Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos
Part 11
A patria é a familia das familias!--Se uma veneranda mãe chama por seus filhos em nome da honra commum, qual póde recusar-se? com que pretexto hade eximir-se?--Os affectos de familia! Quem é o desamparado que não tem alguma familia? Se essa razão prevalece, ninguem servirá. Mais que para qualquer, para nós, os que seguimos a profissão das armas, e a patria mãe rigida e imperiosa, mas amada sobre tudo. Ainda mais sua do que nossa é aquella honra que entregaram á nossa guarda. Que filho consente que a honra de sua mãe possa entrar em duvida?--Sr. Bocage, o pundonor do soldado não exige menos que a isenção do poeta. Um passo para ficar... (_com os olhos no Commendador e Morgado_) e não faltará quem diga que eu... eu, um militar, um portuguez, um neto de veteranos!... recuei diante dos perigos do clima, ou da azagaya dos cafres... A calumnia é a espada da hypocrisia... não tem outra. Haviam de dizel-o. (_com resolução enthusiasta_) Não o dirão... Podem os meus inimigos triumphar com o meu supplicio; não triumpharão com as minhas fraquezas. Ninguem dirá nunca de Gonçalo Mendo, que o viu hesitar... nem diante da catastrophe subita das mais justas esperanças!
BOCAGE (_desesperado_)
Não tenho palavras que o convençam? (_indicando-lhe D. Maria Joanna_) Veja se resiste áquelle rosto, áquella dôr, ás supplicas alli estampadas, á voz e ás lagrimas que mais do que eu o persuadirão.
D. MARIA JOANNA (_descendo, triste e gravemente_)
O que existe no mundo mais santo do que o amor puro de duas almas, que uma da outra vivem, que uma para a outra só querem viver? Ha distancia que lhes desate os laços? (_crescendo em vehemente sensibilidade_) Haverá golpe que lhes corte os vinculos? Não lhes são communs as alegrias? Não lhes são communs as penas? Não lhes é tudo commum? Póde alguem separal-as em sentimentos, quando foi o sentimento que as uniu, que das duas fez uma, quer para viver, quer para pensar, quer para soffrer? (_Pausa_. _Com ponderativa energia_.) É a mulher de um soldado a companheira de todos os seus perigos, de todos os seus trabalhos... e de todos os seus deveres. A gloria d'elle é unico desvelo, unico fito, unico enlevo d'ella. A obediencia, que é n'elle empenho, n'ella é culto... Cumpre que seja em ambos a resolução egualmente heroica. Se não póde acompanhal-o nos dias de batalha... póde esconder-lhe o pranto nos dias de provação!... (_Pausa meditativa_. _Com subito e convulso esforço_.) Vá, sr. Gonçalo Mendo... vá que eu espero-o!
GONÇALO
Não, sr.^a D. Maria Joanna. Admiro a nobreza do seu animo... para mais sentir o que n'elle perco... mas o sacrificio da sua mocidade pesaria eternamente sobre a minha consciencia.--Restituo-lhe a palavra que me deu. É livre.
D. MARIA JOANNA (_solemne e decidida_)
Sr. Gonçalo Mendo, se na sua familia o juramento é timbre que a tudo sobreleva, na minha casa dão-se juntamente o coração e a palavra, e a palavra só deixa de obrigar quando o coração deixa de bater. Póde julgar-se livre; eu não. Se tiveramos tempo de consagrar a nossa alliança, podia negar-me o favor de acompanhal-o? Se estivessemos já unidos á face do altar, teria acaso direito de dizer-me: «restituo-lhe a palavra e a liberdade?» Considero-me ligada perante Deus: só Deus me póde desligar. Ámanhã recolho-me ao convento de Santos. Unicamente a sua mão me abrirá aquellas grades!
GONÇALO
Quem se não deixará vencer?--Á volta irei dedicar-lhe esta vida, que já toda lhe pertence. Hade permittil-o Deus!
MARQUEZ (_intervindo_)
Fizeram todos o seu dever. Tenho tambem um para cumprir... (_para o Commendador e Morgado_) Ás pessoas, que eu protejo, nem o proprio Marquez de Pombal se atreveu nunca! (_fulminando-os de desdem_) Sr. Morgado da Gésteira, precisa sair de Lisboa e tornar quanto antes para a sua terra... (_O Morgado fica attonito_.--_Com intimativa_.) Precisa.--Hade ter disposições que fazer. Não o quero demorar... (_O Morgado percebe e encaminha-se todo encolhido e confuso á porta da D._) Espere... o seu amigo Commendador deseja acompanhal-o.--Sr. Commendador, é provavel que a Meza da Consciencia lhe queira tomar contas do modo por que tem cumprido os encargos da sua commenda. (_O Commendador, que ao principio ouvia altivo, resigna-se tambem o segue o Morgado_.)
SCENA ULTIMA
OS DITOS, _menos_ COMMENDADOR _e_ MORGADO
BOCAGE (_vendo-os sair_)
A vilania e a jactancia... a cobiça e a hypocrisia!... Ahi estão os homens, ahi estão os vicios, que me ensopam a satyra em fel... que me inflammam de raios a musa!... Bem o prevejo, bem o presinto... Contribuirão elles para me abreviar a vida... pagar-lhes-hei eu com a immortalidade do ridiculo!...
MARQUEZ
Guarde para mais a lyra, Manuel Maria. Não vê como os castiga o despreso da gente de bem?--(_a Gonçalo_) Hade voltar... e hade voltar breve.
D. FELICIA (_consolada_)
Hade... hade... que m'o diz o coração!
MANUEL SIMÕES (_sempre impaciente_)
Ainda bem! (_ao Marquez insinuante e respeitoso_) Então agora... as escripturas...
MARQUEZ
Podem ler-se e assignar-se.
(_O Tabellião torna a pegar nas escripturas_. _O Marquez, D. Felicia e Manuel Simões voltam aos seus logares, mas sem se sentarem_.--_Francisco e D. Maria Gertrudes estão á E.; Gonçalo e D. Maria Joanna á D.; Bocage na extremidade da D._)
FRANCISCO (_a D. Maria Gertrudes_)
Finalmente... vou firmar a minha ventura!
GONÇALO (_a D. Maria Joanna_)
Ao menos... levo a esperança!
BOCAGE (_pensativo e com os olhos nos dois pares_)
E a mim... (_comsigo, dolorosamente, em quanto D. Maria Joanna que o observa, se lhe aproxima com Gonçalo Mendo, cuja attenção chama pelo gesto_) a mim... que me fica?
D. MARIA JOANNA
Fica-lhe... a posteridade!
(_cae o panno_)
FIM
* * * * *
A propriedade d'esta peça no imperio do Brazil pertence a Francisco Pereira da Cunha Novaes.
Rio de Janeiro, 1865.
*Notas:*
[1] Este periodo, e os seguintes, marcados com commas, supprimem-se na representação para abreviar as respectivas scenas.