# Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

## Part 10

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É uma torrente, um rio subterraneo branco e verde, que vem á suppuração? Um riacho de tintas, brotando á superficie do solo em labaredas verdes, todas roxas, inteiramente brancas? Ha verdura tão tenue que dil-a-hieis uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou aos troncos.

A sombra das arvores enche-o de refrigerio, envolve-o na atmosphera de sympathia e frescura que ellas exhalam.

Por fim o Pitta vae encontral-o tolhido, d'olhos estasiados entre flores esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores esmigalhadas.

XXII

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Oh descubro agora a torrente esplendida que é a vida! É a emoção. Ella é o veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens, prende-os--e o egoismo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande atlantico de belleza. As creaturas humildes e simples tem uma existencia como um fio corrente--agua ou lagrimas, mas sempre claro. A colera, a ambição, os interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a agua.

* * * * *

Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a existencia simples, monotona e grande; é fazel-a parecida com as mantas grossas, d'uma unica côr neutra, que agasalham os pobres.

* * * * *

O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: as coisas conhecem-n'o, as arvores são suas amigas. Sente-se enternecido deante do mais resequido calháo.

O que odeia, o ambicioso e o máu, passaram pela natureza como o homem na guerra: não viram nem ouviram. As coisas emmudecem para elles. Nada lhe dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste deante d'um sitio recolhido e simples, deante das desgraças alheias, tu, pobre, que tombaste na cóva desprezado, rôto, e a quem a terra recebe como a um amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente, como morre tudo o que é simples, tu viveste... Communicaste pela piedade e pela emoção, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu soubeste e presentiste tudo.

* * * * *

O que é grande é sempre simples.

* * * * *

Desperta em ti a emoção para que possas dizer:--Vivi!

* * * * *

Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra--seu sustento e sua cóva. O pão de cada dia deve grangeal-o com o suor do seu rosto.

* * * * *

É singular a inconsciencia com que o homem trata as coisas mais profundas da vida--e a gravidade com que discute as que são apenas apparencias vans.

* * * * *

A desgraça é sempre boa--porque approxima o homem dos desgraçados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a folha que se deixa vogar na mansidão de um rio até que o oceano a traga.

* * * * *

Nada na existencia nos prende como os grandes espectaculos da natureza: o monte, a arvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de coração e vida simples, pacifica e grande.

Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se come não é tirado a nenhuma bocca, nem o lume que nos aquece roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco para o nosso lume!...

* * * * *

Quando se ama, a emoção sahe de nós como d'uma fonte e a gente prende-se aos outros. Não se sente sósinha: faz parte da Vida, d'uma torrente d'amor mysteriosa e esplendida. O amor torna-nos irmãos.

* * * * *

O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.

* * * * *

As coisas despresadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a agua desnevada que se bebe, os minutos de silencio em que se sente Deus comnosco.

De que serve accumular odios, ambições, riquezas? Não é isto demais para uma vida terrena?

* * * * *

Não saber nada senão amar--repartir emoção com os outros!

* * * * *

De rastros! de rastros! Odio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a existencia perdida a sonhar, a viver sósinho, absorto em coisas nullas, quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz--a amar! Pelo amor conhece-se tudo, até o que os sabios ignoram. Olha para um mysterio com amor, e elle desvenda-se logo; olha para um calháo com amor, que até n'elle encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão, até ao mais degradado, com amor, que n'elle depararás com Deus. Deus vive ao pé de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. Que precisas para o sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se approximam, com emoção e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mysterio, e serás feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te á abobada do céo, ao homem, á montanha, á arvore, ao mar--e ouvirás Deus em ti, sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a agua das rochas.

Deus está muito perto de ti--e é por isso mesmo que o não vês. A palmos da seccura passa muitas vezes um veio d'agua escondido. Basta cavar na crosta da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que torrente de emoção não vae atravessando os mundos, os homens, as folhas seccas e os globos d'oiro do céo!

O homem enredou se de tal forma na ambição, no odio, na guerra, que perdeu o sentido da vida--tão simples e tão larga--e que deixou de vêr Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e grandes--ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração a esse fluido mysterioso.

A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os erros, o crime--e até a piedade. Se todos vivessemos da verdadeira existencia--o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isto? Prégando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que montão d'infamias! que montão de crimes! O homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da ambição, da vaidade, do sonho vão, para quê? Para ser desgraçado. Um trabalho ferreo e herculeo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com inutilidades, carregado de dores e de opprobrios. Não hesitou em despedaçar, em calcar, em mentir--em busca do que elle julgava a felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a montanha, o mar, o ceo--o espectaculo de Deus não o viu--porque corria atraz da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo, tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos desgraçados, porque vivia n'uma afflicção, atraz do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós comsigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu olhando-se cara a cara, elle e a sua alma, fechado com o seu coração. Porquê? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção--futilidades--porque feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e pão, tirado a outras boccas, tendo feito gritar, blasphemar, contente o seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraçado. Está a dois passos da cóva. Interroga-se e não comprehende. Então isto é que era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado não reparou que a felicidade na vida estava exactamente no que elle tinha desdenhado!

Ama, ama a teus irmãos e vel-os-has transformados e cheios de belleza: mesmo nos mais seccos irás encontrar coisas inesperadas; ama a natureza, os montes, as pedras--e verás que espectaculo sublime; ama que sentirás a mão de Deus pousar se sobre a tua cabeça.

Torna á vida simples e serás feliz. A tua vida não custará gritos; o teu pão não será furtado a boccas famintas. Por cada homem que amontoa oiro, ha cem creaturas morrendo no desespero e na afflicção.

XXIII

A OUTRA PRIMAVERA

Os dias passaram-se e a Arvore era um collosso.

N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao vento.

--Pitta você tem um ar estranho.

E o Pitta, transido, murmurou:

--Você deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...

O outro, cheio de serenidade, affiançou:

--Foi a primavera.

--A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles só apparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com creaturas que nunca vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-hia que todos os sonhos tomaram corpo.

--Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Você tem visto um charco, lama e agua revolvida? Vem a primavera e aquillo transforma-se. O mesmo sôpro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria n'aquelle palmo negro a vida--murmurios, gritos, um arrancar de mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida furiosa. Eu já vi...

--Então...

--Então, Pitta, você medite, é isto... Esta lama que se cria nos saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a crear... Veio d'alli--e apontou para os lados do Hospital--um effluvio, o mesmo que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.

--A noite tem realmente qualquer coisa que afflige... Oppressão, mysterio...

--Emoção que foi até ás tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riachão, gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á terra...

--Crearam?

--Crearam. Isto que nós vemos não são elles, são apparições. É o que elles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que não podemos sonhar.

--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram emfim corpo!

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

--Mas foi a Noite então?....

--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Elles só deitam flôr á noite e só podem sonhar á noite.

--E você como soube?

--Meditei.

--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros são disformes...

--Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Creaturas de fogo, outras de crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...

--O que elles sonhariam para chegar a materializar!

--De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sitios mais negros é que elles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma flôr---branco, todo branco ou de luar gelado...

--E falam!

--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido até aos alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia coleras, engrossára, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru prégava aos desgraçados. O Pitta mostrando-lhe ao pé os montes, as arvores, a natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.

As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia á procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes, apontando o Hospital:

--É alli! alli!...

Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella manhã de março esbraseara-o.

--É uma coisa esplendida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um incendio verde que pacifica e estanca toda a sêde. Aguas a rolar e arvores esgalhadas falando... Sabeis o que são arvores? Ha alli montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...

Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite, esguio como um enterro.

--Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas arvores, oiro nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as aguas a rolar. Ha seda viva e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!

E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça, escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do Gabiru empoeiravam-n'os d'inquietação e tristeza, e a noite era como um brazido que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.

--Ha oiro! para lá ha oiro!...

E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio parecia abalado. Todo aquelle terriço de creaturas o esbrazeara.

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a um outro universo que elles presentiam igneo?

Á força de sonhar materialisaram o sonho.

Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida senão a dôr. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas mansardas e nos saguões, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de sonhar. De uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e lhes faziam precipitar as illusões represas... É verdade afinal que ha arvores e fontes todas d'oiro? Porque é que eu nasci para soffrer? Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a ter força para germinar?

Tocados d'essa primavera negra, de que falára o sabio, juntavam-se para se queixar e cada um, á força de sonhar, creára uma figura, desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma apparição d'uma belleza estranha; d'outros nevoa, phantasmas. Todos traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por arvores, pelo odio, pelo riso, por monstros...

--Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam flôr!...

E na noite elles botavam realmente flôr, e de tanto falarem nas arvores e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.

Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar illusões, sonho de sébes, de calháos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e humilimo.

XXIV

A MORTE

Oh eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho. Por vezes me parece que o proprio Hospital se põe a falar pela sua bocca de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em algido luar, eil-o que enternecido conta sonhos rôtos e tristes, o sonho dos pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...

* * * * *

Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe no craneo um ruido extranho. Constellações de fogo, mundos e coisas terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do casaco d'alpaca, olhava o céo n'um extasi. De que tombára? De fome ou d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.

Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o, cahira fulminado? Em torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um _viva a republica_! outro, _morra a D. Antonia_! contas e um soneto bocagiano pela mão do Pitta--e entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das constellações, que luzem até no fundo das latrinas.

* * * * *

Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas á tona. Só a Arvore cresce e á medida que ella cria forças a Mouca se consomme. A tosse desconjuncta-a. Creou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas e d'abjecção. Mas a dôr vem e purifica: é como o fogo que torna um galho apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta, luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe os ladrões e só ella não ri como outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca chora. Um dia ao vêr que batiam em Sofia diz-lhe:

--E se nós nos matassemos?

--Calla-te! calla-te!

--Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi o amor á vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque será que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do velho que se não quer matar?

--É, está callada.

--Eu cá sou assim, que quer? Ás vezes, quando não tenho com quem falar, ponho-me a falar sosinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem agora á idéa. Esta vida sempre é mais negra, não é?

--É.

--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe ir p'ra o Hospital.

--Não fales...

--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer, não é? Então quanto mais depressa melhor...

Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olhal-a como um cão ao dono. Por fim disse-lhe:

--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.

--Não, deixa! não te afflijas!...

--Eu, sim! Bem m'importo!...

* * * * *

De noite muitas vezes tinha afflicções, suffocada. Agarrada a Sofia:

--Ó valha-me!...

No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo estava tranzido.

--Na primavera...

--Sim, na primavera.

--Vês a Arvore, vêl-a? Assim que tiver flor, é mais quentinho...

Mas veiu março e depois abril e que transformação! Quasi que nada restava da Mouca, escarneo de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe sumira...

* * * * *

Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Começo da noite. Fóra, na rua, lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé vem os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga vêl-a acabar. Moldado pelo lençol um corpo resequido e no silencio d'espera ouve-se só a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a morte esgana--mais perto! mais perto!...

O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e humidas. O lenço está ensopado de suor d'afflicção.

--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.

--Está a passar?

--Shiu! baixinho...

Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feições crueis, ha espanto e terror.

--Inda fala?

--Shiu!...

Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na cara branca e immaterialisada:

--Menina! menina valha-me!...

--Estou ao pé de ti.

--Tenho frio, muito frio...

Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda--e pé ante pé tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e d'um lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.

--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de manta cossada.

--Shiu! já não precisa.

--É melhor deital-a com a enxerga no chão, para acabar de penar--aconselha a patroa.

A Mouca respira afflicta.

--Tenho frio... nas mãos, na cara...

* * * * *

Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina; a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de correr. Haviam ficado em volta immoveis.

Este acto do espirito se libertar é de tal forma grande, o inicio do mysterio, que até o Pitta olhava estarrecido. Fóra disse para os ladrões:

--A morte, rapazes, ensina. Não ha licção mais formidavel. É doloroso e no emtanto pacifica. Vêr morrer, enche de grandes idéas, filhos!...

XXV

A ARVORE

O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida--d'essa corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem sós e a quem o tempo sobra para reflectir.

--Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.

--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo ninguem o saberá. Não tenho familia.

--Quem te creou?

--Os ladrões.

--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.

E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando d'estacão, para de novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.

Ás vezes o ladrão tornava e o philosopho repartia com elle o seu pão. Depois dizia-lhe:

--Dorme.

Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados á beira um do outro falam durante largo tempo.

--Não sei porquê este tempo afflije--começa o Morto--Não devia haver este tempo.

--Qual?

--Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite assim o luar consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobresaltados. Tenho visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma creança por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a bocca ás grades para respirar com soffreguidão e desatou a cantar. Este tempo tira a força.

--Escuta. Não ouves nada?

--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os que matam inda são os que tem melhor coração.

--Tu para que roubas?

--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o que a gente faz está escripto no livro do destino. Eu bem sei que inda hei-de fazer peor quando soar a hora...

--Que hora?

--A minha hora. Todos n'este mundo têem uma hora em que cumprem aquillo para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam uma creança que nunca lhes fez mal.

--De que serve fazer mal?

--Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal, é sempre bom fazel-o. Tenho horas em que tudo em mim--tudo!--me préga que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Ás vezes sonho que mato. É signal que a minha hora ainda não soou.

--E Deus?

--Deus foi que me creou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer n'este mundo? Só mal. É porque Deus me creou para o mal.

--Resiste.

--Quando a gente é creada para isto, não ha nada que nos impeça.

--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

--Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sêr, é preciso a gente sentir-se só contra todos e no entanto proseguir o seu destino... Andar inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...

--Mas o mal...

--Que sabes tu do mal?

--Nada.

--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!... Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar; encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido n'um canto negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o travor da terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...

--E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e, no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores, com fórmas de sonho.

--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?

--Não, não quero ver. Isto tira a força á gente.

--Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um sonho que o outro não podia vêr...

* * * * *

