# Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

## Part 8

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--Só a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as acções e de todos os phenomenos, só encontramos a chimica... Na primavera e no odio. Vocês nunca viram lá fóra onde existem arvores?... Sim ha arvores e aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um laboratorio immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billiões de gottas. E de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram prodigios: reacções, transformações, a vida emfim. Vocês nunca viram uma grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva nascendo... Pois é feita de chuva e terra... Das arvores--sabem?--cahem gottas mais grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois ao sol, n'uma vida furiosa.

--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas não é tudo: o infinito existe...

--Onde?

--Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma d'aquella pobre senhora que eu outr'ora amei desesperadamente...

Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade, a desgraça e o proprio sonho, constróem os seus typos. Marcam-nos. Triste é chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera, todo em brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te appareceu como um fructo, arredaste-a, para só pertenceres á tua obra: o riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto: queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e o cerebro, e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á multidão--eil-o o poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor, viste que o brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora amarga, a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento e uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te é possivel: só o alcool te dá ainda illusões, e as conversas desesperadas, monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaços arrancados ao poente.

Para o _Corsario_ chegára a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera; só o Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas vezes todos juntos tinham discutido a morte!...

--A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de dinheiro. Com oiro triumphariamos ainda.

--Com oiro! berrou o _Corsario_.

--É que, respeitavel madama, hoje elle é o unico poder, a grande força. Permitta-me que lhe affiance: é Deus. O oiro é tudo!

Cada um ruminava as suas idêas sem se importar com o Gabiru. Do saguão vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas á sombra, queriam entrar na alluvião eterna.

--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.

--Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a lingua de fóra aos vivos, um trapo pendurado... É afflictivo e dá vontade de rir.

--Já tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.

--Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das marés...

--Perdão, no mar largo...

--Uma bala, uma bala seria mais prompto. É até elegante. Repare que é a morte dos namorados.

--E o veneno?

--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o veneno a mim atterra-me.

Ficavam um pedaço a scismar. O que os prendia afinal á vida? em que criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhára e aos quarenta annos já se não constróem nuvens. Só o Astronomo todo se consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

--Sonhar! sonhar!--prégava.

--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.

--Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a existencia?.... D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão d'astros... Quantas riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma arvore sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se desço cá p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no céu.

--Mas a natureza...--disse o Pythagoras.

--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é bello: é tudo d'oiro e verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao pé...

--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!

--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.

--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!

--E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem sei falar...

* * * * *

Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforço para materializarem a propria alma, que outra coisa não é crear, déra-lhes como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco. Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os aterrava, a morte que era o _nada_ para todos, até para o Pitta então idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia não era de certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes falhára. Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella põe, até no homem que na terra representa a omnipotencia, o banqueiro, arrepios de allucinação e terror, quando acaso a Havas diz á Terra que um Rotschild acabou de uma fórma identica á d'um pobre diabo ou d'um poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é indifferente ir apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse oceano negro não sahem nem gritos, nem bençãos, nem palavras. É o formidavel, o mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente, diz La Rochefoucauld.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ella impõe-se ao homem, negra e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrastra, para outros é noiva. Ora avança como uma furia, ora coberta de flores como abril.

As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, párias, esperam-na como a redempção. De tanta lagrima, de tanta aspiração, alguma cousa se deve ter creado no infinito...

Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aquelles para quem a vida é aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de claridade, n'uma madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que não tenha sido torcida e despedaçada, sem bocca para gritar--elles sabem-no--vão erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar é negro, tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado, onde só monstros cresciam.

Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.

A differença é simples: ella é termo de miserias, ou o termo do goso.

Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos porque ella liberta, e até os incompletos, aquelles a quem não é dado nem sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...

--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia quasi sempre, é o termo da vida? é o inicio da vida?--perguntava o Pitta.

--As philosophias e as religiões respondem. Cada uma assegura a fala. O mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a existencia,--dizia o Pythagoras.

Só o Astronomo lhes explicava:

--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do que é materia resultam bellas fórmas, arvores, nuvens, côres; da transformação do que é espirito alguma cousa de radioso deverá surgir...

Ha muito que eu conheço duas figuras, que atravez das edades, vem prégando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.

Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra préga, a outra fala entre desesperos e ruinas. Vós, meus amigos, conheceil-as--a figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes typos da humanidade. Ás vezes confundem-se, misturam-se: cabeças de idealistas e corações de pedra. Acontece tambem que, quasi sempre, uma segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim vindo pelas philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão, ora nas palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a materia quer prégar--apparece Falstaff.

Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos seus combates dentro do meu coração. Uma affirma, a outra nega. São duas grandes vozes, que nasceram com o homem.

Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra põe mais longe os seus olhos--no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria humana, desola-a, mas não a faz descrer:--Lá, lá, tudo se realiza e os proprios gritos são necessarios á Harmonia.

Uma é feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como lôdo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que _depois_ só o nada existe.

E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a belleza eterna para os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a terem creado, á immortalidade. Se ella não existia formou-se, desde que os desgraçados e os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a justiça eterna e a sua fé--o infinito creou a.

Elles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte, que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo á tona idéas, explicações, theorias, apavorava-os. As suas aguas acarretavam idolos, religiões, mantos purpuras de homens, que se debatiam, a gesticular, querendo comprehender, vêr. Ao pé d'essa figura negra e indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com theorias, brazidos, lama, desesperos, que não conseguiam sequer pôr uma ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o céu, tragica e muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico, desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...

--Então a quem morre...--perguntou alguem.

--Acabou-se-lhe o sonho.

--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.

--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...

--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.

--Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro até a fazer gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria. Botam as arvores flor e as creaturas emoção... Tudo isso seria meu. Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceição, seria talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!... O mal a imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...

E como o Pythagoras fosse a sahir:

--Espera. Para onde é a ida, philosopho?

--Prégo a revolução. Ando a prégal a...

E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:

--Ao pequename! Rica idêa! E philosophica! Um grande elemento. Pois é atiçar-lhe!...

E sahiram ambos.

* * * * *

Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles não sabiam explicar a vida: sentiam-n'a e soffriam. De pé explicou-lhes:

--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas mãos eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era profunda como um poço. O céu esquecera-o, as arvores esquecera-as. Um dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, cá fóra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!... Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim desperdiçára a vida á procura d'um thesouro que tinha alli á mão!...

Ninguem lhe respondeu. Só o Corsario, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

--Que é?

--É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te d'ella a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade por nuvens.

E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a agua que passa limpida pelas mãos d'uma d'essas estatuas que tu vês nas fontes. Nunca cessa, egual, fresca, cheia de scintillações, e nunca tambem estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores são as mesmas arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a! perdeste-a!...

--E tu?

--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca moça e viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e então arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como póde metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci á humilhação, a procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fóra depois de servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que móro com o odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca. Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancal-o ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubal-o. Ella seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era forçoso que fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-hia tudo, ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi. Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada sêr só existe seccura e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria minha filha! A semente germinaria, cahida n'um coração mais duro que as pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida, mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o odio. Odiar-me-ia a mim propria, sua mãe--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...

* * * * *

Sahiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns aos outros--e a um canto os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas lagrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se entontecidos a narrar, n'uma voz amarga--a voz da desgraça. Erguiam os braços e de cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da guerra.

Um disse:

--Eu gosto de vêr soffrer! eu quero vêr soffrer!... Como elle anda a espreitar illusões a vêr se as calca! Onde nascem flores logo as esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol ás levadas. Calca tudo e ri, tudo o que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.

Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:

--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra, minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vêr o sol.

--Ha desgraças e dôres que fazem rir,--diz alguem.

Outro ri, ri sempre d'afflicções, de catastrophes. Procura dores para se rir e doido eil-o a rir e a clamar:

--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de soffrer. Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?

--Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude rir,--préga uma bocca na escuridão.

O Gabiru sente-se agarrado pelo _homem do pacho_.

O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir d'um tumulo.

--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...

--É impossivel...

--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se pódem rir--e ser só, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta mostrou-me e depois, sabes? tive odio. Odio... Não eu não sou amigo do sol nem das arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida come-me a vida--e triste vida d'afflicção a minha! Fui sempre doente. Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me. Porque é que Deus faz nascer creaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho frio e fome de sol, de saude, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos não soffre. Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer--é certo?--que até as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja, a dôr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a hospital. E nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?

Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.

--Olha! olha p'ra mim!...

Sahiram--e atraz de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres, curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os tirando o pão da bocca, para o repartirem; havia-os com uma vida de lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.

* * * * *

Afinal todos se tinham ido; só na escuridão ficára uma velha prostituta. Era quasi uma coisa--a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se. Tinha apparecido para dizer o quê? Que accusação tremenda contra a vida?

Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:

--Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...

Ella não respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a scismar. O que era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

--Mas então p'ra quê? p'ra que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e nem posso gritar... E tu?

--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer é afinal reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e vel-o calcado!...

--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e toda a vida me bateram.

--Tu sim, pobre de ti... E amaste?

--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma _desinfeliz_? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre anda um frio!...

--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal. E batiam-te?

--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a ti?

--Puzeram-me a alma negra.

--E tu?

--Eu soffria.

--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos d'um lar a apagar-se.

--Ouve, não chores... Tens frio?

--Estou gelada de frio.

--Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Tu imaginas que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vão crear, para depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?

--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não fales! não me lembres!...

--Se tu amaste e soffreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas, mas as minhas ardem.

--Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...

--Soffre. Nada é perdido. Olha: vae-se creando com as nossas afflicções e os nossos gritos, uma outra terra!...

--Aonde?

--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima dor, aos ultimos gritos, se esbrazear...

--Conta! conta-me!

--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?

--Um sonho?!

--Um sonho é como se tivessemos na alma um mundo maior que este. Todo em fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se perde... Constroe-se das nossas lagrimas... É um palacio. As pedras de que é feito são os gritos... Sabes?

--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor... Consummiu-me.

--Assim...

--Um sonho!...

--Tudo se illumina dentro em nós. E a cada humilhação elle se torna maior. Depois que soffri, é que comecei a vêr o que nunca tinha presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais soffro, mais se ateia o meu sonho.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz d'elle corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.

XVIII

HISTORIA DO GEBO

Para nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta, abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a mulher, o lar ficou gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguem o esperava n'uma ancia como outrora:

--E então? então? Arranjaste?....

Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia afflicções, não tinha para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas para não o affligir.

