Os Primeiros Amores de Bocage Comedia em Cinco Actos
Part 10
D. MARIA JOANNA (_fervorosamente_)
Tem a India inspirado os nossos grandes poetas! Começou já a inspiral-o!
MARQUEZ (_erguendo-se e dando-lhe o decreto_)
Aqui tem sr. guarda marinha. (_a D. Felicia_) Está tudo justo, não? As escripturas do casamento assignam-se em Belem d'hoje a oito dias!
D. FELICIA
Pois v. ex.^a quer fazer tamanha fineza a minha filha!...
MANUEL SIMÕES (_promptamente_)
Que honra!... Que honra para o afilhado!...
MARQUEZ
Justo é que sejam testemunhas todos os que presenciaram este feliz accordo. Ficam prevenidos. (_inclinando-se_) Terei occasião de dizer á sr.^a D. Maria Joanna Galvão o muito que a estimo e respeito. (_D. Maria Joanna faz mesura_.--_O marquez dirige-se á porta da E._--_Dispõem se todos a seguil-o_.) Sr.^a morgada, dispenso etiquetas... não consinto...
D. FELICIA
Seria privar-nos da maior satisfação!
MARQUEZ (_a Bocage_)
Não nos falte, Manuel Maria. Quero vêl-o com o seu novo uniforme! (_Sae com D. Felicia_.--_Acompanham-n'o todos_. _Ficam successivamente em ultimo logar, Francisco que dá o braço a D. Maria Gertrudes, Gonçalo ao lado de D. Maria Joanna, o commendador e o morgado da parte opposta, Bocage_.)
SCENA XIII
OS DITOS, _menos_ MARQUEZ, D. FELICIA _e os_ CONVIDADOS
GONÇALO (_a D. Maria Joanna, indicando D. Maria Gertrudes_)
Não lhe diz nada a vista d'aquelle par?
D. MARIA JOANNA
Diz-me que preciso um protector... e que já o aceitei!
GONÇALO (_transportado_)
É definitivamente uma esperança?
D. MARIA JOANNA (_dando-lhe a mão_)
É mais... é uma certeza.
(_O morgado mostra ao commendador esta acção_.--_D. Maria Joanna esquiva-se como envergonhada, e mette-se no sequito_.)
MORGADO (_consternado ao commendador_)
Viu?
COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)
Vi... Não estão ainda casados.
GONÇALO (_que seguiu um instante D. Maria Joanna, volta a Bocage, e mostra-lhe D. Maria Gertrudes e Francisco que de embevecidos se deixaram ficar atraz de todos_.)
Repare... O amor e a mocidade, coroados pela ventura!... Alli tem o seu melhor poema!
BOCAGE
Creio que sim... (_dolorosamente_) porque nenhum ainda me custou tanto!
(_Cae o panno_)
FIM DO QUARTO ACTO
ACTO V
*No palacio dos Marialvas, em Belem*
Sala forrada de damasco, severamente sumptuosa, abrindo sobre um terrasso que dá para o Tejo. Em perspectiva os montes da Outra-Banda.--Explendido dia de inverno. Amplas colguduras de seda. Cadeiras de damasco egual ao do forro da casa. Altos contadores marchetados, cobertos de preciosas curiosidades. Á _D._ a mesa preparada para a assignatura das escripturas. Portas á _D._ e _E._
SCENA I
GONÇALO, (_esperando_) _o_ MARQUEZ, _um_ CAVALHEIRO, _um_ MOURO
(_O Cavalheiro, que mostra mais de trinta annos, entra da D., de botas e esporas, seguido do Mouro_. _Este vestido a uso marroquino, botas escarlates, zorame, etc_. _O mouro traz-lhe a vara de marmelleiro_. _Ao mesmo tempo entra do F. o Marquez_. _O Mouro fica immovel onde está_. _O Cavalheiro vae com profundo acatamento ao Marquez, ajoelha e beija-lhe a mão_.)
MARQUEZ (_com magestosa simplicidade_)
Deus o abençoe, D. José! Já sei que o murzello começa a executar soffrivelmente a lição dos quatro circulos para a esquerda... É preciso trabalhal-o... É rijo dos rins, convem-lhe o trote avançado. Está ainda desigual dos travadouros.--Póde recolher-se agora aos seus quartos, filho... Hade precisar descanço... Oiça... recommende ao Mouro que vá ver como atam o murzello... e se lhe estendem bem as coberturas.--Se quizer escrever para Cintra a suas irmãs, e ao Marquez D. Diogo, tenha tudo prompto. Ámanhã de madrugada partimos para Samora. Acompanha-n'os o conde de Villa-Verde. (_O Cavalheiro sae_. _O Mouro segue-o_.)
SCENA II
O MARQUEZ, GONÇALO
MARQUEZ (_comsigo_)
Estes rapazes precisam dirigidos! (_vendo Gonçalo, que se conserva respeitosamente de parte, e indo a elle_) Desculpe que o não via. Chegou ha muito?
GONÇALO
Entrei ha pouco, sr. Marquez.
MARQUEZ
Tenho pena de o não ter apresentado a meu filho.
GONÇALO
Tive já a honra de fallar ao sr. D. José de Menezes! Encontrei-o varias vezes no quartel de Lippe e na academia de Antonio Diniz.
MARQUEZ
Ah! conhecia-o?... Não lhe dá ares do Conde dos Arcos, que tão desgraçadamente... (_suffoca-se, e desvia o rosto para limpar escondidamente as lagrimas; pequena pausa; mais senhor de si_) É tristeza que me não deixa, e é paixão que nunca me hade passar! Não posso ver qualquer dos meus filhos que me não lembre aquella fatalidade!... Ha quem murmure de me não ter deixado d'estes exercicios... Não pensam que assim se fazem homens para as armas, e soldados para a patria... Na minha casa os costumes transmittem-se intactos como a honra. Deixal-os murmurar.
GONÇALO
Quem se atreveria a murmurar do venerando patriarcha dos Marialvas, tão respeitado e tão querido na côrte e no povo!
MARQUEZ
Deixal-os. Não sei que façam mais do que nós; com as suas modas de hoje!--Deixal-os, e deixemos tambem o que não vem para aqui.--O dia é de alegrias, e creio que tem bom quinhão n'ellas. Cumprimentei já a sr.^a D. Maria Joanna Galvão. Uma dama completa. Não podia escolher melhor... nem ella tambem. Supponho não ser indiscreto.
GONÇALO
A sr.^a D. Maria Joanna já me permittiu confessar francamente o que era ha muito a minha secreta esperança, o que hoje se me fez inapreciavel realidade.
MARQUEZ
Estimo... estimo-o devéras.--Uma dama prendada, um valente soldado... boas familias... elevados sentimentos... Vae tudo de accordo.--É assim que se perpetuam as casas honradas... Hade, prevenir-me quando fôr o casamento.--Não andará longe, não?--É festa de que tambem me não dispenso. O regosijo dos velhos é casar os moços... (_com os olhos no terrasso_) A sua familia nova já ahi anda... O meu afilhado, esse madrugou, como é natural... Estão todos, creio... É cedo... ainda me não deram parte de ter chegado o tabellião.--E o nosso poeta?... o nosso novo guarda-marinha?... Vem de certo.
GONÇALO
Não o tenho visto. Disse-me que ia a Setubal despedir-se dos paes.
MARQUEZ
Voltou ha tres dias... D'onde procederia aquella resolução repentina!...
GONÇALO
Do mais generoso impulso!
MARQUEZ
Quiz-me parecer...--Que logo de cabeça! Vae em tudo aos extremos.--Ou hade subir muito alto, ou fazer-se muito infeliz!
GONÇALO
O mesmo diz a sr.^a D. Maria Joanna.
MARQUEZ
É ella que o Hade saber avaliar!... Do espirito e do coração da sua... da sua noiva... vamos, póde-se já dizer.
GONÇALO
Póde.
MARQUEZ
Do seu espirito e coração tinha ouvido muito Hontem porém fui ainda mais informado. Esteve aqui o Juiz do Civel da Côrte, que se não cançou de me gabar a nobreza e desinteresse que provou com a restituição dos vinculos á prima. Ella mesma desfez todas as difficuldades... e com tal zelo, com tal contentamento!... A proposito, deu-me tambem a entender coisas um pouco desagradaveis a respeito do Morgado da Gésteira, e do Commendador de Monsarás... Quasi que me arrependi de lhes ter aberto as minhas portas... Sabe se com effeito...
GONÇALO (_constrangido, e volvendo os olhos com frequencia para o terrasso_)
Que heide eu saber, sr. Marquez?
MARQUEZ (_reparando_)
Fiz a pergunta sem reflexão. Contaram-me tambem que se mostram seus inimigos declarados... e os homens como o sr. Gonçalo Mendo nunca fallam de um inimigo pelas costas... Essa mesma resposta confirma o que me disseram... Que o Morgado, fraco inimigo póde ser... Mais de temer é o Commendador... (_movimento de Gonçalo_) de acautelar, quero dizer... tem relações que... (_notando como elle olha para o terrasso_) Não o preoccupam agora os inimigos, vejo... e tem razão... (_sorrindo_) Hade querer cumprimentar as senhoras. Na minha edade já se esquecem facilmente essas impaciencias.
GONÇALO
Sr. Marquez!... Não pense v. ex.^a...
MARQUEZ (_festivamente_)
Não pensava, não pensava... Acompanho-o tambem.
(_Vae a sair; D. Maria Joanna vem a entrar, seguida do Morgado, que se retira logo vendo o Marquez e Gonçalo_.)
SCENA III
OS DITOS, D. MARIA JOANNA
MARQUEZ (_inclinando-se affavelmente_)
Minha senhora! Não lhe queira mal pela demora. O culpado fui eu: faltei-lhe a seu respeito. (_reparando para fóra_) É sua tia que está alli?
D. MARIA JOANNA
É, sr. Marquez,--encantada do palacio, da vista, do dia, do Tejo... e principalmente de v. ex.^a!...
MARQUEZ
E eu que tão mal lhe pago, que ainda quasi lhe não fiz as honras da casa, nem lhe cumpri a palavra. (_Desapparece no terrasso_. _D. Maria Joanna vae a seguil-o_. _Gonçalo detem-a_.)
SCENA IV
GONÇALO, D. MARIA JOANNA
GONÇALO
Esquivava-se ao Morgado, pareceu-me. Esse homem atreve-se ainda a perseguil-a?
D. MARIA JOANNA
O Morgado?... O Morgado não póde perseguir ninguem! Cuido que tentava não sei que justificação... Nem eu percebi... Andava passeiando no terrasso. Ao passar, ouvi a sua voz aqui: entrei... para o não ouvir, a elle.
GONÇALO (_contendo a colera_)
Tenho agora direitos sagrados. Se o Morgado ousou...
D. MARIA JOANNA
Ousou... evaporar-se apenas o viu. Ora, vamos... é homem que inquiete alguem, o Morgado?... Começa a fazer de marido cioso?... Previno-o de uma coisa... tenho horror aos ciosos! (_gracejando_) Se não póde conter-se, estamos a tempo ainda!...
GONÇALO
Não me contive eu tres annos... padecendo a ausencia... sem uma palavra de esperança ou de conforto... vendo-a repartir sem differença graças que só para mim cubiçava, agrados pelos quaes dera a vida?
D. MARIA JOANNA
Não verão o avarento!... Ahi está o que estes senhores querem... e ahi está porque eu fugia de prender-me!... Se não fazemos differença nos agrados, um côro de suspiros, uma circular de queixumes... todos a mesma coisa... Apenas temos a fraqueza de mostrar uma preferencia, o favorecido converte-se em tyranno, e pede-nos conta... até dos sorrisos passados.--Bem me dizia em Paris o cavalheiro de Florian... um moço de gosto e saber.
GONÇALO
Que lhe dizia?
D. MARIA JOANNA
Que para uma dama era inestimavel presente de Deus a mocidade e a independencia.
GONÇALO (_picado_)
Ah!... (_tristemente_) Repito-lhe então as suas mesmas palavras:--estamos a tempo ainda!...
D. MARIA JOANNA
Eil-o ahi já todo serio e enfadado! Valha-me Deus!... não vê que estou gracejando?--A independencia... a nossa independencia!... Muito é para invejar, na verdade!... Parece á primeira vista que nos festejam e nos adoram. Examinando bem... não ha mais duro captiveiro do que similhante liberdade... Os galanteadores são sentinellas, os lisongeiros espias.--Não foi tão vigiada a nympha da fabula. Ao menos os cem olhos de Argos fecharam-se uma hora...
GONÇALO (_sorrindo_)
E não foi preciso mais!
D. MARIA JOANNA
Malicioso! (_em tom mais jovial_) Estes Argos interesseiros não os fecham nem de dia nem de noite. Não sei como fazem, que se fortalecem da vigilia, como os outros do repouso. Para qualquer lado que nos voltemos, lá estão elles com os madrigaes assestados. Cada protesto de respeito é uma atalaya dissimulada. Cada cumprimento é uma bayoneta posta ao peito para nos tomar o passo... E que severa inquisição!... Se olhamos, é leviandade; se rimos, inconstancia; se nos desviamos, desdem... se baixamos os olhos, é disfarce; se choramos, é fingimento; se estamos sisudas, é reserva... Até se nos encerramos, nos poem á porta a suspeita!... As mesmas illusões de uns, se fazem nos outros furibundas indignações. Suffoca-n'os um circulo insuperavel de cortezias insidiosas, de reverencias desconfiadas, e de homenagens hostis... (_seriamente_) e quando menos o pensamos, achamo-n'os envolvidas pela astucia, pela cubiça, pela perfidia... não poucas vezes pela calumnia!--Eis aqui a nossa independencia!... (_no tom anterior_) O cavalheiro de Florian ainda não conhecia o mundo!
GONÇALO (_gracejando tambem_)
Dês de quando faz essa idéa da independencia feminina?
D. MARIA JOANNA (_gravemente_)
Dês que uma protecção opportuna me libertou d'esse ambito oppressivo... cheio de laços e de perigos... e me fez respirar os ares limpos e sãos de um nobre e generoso affecto!... (_com gentileza_) Não sei se vacillava ainda... (_dando-lhe a mão com meiga dignidade_) Sei que d'esse instante para diante não vacillei mais.
GONÇALO (_beijando-lhe a mão, e conservando-lh'a nas suas_)
Desculpa um momento de irreflexão?
D. MARIA JOANNA (_esquecendo a mão nas de Gonçalo_)
Ninguem é perfeito n'este mundo.
SCENA V
OS DITOS, _e_ BOCAGE _da D_.
(_Bocage entrando, vendo-os, e detendo-se_.)
D. MARIA JOANNA
Ah!... O sr. Bocage? (_retira vivamente a mão_.)
BOCAGE
O anão da casa encaminhou-me para aqui. Se sou importuno... (_como para sair por onde entrou_.)
GONÇALO (_indo a Bocage e detendo-o_)
Era esperado, e desejado... venha. (_descendo com elle_) Ninguem aceitaria com mais satisfação para confidente dos meus alvoroços.
D. MARIA JOANNA
Não é já o sr. Bocage da nossa intimidade? Não me esqueceu ainda!
BOCAGE (_com forçada jovialidade_)
Filho de Marte e de Venus pintaram o Amor. É indispensavel corrigir a mythologia... O Amor, de menino fez-se homem; de azougado cordato; de despido composto; de vendado attento... abjurou por fim a gentilidade, e até de pagão se converteu a bom catholico... para santamente unir e abençoar, como o pediam os seus merecimentos, um novo Marte e uma Venus melhor!
GONÇALO (_fitando-o_)
Porque violenta o espirito?... Esse tom festivo tem o que quer que seja de febril... não vem do coração.
BOCAGE (_naturalmente_)
Não vem, não; diz bem. No coração... tenho uma tristeza profunda... uma dôr que eu desconhecia.
GONÇALO (_apertando-lhe a mão_)
Comprehendo. Sente agora o sacrificio!
BOCAGE
Não a merecia!... Deus não quiz!
D. MARIA JOANNA
Arrepende-se?
BOCAGE
Não, minha senhora, não me arrependo. Fiz o que devia fazer...
D. MARIA JOANNA
O que poucos saberiam fazer tão bem!
BOCAGE
Mas a impressão não se apaga assim!... (_a Gonçalo_) Confessei-lhe a minha natural inconstancia... Conhecia mal esta grave e sincera affeição, que podia emendar-me... que outro me tornaria talvez!... Que lhe heide fazer? Bem certo é, que só se dá valor ao bem quando se perde!...
D. MARIA JOANNA
Hade encontrar um coração que o aprecie... Com o seu merito!... A felicidadade, que hoje cuida perdida, facil lhe será restaural-a.
BOCAGE
Duvido, minha senhora. Ama-se uma só vez assim... quando se ama. Está em mim mesmo, está na minha indole, o germe do infortunio. Se o podia atalhar alguma coisa, era isto... (_resignando-se_) Enfim não estava para mim!... (_abatido_) A imprudencia foi prometter que viria aqui hoje... Vinte vezes tive tentações de voltar para traz... Faltava-me o animo!
GONÇALO
Isso não. Tempera-se a alma nos lances difficeis. E na vida que vae seguir é preciso ter coração para tudo.
BOCAGE (_recobrando impetuosamente a resolução_)
É.--Isso pensei; por isso vim... e verá!--Era fraqueza: não lhe quiz ceder. Seria encetar mal uma carreira, em que o sacrificio é condição de todas as horas, em que o esforço é necessidade de todos os momentos! N'estas procellas d'alma quero dispor-me para as tempestades temerosas que resolvem os céos e os mares. O espirito sacudido de embates angustiosos, que em si mesmo lutou e venceu, está preparado para se não assombrar nem desmaiar, quando os horisontes se condensam... e os ventos se desencadeiam... e os abysmos se rasgam... e a crista das vagas, empinadas como serras, se cruza com a fita do raio, livido como espectro... quando os silvos do vendaval na enxarcia parecem ais de agonisante... quando, n'esse tumulto, n'esse horror, n'esse cahos, o baixel que o valor sustenta, que a intelligencia dirige, que salva a pericia, range até ás profundezas com o stertor do moribundo!... Attrae-me, convida-me a perspectiva... E quasi me esqueço do mais... e todo me ufano revendo-me n'este uniforme, que significa a honra o dever, o patriotismo, a abnegação... contemplando aquelle glorioso estandarte, que se já não varre as aguas como conquistador, se já não as senhoreia como soberano, hade no mundo ser sempre venerado por acções egregias... hade em Portugal ser sempre saudado de legitimas esperanças!
GONÇALO
Com esses sentimentos, sr. Bocage, não ha magoa que não se console... não ha grandeza a que se não aspire!
BOCAGE
Os sentimentos... São, sim... estes são, estes devem ser.--(_comsigo_) Mas o que faz d'elles muitas vezes o destino!
GONÇALO (_olhando para o terrasso_)
O marquez dirige-se para aqui, se não me engano.
D. MARIA JOANNA (_olhando_)
Veem todos.
BOCAGE (_idem_)
O commendador e o morgado são os primeiros! (_a Gonçalo_) Teem-me feito, pagar bem caro o peccado das más companhias, estes heroes.
SCENA VI
OS DITOS, COMMENDADOR _e_ MORGADO
MORGADO (_ao commendador_)
O que eu vejo, commendador, é que está tudo perdido!
COMMENDADOR (_ao morgado_)
Socegue.--A tempo chega quem sabe dispôr as coisas. «Hoje por vós, amanhã por nós.» Affirma Cicero que um dia basta para pôr termo aos triumphos.
BOCAGE (_a Gonçalo_)
Aves de ruim agouro!
GONÇALO
Que hão de agourar-nos agora?
SCENA VII
OS DITOS, MARQUEZ, (_entrando sem dar attencção ao commendador e morgado, que se inclinam_)--_Depois_ Um ESCUDEIRO, _de habito de Christo_
MARQUEZ
Vão sendo horas. (_a D. Maria Joanna_) Manuel Simões não cabe em si de contente, e sua tia anda nos ares. (_vendo o escudeiro_) Creio que chegou o tabellião. (_O escudeiro dirige-se respeitosamente ao marquez, e diz-lhe algumas palavras em voz baixa_.) Está ahi com effeito. (_ao escudeiro_) Mande entrar, e mande pôr as cadeiras.
SCENA VIII
OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA GERTRUDES, FRANCISCO, MANUEL SIMÕES _e_ CONVIDADOS
D. FELICIA (_vendo Gonçalo, jovialmente_)
O sobrinho não tem pressa de cumprimentar a sua tia nova?... Não lhe chega o tempo, já vejo... Era bem feito que me oppozesse agora!
GONÇALO
Para nos cobrir de tristeza!
D. FELICIA
Ai! não... não quero vêr ninguem triste... Sabe?... O sr. marquez!... Oh! grande marquez!... O sr. marquez entregou-me já o alvará de açafata.--Que dia!--que dia para a familia, sobrinha!... Estou curada dos meus hystericos!
D. MARIA JOANNA
Parabens, minha tia!
MANUEL SIMÕES (_impaciente, ao marquez, mas sem nunca esquecer o usual acatamento_)
O tabellião traz já as escripturas promptas, meu senhor.--É só assignar.
MARQUEZ
Ler e assignar.--Vejam como vem guapo o nosso guarda marinha!... (_a Bocage_) Quando levanta ferro a nau?
BOCAGE
Amanhã, sr. marquez.
MARQUEZ (_aos circumstantes_)
E de uniforme grande, em honra do dia. Não lh'o agradece, Manuel Simões?
FRANCISCO
Sou eu... (_indicando D. Maria Gertrudes_) somos nós dois... que principalmente lhe devemos agradecer. (_indo a Bocage_) Se os votos d'uma gratidão profunda pódem ser-lhe aceitos... asseguro-lhe que não os ha mais ardentes e sinceros.
D. MARIA GERTRUDES
Hão de acompanhal-o sempre as nossas orações!
BOCAGE (_commovido_)
As orações dos anjos são para os infelizes... (_com esforço_) e eu... sou apenas um desterrado voluntario!
MANUEL SIMÕES
Ahi vem o tabellião.--(_comsigo_) Meu filho doutor!... minha sogra açafata!... a minha nora morgada!... por compadre um marquez!--Está-me a cair o habito de Christo!...
SCENA IX
OS DITOS, O ESCUDEIRO _precedendo_ O TABELLIÃO, _e seis ou oito criados_
(_O tabellião entra fazendo reverencia a todos, e inclina-se profundamente diante do marquez; sob indicação do escudeiro toma o seu logar á meza em pé, e desenrola as escripturas._--_Os criados chegam ao marquez uma cadeira d'espaldas, e collocam em torno da meza mais algumas cadeiras communs. O marquez e as damas sentam-se. O escudeiro fica á frente dos criados, fazendo parede ao F._)
MARQUEZ (_sentado, ao tabellião_)
Póde começar a leitura. (_O tabellião dispõe-se a ler_.)
MANUEL SIMÕES
Ainda o não posso crêr!
GONÇALO (_por detraz da cadeira de D. Maria Joanna, que fica na extremidade_)
Chegará tambem brevemente o nosso dia!
SCENA X
OS DITOS _e_ UM PAGEM
(_O pagem entra apressadamente com uma bandeja de prata, e em cima um officio; dirige-se ao marquez, ao qual apresenta a bandeja com um joelho em terra_.)
MARQUEZ (_vendo o pagem, ao tabellião_)
Queira esperar. (_recebendo o officio_) O que será? (_O pagem retira-se para o lado_.) É para o sr. Gonçalo Mendo... traz o sello da secretaria de estado... Provavelmente não o achou em casa o correio, e disseram-lhe que estava aqui. (_O pagem vae receber o officio da mão do marquez, leva-o a Gonçalo Mendo, e sae_.)
GONÇALO
Para mim... Da secretaria?--(_recebe o officio, abre, e lê, com visivel gitacão_.)
COMMENDADOR (_de parte, ao morgado, tirando a caixa_)
Quer apostar que se não faz o casamento de sua prima!
(_O marquez observa-os_. _Bocage não tira os olhos d'elles_.)
MARQUEZ (_inquieto_)
Que é?
GONÇALO (_consternado_)
A nomeação de capitão de Sofála... e ordem terminante de partir na nau de viagem, que sae amanhã!
D. MARIA JOANNA (_erguendo-se com um grito angustioso_)
Jesus! (_Soccorrem-n'a D. Felicia e D. Maria Gertrudes_.--_Erguem-se todos, e affluem em roda de Gonçalo_. _Mostras de pezar na familia_. _O morgado não póde conter o alvoroço_. _Bocage continúa a observar os dois, refreado unicamente pelo respeito da casa_.)
MARQUEZ (_admirado_)
Tinha requerido?
GONÇALO
Eu, sr. marquez!--N'esta occasião!...
COMMENDADOR (_saboreando a pitada hypocritamente_)
Que transtorno!... No livro 5.^o da Eneida ha...
BOCAGE (_prorompendo_)
Sei eu... vejo eu d'onde vem o tiro...
GONÇALO (_dolorosamente_)
Acertaram-m'o no coração!... (_Breve pausa_.--_A Bocage, com animo inteiro_) Somos companheiros de viagem.
(_D. Maria Joanna soluça, com o lenço nos olhos, nos braços de D. Felicia, e sua prima_.)
BOCAGE (_impetuosamente_)
Não póde ser... não deve ser... O ministro foi enganado!
MANUEL SIMÕES (_insinuando_)
Uma palavra que o sr. marquez diga a Sua Magestade!...
MARQUEZ
Parto d'aqui a um instante para Samora. Vou fallar á rainha, minha senhora. Ha tempo ainda.--Não embarca, sr. Gonçalo Mendo. (_ao escudeiro_) Que apromptem o meu escaler. (_O escudeiro vae a sair, e detem-se á voz de Gonçalo_.)
GONÇALO
Peço perdão, sr. marquez: embarco.--Sei o que v. ex.^a póde... mas sei tambem o que devo.--(_grave e solemne_) Quando ultimamente fui tomar posse do meu solar de Mendel, aonde não voltara dês que entrei no collegio dos Nobres, a primeira coisa que me deu nos olhos, na sala de respeito, foi a longa fileira dos retratos de meus avós... um morto na defeza de Ceuta... outro espedaçado nos bastiões de Diu... outro mal-ferido na batalha de Montes Claros!... Todos com o arnez no peito e a espada no cinto... todos soldados desde Aljubarrota!... Parei a contemplal-os na vasta quadra, triste e deserta, que novamente a morte visitava.--Do alto das sombrias paredes pareciam dizer-me aquelles vultos severos: «por servir a patria, e para servir a patria, nos foi dado o patrimonio que te deixamos, com as obrigações do nosso nome, com as tradicções do nosso sangue. De ferro eram os nossos corações, como eram de ferro as nossas armaduras... nunca tremeram nos riscos mais affrontosos... nunca vacillaram nos mais apertados transes!... Esta immaculada austeridade nos fez estimados e honrados... Tal é o deposito de virtudes hereditarias que te confiamos... Recebe-o para o transmittir como o recebes.»--Isto julguei ouvir... isto se me gravou n'alma.--Podia esquecel-o agora?
BOCAGE
Mas essa nomeação foi solicitada pela perfidia... essa ordem...
GONÇALO (_atalhando_)
É da patria. Não a examino; obedeço-lhe. Foi o que prometti quando jurei bandeiras.--O primeiro predicado militar é a obediencia: o valor é apenas o segundo. (_vehemente_) O soldado que se nega a obedecer é como um desertor em dia de batalha,--atraiçôa egualmente o juramento! Ninguem ousaria aconselhar-m'o... ninguem espera tal de mim! (_D. Maria Joanna alça o rosto, e escuta-o attenta, enxugando os olhos_.)
BOCAGE
Não, o esquecimento do dever ninguem lh'o poderia aconselhar... Mas o estado que vae tomar, mas a familia que lhe abre os braços, não lhe dita deveres tambem?
GONÇALO