Part 4
Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.
Ao canto do quintal da casa onde eu morava uma anágua plantara, e flores que eu regava.
Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.
Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.
Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria.
Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira esse moço tão bem estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram--a doença principalmente.
Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da _Folha dos curiosos_, um dos quaes curiosos fui eu.
N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com inexcedivel brilho, a _Revista universal lisbonense_.
Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, é primoroso--até o noticiario.
Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor de Castilho.
Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que ironia e que pureza castiça de linguagem!
Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar locaes que parecem _bouquets_; Castilho a sorrir de si mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.
Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois muito mais pequenos que elles.
Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.
Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que promettia futuro.
Hoje dorme o somno eterno na terra da _Patria_, que elle amava tanto, e se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou primeiro.
* * * * *
Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto, recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua propria informação, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra.
Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço ás Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os encontrava á tarde no Penedo da Saudade.
Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.
O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno de si, como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda a academia já tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.
Esse poema era o _D. Jayme_, de Thomaz Ribeiro.
A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral no auditorio.
E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia de todos os moços, saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes:
Um dia... quando, não sei; fui vêr as gastas ruinas d'um velhissimo castello que ao desamparo encontrei, mas que, apesar de esquecido na solidão, era bello.
Achei-o todo vestido de tenaz era viçosa; e ornado de verde brilho, lembrou-me um velho casquilho que espera noiva formosa.
De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e escutavam attentos:
Que triste vida na choça, que funda melancolia, que rostos tão macerados, que suspiros abafados cada noite e cada dia!
noites de eterna vigilia, dias curtos para a lida, recordações da opulencia, amarguras da indigencia... que vida, Jesus! que vida!
Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o poema, para decoral-o todo.
No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo do braço um livro de capa amarella.
Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.
Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...
Annos depois--não foram muitos--quando Castilho protegeu as minhas estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de outras suas escriptas de toda a parte.
Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um retrato meu aos dezeseis annos.
Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje nenhum exemplar d'essa photographia.
Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do _D. Jayme_? D'isso me lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do _Primeiro de Janeiro_, cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas pessoas, Francisco Gomes Moniz e eu.
Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era escripto por Latino Coelho.
Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.
Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a ingreme escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.
Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.
Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de mutua estima.
As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram facilmente.
[Ilustração: Retrato de THEOPHILE GAUTIER que pertenceu a Camillo]
Quando elle partiu para o Brasil, a _Mala da Europa_ quiz dar um numero commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o auctor do _D. Jayme_. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido, precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua tarefa--ardua pela estreiteza do tempo.
Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para espertar-me, conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra que tinha dado.
Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.
Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da minha mocidade.
Não sei, não posso vel-o de outro modo.
Dou-me, portanto, como suspeito.
Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os criticos téem menos auctoridade do que o publico.
Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu uma consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do voto adverso dos criticos.
Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais popular poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão; dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua popularidade e, sem querer, a propagavam.
Portugal ficará sendo eternamente o--jardim da Europa á beira mar plantado--verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito do nosso paiz.
A «Conversação preambular» do _D. Jayme_, escripta por Castilho, foi tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é realmente discutivel em algumas das suas affirmações.
Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz mais uma prova da enorme sensação causada pelo _D. Jayme_, até nos julgadores de maior competencia profissional.
Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr que possuia a lingua portugueza.
Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.
Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia--_fogaça, campeiro, velleiro_--com toda a alma de um povo a cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do protogonista:
Entrei, raivando vinganças, Sahi, jurando perdão.
Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.
Do _D. Jayme_ nasceram logo outros poemas: Em Lisboa, _Roberto ou a dominação dos agiotas_, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, _Leonor_, imitação flagrante.
Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.
Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por toda a parte.
Tenho deante de mim um romance indiano, _Beatriz ou os mysterios da ultima revolta em Goa_, escripto por Fernando de Goa (certamente pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.
No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este periodo:
«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas visitas ás familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e conceituosas phrases.»
A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza, é Cascaes do Oriente.
Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do _D. Jayme_, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.
Era uma justa retribuição da consciencia publica aos sentimentos patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio portuguez, se algum rincão distinguiu com especial affecto, foi o seu districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascêra, Parada de Gonta:
Que fresca aldeia formosa Nas margens do meu Pavia!
Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:
meu vergado pomar d'um rico outomno, sê meu berço final no ultimo somno.
O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não como caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a todas as gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado solemnemente na celebração das glorias e das tradições portuguezas, desde Alexandre Herculano até Thomaz Ribeiro.
Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.
Literariamente, ainda falta encarar o auctor do _D. Jayme_ sob outro ponto de vista: como recitador.
Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.
Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma vez, sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria da camara dos deputados.
Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.
Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente á resurreiçao do exame de madureza: eram o sr. José Borges de Faria e eu.
N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil para maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.
Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da casa Ferrari.
Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a Thomaz Ribeiro que recitasse _O tear da rainha_.
Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que fomos pedindo mais versos.
Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.
O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes declaração de voto, mas a reforma não teve execução.
Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro ministro da marinha--primeira pasta que geriu--fui eu que, a seu pedido, entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a acquisição da propriedade das suas obras.
Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se numa agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de serenidade para ser dominada.
Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é ainda desordem da saudade.
Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.
PAG. 18
«... esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.»
D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a respeito da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 de julho de 1866, quando dizia:
«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; e a voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes.
«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria de pedra, estava afestoada de rosas e hortensias».
Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta de Seide.
PAG. 26
«Foi ali que essa linda mulher, de formas esculpturaes...»
A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado recentemente.
O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois dias, á espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os documentos que eram necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo Joaquim Augusto da Fonseca Pedrosa, estava na posse d'este segredo; ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na camara ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como já tem sido dito.
PAG. 30
«Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_.»
Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide pela ultima vez, quando já a questão do _Protesto_ nos tinha inimistado.
N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma das mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem as minhas canceiras e preoccupações politicas, dada a boa disposição do visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella época. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinações eleitoraes: não chegava para as encommendas. Forte cegueira! Até me parece agora impossivel que eu fosse então o mesmo homem que hoje sou!
O que é certo é que venci com o povo--a grande classe dos pescadores--coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem vence, por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.
Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado nas ruas.
Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro eleitoral em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:
Boa vai ella! Ora viva o Pimentella. Que dá o seu coração P'ra vencer a eleição.
Boa vai ella! Ora viva a _piscaria_. Vai toda votar em barda Pela nossa melhoria.
Boa vai ella! Ora viva o Albertinho, Que vai como deputado Cá pelo nosso povinho.
Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas.
N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.
Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de me congraçar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu não o recusaria.
[Ilustração: Retrato de ALPHONSE KARR que pertenceu a Camillo]
PAG. 37
«... Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo.»
Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois annos de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865.
Se o leitor folheou alguma vez _Os amores de Camillo_, lá deve ter encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se effectuou no Porto.
Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é interessante.
Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel jurisconsulto; o Bastos, do _Nacional_; Antonio de Azevedo; e um procurador portuense, cujo nome não lembra.
Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.
Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos sainetes.
D. Anna Placido tocou piano.
Camillo tocava trombone no canno de uma bota.
E o Bastos do _Nacional_, que era um homem alto, forte e rosado, dançava com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio.
O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual, conservou-se mero espectador.
Não parece que se está ouvindo um trecho das _Alegres comadres de Windsor_, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella scena de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma chorea improvisada?
Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S. Miguel de Seide!
PAG. 53
«Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu».
Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não temos em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros escriptores menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não.
Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, que foi Ernesto Biester.
Fizeram em commum o drama _Vingança_ (Veja _Esboços de apreciações literarias_, pag. 85 e _Revista contemporanea de Portugal e Brazil_, vol. IV, pag. 313); e o drama _Penitencia_, em 6 actos e um prologo (Veja _Dic. Bib._ de Innocencio, vol. IX, pag. 176).
Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela companhia do antigo Theatro Normal.
NOTA FINAL
O retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um a _crayon_ que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel de Seide.
Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos, e fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de Guilherme Braga.
A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco.
O retrato a _crayon_ é de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente em 1857, quando Camillo usava ainda o cabello levantado sobre a fronte.
Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com outros de differentes epocas, no n.º 8-9 da _Illustração moderna_, do Porto.
Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez reprodusido na revista portuense _Sombra e luz_ (n.º 2).
Preço 400 réis