# Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

## Part 1

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OS POBRES

OBRAS DO AUCTOR

A ARVORE:

I--_Historia d'um palhaço_. II--_Os pobres_. III--_Raizes_ (em preparação).

ROMANCE:

_A Farça_.

THEATRO:

(De collaboração com Julio Brandão)

_A noite de Natal_, drama em 3 actos, representado no theatro de D. Maria II.

RAUL BRANDÃO

OS POBRES

Precedido de uma Carta-Prefacio de GUERRA JUNQUEIRO

LISBOA EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL SOCIEDADE EDITORA Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Typographia R. Ivens, 45 e 47 1906

CARTA--PREFACIO

_Meu bom amigo_:

O seu livro é a historia patetica d'uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos _Pobres_ emfim? Não. A sua. Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a musica mysteriosa do universo, d'um coração que repercute a dôr eterna da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, duvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.

Não vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da imaginação e da volupia. Vejo um acto profundo, espontaneo, d'imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-analise, a confissão dos criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o genio explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.

As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e difusas. O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma, dentro d'um bloco duro, impenetravel. É o sonho captivo n'um ovo hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas conservam aquella graça radiante, aquella omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O sonhador dos _Pobres_ é um evocador atormentado e religioso. Busquei no seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vêr se a desenho com rapidez e precisão.

Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro, esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece, palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a féra, a rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluviões de nebulosas, incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o tempo não exgota, porque a morte creadora continuamente o desorganisa e reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam, penetram, correspondem. É uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade impenetravel, sem ninguem ver o tecelão. Rigidez, solidez, inercia, não existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos, dramas, turbilhões de moleculas e vontades. As cordilheiras inabalaveis são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do sol, que é sol volatilisado, pesa menos que uma folha de rosa na mão d'uma creança. Em cada bloco metalico latejam oceanos dormentes, de vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado, irradia no ether. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme. Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é flor e é fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o sangue vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa. Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila, desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não ha terra em que poise, nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio, ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do imenso ao grão d'areia, o grão d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo, a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.

Abismo de aparencias ocultas, abismo de vozes que se não ouvem. A natureza taciturna exprime-se magicamente, em linguas vagas, silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que bocas humanas ha na terra, o que não dirá o coloquio formidando de todas as vontades do universo! Tem cada organismo a sua lingua peculiar. Os que vivem mais proximos entendem-se melhor. O ar segreda á agua, a raiz ao lodo, a luz á folha, o polen ao ovario. Ha fluidos que se casam, raizes que se querem bem. O oxigenio é intimo do ferro, o azougue é intimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!

Materia infinita,--forças infinitas, infinitamente caminhando. E no pelago vertiginoso da mobilidade universal é cada atomo invisivel um desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...

O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do increado, das linguas tacitas da natureza, alguem o ouviu que se recorde? Alguem: o homem. O homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha e onda; foi nebulosa, foi gaz impalpavel, foi ether invisivel. Articulou todas as linguas, e d'ellas conserva, obscuramente, vagas memorias dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intuição prodigiosa do meu amigo.

Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por tres formas ou em tres fases emotivas. Estudei a primeira,--_a emoção dinamica_. O mundo resolve se lhe n'um jogo de forças, n'um conflicto de vontades, brigando, casando-se, transfigurando-se em aparencias rapidas, ilusorias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.

Mas o que é a vida? Chega á segunda fase. Deslisa da emoção dinamica á emoção moral. Depois de ver o mundo atravez dos sentidos, julga-o atravez da rasão e da consciencia.

O que é a vida?

A vida é o mal. A expressão ultima da vida terrestre é a vida humana, e a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um tumulto desordenado de egoismos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram. O Progresso, marca-o a distancia que vae do salto do tigre, que é de dez metros, ao curso da bala, que é de vinte kilometros. A fera, a dez passos, perturba-nos. O homem, a quatro leguas, enche-nos de terror. O homem é a fera dilatada.

Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de guerra, com as escamas d'aço, os intestinos de bronse, o olhar de relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando lavaredas, vomitando morte.

A pata prehistorica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte escavacava um cedro, o canhão Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.

Os grandes monstros não chegam verdadeiramente na epoca secundaria; aparecem na ultima, com o homem. Ao pé d'um Napoleão um megalosauro é uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas duzias de viandantes, emquanto milhões e milhões de miseraveis cahem de fome e de abandono, sacrificados á soberba dos principes, á mentira dos padres e á gula devoradora da burguezia christã e democratica. O matadoiro é a formula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros para verdugos. Uns jantam, outros são jantados. Ha creaturas lobregas, vestidas de trapos, minando montes, e creaturas esplendidas, cobertas d'oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem pobresas metalisadas. Ha homens que ceiam n'uma noite um bairro funebre de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesans rosarios d'esmeraldas e diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosarios de craneos ao peito de selvagens.

Vivem quadrupedes em estrebarias de marmore, e agonisam parias em alfurjas infectas, roidos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou aldeolas de miseraveis. E, visto os palacios devorarem pocilgas, todo o boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma forca. O deus milhão não digere sem a guilhotina de sentinella. Os homens repartem o globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior quinhão. Homens que têm imperios, e homens que não têm lar.

Os pés mimosos das princezas deslizam lusentes d'oiro por alfombras, e os pés vagabundos calcam, sangrando, rochedos hirtos e matagaes. Bebem champagne alguns cavalos do sport, usam anneis de brilhantes alguns cães de regaço, e algumas creaturas, por falta d'uma codea, acendem fogareiros para morrer. Bemdito o oxido de carbone, que exhala paz e esquecimento! E a natureza, insensivel ao drama barbaro do homem! Guerras, odios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades, deixam-na tão indiferente e inconsciente, como o rochedo imovel, bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angustias não arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri com o mesmo esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil, e as hervas gulosas não distinguem a podridão de Locusta da podridão de Joana d'Arc. Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Christo, e os lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrocharão, egualmente candidos e nevados.

A humanidade, emfim, é a victoria dos arrogantes sobre os humildes, dos fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre vencidos e vencedores, entre o amor e o odio, o mal e o bem, o riso e as lagrimas, o seu coração misericordioso de poeta inclinou-se espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.

A dôr é o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitaes, por cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes, virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas sem fundo, abismos hiantes, boqueirões de sombra. Explora desvãos, trapeiras, minas, covas, esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas, que gotejam sangue, nas roucas escuridões tumultuosas, pavidas de gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.

E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectraes de crucificados, hordas de monstros, bandos de miserias, cardumes de abominações e de agonias. Ullulam tropeis disformes e sangrentos, regougam fauces patibulares, choram, coroadas de ulceras, Magdalenas lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam ralas estorturantes, gemem creanças vagabundas, tossem tisicos, ardem febres, lusem gangrenas e podridões... E tudo vago, indistincto, confuso, n'um rumor longo e subterraneo. Não se destacam, não se desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. É o mundo cahotico da miseria, que a noite putrida gerou e a noite soturna ha-de engulir... É o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionario, quasi desconhecido e genial.

Homens de gosto colecionam quadros ou estatuas. O meu amigo coleciona dôr. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biologico das varias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surprehende, não a invasilha n'um frasco, guarda-a no coração.

Conta-lhe os ais, não os microbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratorio chimico existe apenas um reagente, que dissolve tudo: lagrimas.

O poeta dos _Pobres_ não é um romancista. A alma do evocador fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que elle evoca. Dir-se-hiam espelhos, brancos, verdes ou azues, planos, concavos ou convexos, reflectindo todos elles um unico semblante, que julgamos distinto, porque aparece deformado.

Chamei aos _Pobres_ uma confissão religiosa. Não ha duvida. Os seus pobres, meu amigo, são bocas de visões, articulando a alma d'um vidente. Falam a sua lingua e contam-nos a sua historia. Não a historia, no minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a historia, no espaço e no tempo, do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.

No drama dos _Pobres_ ha duzias de actores e um só personagem: o dramaturgo. As suas figuras não constituem individualidades reaes, caracteres verosimeis, logicamente architetados e definidos pelas inumeras causas de existencia, conglobados em duas ordens genericas,--a herança e o meio. Os seus ladrões, assassinos e meretrises, não roubam, não matam, não copulam: sofrem. Sofrer, eis o seu mister. Mouca, Luiza, Gebo, Golim,--pseudonimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos elles é um só: a Dôr.

Inevitavel. Desde que o meu amigo rasgou as mascaras enganadoras ao Universo, para lhe descobrir a essencia e natureza intima, e desde que a lei do Universo é o predominio do mais feroz e do mais forte, toda a imensa humanidade, tumultuosa e vária, se resume logicamente em dois homens apenas: o algoz e a vitima, o homem que sofre e o homem que faz sofrer. Os bons são os que padecem. A miseria, mesmo sinistra e delinquente, é já um principio de virtude. Nenhum dos ladrões, nenhuma das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por vontade propria, por fatalidade fisiologica. Obrigou-os a fome, calcou-os a injustiça. A sua infamia e a sua ignominia é a avareza ou a luxuria dos homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos, são perversos, e todos os miseraveis, ainda roubando ou esfaqueando, são creaturas boas, porque são vitimas dos primeiros. Os retratos dos bemfeitores do seu hospicio (pag. 59) parecem-lhe «uma galeria de afogados, todos solemnes, ricos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.» E as alfurjas, cadeias e prostibulos, onde se amontoam, n'um horror tenebroso, os vicios alucinados e os crimes exorbitantes, afiguram-se-lhe á imaginação misericordiosa como templos de angustias, santuarios sagrados de tribulações e de martirios. É um flos-sanctorum da miseria, a dor do enxurro canonisada e sublimada.

Mas se a lei da natureza é iniqua e feroz, visto os maus triunfarem e os bons sucumbirem, d'onde vem essa lei, quem a gerou, quem a impoz ao universo? Quer a creasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ella seja imanente ao universo infinito, é, nos dois casos, uma lei monstruosa, negadora da suprema ideia do espirito do homem, a ideia do bem e da justiça. Contradição inexplicavel: A natureza é iniquidade, porque a lei que a rege assegura o predominio e a sobrevivencia do mais forte. Mas quem me leva a dizer que a natureza é iniqua? O sentimento do bem e da justiça, desenraisavel do meu coração e do meu cerebro. Logo existe tambem na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da justiça, contraposta á lei da força e da violencia. Se Christo morreu na cruz, a natureza é o mal. Mas sendo a natureza o mal, como é que d'ella nasceu o mesmo Christo, afirmação de todo o bem?

A ideia do bem e da perfeição, levada ao infinito, é a ideia de Deus. Mas como hamornisar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como fazer sahir a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do bem, o universo de Deus?

Chegamos á terceira e ultima fase do seu espirito: á fase religiosa, á _emoção divina_.

A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em dôr e resolveu-se lhe em amor. Movimento infinito, dôr infinita, amor infinito, eis os tres rostos da natureza no espelho cada vez mais profundo da sua consciencia, nos olhos cada vez mais abertos da sua alma. O dinamismo atomico do universo reduziu-o,--pavorosa sinteze!--á dôr sem fim, á dôr universal. Viver é sofrer, e tudo vive, tudo sofre. Vida infinita egual á dôr eterna, eis a equação matematica da natureza. Pandiabolismo, satanaz-universo. Um circulo infernal, hermeticamente inexoravel. Não ha, pois, evasiva? Ha. D'esse inferno sobe uma escada de chamas tenebrosas, que vae ao purgatorio, e do purgatorio uma espiral de luz radiante, que nos leva ao céo. A dôr, que se lhe afigurou a essencia intima da vida e sua unica expressão, não era, ao cabo, o substracto ultimo da natureza, o fundo irredutivel do universo. A dôr não era irredutivel. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. Não ha bellesa esplendente, que não fosse dôr caliginosa. A flor é a dôr da raiz, a lua a dôr das estrellas, e a virtude ou o genio a dor ascendente do ether luminoso, cristalisando no homem, ao fim de um calvario inenarravel de milhões e milhões de seculos sem conta. A alma de Jesus proclama o triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Venus entoa a victoria da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha brúta e desharmonica. Bellesa de essencia ou bellesa de aparencia, virtude de Jesus ou formosura de Venus, tem, ancestralmente, a inicial-as o mesmo horror e a mesma imperfeição. Do verbo odiar nasceu, evolutivamente, o verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentada. Toda a alegria vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria é o sofrimento amoroso, o sofrimento espiritualisado. Deus é, pois, o amor infinito, vencendo infinitamente a infinita dôr. E, vencendo a infinita dôr, elle é a infinita alegria, a paz absoluta, a gloria eterna, a bemaventurança ilimitada. Deus sustenta-se realmente, como diz o meu amigo, do sofrimento universal.

Nos meus _Ensaios Espirituaes_, ainda ineditos, eu exprimo inumeras vezes a mesma ideia. Quer vêr? Destaco uma pagina:

«Só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, amor absoluto, sustenta-se do sofrimento do universo. É uma luz eterna, alimentada por um incendio eterno. Deus, amor absoluto, projeta-se em dôr infinita da natureza. Para ser a perfeição absoluta, encarnou se na imperfeição ilimitada do universo. Deus não se comprehende sem universo. O perfeito vive do imperfeito, como a chama vive do combustivel. O mal é a condição do bem, o erro a condição da verdade, o crime a condição da virtude. O santo é santo, porque venceu o demonio. Sem o demonio, o santo não se comprehende. Sem universo imperfeito não ha Deus perfeito. Satanaz é uma das faces de Deus. Mais ainda: Satanaz é o corpo de Deus. Deus é Deus, isto é infinita perfeição, infinito amor, porque vence eternamente infinitas imperfeições e infinitas dôres. Deus é a completa affirmação do Bem, pela completa e continua victoria sobre o mal. No instante em que o mal acabasse, acabava Deus. Deus não é idéa, pensando-se infinitamente: _é acto infinito, amor infinito, a realisar-se pela infinita vontade na duração infinita_. Eliminando o imperfeito, o perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruireis o absoluto: _o absoluto que fica é o absoluto não-ser_. _O infinito amor de semelhante Deus seria o infinito amor de si proprio, o infinito egoismo_. É como se quizessemos resumir a infinidade dos numeros em um numero unico, infinito, eterno, inalteravel, o numero absoluto perfeito, e realizassemos a sinteze da infinidade numerica no absoluto do zero. Tudo egual a nada. Não! Deus é infinito amor, esforço infinito, actividade infinita. O universo é o corpo de Deus, é a carne de Deus. Deus é absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa diversidade infinita não ha, nem póde haver, a união suprema. Mas a sinteze da vida é irrealisavel na ideia de numero e quantidade, na ideia concreta de materia. Só na ordem moral se unifica absolutamente a vida varia do universo. _As quantidades, traduzidas em imperfeições, os numeros traduzidos em egoismos, são reductiveis ao absoluto na ideia unica d'amor_. Ahi o imperfeito torna-se a condição matematica do perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta se dos egoismos infinitos, continuamente evolucionando para elle. Deus, beatitude eterna, vive e sustenta-se das dôres infinitas do universo. Deus como corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espirito puro, Deus, amor absoluto, não sente dôr, nem sofrimento. É a bemaventurança e a gloria eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do seu corpo. O santo verdadeiro dá-nos a imagem palida de Deus. Deus é o santo perfeito, o Christo absoluto e universal.»

* * * * *

Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma sinteze. Mas o auctor dos _Pobres_ não desvendou, ideologicamente, abstractamente, o segredo da natureza, a explicação religiosa e intima da vida universal. Não a estudou como filosofo, descarnando-a, dissecando-a, até lhe descobrir as leis inalteraveis e reconditas da sua estructura evolutiva. Não fez do cerebro um instrumento de visão, agudo e claro, gelido e penetrante, com elle interrogando, dia a dia, no sorvedoiro cosmico, o borbulhar infinitiforme da existencia. Não mediu a vida a compasso, não a formulou em theoremas ou equações. Viveu-a. O seu livro não é a historia dialetica da razão d'um homem, sistematisando e codificando a natureza. Não é a historia d'um encefalo, desdobrada em ideias. É a historia d'um homem, a historia plena e formidavel d'um organismo inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lagrimas, das mãos que abençoam e que destroem, dos olhos que choram e que fulminam, da boca que resa e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanaz, da alma do anjo que se encaminha para Deus. Sim, a historia universal d'um homem, gemida e rugida, furiosa e candida, não para que o mundo lha ouça (então seria hipocrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no silencio. É a confissão clamorosa, satanica ou celeste, das energias infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no misterio pavido d'um homem. O abismo insondavel, retrahindo-se, cristalisou n'um ponto; e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondavel. Almas inumeras se agrupam na alma sintetica e central. Ha em cada alma infinidades d'almas. E umas tão horriveis e loucas, que as escondemos para que as não vejam, e outras tão inconscientes e profundas, que, habitando comnosco, as não chegamos sequer a conhecer. O poeta dos _Pobres_ conheceu-as e confessou-as todas. Desde a mais clara á mais crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado nascente, ingenuas e vivas, sem occultar uma unica.

O seu Deus não é o ultimo termo d'uma cadeia logica de silogismos. Não o descobre pela razão, atinge-o pela emoção. O meu amigo não raciocina, isoladamente, com o encefalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo. As ideias brotam-lhe espontaneas, como o sangue da facada ou a flor da haste. Palpitam de vida, mas vida viva,--no estado genesico. Não falam, não discursam, não discorrem. Gritam, uivam, ululam, gemem, resam, blasfemam. Ciclones d'ais, de orações, de imprecações, de furias, de lamentos. O meu amigo pensa, forma juizos, como as eletricidades formam raios.

