Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Part 7

Chapter 7 3,910 words Public domain Markdown

Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas, como se tivesse vontade de maltratar, clama:

--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:

--É o poeta!

Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge. Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos esturge.

--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

--É o enguiço,--diz a Mouca.

--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas pernas?

--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, á luz do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias de pavor e em semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, só boccas. Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram a força.

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Elle espantado accorda:

--Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal. Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não comprehendem--do sonho.

--Acho que é poeta!...

E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro é odio da materia contra o espirito. Tem este nome--o escarneo. Ajuntam-se os ladrões e as mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e tôrto.

Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma, preso a nuvens e de subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.

Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar porque odeiam e não comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto--e do que é bello como os astros.

Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragedia humana.

--Diz que estás apaixonado?

O Gabiru calla-se.

--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?

--É de mim? pergunta a _tisica_ e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar razo como elles...

--É por esta? Não? Então tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o poeta!...

Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mão em mão como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o pão da sua vida--o sonho.

--Ahi vae o poeta!...

Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta, amolgado, exclama, não comprehendendo:

--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas más clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e vê-a rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido espanto.

--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.

Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de tudo, da vida, da morte e até da propria desgraça.

--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos á uma.

--Que é? Deixem-me!...

E scisma.

* * * * *

Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no exaspero. As ruas seguem monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo bem: é a sua sombra que eu vejo, comica e desengonçada e, ao passar pelo lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão, fala sósinho, discute... Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.

Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz, ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.

Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflicções.

A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho ou a sua desgraça.

Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro, espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes, escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...

Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraça? O mundo está cheio de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho. Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça, cahe; depois lá se arrasta tropego.

Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio, pelas ambições, pelos rancores...

Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exhausto... Ao romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.

Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquella sombra é a minha! aquelle homem sou eu!...

XV

FALA

Falo. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno, pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que acaso coube em sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha reflectido... Alguem abala uma arvore até ás suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a terra revolvida dá foi o meu grito.

* * * * *

Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas, a quem ninguem ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria vida.

* * * * *

O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até ahi não tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti tudo que estava para sempre adormecido...

O que é isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o coração. Riram-se de mim! riram-se de mim!

* * * * *

Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construido de palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.

* * * * *

O homem só é feliz quando é elle. Os outros é que o empurram para a desgraça. O homem precisa de se encontrar.

* * * * *

Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser desgraçado á minha vontade!...

* * * * *

Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga á terra, pelas suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me parece pardo e inutil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me commovi como deante da arvore mais humilde.

* * * * *

A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.

* * * * *

Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia scismar na vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem remorsos.

O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar, voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações, cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.

Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho, uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a agua sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado pela agua resôa como um cortiço. Scintillações, rumores por toda a parte, por toda a parte a solidão.

Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia d'uma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...

* * * * *

Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que afivelamos em determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás feliz...

E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...

* * * * *

Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.

Para que me chamam o _Gabiru_? Mettido no ultimo andar do Predio, ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade, para conhecer a realidade. Deitei fóra o que aprendêra, combati commigo mesmo...

* * * * *

Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...

XVI

HISTORIA DO GEBO

Assim a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo, com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia lhe ainda a mulher:

--Homem, vê se te dão um emprego...

--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.

Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de cabellos brancos estacados.

Um dia andára, rondára, a tresuar d'afflicção. Todos o repelliam. Era em certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:

--Então? então?.... Arranjaste?

Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo, estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido, escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos farrapos na lama.

--Então? arranjaste?

--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraça anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se, chamou Sofia para lhe dizer baixinho:

--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.

Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados, seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impellia para a vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta. Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.

* * * * *

Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficára branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á procura de pão...--Sempre a mesma vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o anno a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastára a a ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a esperança murchára. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a clamarem:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

--Anh? ahi vou! ahi vou!...

Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle ficou abraçado á filha, soluçando.

--Se Deus nos levasse!...

Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar pela mão como quem guia uma creança.

XVII

O QUE É A VIDA?

O Gabiru não entende a existencia. A sua alma é como uma penha ferida, que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro. Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore, as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde? para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor. Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indifferente... Ao dar de cara com a existencia, transido, ao vêr-se escarnecido entre a Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabeça a abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas--e o homem queda-se inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constellações e o mar profundo e o homem continúa impassivel.

O que é isto? o que é a Vida? o que é este mysterio onde o homem entra como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se espelha o sol e tumultua a materia em combinações infinitas--e o homem segue o seu trilho inconsciente!...

O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que pratico sobre a terra é indifferente ou vae repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, apparencia ou temerosa realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão d'almas e de pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro fechado, ou vivo da verdadeira existencia?

E os pobres? porque é que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado ferreo--a dôr? Só se vem a este mundo para gritar?

O Gabirù via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão, escarnecidos, tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que soffrer? E toda a sua philosophia tombára por terra...

Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.

Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falavam:

--Só sabem sonhar e depois...

--São homens extraordinarios, affiançou o Pythagoras.

--Veja você... Querem que se lhes explique, o quê? A Vida! Já o outro é assim.

--O _homem do pacho_?

--Sim, esse...--e a voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras prodigiosas, chãos que só dão sonho. Ha sêres inteiramente edificados de nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim cresce á solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... São sapos de sonho.

--São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma creatura se arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas d'isto, do convivio com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um oceano? Não a vêr, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, toda d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes... Você comprehende?

--Comprehendo.

--A mais mesquinha terra géra mysterio. É tão admiravel e sempre tão diversa, como isso a que você chama o infinito.

--O quê?

--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o proprio maravilhoso, porque a realidade é sempre maior que a phantasia.

--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou já na trigessima licção... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o vejo nas trevas...

--É horrivel?

--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!

O sabiou parou, olhando-o com admiração:

--Você, Pitta, afinal é um experimentador.

O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:

--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm olhares de piedade ou risos. Cada um pode esquecer a sua miseria, á forca de a esbrazear. O seu sonho é subterraneo, sabes?

--Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor. No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam haste.

--Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para sempre? Talvez outrora perdido buscasse á noite alguem como elle, para se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite, porque são grotescos...

--Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar d'alguma estrella e elle...

--Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Agua, se ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar inexgotavel entre as suas mãos, cheia de scintillações e murmurios; montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e as arvores, e o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O pequename vê lá!... Da terra não conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o universo para logo se emparedar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em soffreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem, imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em vão quebrar esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.

--É que o sonho é o pão dos desgraçados. Todas as creaturas que soffrem refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a sonhar...

Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affiançou:

--Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...

--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...

* * * * *

Eil-os reunidos aos desgraçados e todos se põem a falar ao mesmo tempo. Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado accusa a vida. Ha-os que têm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.

--Para quê ser homem?

--Ninguem sabe.

--Quem déra não sentir, andar como anda a essencia do tição ardido, perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de agua ou no fundo do mar.

--O que é a Vida?

--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olhae o universo, que amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr que sentes deante do temeroso universo?

--Tudo é chimica,--disse o sabio profundo.

--Eis um sonho,--affiançou gravemente o Pitta.

Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque tambem só os pobres na vida sabem soffrer.

--Mas então mais vale a morte.

--Pois mais vale.

Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feições consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de martyres e de santos. Só elles sentem o mysterio da vida; só elles gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.

--A vida, concluiu o Astronomo, só vale passando-a a sonhar, embevecido n'uma obra.

--A sonhar não!

--Eu queria ser poeta...--torna um.

--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas crear uma nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.

Soára a hora da vida, em que, todas as illusões cahidas, se scisma ou na morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um d'esses homens assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista, protestava em nome do ideal.

Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um palhaço, a quem chamavam o _Corsario_, o Sabio começou: