Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos
Part 4
Quando me diz que temos ahi uma creatura em perigo! Enlouqueceu? (_aos outros_) Vamos... (_como lembrando-se, e detendo-se_) Sr. cadete... qualquer dos seus soldados póde ir buscar o cirurgião á villa.
GONÇALO
Que monte a cavallo um dos dragões: irá mais depressa.
D. MARIA JOANNA
Vamos, venham. (_Sae, e o commendador pela E._)
BOCAGE (_baixo, apressado e a Gonçalo_.)
Uma nympha! uma deusa! Estou doido por ella. Tem só um defeito...
GONÇALO (_indicando o commendador_)
A singularidade?
BOCAGE
A asnidade, digo eu. (_Sae pelo F._--_Gonçalo segue D. Maria Joanna_).
SCENA XIX
MORGADO _só, pouco depois o_ COMMENDADOR
MORGADO (_vendo-os sair, desconfiado_)
Um cadete agora! É o quartel general aqui... (_olhando em redor_) Tardava-me já ver-me só... (_tirando o papel e examinando-o_) Fechado!... sem direcção!... E com que ancia e mysterio a Simôa me segredou... «isto á sr.^a morgada... sem falta!...» Que pena perder os sentidos!... Que será? Pois que não tem direcção... (_lançando novamente os olhos em redor_) facil é sabel-o. (_Abre, lê attentamente, e acaba com um grito de admiração_) Oh!... (_passeiando e meditando_) Quem tal havia de dizer? (_pára como resolvendo de repente_) Não ha que pensar... Agora posso ir encommendando a sege... (_assoma á porta da E. o commendador, sem que o morgado o presinta_) Com um segredo d'estes!...
COMMENDADOR
Que segredo, sr. morgado?
MORGADO (_sobresaltado, e guardando apressadamente o papel_)
Segredo!... (_serenando, ironicamente_) Um segredo meu, sr. commendador.
COMMENDADOR (_com o habitual sorriso entre fatuo e maligno_)
Segredos, só debaixo da terra... como faziam os romanos!
(_Cae o panno_)
FIM DO PRIMEIRO ACTO
ACTO II
Ao fundo a frente e esquina d'um quarteirão da rua Augusta, tomadas da extremidade de uma travessa, cujos edificios estão ainda em obras. Janellas praticaveis em dois andares. A entrada do predio pela travessa.--Renques de marcos de pedra guarnecendo os passeios.--Toldo cubrindo a rua.--As janellas, ornadas de armações de damasco, e preparadas para illuminação. Cubertores de seda e colxas da India nos parapeitos.--O chão areiado; espadanas e murta. Faltam ainda os lampiões.
Fins da tarde. Pouca animação. Alguns transeuntes apenas.
SCENA I
BOCAGE (_á paizana, encostado á esquina da direita, com os olhos n'uma das janellas da rua Augusta_.)--COMPADRE THEOTONIO _e_ COMPADRE AMANCIO (_que veem de lados oppostos_.)
(_Durante esta scena e a seguinte,_ BOCAGE _dá algumas voltas, apparecendo e desapparecendo, mas sempre tornando ao mesmo logar e á mesma observação_.)
COMPADRE AMANCIO (_topando-se com o outro_)
Aonde vae com tanta pressa, compadre Theotonio!
COMPADRE THEOTONIO
Ao _presepio_ da Mouraria. Quero ver se apanho ainda o Manuel Gonçalves da Ribeira das Naus.
COMPADRE AMANCIO
Trabalha hoje com os arames?
COMPADRE THEOTONIO
Entra no fim. Porquê? Não vou a tempo?
COMPADRE AMANCIO
Se vae! O Manuel Gonçalves tem sua graça... principalmente na scena do diluvio, quando se queixa que perdeu o pente de derrubar.
COMPADRE THEOTONIO
Pois quando ardem as estopadas! As pulhas que elle deita aos demonios!... Tem pilhas de graça!--Deixe-me ir que se faz tarde, e já agora a de seis está destinada (_partindo_).
COMPADRE AMANCIO (_detendo-o_)
Que eu, cá para mim, como o Tortinho da Sé, apesar de velho, é que não ha... Nem o Antonio Antunes, do Bairro-Alto. Saca as palavras assim com um tremor do buxo, o maldito, que é a gente espojar-se!--Deus o leve, compadre. Até á noite na loja.
COMPADRE THEOTONIO
Não fecha hoje?
COMPADRE AMANCIO
Lá mais tarde. É dia de muito freguez de fóra, não tem mãos a medir os rapazes, e para alguma barba, assim mais tal, preciso servir eu. Bem sabe a roda que tenho.--Chego alli abaixo á Arcada, a comprar os Autos da Maria Parda para o serão das pequenas, e volto já.
COMPADRE THEOTONIO
Vá com Deus, compadre Amancio, e até logo. (_Separam-se e sahem, compadre Theotonio para a E., compadre Amancio para a D._--_Entram logo tia Paschoa, e tia Vicencia vindo juntas da E._)
SCENA II
TIA PASCHOA, TIA VIGENCIA _e_ BOCAGE
TIA VICENCIA
Ih! Jesus, Deus Menino! Ainda por aqui arrastadinha, tia Paschoa! O seu homem ainda no Limoeiro! Quer creia, quer não, estava de pedra e cal que se tinha ja livrado. Uma pessoa estabelecida! com loja aberta!...
TIA PASCHOA
E mestre d'officio!... Um mestre de torno, que ninguem lhe leva as tampas!... É isto, que vê, tia Vicencia... Debaixo dos pés se levantam os trabalhos... Que a culpa não é d'elle...
TIA VICENCIA
Isso sempre eu disse... Pobre homem!... Não fui logo lá quando sube, porque da rua dos Remedios á Esperança sempre é um estirão. Aquillo com a labotação do padejo, é vir uns dias por outros ao Terreiro, e não ha tempo para mais.
TIA PASCHOA
Pois eu não sei!--Tudo intrigas do Alcaide!
TIA VICENCIA
Sim? Ora vejam! E então como foi?
TIA PASCHOA
O Alcaide tem uma sobrinha na rua do Lambaz... Sobrinha, vamos... sobrinha ou o que quer que é, que se eu tivesse má lingua...
TIA VICENCIA
Sim, sim, não sabe a gente o que são sobrinhas d'essas!... Que mundo, ai! que mundo, tia Paschoa!
TIA PASCHOA
Uma sobrinha toda peralta!... Sempre como em dia de cirio ou de festa!... Quer na rua, quer em easa, capotilho de durante e bajú de escumilha, um palmito mesmo!... Sobrinha, pois não!... Vá que fosse sobrinha... Estava a ir-nos todos os dias à loja, que até já eu não andava contente, Deus me perdôe... Tudo era encommendar continhas, botõesinhos, coquilhos, cabos de chapeus... um nunca acabar. Mas coisa de pagar, qual! Tanto encommendou, e tanto faltou, que o meu Francisco por fim deixou de lhe fazer obra, e quiz obrigal-a a pagar por justiça... Justiça, está bom!... Ella tinha o pae Alcaide... pae ou tio, que eu sei lá o que lhe é... Foi-n'os a casa toda assanhada... palavra puxa palavra... Emfim, deram-n'os uma força por injuria, e agora o veràs... Eu bem dizia ao meu homem: «ó Francisco, deixa... deixa. Não apertes com a moça.» «Agoa vertida nem toda é colhida.» Mas, nada. Pensam que só elles teem juizo, estes senhores homens! Teimou, teimou, e aqui está. Vae já para um mez que dura este fadario. Sempre com o mantinho aos hombros!... E Deus sabe o que durará!... E tudo em casa a derreter-se... Os meus cordões e arrecadas, foi tempo... Dois tóros de buxo, que elle tinha comprado pelo S. Miguel... sem um nó, que eram mesmo uma perfeição... e haviam de render bons vintens... já lá vão por dez réis de nada... Até uma grosa de piões, que estavam para a Senhora do Cabo... hade crer, tia Vicencia?... a quinze réis cada um, que a bem dizer mais custou o ferrão!... E ainda se não fosse o mestre José Gomes... Deus lh'o pague!... Sabe? O mestre José Gomes, cerieiro ás Trinas, que é juiz do povo!... Se não fosse elle nem resquicios havia já da loja. Agora venho eu do Terreirinho das Olarias, de casa do escrivão, e vou para o Poço dos Negros, a ver se fallo ao sr. juiz do crime do Mocambo.
TIA VICENCIA
Até hoje! Cuidei que andava a ver as ruas!
TIA PASCHOA
A ver as ruas, eu! Ai, santo Antonio e almas! Não faço senão correr de Herodes para Pilatos... E é duas peças a um, quatro moedas a outro... Que os leve a todos trezentos... Jesus, santo nome de Jesus! Nossa Senhora do Livramento me perdôe, que nem eu sei o que ia a dizer... Cruzes, inimigo!... Mas Paschoa do Espirito Santo não seja eu, se o Alcaide, e a beberrona da tal sobrinha, m'o não pagam mais duro que ossos... Pesquei hontem cá uma coisa... O que eu queria era fallar ao sr. Juiz... Dizem que ha ahi uma tal sr.^a morgada, de lá de cima... uma sr.^a D. Felicia, que dá assembléa todas as semanas, aonde vae o sr. Juiz...
TIA VICENCIA
Sei eu quem é... Móra ás Portas da Cruz... É minha fregueza, e por signal que me deve bons vintens. Vou lá muita vez.
TIA PASCHOA
Vae? Se me arranjasse modos de fallar á morgada, para ver se ella pedia...
TIA VICENCIA
Isso é fácil. Mas quer que lhe diga?... Se deseja que o Juiz lhe dê audiencia, e depressa, vá á Esteireira... aquella que representa no Salitre... passe por casa da madama Charles, e leve-lhe uma peça de esguião... se não póde chegar a um rosicler de pedras.
TIA PASCHOA
Ai! Senhor!... Coisas que custam os olhos da cara!...
TIA VICENCIA
Então é deitar o coração á larga... Deus ainda está onde estava, e atraz do tempo, tempo vem. Eu cá nas minhas afflicções pego-me com a Senhora da Purificação, rainha madrinha, que ainda me não faltou. Agora mesmo lhe vou levar á Boa Hora uma quarta de cera, que comprei alli em cima no Soccorro...
TIA PASCHOA (_dispondo-se a acompanhal-a_)
Vamos para a mesma banda.
TIA VICENCIA
Eu da Boa-Hora tenho de ir á botica das Portas de Santo Antão, que se vende lá uma agoa...
TIA PASCHOA
Tambem tenho de tornar ao Terreirinho. Em quanto fica na egreja, chego eu acima e volto por lá.--Teve novidade em casa?
TIA VICENCIA
Tive a minha _Guiteria_ com umas terçãs, que não havia tirar-lh'as do corpo... Estava-me a enthisicar, a enthisicar todos os dias... na espinha mesmo... Assim Deus purifique a minha alma, em como não foi se não mal que lhe deu a Brites do Forno... Conhece?
TIA PASCHOA
Pois não conheço. Não fosse ella atravessada! O tição!... E então porquê?
TIA VICENCIA
Contos largos. Vamos andando. (_Saindo juntas ao passo que entra da D. um transeunte_.) E a respeito da sobrinha do Alcaide, não me disse...?
TIA PASCHOA
Paga-m'as todas, com certeza. O caso é fallar ao Juiz. Hontem ao escurecer, tinham dado trindades no convento, vinha eu... (_desapparecem_.)
SCENA III
BOCAGE, _e o_ TRANSEUNTE
TRANSEUNTE (_embuçado, observando, descendo a Bocage, que está de novo parado á esquina, e batendo-lhe no hombro_)
Elmano, a lyra divina Por que razão emmudece?
BOCAGE (_voltando attonito, mas acudindo logo_)
Porque mais cala no mundo Quem mais o mundo conhece!
TRANSEUNTE
Que tens n'esse mundo achado Que mais assombro te faça?
BOCAGE
Um poeta com ventura, Um tratante com desgraça.
(_Entra da E. Gonçalo Mendo, de fumo no braço, e pára ao F. observando_.)
TRANSEUNTE
Bem respondido, sr. Bocage.
BOCAGE
Bem perguntado, sr. Tolentino.
(_Nicolau Tolentino aperta-lhe a mão, e segue para a D. saindo_.)
SCENA IV
BOCAGE, GONÇALO MENDO
GONÇALO
Quizera que tivesse mais testemunhas o encontro e o improviso.
BOCAGE (_chegando-se_)
Para que?... Riam... mofavam. Dois poetas que se cumprimentam em verso!
GONÇALO
Effectivamente não são vulgares os cumprimentos entre poetas... e consta que não é prodigo d'elles o sr. Bocage.
BOCAGE
Não sou, porque não me inclino senão ao merito verdadeiro e superior. A este qualquer póde inclinar-se. Raramente nos encontramos; fallamo-n'os ainda menos; mas admiro-o e respeito-o.
GONÇALO
Desejara tambem que lhe ouvissem essas palavras.
BOCAGE
Porquê?
GONÇALO
Porque sou seu amigo. Correm por ahi, de mão em mão, copias d'alguns improvisos satyricos... seus decerto...--Deixa-me fallar-lhe com franqueza?
BOCAGE
Tão custoso é o que me quer dizer!
GONÇALO
A verdade amarga.
BOCAGE
Trava menos na bocca da amizade, e eu creio na sua.
GONÇALO
Encontro-o em occasião grave para mim. Talvez d'ahi venham estes desejos de o prevenir e aconselhar.
BOCAGE
Ainda agora reparo. De luto?
GONÇALO
Achei em Lisboa a noticia do fallecimento de meu irmão.
BOCAGE
Sinto!... (_apertando-lhe a mão_.) Sinto-o.--Cheguei tambem ha oito dias do Alemtejo com licença. Não sabia ainda...
GONÇALO
Tornou-se-me obrigação a sisudeza.--Tem um grande talento, sr. Bocage; não lhe faltam protecções... Empregando esse talento em proveito da patria, será grande em pouco, e dar-lhe-ha grandeza. Se tão altos dotes recebeu de Deus, foi para honra da sua terra. Dedicar-lh'os é dever; esperdiçal-os é sacrilegio. O engenho, o saber, o estro são instrumentos que valem segundo o uso que d'elles se faz. Não ha gloria maior quando bem dirigidos; não ha mais pesada responsabilidade quando mal aproveitados.
BOCAGE (_um pouco resentido_)
Porque me diz isso? Estou em crer que tenho aos pés um abysmo.
GONÇALO
E tem talvez. As suas frechas epigrammaticas promovem-lhe odios tenazes e profundos. Quanto mais agudas forem, e mais acertarem no alvo, mais inimigos lhe hão de suscitar. E os perigosos não são os que lhe respondem como podem; são os que na perfidia dissimulam a vindicta; são os que no sorriso affectado encobrem a vaidade ulcerada, e o rancor que não perdôa.
BOCAGE
Quer então que desça a humilhar-me em dissimulação egual? Quer que abata aos pés do vicio dourado, ou da ignorancia presumida, esses dons em que me falla? Quer que envileça a lyra fazendo-a servir aos festins dos poderosos, como accessorio apettitoso, ou como adorno comprado?
GONÇALO
Quem lhe diz tal! Supõe-me capaz de lhe aconselhar baixezas? Consagre a lyra á patria, como os egregios poetas de todos os tempos, como Homero, como Virgilio, como o Dante, como Camões... como o nosso grande Camões... tão grande e tão nosso, que se tudo em Portugal acabasse, elle só bastara para dar a immortalidade ao nome portuguez!... Faça-o que pode. São largos trabalhos esses, são cruas batalhas tambem. No arduo trilho achará egualmente diante de si o erro, o vicio, a vulgaridade, a ignorancia!... mais ainda, a mediocridade!... peior ainda, a inveja! Terá de cingir o corpo como os peregrinos, terá de affrontar o martyrio como os apostolos. Não lhe faltarão obstaculos nem dissabores. Não lhe faltarão perigos nem trabalhos. Não lhe faltará a luta, a luta acerba, continua, ardente... Mas ao cabo está a gloria, a verdadeira gloria, a gloria infallivel ainda que tardia.--Hade seduzil-o esta!
BOGAGE
E não será ainda servir a patria castigar os ridiculos? Não faltam ahi tambem em compensação de qualquer desgosto, os applausos para impellir, para embriagar, para exaltar, para inspirar a musa... E a minha musa... que lhe hei de fazer, sr. tenente?... a minha musa é toda isenções e aventuras. Não consente sujeição.
GONÇALO
Os ridiculos d'estes! os applausos d'aquelles! Que applausos e que ridiculos? Não valerão tanto uns como outros? É para mais o seu engenho do que para servir de desafogo a rivalidades pequenas. E diga-me: tem certeza de ser sempre justo? Não o entristecem muitas vezes esses ruidosos applausos em recintos frequentados de ociosos? Não vê que muitos glorificam nos seus versos, menos a claridade que os illumina, do que o raio que vae ferir um émulo, ou um superior? «[1]Não vê que arrastando na ignominia os seus competidores, a si mesmo se apouca? Não repara que d'esse modo só favorece os baixos instinctos dos detractores sem alma?» É para isso a musa e a lyra? Applaudem-n'o! Applaudem. Mas como? Mas porquê? Mas quem? Ólhe em torno de si e medite. Applaudem-n'o enthusiasmos que depois o nauseam, applaudem-n'o paixões que depois o envergonham. O epigramma cortante, a hypérbole sarcastica, a imagem insultuosa, despertam na sua presença um delirio interessado, que lhe deixa após o vacuo e o pejo. Compare esse applauso suspeito com outros menos estrepitosos, mas selectos, que já lhe tem grangeado obras mais altas e mais dignas. Recorde a satisfação que lhe fica na consciencia, quando arremessa o vôo ás regiões luminosas onde fita os astros!--Falla-lhe pela minha bocca a sympathia, e a experiencia. Somos camaradas; sou seu amigo, repito-lhe... sou ainda mais amigo d'esta terra, de que deve ser, de que póde ser ornamento e brazão... e que o precisa, creia... que precisa de todos os grandes esforços para a levantar da ameaçadora decadencia.--Está nas primeiras impressões e nos primeiros annos. Tem aberta a carreira das armas. Com o seu nascimento, com a sua capacidade, com a instrucção e o estudo... qualquer outra que prefira se lhe póde abrir. É por isto, é para isto que o importuno... Nicolau Tolentino é official de secretaria... Manuel de Figueiredo tambem... Ahi em dois poetas!...
BOCAGE (_interrompendo arrebatado_)
Manuel de Figueiredo, poeta!... Um moralista seccante, que se julga innovador por imitar de longe os antigos!... O Tolentino, sim... esse ha de ficar para a posteridade!... (_Pausa, longa reflexão_. _Gonçalo observa-o attentamente_. _Levanta depois o rosto e continúa com progressiva exaltação_.) Ouça-me tambem, sr. Gonçalo Mendo. Verá que avalio os seus affectuosos conselhos... E se alguma vez lhe disserem que Bocage é uma indole pertinaz e intractavel, poderá affirmar como a austeridade e a razão o acharam docil.--Oiça-me. Não é novo para mim o que me diz...
GONÇALO
Ahi verá!
BOCAGE
Tem-m'o repetido a meudo a consciencia.
Oh! não mais que momentos inebria O sordido clamor da turba sordida!...
Perdoe, involuntariamente se me formulou em, verso a idéa.
GONÇALO
Prodigiosa faculdade! E quer desbaratal-a?
BOCAGE (_proseguindo_)
Não pense que estimo a plebe das admirações... tanto como admiro as magras rimas de ôccos versejadores!... No meio das mais estimulantes palestras, quando é maior o alarido e a matinada, quando egualmente espumam os copos e os labios, quando se condensa o vapor que tolda a casa e o cérebro, quando os motejos se crusam como settas, e os paradoxos refervem como vagas, que de vezes não fico eu mudo, absorto, sem escutar, sem perceber, sem discernir o que tenho diante!... É que se me desprende a alma para cima!... Tenho os olhos e o espirito nos espaços radiantes, d'onde se encara o infinito e o futuro!... Ouço o hymno triumphal na bocca dos povos reconhecidos!... Enfeixo nos braços as palmas das nações!... Cinjo na fronte os louros perpetuos!... Vejo as edades curvadas aos pés d'um monumento coroado de perennes resplendores!... Esta e só esta é a gloria, digo... esta e só esta... eterna primavera, eterna aurora... eterna recompensa!
GONÇALO (_enthusiasmado_)
E quem tal sabe conceber não ha de saber realisal-o!
BOCAGE (_tristemente, estendendo-lhe a mão_)
Dê-me que o mundo se povoe de juizos como o seu, de almas como a sua... e será possivel, e será facil... Como elle é, não sei se algum dia terei força para tanto... Por ora, não... Resgate a minha franqueza a minha fragilidade... O menor abalo que d'esse extasi me atire á realidade, mal acerto com a vista na nullidade soberba, na villeza prospera, na abjecção remunerada, na astucia triumphante, na hypocrisia omnipotente... n'esse ascoroso acervo das miserias humanas... todo se me revolve o coração... e sae-me pela bocca em strophes irritadas, que a amargura envenena, que a indignação inflamma! Quero, e não posso, conter esta furia, represar esta onda, que se entumece, e trasborda com o temporal de dentro!... Depois... Nenhuma fraqueza lhe dissimulo... Depois, as palmas, os bravos, as acclamações, o frémito das turbas, que pendem da minha voz e a minha voz avassalla, todo este rumor contagioso e irresistivel... é novo excitante á febre, é maior alimento ao incendio, que lavra, que lavra, que se desata em labaredas accumulando as cinzas... que investe ao acaso... que devora quanto encontra... que hade acabar por me devorar tambem!
GONÇALO
Veia exuberante! Seiva excessiva! Torrente impetuosa!--Os annos o corrigirão.
BOCAGE
Não sei... Nasci assim. Acho-me assim ao entrar no mundo. Corrige-se isto?
GONÇALO
Quando se não corrige, mata. E o sr. Bocage ha de viver.--Desculpe se o turbei nas suas contemplações... Não pude resistir... posto saber o fito d'ellas.
BOCAGE (_sorrindo_)
Das minhas contemplações de agora? Duvido (_passeiando com Gonçalo_).
GONÇALO
Quer que o vá perguntar ao honrado mercador Manuel Simões, que móra n'aquelle primeiro andar, para onde entrou haverá uma hora, com a sua interessante afilhada a sr.^a morgada D. Felicia? Bem se vê que está todo no seu enlevo... Tem por mysterio o que se passa nas ruas!... Presumo que não anda ahi por causa da morgada velha... (_Bocage protesta_) Logo vi.--E a viuva, diga-me? Quando ha quinze dias nos encontrámos na Torre da Palma parecia meio apaixonado.
BOCAGE
Apaixonado de todo.
GONÇALO
Que fez então a essa paixão subita?
BOCAGE (_gracejando_)
Foi como veio... subitamente. «Vê que não está na minha mão dissimular, e aproveita-se.»
GONÇALO
«Se pensa...»
BOCAGE
«Não: desculpe.--Sei que não é curiosidade indiscreta. E a quem melhor podia abrir o coração? Como hei de eu dizer-lh'o? A viuva é cheia de attractivos... merece todas as adorações... (_malicioso_) Não é esta a sua opinião, sr. tenente?»
GONÇALO
«Ainda que o seja? Pouco vem ao caso.»
BOCAGE
«Reservas commigo! Vamos, confidencia por confidencia. Confesse que não deita luto pela morte da minha paixão da Torre da Palma.»
GONÇALO (_sériamente_)
«A sr.^a D. Maria Joanna Galvão nunca me deu direito para me offender de qualquer preferencia sua.»
BOCAGE
«Podia não se offender, e custar-lhe. E não seria da minha parte loucura constituir-me rival do unico amigo verdadeiro que ainda encontrei?... (_Movimento de Gonçalo_.) Oh! não, não cuide que lhe quero forçar os segredos... não pense que foi generosidade...» Já que me obriga, digo-lhe tudo. Peço-lhe só que não seja severo. Ou venha dos annos ou do temperamento, o amor em mim é egual á musa, compraz-se no improviso. Rebenta em chammas, mas a chamma fulge e esvae-se como relampago... Depois... outra fraqueza ainda... é tão superior ás damas que tenho conhecido, a sr.^a D. Maria Joanna Galvão!... tão superior pela graça senhoril, pelo tracto do mundo e cultura do espirito!... (_Pausa_.) Encontrei-a, logo que cheguei, n'uma assembléa, em casa de sua tia D. Felicia onde me apresentaram... Ferviam os motes, e eu calado. Passei quasi todo o tempo escutando-a e reflectindo.
GONÇALO
Foi um estudo então?
BOCAGE
Um exame de consciencia. Intimida aquella distincção, subjuga aquella formosura, ordena respeitos aquella voz. Revoltou-se-me o coração contra similhante imperio... Se abomino todo o captiveiro!... Estava alli tambem, como esquecida, uma flor modesta, a afilhada da sr.^a D. Felicia. Com ser mimosa sua, era visivel a inferioridade da condição. Como, porquê, não sei... Para essa me voou a alma... Admira-se?.... Não posso supportar a idéa da dependencia, nem sequer em amor. Á dama opulenta e festejada que podia dar o pobre cadete, o poeta noviço? Ainda que me correspondesse... esmola seria a sua mesma preferencia. Com a donzella humilde succede o contrario... é ella a favorecida, e eu o generoso.--Prefiro estes amores... não tolero outros!
GONÇALO (_olhando para a E._)
Tem muito empenho em se encontrar com o mercador?
BOCACE
Porquê?
GONÇALO
Porque se não tem, podemos ir aqui de roda dar uma volta até á esquina da Inquisição, e tornar depois.
BOCAGE (_olhando tambem_)
É elle, e não sei quem mais. (_a Gonçalo_) Com todo o gosto... (_indicando a janella_) Como vê, as minhas contemplações não eram bem succedidas... não tinham ainda objecto.
GONÇALO (_andando_)
Logo terão. As estrellas levantam-se com a noite!
BOCAGE (_saindo com elle pela D., ao passo que entram da E. Manuel Simões e Francisco_)
Invade tambem os dominios da poesia, o sr. tenente! (_Saem_.)
SCENA V
MANUEL SIMÕES _e_ FRANCISCO PEDRO SIMÕES
MANUEL SIMÕES
Que espantos que não vae agora fazer a sr.^a Monica!... Se nem me lembrou dizer-lhe nada!...
FRANCISCO
E está boa a minha tia Monica?
MANUEL
Toda em cuidados pelo seu menino, pelo seu Francisquinho, que has de ser sempre para ella o Francisquinho, como ha vinte e trez annos, quando o Sebastião foi para a Bahia, e tu ficaste tanto monta no berço... As raparigas e a caixeirada não te chamam já senão o sr. doutor... Ella... sim!... Nem annos nem Coimbras lhe persuadem que o seu Benjamim está um homem... (_revendo-se n'elle_) e d'aqui a pouco um sr. doutor devéras... não é assim?
FRANCISCO
Este anno ainda, espero.
MANUEL
Mas vê lá, rapaz... Não te sirva de atrazo esta vinda a Lisboa! Jornadas para cá, jornadas para lá... sempre é tempo perdido!...
FRANCISCO
Sendo por poucos dias...
MANUEL
Será. Pois que!... Não pensei n'isto quando te escrevi.--Recebeste a minha carta a tempo? Recebeste, está visto. Pui-te esperar á estalagem, por me parecer que não faltavas... mas como não respondeste...
FRANCISCO