.
VOZES (_no povo_)
Arreda! arreda!
(_Reflue tudo sobre a D._--_Bocage, á frente dos companheiros, impellido pela turba, acha-se na extremidade D. quando entra, correndo d'este lado, Alcaide, e a ronda de quadrilheiros e paisanos_.)
SCENA XI
ALCAIDE, BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, MORGADO (_que entra esboforido da E._) DAMAS, POVO.
ALCAIDE (_topando Bocage, e pondo-lhe uma pistola aos peitos_)
Da parte da ronda--quem é? d'onde vem? para onde vae?
BOCACE (_serenamente_)
Sou o poeta Bocage, Venho ha pouco do Nicola, E vou para o outro mundo Se me dispara a pistola!
POETAS _e_ COMPANHEIROS
Bravo! Bravo, Bocage!
ALCAIDE (_deixando-o_)
Ah! é o Bocage! Que foi então? Quem gritou?
MORGADO
Foi um chibante de cigarro que deu tres facadas n'um moço das carvoarias, que ia cantando a _Fôfa_ alli para a banda da Bitesga!... Ah! que se o apanho a geito!... (_esquiva-se para a D. logo que o Alcaide interroga_.)
ALCAIDE
Quem fallou para ahi?... (_á ronda_) Depressa, anda... Venham as lanternas, que nas travessas está escuro como breu. (_Os paisanos adiantam-se com as lanternas, mostrando certa repugnancia_.) Mais depressa... (_aos quadrilheiros_) Para a frente vocês. (_Estes obedecem com promptidão, e passam velozmente para a E._--_O Alcaide continua para este lado como fallando a um dos quadrilheiros que passou_.) Ó Gaiola, bota cordão lá para diante... agarra tudo!... O sr. Corregedor do Crime mora ahi para cima; elle que os joeire!... Vá, vá.
(_Os grupos abrem vivamente passagem ao Alcaide e aos mais da ronda, que saem apressados pela E._)
SCENA XII
OS DITOS, _menos o_ ALCAIDE _e_ RONDA, _depois_ UM CEGO (_que vende impressos_)
(_Apenas o Alcaide sae, ouve-se tambor e gaita de folles para a D._--_O povo grupa-se para esse lado_.)
2.^o POETA
Cirio agora, querem vêr!
1.^o POETA (_observando_)
Não. São os foliões do Espirito Santo com a bandeira, e o ermitão da Senhora do Monte com o Embrechado. Metteram-se para a outra travessa.
BOCAGE
Por isso estão todos nas janellas dos lados.
2.^o POETA
Com similhante inferneira, bem se ha de poetar agora.
O CEGO (_passando ao F. e apregoando em cantilena_)
Comprae, meninas comprae, Por dez réis, ou meio tostão, _O Testamento da Velha_ _Ind'antes da serração_; Ou as obras afamadas, Que ninguem comprou em vão, Da Chrystaleira de Coimbra, Coisa de satisfação.
BOCAGE (_rindo e como terminando a trova do cego_)
Temos rival pela prôa: Vá, ao outro quarteirão
1.^o e 2.^o POETAS (_galhofeiros_)
Vá, vamos. (_Saem os tres_.)
SCENA XIII
O CEGO, _logo depois_ TIA VICENCIA. _e_ TIA PASCHOA, _logo depois_ COMPADRE THEOTONIO _e_ COMPADRE AMANCIO. (_Movimento_. _Homens apregoando caramello_. _Pretas apregoando alcomonia, etc_.)
CEGO
Comprae, meninas, comprae, Por dez réis ou meio tostão...
(_Perde-se-lhe a voz na distancia_.)
TIA VICENCIA
Bem lh'o cantava eu, tia Paschoa! Qual juiz, nem meio juiz! Não lhe poem a vista em cima! A Esteireira é que é de desengano. Que eu não lhe digo isto para me esquivar... Se quer que peça á morgada, appareça ámanhã... ámanhã não, é dia de festa... appareça depois de ámanhã, e lá iremos... Verá que me não diz que não...
TIA PASCHOA
Vou... Sempre vou... Se por ahi se arranja o negocio é uma boa dóse que poupo, e para quero está já tão arrastado...
COMPADRE AMANCIO (_entre as dez e as onze, capote a um lado, entrando com compadre Theotonio_)
Safa!... Cuidei que me filavam tambem!
TIA PASCHOA
Se não se fizer nada, então tomo o seu conselho, e vou á Esteireira... Por fim de contas são conhecimentos que se tomam... Ah! meu rico Santo Antonio! sou capaz de vender a camisa do corpo só para metter pelo chão abaixo aquelles marotos que nos desgraçaram... (_Saem pela E. conversando_.)
SCENA XIV
COMPADRE THEOTONIO, COMPADRE AMANCIO (_observando para a E._) _pouco depois_ MORGADO _e_ COMMENDADOR. _Grupos rareados_.
COMPADRE THEOTONIO (_tambem com um grão na aza, mas dando-lhe para taciturno, e preoccupado, e servindo-se com frequencia de um cheirador de simonte_)
Prenderam o homem?
COMPADRE AMANCIO
A ronda vae apanhando a torto e a direito, mas o homem, sim! Metteu-se para a rua das Hortas, salta n'um pulo a S. Roque, e de lá á Cotovia... Depois... boas noites... (_puxando, endireitando o capote, e mirando-o_) Por um triz se não vae d'esta feita, o meu cobre-miseria! E o seu não ficou tambem pouco derreado, compadre Theotonio!
COMPADRE THEOTONIO
Leve a fortuna os apertões, compadre Amancio.
COMPADRE AMANCIO
Olhe se não vae na ronda o mestre Joaquim da Ferraria... (_olhando em redor_) Está isto por aqui só ainda! (_Ouvem-se fóra á D. palmos e applausos_.) Que é? (_Vae vêr_) Ah! são os poetas que andam pelo outro quarteirão... Vamos até lá, compadre?... Quero dar o meu voto a respeito do Bocage, que ainda não ouvi... Tem-me ido já umas poucas de vezes barbear-se á loja, e dizem que na versaria põe tudo a uma banda!
COMPADRE THEOTONIO
Cá por mim... o José Daniel!
COMPADRE AMANCIO
Não digo que não, mas vista faz fé. Vem?
(_Entram da D. o morgado e o commendador_. _Formam dois grupos distinctos_.)
COMMENDADOR
Onde ia tão assustado? Não me via?
MORGADO
Assustado eu!... Ia desesperado... O tal sr. cadete, o tal sr. poeta!...
COMMENDADOR
Disse-lhe alguma?
MORGADO
A tanto não se atrevia elle... Ainda agora o fiz eu tornar atraz... Os modos... os modos é que me dão a perros... Tomára achar azo de lhe pregar uma boa vaia, ahi diante de toda a gente.
COMMENDADOR
Havia de lhe doer... mas isso é antes desforra de mulher que de homem... A verdadeira vingança quer-se mais segura. No conceito de Seneca toda a soberba é injuria, e Plauto ensina como as injurias se pagam... (_Ficam conversando_.)
COMPADRE AMANCIO (_do outro lado_)
Não se mexe d'ahi, compadre? Parece-me jarra! Largue o cheirador, que é capaz de lhe subir o simonte ao miolo. Se não está para ouvir os poetas, venha até ao Talaveiras, que tem uma pinga do velho...
COMPADRE THEOTONIO
Cá por mim, o Petinga.
COMPADRE AMANCIO
Não sae d'isto! Ó compadre Theotonio, você por mais que me digam já fez hoje mais de uma estação!... (_Ouve-se campainha á E._) Será a Misericordia? (_Indo verificar_) Ora o que ha de ser!
COMPADRE THEOTONIO
O que é?
COMPADRE AMANCIO
É o Bernardo atafoneiro, que vem ahi todo vestido de hollandilhas, com bordão de gancho e lanterna pendurada, a pedir para o Senhor Jesus dos Afflictos... Conheço-o pelo roliço. Aquillo faz dinheiro de tudo! Rendem-lhe mais as penitencias que o officio, e ainda em cima aluga a preta para andar a vender pelas ruas.
(_Atravessa ao F. o penitente, como está descripto tocando a espaços a campainha; traz á cinta um mealheiro_. _Dão-lhe esmola_.)
COMPADRE THEOTONIO (_elevando a voz_)
Ora se ha um birbas assim!