Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Part 3

Chapter 3 3,998 words Public domain Markdown

--Tomára eu ser como morta--affirma outra voz.

--E tu?

--Eu? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomára eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como quando a vi estirada no caixão, por _vê_ de mim...

--Quem?

--Á minha mãe.

--Ah!...

--Pois é...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente não se deve lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!

E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as ouçam. Ha uma que ri de tudo. É magra, pallida e gasta. Traz um pacho negro n'um olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as suas desgraças.

--Eu sou a Mouca--começa ella ás risadas.--A minha mãe deitou-me fóra era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á roda p'ra ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões. Vidas! vidas!...

--Tu não te calarás!

--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom, agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber? Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que parecia um S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha desgraças peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e inda é peor. Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo, as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor é quando se começa a gostar d'um homem...

Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que é o amor. Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates é porque gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.

--Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.

--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse? Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é como os cães, que só gostam d'um dono que lhes dê pontapés. O peor foi que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas! vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fóra!--E eu fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas elle vem! elle torna!... Qual!...

--Como se chamava?

--Que te importa? Não é bom allumiar os mortos. Deixae estar quem está quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!... Vêr morto um corpo que se teve nos braços é como vêr no caixão um filho. Por mais que a gente grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.

--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já sei que me não podes vêr, acabou-se! não me importo. O que te peço é que me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir. Depois veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moça, quanto me daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os pés ponho eu a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de mim.--Anda escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no. Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a Mouca--terminou ás risadas.

* * * * *

Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As paredes são negras e humidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes afflicção, gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da mesma pedra de que é feita a vida.

Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes prega-lhes horas e horas:

--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram, ouviram?

--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no mundo,--diz uma derreada e tisica.

--E ter o quê? Escarneo, só se fõr...--accrescenta outra.

--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.

--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraça. É só fartar. Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraças. Antes morrer no rio!

--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao rio.

--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que arroladas.

--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer terra,--affiança outra.

--A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma _desinfeliz_?

--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.

--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?

--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...

--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituada a que me dêm dinheiro, que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando acordo e as encontro, parece que me pagaram.

As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:

--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam ter coração.

--Ás vezes mais vale morrer.

--Morrer!...--exclama a tisica.

--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sósinha no mundo. Elle tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de agua-ardente com lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu matei á força de lagrimas, por me vêr na triste vida. Nem podia gritar. Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...

A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de manhã ao frio. Os homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas só na cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixes...--Vae elle e disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso vêr.--Vejam vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor morrer... E antes tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...

--O Hospital está á espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.

--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...

--E a mim que me importa?

--Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...

--Depois da morte a gente não sente.

--Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.

--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser retalhadinho!

--Lá está o Hospital á espera, raparigas!...

--Tu não te calarás!

Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:

--Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiencia da vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não ha nada peor do que envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio, ouviram?

--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.

--E tu p'ra que vieste?

--Foi o meu fado.

E a velha continua:

--Haveis de querer comer e tereis...

--O quê? diz uma anciosa.

--Pedras.

--Acabou-se! diz outra.

E fica scismatica.

--Mais nos valia morrer.

--Mais valia.

--Andae, andae! Lá está o Hospital á espera. Lá tendes todas uma enxerga e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.

--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.

--Pois tem,--affiança a companheira.

--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.

--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se de pé.

--O quê senhora?

--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder arrancar.

--Então para que nasce a gente? Só para soffrer?--pergunta Sofia.

--Só. A este mundo vem-se para soffrer.

--Ah!...

--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O resto tudo é fingido...

Mas uma, triste e magra, a _tisica_:

--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem, um pobre como a gente...

--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.

--Ao pé de quem se não sinta desprezada.

--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiança outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a terra...

* * * * *

Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se _o banco_ do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem, estremecem. Ha coisas que á força de serem tocadas por mãos humanas, ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia de gritos) começaram uma outra existencia.

Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres. É ainda mais bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão, ao sol, á tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente erguida para a dôr. Taboas que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflicção e suor de desgraçados que se entranhou na madeira.

IV

O GABIRU

No ultimo andar do predio móra o Gabiru, um solitario philosopho, esguio e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe para lá do Hospital é para elle um grande mar ignorado e verde.

A realidade tambem não na entende: solitario e pencudo, da vida só se fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda--o sonho. Tem o olhar extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços, deixa correr as suas idéas á solta como os rios. Assim, metaphisico e pobre, de raras palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.

Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca viu ao pé os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em idéas profundas e nunca encontrou a realidade.

É assim feliz e triste. Posto á janella do cubiculo sente correr o doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as idéas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo o dia ri com os ladrões e os soldados.

Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porém existe de immaterial--emoção violeta e oiro--que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos soluços. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:

* * * * *

«Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre branco e sem murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de braços erguidos, o caliginoso mar...

O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto, d'um raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significação tem isto? É um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes verdes e ethereos, constellações infinitas, nevoa que do mar nasce e sobre o mar vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...

E não adquiro o habito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me achasse deante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus rios, florestas, o mar a bramir e arvores que são sêres!... Por isso, sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz d'Adamastor a prégar á terra e ás coisas dilaceradas, eu me ponho, escondido e só, a discutir o enigma...

* * * * *

Devo, porém, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha até quem me supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e transido. A esta hora da noite em que o universo parece deshabitado e em que até o rumor da penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma coisa, que não sou eu proprio, se põe então a murmurar baixinho. E eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo igneo...

Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim; de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh eu creio que cada creatura é um composto d'almas de montes, de pedras, d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa ligação entre o homem e os mundos. Estou preso ás estrellas e aos cardos humildes.

Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:

--Lá vae o Gabiru!

Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes quero conviver com os desgraçados do que com os outros. D'elles tiro emoção para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta trapeira alta, construida nos telhados e donde se vêem sêres admiraveis: labaredas verdes que se agitam--e são arvores; nuvens pousadas sobre a terra com oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido--e são montes; e rôlos que correm vivos e fluidos--e são rios. Muito tempo levei a decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque o Hospital enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nóras, torrentes de detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os que soffrem lá em baixo, entre o granito resequido. Só outro pobre, o Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a Mãe.

Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio. Ouço as palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que não comprehendo o sentido. Os sons são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar é fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os grandes montes pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo até ao vir da noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido é o murmurio dos fontes, como se não quizessem perturbar o espantoso dialogo.

É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo as palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias de emoção e de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me envolve e toca, e que fala! que vae falar!...

Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas sons, que misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo giganteo. E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por ventura?.... São syllabas, são vozes da Terra que entra no dialogo. E mundos, estrellas, são palavras d'Aquelle que no infinito préga. É sempre a mesma força, a unica força que cria a belleza e o sonho, a força donde brota a Vida.

Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedaço de sonho, que, apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas fique um farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito existe sempre viva uma porção de belleza. Da cova nascem coisas materiaes, fórmas, arvores, nuvens--da dor jorra a belleza absoluta.

E com que fim? dir-me-hão.

Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro, petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo atravessa.

De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre debruçadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela rosacea gothica ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha: estremecem, levantam vôo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o luar, dá vida ao sonho.

Para se crear é preciso soffrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu vida ás coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte faz-se uma obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e seccas lettras do abecedario, um desgraçado com genio, mettido n'uma agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma construcção mais solida e mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao coração das montanhas.

O que é então a dor, milagre extraordinario, que consegue dar vida ás fragas? o que é esse assombroso fluido, que se communica, alma arrancada da propria alma e que se póde repartir como o pão? Nunca houve sob o sol creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento não consolasse ou salvasse. Até as mais humildes, tal como arvores que ainda depois de mirradas, vão aquecer e allumiar os pobres.

A dôr dá a vida e não é a propria vida: cria, redime, obra prodigios e nada ha que se communique, que convença, que torne os homens irmãos, como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos n'um só grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com essa enxurrada de lagrimas? Deus?

Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.

E d'esse mar espesinhado nasciam clarões, as nebulosas d'onde surgem mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe, vae desaguar no infinito.

É que a dôr é a unica força que verdadeiramente cria e destroe: é a Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlantico de fogo, é o espirito do universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz nascer montanhas.

* * * * *

As arvores são emoções da terra.

* * * * *

Sonhae! soffrei!

* * * * *

Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta cahida d'um oceano infinito de belleza.

O universo é o sonho dolorido de Deus.

* * * * *

Nada se perde. A alma, as idéas e as emoções, fazem parte da força que faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.

* * * * *

Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em fogo.

O mundo é mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva onde o Desconhecido remexe fórmas: o mar, as creaturas, as pedras, as tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu tremo de pavor.

Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito, ladrões, philosophos, coveiros, mulheres perdidas, são esmagadas para que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as macieiras anãs. Sob a nossa vista indifferente a cada passo se cumpre um milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...

* * * * *

Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o que as coisas dirão!... Estão transidas--ha que dias chove!...--o vento despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a escutar ou se pozessem a falar baixinho entre si...

Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro _A Arvore_. É do lodo d'estas coisas humildes, que eu construo a minha estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos como n'um largo horisonte, não reparei que pela porta aberta alguem entrára. De fórma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz pausada:

--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...

--Hein?

Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a menos e não sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e mais sordido.

--Maquinações philosophicas meu preclaro amigo. A realidade é triste e amarga. Isto que d'aqui vê e não comprehende, arvores, montes e aguas, é no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e despedaça outra raiz, um braço que se crie empurra logo outro braço. Cada monte gera tanto odio como o coração do homem.

--Por ventura o amigo já viu arvores ao pé? Eu só vi a do saguão.

--Sim, conheço-as não só dos bons auctores, como de ter dormido á sua sombra movediça e fresca... São differentes: são vivas e enormes...

--E o mar?

--O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do poeira verde, é tragico e feroz. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e cheio de coleras... Só eu n'este momento lhe posso dar informações cathegoricas, reaes, absolutas, só eu, Pitta da Conceição, é que possuo no universo esse segredo temeroso.

--E a Mãe, a natureza?

--Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; fórmas revolvidas e trituradas, boccas que não pódem gritar. Veja...

Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros, gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda d'um trago. As nóras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da noite que descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.

--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...»

V

HISTORIA DO GEBO

Por fim, na entrada d'esse frio e rigoroso inverno, já tinha vendido tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo, dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de cabellos brancos estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.

--Ó Gebo!

--Anh?

* * * * *