Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos

Part 2

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Dando exemplo aos cavalleiros. Fugiram os cavallos, fugiram os salteadores... se eram salteadores... já tinha fugido o commendador, fugiu o primo, e eu, que estava desatinada, confesso, vendo-o fugir... segui-o. Debandada geral... Não se ria, sr. Gonçalo Mendo... Segui-o, é verdade, a correr, a bom correr, eu mesma, por essas ladeiras acima, por entre o matto... E tive folego!... Veja que forças dá o terror, e como eguala as condições!... Por fim viemos dar todos aqui. Póde explicar-me o enigma?

MORGADO

Tive a imprudencia de não trazer armas de fogo. Estava apeado, não esperava dois ataques ao mesmo tempo... Mettido assim entre os salteadores que nos esperavam, e o outro bando que atirou sobre nós... Senti assobiar a bala aos ouvidos.

GONÇALO

Admira. Disparei para o ar.

MORGADO (_surpreso_)

Disparou!

D. MARIA JOANNA

Então o outro bando era o sr. Gonçalo Mendo!

GONÇALO

Eu mesmo. Voltava de Marvão, com duas ordenanças do meu regimento, em direcção a Monforte. Ao descer a encosta avistei um ajuntamento na estrada... Não podia distinguir bem, porque estava distante ainda, e já começava a escurecer o valle com a sombra do arvoredo... Metti a galope, e desconfiei que era ataque a passageiros. Disparei então uma das pistolas para dar aviso de soccorro, e prevenir alguma ousadia maior. Não esperava tão grande resultado. N'um instante desappareceu tudo... menos a liteira e a sua aia, minha senhora!

D. MARIA JOANNA

Jesus! é verdade! A minha pobre Anna Maria! Que é feito d'ella?... Com o sobresalto, com tudo isto, quasi me tinha já esquecido.

GONÇALO

Tornou a si... Acompanha-a um dos meus dragões... Vem ahi já. Nem pode acreditar ainda, que esteja viva.

D. MARIA JOANNA

E os ladrões, os criados, os liteireiros...

GONÇALO

Dos ladrões, nem vestigios... Parece que se abriu a terra com elles...

MORGADO (_que escutava attentamente, comsigo_)

Ainda bem!

GONÇALO (_fitando-o_)

Como?

MORGADO

Nada, nada... Explica-se tudo perfeitamente. Ainda bem, dizia eu. Ainda bem que se explica, está visto.

GONÇALO

Os liteireiros e os criados... deixei a outra ordenança incumbida de procural-os, e esses de certo não hão de estar longe.

D. MARIA JOANNA

E como veio aqui ter, tanto a proposito?

(_Vae carregando a noite_)

GONÇALO

Porque vi que se acoitavam n'esta casaria alguns vultos... e por... (_mais baixo_) por destino talvez!

D. MARIA JOANNA (_idem, motejando_)

Como ha dois annos?

GONÇALO (_gravemente e com ardor_)

Como sempre!

D. MARIA JOANNA (_afastando a conversação_)

Mas a final, onde estamos? Que havemos de fazer?

GONÇALO

Em primeiro logar... procurar luz. É noite quasi. Sr. Morgado da Gésteira, a casa tem ares de habitada. Se quizesse...

MORGADO

Pois não. Eu chamo. (_Successivamente e a intervallos, ás portas da D._) Olé! Oh!... ó de casa. Venha alguem? Está aqui o morgado da Gésteira!... Está uma senhora!... Gente de bem, tudo!... (_Silencio absoluto_.) Nem viv'alma!

GONÇALO

Estarão longe...

COMMENDADOR

É singular!

D. MARIA JOANNA (_inquieta_)

Será a propria guarida dos salteadores!

GONÇALO

Tem-se visto, mas não é provavel... Vamos, sr. morgado. Veja se acha uma luz. Bem reconhece que não posso ir eu. Está aqui uma dama, e agora, como militar, respondo pela sua segurança.

MORGADO (_irresoluto_)

Assim é, mas... (_sem se atrever a ir_) Commendador, mais vêem dois do que um.

COMMENDADOR

«Não é a luz dos olhos a que mais vê», como diz...

GONÇALO (_instando_)

Então! Cada vez se faz mais escuro, e não sabemos onde estamos.

MORGADO (_resolvendo-se_)

Vamos, commendador, antes que seja noite de todo! Por aqui... (_indo á E._) Uma varanda... (_indo á D._) d'este lado um corredor... Vamos a ver.

(_Saem os dois pela 1.^a porta da D._)

SCENA III

GONÇALO, _e_ D. MARIA JOANNA

(_Longo silencio como se receiassem quebral-o_)

D. MARIA JOANNA

Sr. Gonçalo Mendo, é ainda submisso como d'antes jurava?

GONÇALO

Nunca faltei a nenhum juramento.

D. MARIA JOANNA

Tornamos a vêr-nos em circumstancias extraordinarias... n'um ermo a bem dizer... entre sombras e mysterios... Não lhe permitto uma palavra de galanteio ás escuras... Estão entre nós...

GONÇALO (_gravemente_)

Estão tres seculos de honra... está a espada de um soldado.--Faz-me a injuria de suppôr necessario advertir-m'o?

D. MARIA JOANNA

Não. Desculpe. É ainda do sobresalto! Desculpe. Conversemos.--Estava bem longe de me encontrar, não? E assim, e aqui muito menos?

GONÇALO

Só adivinhando. Suppunha-a ainda em Paris.

D. MARIA JOANNA

Volto de lá. Um mez de jornada, faça idéa! Se não posso aturar o mar!

GONÇALO

Um mez!... Entre o commendador e o morgado?

D. MARIA JOANNA

O commendador...

GONÇALO

Uma reminiscencia das academias do sr. D. João V... a quem Deus perdôe...

D. MARIA JOANNA

Ao sr. D. João V?

GONÇALO

Não, minha senhora, ás academias.

D. MARIA JOANNA

O morgado...

GONÇALO

A casca dos antepassados... que não teve.

D. MARIA JOANNA

Já vejo que os conhece a fundo.

GONÇALO (_ponderando dolorosamente_)

Um mez em tal companhia!... A fadiga do caminho é nada ao pé d'isso.

D. MARIA JOANNA

Um mez com o commendador, que o meu contra-parente D. Vicente de Sousa Coutinho incumbiu de acompanhar-me, attendendo á sua edade, e que emprehendeu render-me á força de erudições... um dia com o morgado, que encontrei em Porto de Espada, e que foi esperar-me á raia, não sei se por sua conta, se por ordem de minha tia D. Felicia, a quem escrevi de Paris.

GONÇALO

Ao menos foi só meio supplicio no mez!

D. MARIA JOANNA

Ai! o dia do morgado tem valido bem o mez do commendador. Imagine. È um nunca acabar de proezas em cavallaria, em... esgrima, em altanaria, em monteria e em... gastronomia, como se diz em França. Com o pretexto de um parentesco... de que eu não tinha noticia... quer-me captivar pelas artes como o commendador pela sciencia.

GONÇALO

Concluo d'ahi que tenho n'elles dois... dois... Como direi?...

D. MARIA JOANNA

Rivaes. Póde dizer. Não tem risco.

GONÇALO

Em summa, requestam-n'a ambos!

D. MARIA JOANNA

O commendador dês que partimos de Paris... O morgado dês que nos saiu ao encontro na fronteira...

GONÇALO

Complicando o galanteio... ambulante.

D. MARIA JOANNA

Pelo contrario: simplificando-o. Distraem-se mutuamente, e deixam-me respirar. Dois são menos perigosos que um.

GONÇALO

E tres?

D. MARIA JOANNA

Menos perigosos que dois. Já lhe esqueceu o promettido? (_Pausa_.) Ambos pertendem a minha mão, é verdade... porque n'esta mão, com ser pequena, cabe a herança de tres casas.

GONÇALO (_simplesmente_)

Não me lembrava!

O MORGADO (_fóra_)

Prima! Prima!

D. MARIA JOANNA

Ouve? Temos temporal de palavras.

SCENA IV

OS DITOS, MORGADO _e_ COMMENDADOR

(_Ambos com luzes--Clarea de novo a scena_)

MORGADO

Prima. Achámos luz.

GONÇALO

Não é difficil verifical-o.

MORGADO

E não só achámos luz, fizemos um grande descubrimento. (_Vão pôr as luzes no bufete_.)

D. MARIA JOANNA

Não foi o novo mundo?

MORGADO

Não foi o novo mundo. Foi um mundo antigo... um canto d'elle... muito seu conhecido... A prima mal se podia lembrar. Não o vê de pequenina... E eu mesmo... Se não venho por aqui ha bons quinze annos!...

D. MARIA JOANNA

Vamos, acabe. Encontrou gente?

MORGADO

Gente! Ninguem. Um deserto.--Quer saber onde estamos?

D. MARIA JOANNA

Porque não começou por ahi? Não vê que estou morta de impaciencia?

MORGADO

Deus me livre de a molestar na minima coisa, prima. Quizera antes... brigar commigo! Bem sabe que para lhe evitar um dissabor... uma sombra d'elle, um... (_Gesto de impaciencia de D. Maria Joanna_.) Já vou, prima. Lá vae.--Quer saber onde estamos? Estamos no paço da Torre da Palma!

D. MARIA JOANNA

Em casa de minha tia D. Felicia?

MORGADO

No seu proprio solar. Não ignorava que era para estes sitios, mas deram nova direcção á estrada, e lá em baixo não me occorreu... Depois, quando entrámos, com o lusco-fusco...

D. MARIA JOANNA (_maliciosa_)

Com a perturbação...

MORGADO

Nem reparei sequer. Agora, entrando por ahi dentro, quiz-me parecer que me não era estranho o corredor... tópo uma escada, e dá-me ares de conhecida... desço, entro n'uma casa lageada, e cada vez se me afigura mais familiar o piso... Procuro, acho vélas, accendo, ólho em redor... Era a cosinha... foi um raio de luz...

GONÇALO (_sorrindo_)

Pudéra! Na cozinha!

MORGADO

Tantas vezes jantei n'esta casa!... Fui eu que dei as receitas de fartes e de manjar real á Dorothéa!... Foi alli que ensinei o Fernandes velho a fazer perdizes de gigote, quando vinha caçar com seu tio capitão mór...

D. MARIA JOANNA

Memoraveis recordações!... Admira como não reconheceu logo a casa.

MORGADO (_machinalmente_)

Com a perturbação... (_emendando-se_) com o escuro, quero dizer... E era tão novo ainda n'aquelle tempo!--Não se lembra de seu tio João, de Carregueiros? Parece-me estar vendo ainda o sr. capitão mór, João Alvares Lobo, sempre sisudo, e sempre triste... triste como a noite!... Tudo por quê? Por não deixar filho varão para herdeiro, (_a D. Maria Joanna_) e por causa da paixão de sua tia D. Felicia pelos donaires... Nunca se viram dois genios mais oppostos... Elle todo monteador e fragueiro; ella toda côrte e mimos!... Teimava o capitão-mór em eternizar, na Torre da Palma, os costumes do tempo em que era castello fronteiro a casa. A sr.^a morgada D. Felicia não tinha senão um fito... ser açafata no Paço.

D. MARIA JOANNA

E já é?

GONÇALO

Espera ainda ser. Ha treze annos que espera.

MORGADO

Na filha unica via o capitão-mór a continuação provavel da indole de sua mulher, e a ruina dos proprios intentos.

D. MARIA JOANNA

Tenho idéa de ouvir dizer que por isso se apartaram.

MORGADO

Por isso, certamente. Foi ella viver na côrte como desejava. Elle deixou-se ficar, não consentindo que sua tia levasse a filha... provavelmente para a criar a seu modo... Ficou pois... Mas como ficou!... Esta casa um ermo, elle uma sombra.--Levou-o mais cedo á sepultura aquelle desgosto!

D. MARIA JOANNA

E a pequenina?

MORGADO

Tinha dezoito mezes apenas. Tratava d'ella aqui a Joaquina Simôa, filha de um matteiro de Carregueiros, que havia dois annos casára com o Luiz Manuel, o escudeiro da Torre da Palma... A creança morreu, e seu tio pouco mais durou... Ha bons quinze annos isto... dezeseis talvez!

D. MARIA JOANNA

E dezesete porque não? Apezar de mais moço, meu pae havia casado muito antes de meu tio João. Tinha eu os meus seis annos feitos por esse tempo, e lembra-me bem de ouvir contar. Foi por morte do tio João e da filha herdeira, que as casas de Fresnos e Carregueiros passaram para meu pae, na qualidade de immediato successor. Não é isto?

MORGADO

É. Vivia ainda seu irmão Nuno Alvares, quando morreu o capitão-mór. Ao menos acabou persuadido de que as terras dos seus iam a herdeiro varão, como tanto desejava.

D. MARIA JOANNA

Deus tinha disposto d'outro modo. Meu irmão Nuno morreu ainda menino tambem.--O morgado não é menos forte em genealogias... patrimoniaes... do que em esgrima, e no resto.--Minha tia D. Felicia nunca mais voltou aqui? Fui cedo para Lisboa, casei aos quinze annos, e parti logo com meu marido para a embaixada de Vienna d'Austria, onde elle era secretario. Desejo informações.

MORGADO

Sua prima? Não voltou. A côrte é o seu encanto, e esta casa só lhe lembrava desgostos. Haverá dez annos mandou ir para a sua companhia a pequena da Simôa, que é sua afilhada. Tem o mesmo nome que tinha a filha, e nasceu pelo mesmo tempo... Recordações... saudades provavelmente.

D. MARIA JOANNA

E a Joaquina Simôa? E o Luiz Manuel? Tenho ainda uns longes d'elles.

MORGADO

Ficaram por feitores da casa.

D. MARIA JOANNA

E não apparecem, essas reliquias de outro tempo?... Procure-m'as, commendador... procure-as morgado... Ah!... (_como achando uma idéa_) Estarão ellas encantadas? Querem vêr que estão!... Desencantem-m'as.

MORGADO

Se não mudaram os costumes, foram ao terço a Vayamonte, e não tardam.

D. MARIA JOANNA

Sabemos onde estamos, e estamos em morada da familia... Não é pouco, mas não é tudo. Agora que fazemos? Monforte fica ainda longe?

GONÇALO

Meia legoa, o muito.

D. MARIA JOANNA

Não me fio n'estas meias legoas.--Visto que nos podemos julgar a salvo... (_a Gonçalo_.) Podemos?

GONÇALO

Sempre o julguei.

D. MARIA JOANNA

Acho-me um pouco moída das carreiras que dei atraz do morgado; e não sei se é do susto, se do ar, se da jornada, sinto uma fraqueza que... que está solicitando com empenho a intervenção e o soccorro da famosa ucharia... (_para o morgado_) Não seria occasião de experimentar alguma das receitas?... Qualquer coisa.

MORGADO

Preveni tudo... Vem tudo nas bagagens, muito bem acondicionado... Servir-lhe-hei duas ades estilladas, frias, que são um primor, e um queijo de presunto, que verá... sem contar um prato de broas d'ovos que tinha de reserva.

D. MARIA JOANNA

Ouviu já fallar no supplicio de Tantalo, morgado?

COMMENDADOR

Tantalo, rei da Lydia, filho de Jupiter e de Plotis.

MORGADO (_sériamente_)

Não conheço o sujeito, mas tratarei de fazer o seu conhecimento, se é pessoa de bem.

D. MARIA JOANNA

Não é preciso.--Tantalo ardia em sede, e fugia-lhe a agua que via proxima; devorava-o a fome, e retiravam-se d'elle os fructos que tinha á vista... Assim estamos nós... Tão boas coisas nas bagagens, e as bagagens por montes e valles!

GONÇALO (_que parecia escutar_)

Perdoe! (_Continua a applicar o ouvido_.)

D. MARIA JOANNA

Novidade?

GONÇALO (_saindo precipitadamente_)

Volto já.

SCENA V

OS DITOS _menos_ GONÇALO

D. MARIA JOANNA

Mais inquietações ainda!

COMMENDADOR (_turbado_)

Não agoiro nada bom... Ouço rumor se me não engano...

MORGADO

Não tem a gente um momento de socego. (_comsigo_) Dar-se-ha caso que devéras... (_alto_) Isto está como nunca... Anda tudo minado de malfeitores!

COMMENDADOR (_com o ouvido attento_)

Que ha rumor lá fóra, ha!

D. MARIA JOANNA

Assim é que me tranquillisam!

SCENA VI

OS DITOS _e_ GONÇALO

D. MARIA JOANNA (_assustada_)

Que foi?

GONÇALO

São as suas bagagens. Não é caso de consternar, creio.

D. MARIA JOANNA (_meio enleiada ainda_)

De certo não.

GONÇALO

Teve alguma coisa?

D. MARIA JOANNA

Não tive...--Tive... tive os terrores chronicos do morgado e do commendador.

MORGADO (_protestando_)

Terrores! Cuidados pela prima.

D. MARIA JOANNA (_aos dois_)

Hão de acabar por me tornar convulsa.

GONÇALO

Chegou a sua aia, voltaram os liteireiros, e appareceu o criado do sr. morgado. Não falta senão o do sr. commendador.

COMMENDADOR

Esse não me dá cuidado. É dos sitios.

GONÇALO

Tantalo tem férias?

D. MARIA JOANNA

Tem.--A minha Anna Maria?

GONÇALO

Entrou para os quartos inferiores.

D. MARIA JOANNA

Já agora aqui pernoitamos, commendador!

COMMENDADOR

É o mais prudente, se o sr. Gonçalo Mendo nos assegura...

GONÇALO

Basta que esteja em Monforte de madrugada. Eu e as minhas ordenanças ficamos de guarda a esta casa.

D. MARIA JOANNA

O Luiz Manuel não póde tardar. Sempre ha de haver modo de não ficarmos peior do que em Monforte.

MORGADO

Ha, pois não... Hade haver onde a prima se accommode como cumpre. Nós...

GONÇALO

Nós em qualquer parte e de qualquer maneira.

MORGADO

Como homens de guerra.

D. MARIA JOANNA

Que poeira trago... reparo agora!--Commendador... minha prima havia de ter um quarto de toucar... Quer dizer à Anna Maria que suba e procure.

COMMENDADOR

Procurarei eu mesmo (_galanteando_). Pretende Tibullo...

D. MARIA JOANNA (_atalhando_)

Ai! o morgado que faz que não vae acudir ás ades... ás ades... Como é?

MORGADO

Estilladas, prima, estilladas... Vou. Já vou. Deus me livre de entregar coisas d'estas a lacaios nem mochillas... Vou no mesmo instante.

COMMENDADOR (_indo para sair pela D., e mirando desconfiado Gonçalo Mendo_)

Dar-se-ha caso que...--Póde lá ser...--Um soldado!

MORGADO (_idem, á porta do F_.)

Querem vêr que...--Ora... um filho segundo!

SCENA VII

D. MARIA JOANNA _e_ GONÇALO

D. MARIA JOANNA (_que tem ido sentar se na cadeira junto ao bufete, acompanhada de Gonçalo, que fica de pé_)

Não está cançado, sr. Gonçalo Mendo?

GONÇALO

De quê?

D. MARIA JOANNA

Estou eu... creio que estou.

GONÇALO

Com um mez de jornadas!...

D. MARIA JOANNA

Não é das jornadas.

GONÇALO

Será dos companheiros?

D. MARIA JOANNA

Será.--Continuemos a conversar em quanto elles não veem, os companheiros.

GONÇALO

A respeito de quê?

D. MARIA JOANNA

Do que lhe parecer.

GONÇALO

Sem restricção?

D. MARIA JOANNA (_indicando_)

Agora temos luzes.--Diga-me alguma coisa de Lisboa. Hade estar informado.

GONÇALO

Sahi de lá ha quinze dias, e volto antes de oito. Vim á provincia em commissão apenas. Estou ás ordens do conde de Aveiras.

D. MARIA JOANNA (_distrahidamente_)

Que se faz? que se diz?

GONÇALO (_encostando-se-lhe ao espaldar da cadeira_)

Hade-se dizer em breve que possue Lisboa a perola das formosas e discretas... que já Paris admirava, e agora fica invejando.

D. MARIA JOANNA

Cumprimentos!

GONÇALO

Bem sei que a enfadam já por continuados.--Cumprimentos não, prophecias.

D. MARIA JOANNA

É moço para propheta... e ninguem o é na sua terra.

GONÇALO

O que se faz?... Deixe-me vêr... (_como recordando-se_) Não se faz nada.

D. MARIA JOANNA

Pois nada?

GONÇALO

O mesmo sempre.--A rainha, minha sr.^a, vae a Salvaterra, e sae ás suas devoções. De tempos em tempos opera em Queluz. Fóra d'isso a nau de viagem de anno a anno, e... e acabou-se. É assim depois que morreu o marquez de Pombal. Ao principio ainda se entretinham em ter medo d'elle, mesmo depois de desterrado. Agora até essa distracção falta.

D. MARIA JOANNA

Ai! sr. Gonçalo Mendo, desculpe. Está ali uma cadeira convidando-o... e ahi um logar a esperal-o. (_Indica o lado opposto do bufete. Gonçalo vae buscar a cadeira, e senta-se no ponto designado_.) Não lhe parece que estaremos melhor?--São ainda moda os abadeçados?

GONÇALO

Uma vez por outra. Agora estão em voga as assembléas.--Como lhe hade parecer tudo isto semsabor!

D. MARIA JOANNA (_sériamente_)

Engana-se. Sempre são ares nossos. Não sabe que me trazem saudades?

GONÇALO (_com intenção_)

De...?

D. MARIA JOANNA (_accentuando_)

Da patria.

GONÇALO

E sentimento digno de tal dama. Mas depois sempre se hade lembrar d'esse Paris, que era já tão seu.

D. MARIA JOANNA

O Paris que viu ha dois annos vae de dia para dia degenerando... Os requebros são curtidos em philosophia... as canções tem um sabor de finanças... Que distracção para damas!...

GONÇALO

Amortalharam então a galanteria franceza com a Dubarry?

D. MARIA JOANNA

Que está dizendo! Seria leval-a de caixão á cova. A galanteria sobrevive; mas agora tem por figurino a sensibilidade... e anda de braço dado com uma coisa nova, que veiu ha pouco de Inglaterra, e que se chama... (_recordando-se_) chama-se?... (_occorrendo-lhe_) philantropia. Sabe o que é?

GONÇALO

Um nome que trescalla a grego. Hade sabel-o o commendador.--Acredita na sensibilidade de figurino?

D MARIA JOANNA

Não; nem na philantropia de apparato.

GONÇALO

N'isso se occupam agora os francezes!... Substituiram isso aos madrigaes?... Pois não ganharam na troca. Estou tentado a preferir-lhes as nossas formalidades ronceiras... a nossa rustiquez e lhaneza... Por fim de contas, são coisas de casa... e muito de bom tem algumas.

D. MARIA JOANNA

Prefiro-as eu. Por isso vim.

GONÇALO

E bem haja que veiu! (_admirando-a_) Vem, ainda mais formosa do que era ha dois annos, quando fui levar officios de gabinete á embaixada de Paris... Lembra-se?

D. MARIA JOANNA

Tinha-se levantado o cerco de Gibraltar!

GONÇALO

Só isso lhe lembra?... Vem prendada de todos os primores do espirito, de todas as graças da beleza, e não consente...

D. MARIA JOANNA (_detendo-lhe a palavra com o gesto_)

Escute! Cuidei que era já o commendador... Quer ver se o commendador com effeito achou o quarto?...

GONÇALO (_Ergue-se vivamente_. _Pausa_. _Contemplando-a_.)

É cruel! (_Nova pausa_. _Com visivel despeito_.) Vou procurar o commendador. (_Encaminha-se á D._)

D. MARIA JOANNA (_levantando-se como por effeito de reflexão_)

Não. Espere. O commendador era capaz de pensar que não posso passar cinco minutos sem a sua presença.

GONÇALO (_voltando esperançado_)

Dispensa-a então... por óra?

D. MARIA JOANNA

Por mais um instante. (_Vae sentar-se no canapé_.)

GONÇALO (_defronte, de costas para o bufete, fitando-a_)

Porque me obriga a dissimular commigo mesmo? Porque me força a estes colloquios frivolos? É isto para nós? Não sabe que só a bocca lhe responde, porque tenho a alma e o sentido n'outra coisa?

D. MARIA JOANNA (_depois de pausa_)

Tem razão. É-lhe absolutamente indispensavel fallar-me do que já me disse ha dois annos em Paris? Pois fallemos... Fallemos.--Dei-lhe então esperanças?

GONÇALO

Nenhumas, é verdade.

D. MARIA JOANNA

Dei-as a alguem?

GONÇALO

Rodeam-n'a as homenagens como a soberana... é agradavel. Sorri a todos... mas fica a todos insensivel... tambem sei!

D. MARIA JOANNA

Insensivel!... Uma pedra, porque não?... Um gelo dos Alpes, vamos... Diga, diga... Se não o diz, pensa-o.--Somos insensiveis para estes senhores, nós outras, quando não nos declaramos humildemente rendidas apenas se dignam dar-nos um signal de preferencia... Nascemos para seu desenfado... «Sorri a todos»!... Vejam! Uma causa crime, completa só n'esta phrase: «sorri a todos»! Olhem o attentado! Queriam que chorassemos sempre? Queriam que _os_ chorassemos!... E quando choramos... Nem eu digo!--Sentenciado a pena ultima, o nosso sorriso. Sentenciado porquê?... Não sabem que nas mulheres o sorriso anda perto das lagrimas!... Deixem-nos ao menos esse raio de luz entre chuveiros... como o sol de inverno.

GONÇALO

Poderia responder-lhe que mais commodo do que ter amor é deixar-se amar... Mas não digo... não me queixo... nada peço. Está na sua mão não preferir ninguem?... Não o está impedir que lhe queiram... mesmo sem esperança. Porque não serei eu d'esses?

D. MARIA JOANNA

O sr. Gonçalo Mendo!...--Sente-se ahi. Vamos, sente-se. Quero confessal-o.

GONÇALO

E dá-me a penitencia antecipada!

D. MARIA JOANNA

Verei depois a que merece... segundo o arrependimento.

GONÇALO (_com esperança, fazendo menção de ajoelhar_)

As culpas dizem-se de joelhos.

D. MARIA JOANNA (_vivamente_)

Sente-se. Os culpados começam por obedecer. Isso. Vamos a saber: (_solemnemente_) é verdade que por occasião da sua ida a Paris desafiou em Versailles um capitão dos guardas francezes, e o deixou tres mezes de cama com uma estocada?

GONÇALO

É verdade. Foi para lhe provar que as parisienses não eram as primeiras entre todas as damas, como elle pertendia.

D. MARIA JOANNA

E porque não seriam?

GONÇALO

Tinha cá as minhas razões.

D. MARIA JOANNA

Boas razões haviam de ser. Como se estiveramos ainda no tempo dos Magriços!

GONÇALO

Os Magriços em Portugal são de todos os tempos.

D. MARIA JOANNA

É verdade que o anno passado, quando se festejou o casamento do sr. infante D. João com a sr.^a infanta D. Carlota, n'uma corrida de touros no paço da Murteira, saiu ao terreiro de espada na mão, e a pé, sem mais capa nem defesa, chamou a si o animal furioso, e matou-o de um golpe, só para que elle não pozesse os pés n'um lenço, que da varanda havia caido a uma dama?

GONÇALO

É verdade. A dama tinha sessenta annos.

D. MARIA JOANNA (_incredula e motejando_)

Sessenta annos!

GONÇALO

Mas chamava-se D. Mencia Jorge, e o lenço tinha bordado um _M_ e um _J_... as suas iniciaes.

D. MARIA JOANNA (_lisonjeada_)

Ah! (_Pausa_.) Mais...

GONÇALO

Mais ainda? Devo agradecer a curiosidade, que se informou... ou a informou... com tanta miudeza a meu respeito?

D. MARIA JOANNA

Deve responder.--É verdade que um dia, amotinando-se o regimento de Meklemburgo... servia então lá... o tenente-coronel... um allemão, creio... ficou só, ameaçado dos soldados enfurecidos? É verdade que unicamente um alferes se atreveu a collocar-se ao lado do commandante, com tal resolução e bizarria, que o exemplo envergonhou os sublevados, e a firmeza do official salvou a vida ao tenente-coronel?

GONÇALO

É verdade. O alferes cumpriu o seu dever, nada mais.