Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Part 9

Chapter 9 3,946 words Public domain Markdown

--Não se consumma! não se consumma!

--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?

--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.

--Acho que não! acho que não!...

Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz molhada de lagrimas:

--A minha filha! a minha pobre filha!...

Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez. Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedinchão e mais gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o _Gebo_, e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?

E elle logo com um riso no olhar:

--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?

Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar, respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:

--Boas pernas... boas pernas...

Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado, enlameado e de rastros, a chorar. Illusões? já as não tinha, se illusões não servem senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos, agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa, prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos, todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a scismar.

Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a illusão. Elle chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro, apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo era cobarde: tinha um grande medo á morte.

Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e corre sem ruido...

Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis crêr que estava mais gordo e mais picaro?

E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro, espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:

--Tenho pena de ter sido honrado...

Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanço: a sorte da filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.

--Tenho pena de ter sido honrado.

Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos e escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvára acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.

O Gebo não entendia a vida.

--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.

E elle meio tonto:

--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...

Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco. Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos seus: o lar apagado, a afflicção da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão. A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava anciosa:

--Arranjaste?

E elle a bufar, exclamava succumbido:

--Valha-me Deus, mulher!

N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao Gebo, que nem sequer tinha forças para as sustentar a ambas.

--Olha os outros! olha os outros!

E elle atrapalhado:

--Mas que hei-de eu fazer, mulher?

--Vae roubal-o! vae roubal-o!...

Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:

--E agora como ha-de ser?

A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á bocca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que não havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.

De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.

--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...

--Filha que ha-de ser de ti!

Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Extendia a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:

--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...

* * * * *

Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se pareciam, como a desgraça se assemelha á desgraça. Até que cahiu por terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o emfim aniquilado: engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a chorar n'um colxão de trapos.

Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro d'afflicção--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de sebo--e de cabellos brancos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo na terra!...

XIX

O GABIRU TRESLÊ

Noite de luar. A Arvore mergulha os braços n'um oceano de luar translucido, biliões de atomos luminosos errando. É um collosso de verdura e de bondade, uma construcção cheia de frescura e rumores. Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o luar é tanto que faz afflicção. Sente-se a satisfação gigantea da Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte, simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflicção. Por entre os raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida. Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só se vê uma brancura.

O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sosinho--que lhe não fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos. Só escarneo! só escarneo!...

* * * * *

Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. Não é ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de luar sorri extasiado...

* * * * *

Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em pequena anda rôta, quasi nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados. Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho--e que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só soffre. Vêm uns, vêm outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da desgraça.

* * * * *

Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece, á medida que o Gabiru vae tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha extasiado.

* * * * *

Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais revolvida a materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma maravilhosa forma de luar.

* * * * *

O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar, de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos fios de luar...

* * * * *

--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto, erguendo-se. Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir, pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes, arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me déra ser a noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflicção! Juro-o, as arvores falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar. Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto! Olha!...

* * * * *

Sob a Arvore--realidade ou illusão?--uma figura se constroe de luar, na sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar, amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva! viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar tombando sobre folhas.

Elle sorri e diz:

--Eis como se cria uma alma!

* * * * *

Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.

--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o muito tempo.

--Minha alma!

Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida, toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da Sombra acordava. Eil-a! eil-a!...

--Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os olhos se perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra rir.

--Não fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo chão corria um fio de agua ou um fio de choro...

--Meu amor! meu amor!

XX

A MOUCA

Noite de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um clarão de tochas á porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado. Trouxe-a para casa uma noite, a essa creança que encontrou cahida na rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe quer o gato pingado fazer, não me dirão?...

* * * * *

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão d'um garoto, que não lhe é nada. Elle que não tem onde cahir morto, chora o pão que tiraria á propria bocca para o dar a outro.

* * * * *

Morreu-lhe hontem. É decerto um gato pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de primavera negra, em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos á escuridão.

--Deitam flôr á noite...--diz o Sabio.

A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva sinistros clarões d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de brandão em punho, chapeo alto e casaca a esvoaçar... A que irão elles deitar fogo na noite tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tisico... Na volta vêm decerto a cahir de bebados.

* * * * *

Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta? O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe á mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e só diz:

--Filha!

A existencia é como um circo. Não ha piedade.

* * * * *

Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que força é que se constroe, de que chimica é que se forma a bondade profunda, inabalavel, inextinguivel, que sustenta e ampára os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora _menina_, depois que a vem sua egual. Repartem com ella o pão que ganham, e ao vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois não sabem consolal-a.

--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.

--Isto aqui é uma vida de cão.

--Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra,--conclue outra.

* * * * *

Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos se riram com escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. Não havia ser mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lagrimas d'afflicção, para a igualarem.

--Cá temos a _menina_!

--Quem no diria? Não falava a ninguem a mosquinha morta! É para aprender!

--Deixae-a!

--Deixae-a o que? Ella é como as outras.

--Deixae a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não tem coração.

--Tambem a gente soffre.

* * * * *

Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante d'aquella dôr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se a amal-a. Tratavam-n'a por _menina_. Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. Só a Mouca lhe tinha o mesmo odio.

--Olha lá, ó parida!

--É commigo que fala?

--Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora. Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

--Sei--diz Sofia.

--Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

--Ah, tu não falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? Não quero que olhes p'ra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

--E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada como eu. Aqui não ha meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que as outras?

--Sou mais desgraçada.

E poz-se a soluçar.

Mas de subito a Mouca clamou:

--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu dizia cá commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da terra. Crearam me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria p'ra mim, para me mostrar que não está zangada commigo. É bôa! eu dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão raza como eu. Que é ella mais do que eu? Sabe porque lhe tinha esta _osga_? Por vêr que a menina era infeliz e bôa p'ra todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.

XXI

AHI TÉM OS SENHORES A NATUREZA!

N'essa madrugada o Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que só elle sabia a existencia. As paredes arrombára-as d'onde a onde a raiz torcida da Arvore.

--Anda! anda! Estas raizes são mais duras que a pedra. Nada lhes resiste, nem o granito. A Arvore ha-de acabar por nos tragar a todos.

Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto. Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que é como a agua da rocha, que appetece sempre beber e que traz comsigo existencias d'arvores, cheiinho de emoção. Param. Uma brancura, nebulosa na cova onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No céu brilham estrellas e sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das arvores tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos além são espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma estrella enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de claridade... Eis o sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de nevoa e a verdura da herva, na manhãsinha, é immaterial, como se fosse a respiração da terra. As aves, nas moutas, começam o seu dia cantando.

--Que sentes?--pergunta o Pitta ao Gabiru.

--Espera! espera!--diz o outro entontecido.

--Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouço! que sem numero de vozes, de palavras precipitadas!

--Vês arvores?

--Só vejo um clarão. É como um relampago, offusca-me! Mas o que eu ouço! quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem arvores porque ouço o seu ruido e a sua voz...

--Procedamos com methodo. Eis ahi a terra, ahi a tens a teus pés. Ahi tens um charco.

Tudo já estava cheio de sol.

--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.

--Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as mãos. Ahi nas tuas mãos, n'esse pedaço de lama, tens tudo, particulas d'arvores e de sonho, realidade e emoção...

--Isto é então...

--Um turbilhão,--affiança gravemente o Pitta.

--Isto é vida?

--É vida. Esse pedaço de terra é humus. Incha com a primavera, fala. Está morna e escuta, põe-n'a ao ouvido... Ouves?

--Ruido, vozes, gritos d'embryões, um borborinho...

--Ora repara. É sempre a mesma coisa. Maquinações philosophicas... Isto é um mundo e isto--e aponta um charco--é um mundo. N'esse charco adeante, ahi, vês?...

--É oiro.

--Não, é agua onde o sol se espelha, apenas agua...

O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na poça. Tira-as depois para fóra fascinado. As gottas d'aquella agua turva cahem qual oiro liquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.

--Eis estrellas! exclama commovido.

--Perdão, é apenas como te disse, um charco, um desprezivel charco. Habitua-te primeiro a vêr.

--Quero vêr mais!

--Habitua-te primeiro a vêr...

O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sêres e as coisas. No dia humido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os troncos engrossam, a agua nasce inchada, n'essa manhã de primavera, em que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva encharcára, irrompe uma vida exuberante, apressada, de sêres que em minutos de existencia têm uma prodigiosa tarefa a cumprir: amar, crear, morrer...

--Eis uma arvore--aponta o Pitta.

--Como ella gesticula para nós!

--Pois ahi tens uma arvore.

--Que coisa enorme e bella que é uma arvore! É differente da outra... E é uma arvore? Uma arvore dá agua, ouço a agua a cahir.

--E o ruido das suas folhas.

--Uma arvore é viva. Fala? É o ser mais bello que eu conheço. É verde, mexe-se...

--E alli, longe, um monte.

--Aquillo pequeno? Um torrão como este que os meus pés desfazem. Só é violeta. Maior é uma arvore! maior!... E esta poeira luminosa que nos envolve, que é? Alma?

--Maquinações philosophicas... Caminha agora, vê... Eu vou-me deitar á sombra... Podes vêr...

O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao pé d'um sobro. Da algibeira saccou o caderno de notas e poz-se a escrever: _Deve_ á D. Antonia, tres mezes em atrazo--30:500 rs.; _a Haver_ das explicações da natureza aos domicilios--25$000... Differença...

O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas, arvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica absorvido defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira treme, carregadinba de flor. Ha galhos que lhe parecem emoção. Os pés calcam hervas espesinhadas, que tambem deitam cá fóra o seu sonho; esquece-se ao pé das fontes vendo-as jorrar e põe-se a respirar fundo, querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.

De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e rapidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-n'a, as flores abrem-se tontas e escondem gotas nas corollas; vêm-se crescer as pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gommos tingidos de resina estalam, abrem, com um ruido suffocado--ah!... Tudo fica baço a principio, a terra molhada é d'um negro gordo; um fremito corre nas folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol começa de novo a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios d'oiro e no chão ha toalhas e caminhos d'oiro e sombras.

--Senhor Pitta, eu quero ser isto...

--Isto quê? resmunga o outro concentrado.

--Quero ser isto!...

Mas o Pitta, enfronhado nos calculos resmoneia:

--Maquinações philosophicas. Deixa-me... Eis a differença--22$000 réis... Eis!...

O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se a vêr os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que parece uma teia de luar esquecido. Primeiro o tronco incha: ha como ponto negro que estoura, para ser botão e depois flor... Medita. Está um dia morno e humido. Sahiram das tocas os bichos internados todo o inverno. Vespas passeiam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra remexe. Acredital-a hieis viva.

Em que se põe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, affeito ao silencio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e sobem para a luz, o _glu glu_ das raizes gordas e felizes ao mergulharem no humus.

É um barulho de maré longinqua que cresce, galga, augmenta, trasborda... Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas escondidas, os tojos bravios, para quem ninguem repara, crescem. Ha-os nas pedras; ha-os no ventre resequido dos calháos.

Anda, anda, e dá com aguas grossas, felizes, apressadas; com quintalorios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros, depois silvas, bravios--e até nos sitios mais estereis encontra a mesma vida e o mesmo amor.

Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?