Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Part 6

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Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no negrume, começou:

--Tu que imaginas que é isto?

--Isto quê, senhor?

--A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

--Todos?

--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer. Não grites que é peor. Ninguem te acode.

--Eu não grito.

--A tua mãe botou te fóra, para não te crear, o teu patrão enganou-te. Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixal-o enganar-te? Que has-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

--Quem? perguntou anciosa.

--A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha, aos pontapés e ás voltas com a desgraça. A desgraça é que póde tudo, ninguem no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

--Ó senhor! ó senhor! Mas então para que me crearam no Asylo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguem. Que hei-de fazer? Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias que não como.

--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

--Para me afogar... Mas tenho um medo á agua!... Quando metti os pés no rio tão negro, fugi... Ó minha mãesinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda por crear, enregelado e transido.

--Tu que tens?

--Nada. Fome.

--Toma lá o meu pão.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.

XII

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Em todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo o que se tem sonhado.

* * * * *

Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande, porque abala e acorda vozes adormecidas.

* * * * *

Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é bello--até o crime.

* * * * *

Não importa saber donde nasceu a idêa da immortalidade, o que importa é saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sêr. Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicações mesquinhas, o que não podem é arrancal-a. É como certas arvores que, deitadas abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?

* * * * *

Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia--outra razão para ser desgraçado.

* * * * *

E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás. Interroga-te.

* * * * *

Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se os criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?

* * * * *

A educação que nos dão o melhor que ha a fazer é esquecel-a. E esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa á parte. A que adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdadeira.

* * * * *

O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os seus erros--e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.

* * * * *

Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de ninguem senão nos primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou disfarçam-se. Depois começamos a ser duros.

Creio que só ha amigos até aos vinte annos, quando ainda se não pensa na vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da vida a serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.

* * * * *

Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de milhares de consciencias...

A acção do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu _eu_, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A essencia da vida?

* * * * *

A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.

* * * * *

Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para que se nasceu.

* * * * *

Que idéa tão falsa a de se suppor que a vida tem um fim--a felicidade ou a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto do que o que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.

* * * * *

O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr a minha existencia...

Um dia a fonte secca-se.

* * * * *

A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer não. O homem não é senão a essencia do universo e nasce para que tudo tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.

* * * * *

Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê, não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem habitos--é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma fórma harmonica e impassivel--eis o horror.

* * * * *

Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma outra vida senão a sua vida.

* * * * *

Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres continuar a amar os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar, vencer--e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolda: é um ferro desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos, vaidade, mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.

De fórma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim. Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que é preciso arredar, conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço. Para triumphares tens de os lisongear, tens de ser elles e não tu...

Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos mais intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo o mundo...

Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual á do homem que precisas conquistar.

* * * * *

Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos, odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala até, n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.

Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.

Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmurio apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.

XIII

ESSA RAPARIGUINHA...

Quédo-me a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a prégar dentro em mim. Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas, alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais conheço a fórma porque as ideias se ligam, até as mais contradictorias, e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estalido atraz de mim alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados, podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

--Abandonada! abandonada!...

E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o nome, porque nem sequer lh'o perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu, levando-a para a casa de _passe_, sentia, não orgulho nem prazer, mas oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos annos--que a certas horas de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva, todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um sorriso tão triste que me piza o coração.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de _vozes_, que vão prégar, mas que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá fóra e na escada soam os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que esmorece...

Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade não conheço outro homem tão nullo, banal como a propria banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de odios. Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta: enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas philosophias o ensinam) é de quem possue a força e aptidão... Mas hoje estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho casarão. Parece que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar dentro em mim.

É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a scismar na vida d'este homem banal como a propria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faça a narração d'uma existencia, que é como um trapo que se deita fóra todo molhado de lagrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É por isso que elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.

Quem foi a tua mãe, ó S. José?...

* * * * *

Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.

A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino como elle. Foi sempre assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar. Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa ás vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de pae.

--A gente é pobre--diz elle.

--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes passa fome.

--Passa.

--Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus trabalhos. Tudo se acaba um dia.

--Peor do que isso é não ter ninguem. É peor do que a fome.

--É o peor de tudo.

--Que se ha-de fazer?

--Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a scismar porque é que a gente soffre...

* * * * *

E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lagrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos, ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o predio sob a ventania arqueja.

Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brazido de gritos.

A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu. Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou, sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.

Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quasi cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só elles prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta, qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital tem raizes em toda a cidade.

A Arvore é quasi uma construcção. O tronco é corroido e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no Hospital. Com os annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.

E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de fontes, o halito das plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até ás suas raizes mais fundas.

* * * * *

Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a! eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...

Toda a vida é uma construcção de gritos, a cada passo para a frente ha sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?

Não é odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada até aos ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?

Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de se affazer a ser explorada, á mentira, á infamia... E assim caminha, ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem; assim vae pela vida fóra até onde?... Até onde?

Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mão que os ampare? De que servem os gritos, não me dirão?... Aquella restea de lume é como o ultimo fio d'uma alma que vae findar!...

E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas lagrimas pela existencia fóra!...

* * * * *

Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...

XIV

O ESCARNEO

No ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:

«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo infinito fóra, não é indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga. Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue ligar, porque os separa o odio, e outros que se reunem com soffreguidão.

Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas, até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre, mas alguem que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu cerebro procurará o teu cerebro para vogarmos juntos na mansidão d'um rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.

* * * * *

Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se sente commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias eternas, serão construidas do coração dos máus.

* * * * *

Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu, passo os meus dias a contemplal-o!

* * * * *

Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...

* * * * *

Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus reles, com miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado pelos tombos.

* * * * *

Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.

* * * * *

Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o espirito.

Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou tremessem de pavor?

* * * * *

Vêr o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar, comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no céo e no oceano--é o portentoso sonho.

* * * * *

O homem arranca de si proprio universos de belleza.

* * * * *

O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde tinha sahido.

* * * * *

Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza, resequido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.

* * * * *

Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte. Esperae, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguem encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.

Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não transformam o mundo até ás suas mais profundas raizes? Quem diz que se não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou estrophes de luar?

As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo tronco corriam já estremeções: os gommos pareciam envernizados. Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua, mas--como direi?--vestida de emoção.

--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.

Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São feitos de pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já brotou para soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os seres destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza indifferente, é porventura necessario e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas e dos gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste, põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas como a terra, todos elles riem, com um _anh!_ de satisfação por as fazerem soffrer.

Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vêr nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece, tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:

--Ó tu!

--Anh?

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se erguem.

--Esperem... Tu não ouves?

--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?