# Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

## Part 5

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Apertando-lhe as mãos, envergonhada:

--Então vê lá se te esqueces de mim.

--Ágora!...

E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a bocca descorada como um reflexo de sol:

--Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e tudo leva comsigo.

O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:

«Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vae sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer! tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»

VIII

MEMORIAS DE LUIZA

É assim a historia de uma das mulheres:

«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito longe, de pequenina.

* * * * *

Nunca tive mãe, nem ninguem. Fecho os olhos e só vejo o Asylo, os corredores humidos, o dormitorio, o frio refeitorio abobadado de granito. Toda aquella pedra parecia sepultar-nos.

* * * * *

Tambem guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de beijar, sem ter ninguem a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram hirtos.

* * * * *

Vou vêr se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vae-se espancando a nevoa e eu recordo a triste existencia do Asylo.

Noite ainda nos erguiamos para resar. Tocava um sino. Mal sabiamos andar, tropegas como velhinhas. A algumas era preciso vestil-as. A Irmã ralhava se nos demoravamos. Aquelle somno da manhã de que nos arrancavam era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para sempre. Para que vem a gente ao mundo?

* * * * *

De tantas que conheci quasi todas, mais felizes, morreram por não terem mãe.

* * * * *

Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas. E não sei quê de amargo, de reflectido, de soffrimento, de experiencia da vida. Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma disse alto:

--Ó mamã!...

E foi um escandalo. Onde aprendera ella, que não tinha mãe a pronunciar aquella palavra?

* * * * *

Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas, tristes por não terem filhos.

* * * * *

E no entanto eu curto saudades d'essa negra existencia do Asylo.

* * * * *

Na cerca havia um curral com vaccas, que nos davam um leite aguado. D'uma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade perguntei ao hortelão o que ella tinha.

--Soidades por lhe levarem o filho.

E ha mães que os deitam fóra!

Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um filho para o Asylo!

* * * * *

Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desageitadas, de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias. Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têem mãe, por mais feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...

* * * * *

Ás vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem secco, rispido, de cara rapada, que nos vinha lembrar que viviamos por esmola:

--É preciso que se recordem d'isto: a sua vida devem-n'a aos bemfeitores.

Elle proprio era um bemfeitor. O seu retrato lá estava collocado ao pé dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o ultimo da sala enorme, gelada, onde os passos echoavam, toda cheia de retratos em torno. Os bemfeitores!...--Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solemnes, seccos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.

Todas as noites as Irmãs nos faziam resar por elles, a quem deviamos o pão e a vida.

* * * * *

Era prohibido falar, a não ser ás horas de recreio, e isto explica talvez os vincos que todas tinhamos, ainda as mais pequeninas, aos cantos da bocca.

* * * * *

O melhor sitio do Asylo era a enfermaria por isto: era mais quentinho: dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as arvores da cerca: e por a Irmã enfermeira ser a unica que tinha coração e que gostava de nos beijar. Todas eramos amigas d'ella.

É curioso. Lembro-me das grandes arvores que de lá se avistavam, mas só as recordo descarnadas e despidas, n'um céu pallido. Sempre no inverno.

* * * * *

Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais consegui aquecel os.

* * * * *

O pão do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em todo o refeitorio havia um cheiro identico. Tudo, até o Christo, até o caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam parecia dizer-nos: «Olhae que viveis por caridade! Habituae-vos á desgraça!»

* * * * *

Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as creanças que não têem mãe. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.

* * * * *

No dormitorio tudo era regular, branco e monotono, e, apesar de branco, funebre. O sol, que entrava pelas janellinhas, abertas n'uma muralha de prisão, era pallido, e, mesmo de verão, parecia um sol d'inverno; as camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas ás paredes caiadas e nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um Christo de louça azul manchava aquella brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincavamos sem barulho no claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar arvores e sombras. O claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectangulo do céo, e a sombra geometrica estendia-se cá em baixo. De um lado era sempre frio e humido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um golphinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio d'agua frigida. De tudo aquillo sahia uma paz transida de sepulchro. Só andorinhas cortavam em cima o céo; mas d'uma vez que em março vieram, afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro. Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asyladas scismavam, olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elles. Uma disse:

--É um berço...

Destruil-os porquê? Para que não soubessemos que as aves têm mãe e cuidam dos filhos? Para que não tivessemos saudades das nossas, que não conheceramos? para que ignorassemos?... Mas que candura a das Irmãs se era por isto! Nós presentiamos, adivinhavamos tudo aquillo e quando uma das mais pequeninas explicou ás que faziam roda:

--É o berço dos passarinhos...

--quantas de nós já tinham scismado n'um berço assim agasalhado e fôfo!...

* * * * *

D'aquella vida identica, secca, dura, vinha um dia, quando eramos grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solemne. Iamos partir. Quem precisasse d'uma creada que comesse pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

--Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem devem-n'o aos bemfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que lhe fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-n'as por esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partiamos para a Vida.

* * * * *

Oh! minha mãesinha!»

IX

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Ter os mesmos direitos que as arvores e os bichos á immortalidade, humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão do que é pequeno e desgraçado.

* * * * *

Só as creaturas que soffrem é que são dignas de viver, e na verdade são as unicas que vivem.

* * * * *

No tempo infinito e no espaço limitado as moleculas agregam-se, desagregam-se... Só chimica, só a chimica existe... As moleculas, que têem em si a força vital, são hoje arvore, amanhã animal, pedra, homem. Conforme o quê? o que é que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso determinar, conforme as minhas moleculas, amanhã desagregadas, se unirem a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei assim pela eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da minha propria vida: quero que fale dentro em mim o _universo_ que eu já fui--a pedra que eu já fui--a arvore que eu já fui--o bicho humilde que eu já fui...

A tua opinião?... De que me serve? E é ella tua, sentel-a bem tua, ou é aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu sêr, deixal-o prégar com a sua voz rouca--com a sua propria voz e não com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso, deixae-me ser o Riso.

O momento é unico, não vale perdel-o. Porque acaso, porque furia insana, depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de aguilhão, de desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o atlantico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciencia do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas leis, as tuas theorias, os teus sonhos...

O momento é unico: vae perder-se ámanhã. Seculos de canseira para terem n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no fundo da obscuridade, para não virem afinal á luz, seculos de amargura, de esforços, de tentativas abortadas--para não chegares afinal a viver. É como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino. Cumpre tu o teu. Tudo é harmonico, porque vive da verdadeira vida: as plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a natureza inteira, não têem remorsos nem duvidas. Nem tu as terás, se viveres da tua verdadeira vida e não de outra.

A tua educação deve consistir n'isto: em fazer falar o universo que trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos, tornarás a ter consciencia? E que forças perdidas, que luctas não vão ser necessarias?... Quantos gritos!...

* * * * *

Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca voltarás a sentir senão n'uma infinidade de seculos. Impregna-te de vida, do teu largo quinhão de vida, para que ás portas do Nada possas dizer:--Vivi!...

* * * * *

Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para com os outros.

* * * * *

Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas suas entranhas; a nuvem tua irmã; a arvore onde correste em seiva--e o homem porque és o homem.

* * * * *

Se te não deixam ser o que deves ser--resiste.

Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo, triumpharás porque cumpriste o teu destino.

* * * * *

Tu és feito de humus, tu és feito de terra. Se ella te deu bocca para que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia tudo terá voz. Na verdade não haverá fonte, arvore, bicho por mais esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua confissão.

* * * * *

A educação moderna, ao contrario, tende para isto: para que todos falem no universo da mesma fórma.

* * * * *

Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual fôr, é ser desgraçado.

* * * * *

Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada? Sabeil-o?...

* * * * *

Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus creou para um fim... Assim nascerão creaturas que incarnarão o Mal, dirás... Pois que o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.

* * * * *

Se a natureza cria monstros, é que elles são necessarios, como certas pustulas que purificam.

* * * * *

Nunca os tigres afinal venceram.

* * * * *

E de que te serve andares mascarado?...

* * * * *

O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes, pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme n'elle predominam determinadas moleculas, assim odeia ou ama.

Quando é que a chimica será tão grande, que possa fazer esta analyse?...

* * * * *

Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e és eterno.

* * * * *

O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscencia.

* * * * *

Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada que tu és, a terra tua mãe. Essencia da terra, trabalho insano do seu ventre durante seculos e seculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoção, toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de immaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena, sê máu se ella o quer.

* * * * *

Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz na terra.

* * * * *

No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas--que são rios de odio, outros que são rios d'amor, outros que são a amargura, o riso, o sonho...

X

HISTORIA DO GEBO

Elle ahi vae, aos tropeções, amachucado e ridiculo.

Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão espantado só nos fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo, afflicto, sem mão que o ampare--e de cabellos brancos estacados. Gritam-lhe:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

Não ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os repelle do seu seio.

* * * * *

Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era vêr a filha horas e horas a scismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ella é que se batia ainda com o destino. E quasi não tinha pão para lhe dar!

A mulher clamava:

--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida é preciso ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!

--Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.

E afinal cahira para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo, batêra a todas as portas e assim se affizera á humilhação e á esmola; a ser mal recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos, que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras na mão:

--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!

As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de pôço, em que ao deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados á desgraça, em que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento, eram o unico goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que quasi não dormia e levava a noite inteira a scismar e a chorar, elle, logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a mulher nem descançar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...

--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras, coisas desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:

--Dorme! Fica-te para ahi!...

Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os dias precisava de juntar, começára a ser desorientada e feroz. Viam-n'o correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua afflicção em palavras rôtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas á porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado pela filha, á espera que um conhecido passasse. Ás vezes consummiam-se os dias e elle sem dinheiro para pão--porque os corações são de pedra. Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguem que lhe valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios, pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes se lembrava da morte.

Oppresso o coração, voltava, lá ia á espreita, n'um desespero sem fim. Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um transe, perguntava ao avistal-o:

--E então? então?

--Cá está, mulher! cá está!

Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir áquella fadiga de lagrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escarneo!...

Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem na propria casa o Gebo descansava. Eram infindaveis os ralhos e os gritos. Só Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe dava animo. Se não fosse ella, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e seccos como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e não lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão, com uma unica idéa ao acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.

Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam pelas mesmas afflicções. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro frio, que só a miseria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela realidade, e a Desgraça alli presente parecia rir-se. Gastavam as ultimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez mais gordo e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos, aquelle riso fazia mais afflicção do que as proprias lagrimas. Muitas noites não se accendia o lume e por fim todos tres dormiam n'uma unica enxerga.

A ultima coisa vendida e que lhes custára as derradeiras lagrimas d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes para filhos até elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para sempre as arvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio de agua da bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fôra levado, como uma parte do seu sêr, que lhes lembrava os dias de felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.

A mulher já não ralhava: tombára, com o olhar desorientado e os dias gastos em monologos desconnexos. E elle ficára, amolgado pelos encontrões, gordo e ridiculo.

--Ó Gebo!

--Anh? anh?...

XI

LUIZA E O MORTO

O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andára e n'essa noite, com um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fôra dar ao caes. O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua á noite assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cóva. O rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas presagas.

Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades poídas do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella respiração estrangulada, apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu jantar--e teve um ah! de allivio. Alli ninguem o procuraria, era como se estivesse sepultado no fundo do rio. Havia quasi dois dias que não comia e ia emfim dar a primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:

--Quem está ahi?

Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.

--Ouh!

As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava encharcada e frios os pés.

--Estará morta.

E socegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

--Outra desgraçada...--scismou--Quem está ahi?

E, sahindo da treva, uma voz de creança, começou:

--Sou eu.

--Tu quem és?

--Não sou ninguem.

--Que estás aqui a fazer?

--Não estou a fazer nada.

--Tu que queres, então?

--Vim deitar-me ao rio.

--Ah!...

--Mas tive medo. A agua do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prégar. As nuvens baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da noite. Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a outra rouca, eram como o dialogo de duas forças ignotas, que o acaso rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

--Como te chamas?

--Chamo-me Luiza.

--Quem te fez mal?

--Ninguem. Estou gravida.

--Ah!...

--Estou gravida. Eu não sabia nada. Estou gravida, acabou-se. Porque é que não ensinam á gente que todos nos querem fazer mal? Uma pesssoa devia aprender.

--O quê?

--A ser desgraçada. Ha dois dias que não como. Tenho andado por ahi. Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.

--Vae p'ra a tua casa.

--Eu sou do Asylo, não tenho ninguem, nem mãe, nem nada.

--Enganaram-te?

--A mim não, ninguem me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asylo não sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me fóra. Ninguem me quer assim. Quando a gente está gravida que ha-de fazer? A gente não tem culpa...

--Não fizesses o filho.

--Eu era uma innocente.

--Ah!...

--Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

--E então?

--Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra uma pobre creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor, foi servir. Logo que o patrão viu aquella rapariguinha ao abandono na terra, poz-se a falar-lhe baixo, ás escondidas.

--Era como se me pizassem o coração...

Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar sósinha. Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo á terra com este destino amargo--ser explorada. Elle deixou-a logo e ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais descórada e triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na rua. Remexeu-lhe a trouxa e gritou:

--O que tu merecias era ir para a policia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.

Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio prégava. Tu, rio, que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste pão, encharcaste terras, humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado, foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro, e a tua voz tornou-se presaga. Levas lagrimas salgadas ao seu destino, tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar. Que dizes, rio? que prégas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros sonhos e raizes na mesma condemnação eterna e n'um trabalho insano? É isto? É para moeres pão negro, passares por troncos conhecidos sempre rio, mar profundo ou nuvem?...

