Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro
Part 2
O seu Deus é a expressão da sua emotividade. Ou, bem no fundo, da sua moralidade. Só crê em Deus, só descobre Deus, quando em si, pela virtude, momentaneamente o realisa, ou tenta realisar. Se a bondade e a paz lhe existem no coração, a natureza resolve se-lhe em Deus, em amor supremo. Mas, d'ahi a instantes, o egoismo invade-o, e não é já em Deus, é na chimica, que a explicação do mundo lhe apparece. Qual a fonte do ser, a rasão da vida? É o acaso, é o apetite, é o amor, é Deus ou Satanaz, conforme as horas ou os dias conforme o equilibrio instavel da sua carne e do seu espirito. Logo de começo, a paginas 29 e 30, define Deus abrazadoramente n'uma lingua de chamas, n'um paroxismo de dor e de misericordia, n'um extase candente e lagrimoso, tão fervido e tão lucido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe subito, no amago da alma, a verdade da vida. A vida é um calvario. Sóbe-se ao amor pela dôr, á redempção pelo sofrimento. Christo é um redemptor humano, Deus o redemptor universal. É o ser infinito, porque é o amor ilimitado. E a natureza tenebrosa, vista de Deus, divinisou-se por encanto. Guerras, lutas, crimes, catastrofes, desordens, evaporam se e fundem-se em harmonia magica e perfeita.
Mas logo adiante, a paginas 42, a natureza, divinisada, reverte e regressa á sua forma demoniaca, de materia bruta.
«Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!»
Do altruismo absoluto, do absoluto amor, que é Deus, retrogradou ao individualismo anarquista, ao egoismo feroz, que é Satanaz. Do polo positivo saltou ao polo negativo. Entre os dois polos, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, vae oscilar e flutuar a sua alma, ora aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilisando-se quasi, pelo hausto indutivo das duas correntes antagonicas.
Tal um Christo, penosa e religiosamente escalando o calvario, e que, a meio da encosta, varado de dôr, esvahido o animo e evolada a fé, arrojasse a cruz dos hombros, exclamando n'um impeto: «Basta! Se o caminho do céo é um martirio abrupto, uma inferneira ingreme, desisto do céo e volto para traz para o conchego do meu lar, para a ternura de minha mãe, para o afecto dos meus parentes e meus irmãos. Antes risonho e feliz, junto do meu pae humano, que é carpinteiro, a aplainarmos cruzes, do que, morto e crucificado, na gloria infinita do meu divino Pae celestial!»
E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da amargura, para já lá no fundo, voltar a subil-a novamente, a cruz nos hombros, com maior fé e maior ancia.
O seu poema é a historia da escalada tragica do seu calvario. Mil vezes o meu amigo tomou nos hombros a cruz da dôr e da paixão, e outras tantas a deixou cahir, exhausto, com ais de desanimo, ou a sacudiu exasperado, cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e chorando, galgou a montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e em Deus ficaram imoveis e serenos os olhos tristes da sua alma. Polarisou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, emfim! Libertou-se.
Não volte á servidão, á escravatura negra e demoniaca. Mantendo-se liberto, a obra d'hoje, patetica, mas angustiosa e desigual, a obras futuras, vastas, claras e radiantes, servirá de entrada e de prefacio. A arte vale mais ou menos, segundo a porção de amor que abrange e que revela. A arte soberana é a que conjuga a natureza toda,--homens e monstros, aguas e arvores, pedras e nuvens, soes e nebulosas, com o verbo infinito e perfeito, o unico verbo creador, que é o verbo amar. O universo atomico, particulas inumeras e vagabundas, fraternisa em Deus, unificado n'uma só alma e n'um só corpo.
Resar o universo é polarisal-o no infinito amor. Cantar não basta. Resar é mais. Resar é o superlativo divino de cantar. A oração é a canção angelisada, a canção chorada e de mãos postas. O universo absorve a, comprehende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as aguas e os rochedos, vagamente a percebem, como um halito amigo, uma caricia branda e luminosa. Rese todas as dôres, pobresas, miserias, lutos, soffrimentos. Rese o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o carcere, a enxovia, a terra tragica, ulcerada de mortes, e a noite concava e funebre, ulcerada de soes e de nebulosas. Rese a dôr, mas rese tambem a alegria, que é dôr vencida e desbaratada pelo amor. Rese o triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha épica da vida pelo caminho eterno, que não tem fim. Rese chorando, mas lagrimas fecundas, que façam parir a terra, palpitar o seio e germinar a semente. Lagrimas d'aurora, orvalho vivo e creador. Resar e chorar, mas heroicamente, na acção e na luta, no mundo e para o mundo. Resar, como Nuno Alvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que vão para Deus, voltando as costas á natureza. Quem se quizer salvar, ha de salvar os outros. Quem renegar a natureza, renega Deus. A ascese egoista, eis o atheismo verdadeiro. A imobilidade é sacrilega, a escuridão é sacrilega, o silencio é sacrilego. A vida é som, é luz, é movimento. A vida marcha por abismos, tragica e formidavel, mas ruidosa e simfonica, vestida de luz e de mil côres. Amortalhal-a de negro, arrancar-lhe a lingua, para que não cante, e os olhos, para que não deslumbre e não dardeje, é como se lhe cravassemos no coração uma facada sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo e nihilismo,--dois zeros, dois sinonimos. O frade catolico, na concha da mão, exangue e paralitica, sustenta uma caveira. É o nada olhando o não ser. O monge ideal, na dextra poderosa, em vez da caveira, tem um globo d'oiro constelado. Tem o universo. É o monge futuro.
Seja elle o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa fé e a nossa arte. Resemos, vivificando e sublimando. Arte creadora, que seja pão e seja luz.
Se nos acusarem de hipocritas, deixal-os accusar; mentem. E a mentira só aos mentirosos prejudica. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a gloria, desviando de nós as multidões, que não pensam e vão para onde as levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem, ficarão comnosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor. Lezam-nos sómente na vaidade, que é vicio ruim, grama que custa a deitar fóra. Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil hesitações e desenganos, cravou as raizes para sempre n'um ideal de amor e de verdade, pódem calcal-a e tortural-a, pódem-na ferir e ensanguentar, que quanto mais a calcam, mais ella penetra no ideal que busca, mais ella se entranha no seio ardente que deseja.
Seu amigo e camarada cordealissimo
1902.3
Guerra Junqueiro.
OS POBRES
I
O ENXURRO
Vem o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.
É como um rôlo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruido dôce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raizes á mostra, arrasta n'alluvião o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.
Assim a vida. É um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva põe as mais fundas raizes á mostra, a torrente leva comsigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...
* * * * *
Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ella que tira á vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres e simples quasi se ouve essa agua correr e tão amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos á sua sombra. É emoção. Minae, não na deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.
N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...
* * * * *
São meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam ás vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato pingado só sahe á noitinha, á hora dos morcegos. Mais timido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rôto.
Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes deem um pedaço de pão e só se deitam no sepulchro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome.
Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, tão lindo, que até as proprias macieiras de commovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que elles vivem aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?
* * * * *
O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto e casaca, rigido _clown_ da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se de dôres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a pensar, esbaforido e triste?....
* * * * *
Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem mãe atiraram-n'a um dia para um collegio d'orphãos, onde cresceu entre maus tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava a vida na enfermaria e os medicos--acho que de proposito--livraram-n'a da morte, para que depois soffresse.
Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos rôtos, e magra e desleixada que faz piedade.
--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irmã que me beijava e fazia festas...
Mais felizes são os cães vadios, mais felizes, incomparavelmente, são as arvores.
O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella não dá palavra e só pensa:--Antes eu fosse para creada de servir!--elle quer que a Rata grite e chore.
Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...
Esta manhã appareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O vestido já lhe não serve. E como está frio, reparei, traz os pés mettidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida, soffre! Nada te valerá. Até á morte, até que te acabe de matar com maus tratos. Ás vezes, se elle sahe, põe-se á janella, a scismar na Irmã, que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e pergunta-se:
--Porque não morri então?....
Calla-te e soffre. E até á morte, até o teu pobre corpo cahir exhausto, moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.
* * * * *
Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e molle, de cabellos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar aguado e tonto.
--Ó Gebo!
E elle, erguendo o carão afflicto:
--Anh?...
* * * * *
E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo as pedras. A ventania açouta o casarão e passa, levando poeira de scisma, ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma multidão feita de terriço, de creaturas tendo arrancado a mascara: certos homens são sonhos, outros dil-os-hieis gritos. Põe-se o Gebo a contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio dos palhaços, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabirú, philosopho esguio e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idéas e nunca olhou cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que descobriu á prôa do seu barco como um navegador. No subterraneo do predio mora--ha quantos annos?--_o homem do pacho_, de quem ninguem sabe a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os seres e as coisas, março, a arvore, a vida tumultuaria e larga como um rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só as paredes esbrazeadas, á força d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conhecem a sua historia. Pára no patamar o Gebo contando o que soffreu aos pobres que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e narra pedaços d'uma triste existencia de humilhação e de esmola, sempre esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do pão para os seus. E termina sempre:
--Tenho pena de ter sido honrado...
* * * * *
A ventania présaga augmenta, abalando o Predio. De que é construida uma casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A arvore e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a isto gritos. De pedra, d'arvores e de gritos fôra construido o Predio. Juntem a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos, outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De fórma que toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma feição d'aquellas existencias. É a habitação do Gebo, das prostitutas, do Gabiru, do Pitta. Escancara-se o portão, cahem-lhe os telhados, mas se, em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acredital-a-heis a scismar, a cantar. É effectivamente de pedra--e de sonho.
Chove, mas em torno a terra arida, não tem agua nem plantas.
Só uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As suas raizes foram minando até ao Hospital, construido em frente da casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas nuvens, a toca--eis um phantasma d'arvore todo de pó de luar.
Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas vezes são lagrimas que correm ou emoção que brota com o ruido d'um fio de bica cheio de scintillações e rumores. O cahir de lagrimas é sempre d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade: arvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do chão, montes solitarios, parece que os prohibe aos desgraçados: como um velho sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por dentro, todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.
O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura ás vezes ao contemplal-o:
--A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos não assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito bem solido, para que se não ouçam os gritos cá fóra.
II
O GEBO
Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados e um ar d'afflicção que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo--de cabellos brancos estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e rôto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.
* * * * *
Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida não n'a entendia e a cada empurrão tinha um ar espantado e afflicto de quem não comprehende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o soffrimento faz rir?
E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedinchão e desgraçado.
As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase--ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria tôrto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e elle punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estupido. Que mal fizera para soffrer?
Alem de desgraçado, este homem fôra sempre picaro: assim no globo passam existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que não deixam o mais simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto são a vida da terra.
Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados, fazia rir.
Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um coração igneo. Era d'estas creaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão, elle ahi vae...
--Ó Gebo!
E todos se riam ao vel-o chorar d'afflicção. Diziam uns:--Que não fosse tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a desgraça alheia consola a nossa propria desgraça, dizem-me?...
A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as creanças crêem.
Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha creaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é p'ra sempre! p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflicções sem conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-n'o, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão d'aqui, empurrão d'acolá, aos tombos por esse mundo.
Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!... Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas mãosinhas uma força!
Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fôra feliz outr'ora. Era d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas. Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli era a felicidade. Dão-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.
* * * * *
Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em casa, com o coração torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas horas--ultimas horas tiradas á desgraça. Até que um dia succumbiu:
--Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...
--Que é? que foi?
--Estamos perdidos, estamos perdidos...
--Perdidos?!
--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa. Tenho pedido, tenho andado... e já não posso! Estamos perdidos, mulher!...
--Estamos perdidos?
--Sim...
--Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?...
--Não, mulher, não, bem sei...
--Anda!
E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto--e de cabellos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:
--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!
Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o:--ó Gebo! ó Gebo!--Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas horas ferreas em que olhára em torno perdido e só vira seccura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflicção para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indifferença dos outros.
--E agora? agora? perguntava-lhe ella.
E elle cahido:
--Agora não sei... Agora morremos todos á fome.
Batera em vão a todas as portas, anniquilado, sem idéas e sem forças. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgraça seccára, lhe atirava improperios, gritos:
--Mas levanta-te! procura! salva-nos!
Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e soluços.
Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar d'afflicção que faz riso e piedade.
--Ó Gebo!
--Anh?
--Conta!
E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:
--Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais faço peor, inda é peor... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as afflicções, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a bocca... O peor é d'ellas. O meu coração estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter sido honrado...
E fica com a bocca aberta, chorão, de cabellos brancos estacados.
III
AS MULHERES
Ao vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres, tristes, sêres de descalabro e piedade, lama que o homem géra de proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos, flocos de tristeza, que são como a alma, a afflicção da noite, a soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De blócos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades esparsas, neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor. E d'entre as meias portas surgem physionomias como só o remorso as cria: dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.
É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem á procura de pão.
No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes somem-se as boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:
--Ó tu!...
--Que é?
--Lembrou-me agora uma coisa.
--O quê?
--N'esta vida sabeis o que ha de peor? É nem a gente poder estar triste.
--Ahi começas tu...
Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão sente-se pairar a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz começa:
--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra que se lhe importa?
--E então?
--Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente não poder ao menos lembrar-se...
--De quê?
--Do que lá vae...
--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.