Os netos de Camillo

Part 3

Chapter 33,791 wordsPublic domain

«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto Pimentel.

«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta, passados tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos seria desagradavel saber se o nosso estimado confrade do _Popular_ tomou, ou não, a resolução de contar no jornal, que redige, como é justo que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os malaventurados netos do grandioso estylista.

«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, entre aquellas seis creanças, uma--o Camillo--possuidora de intelligencia rara.

«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao aproveitamento d'aquelle rapaz?

«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do Estado, dia a dia, para applicações muito menos comprehensiveis.

«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que aquillo é, comparativamente com outros tempos.

«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna e das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de amizade que póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita que se reedite aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que constitue, com motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do nosso meio.»

[Ilustração: SIMÃO]

Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu procedimento.

Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei no _Popular_ as impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo fiz tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.

Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.

* * * * *

Poucos dias depois de ter lido a noticia do _Lusitano_, acima transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás impressões que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a fazer em favor da pensão.

Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da seguinte noticia que _O Lusitano_ publicou no dia 3 de setembro:

«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e jornalista com uma carta, que é a promessa solemne de intervir no sentido rogado.

«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos netos de Camillo.

«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o auxilio de Antonio e José de Azevedo.

«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços possiveis junto do parlamento e do governo.»

«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense conhece, ao presente, em pessoa, a justiça da causa, que tanto tem merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a advogou com tão fervente empenho como nós, que fomos, até, o primeiro a patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que o _Primeiro de Janeiro_ publicou logo a seguir á morte do Jorge, sem falar no pedido directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o _Diario da Tarde_, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de Lisboa.

«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois auxilios. Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa dos netos de Camillo.

_P. S._--_O Regenerador_ refere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».

Trabalhemos todos--todos os que veneramos a memoria de Camillo--sem excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.

É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; honremo-nos pagando.

* * * * *

A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier e Karr, que estavam na saleta contigua á alcova de Camillo.

Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr na reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.

Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e collar no tampo da moldura:

«ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE» «CAMA DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EM» «S. MIGUEL DE SEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS» «SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,» «NA PRESENÇA DO SR. ADRIANO DE SOUZA» «TREPA, DE SANTO THYRSO, E FRANCISCO» «CORRÊA DE CARVALHO, DE SEIDE.--ALBER-» «TO PIMENTEL.»

Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, fronteira ás janellas.

Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de Seide.

Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso commum amigo e que elles tão de perto viram soffrer e sonhar--por tantos dias e tantas noites.

Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de montes.

Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz pelo Minho, o bulicio pelo silencio, os _boulevards_ pelos pinheiraes, a capital do mundo pela aldeia erma e profunda.

Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa alma, penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna quasi uma religião: não ha meio de arrancar o camponez ao seu tugurio e o marinheiro ao seu beliche.

Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha janella, com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na claridade limpida do ar.

Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse--como a de dois inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.

Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da viscondessa de Corrêa Botelho.

Quando publiquei _Os amores de Camillo_, muito desejei eu obter este retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido não seria uma inconveniencia irritante.

Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, tirados em Pariz, no tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson, boulevard des Capucines, 3.

Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'_Os amores de Camillo_, se algum dia a fizer. Aqui não é o seu logar proprio. Mas quero dar uma rapida impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata em laço. _Toilette_ de velho, harmonisando com a physionomia; mas de velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.

Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.

Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de S. Miguel de Seide.

* * * * *

Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.

Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na solidão profunda de uma aldêa minhota.

--Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas noites aqui deviam ser horriveis!

O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:

--As tardes, as tardes de Camillo é que eram ainda mais agitadas e tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito; excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.

É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.

As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com as _dores fulgurantes_ (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises visceraes, a gastralgia é frequente.

O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.

Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando treguas ao pobre Camillo.

Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou o grande romancista.

Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.

Estive ali no mez de agosto de 1885.

O opusculo _Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide_ recorda esse facto.

Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, Jorge e Nuno Castello Branco.

Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia inteira.

É que a fatalidade de certos destinos iguala-os na vida e na morte, regulando as suas horas por uma unica ampulheta.

Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.

Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.

O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre montões de espuma.

Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais ninguem no mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns palmos de terra sêcca e hypothecada.

Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a fulguração de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.

Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a gloria do avô immortal.

[Ilustração: MANUEL]

Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela alma do avô, que não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos realidade o que parece haver sido prophecia do grande espirito de Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia «outra vez inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a gloria do seu nome.

Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de despertar a patria adormecida.

Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu, agradecei aos netos as lagrimas e os sorrisos com que o avô tem preenchido deleitosamente muitas horas da vossa vida, desde o _Anathema_, uma estreia, até aos _Vulcões de lama_, a ultima novella, raio de sol poente que não tardou a apagar-se.

Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.

Santo Thyrso--Lisboa. Agosto a setembro de 1901.

NOTAS

PAGINA 6

«... a cêrca do antigo mosteiro de Landim.»

Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o fundado por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.

Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de Entre-Douro-e-Minho, o de _Landim_ é designado como sendo a de Nossa Senhora de _Namdim_.

O conde D. Pedro, em seu _Nobiliario_, tambem diz _Namdim_.

PAG. 15

«o monumento commemorativo da visita de Castilho, «principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.»

As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos de _Um Livro_.

N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho, relatando o que se passára naquelle sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e prosador de elevado merito, etc.»

Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a referencia a Camillo dizendo que _essa amizade_, então começada no Porto, ficou cimentada para sempre. (_O Instituto_, de Coimbra, n.º 9, vol. 48.º)

Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me ensinou a amar Castilho.

Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas historias de reis e principes encantados.

Camillo, que foi de algum modo o meu _niñero_ espiritual, falava-me muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela agricultura.

Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como OEdipo, o famoso rei de Thebas.

E assim como OEdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e vacillantes.

Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance _Agulha em palheiro_:

_Ao poeta das creanças, das flores, do amor, da melancholia e dos desgraçados, ao illustrissimo e excellentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho, honra da patria honra dos que o prezam, e amam a patria offerece o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor Camillo Castello Branco_

Em outro livro, _No Bom Jesus do Monte_, cita Castilho a par de Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho de o proferir».

Durante a _Questão Coimbrã_, nas _Vaidades irritadas e irritantes_ vem á estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe devesse e o amasse...»

Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a amar Castilho.

PAG. 16

«a dedicatoria da _Maria Moysés_ a Thomaz Ribeiro.»

Diz o texto d'essa dedicatoria:

A

THOMAZ RIBEIRO

«São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que então eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... tu não os recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:

«S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»

PAG. 16

«A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se referia.»

O modesto monumento, de que fiz mais larga menção no opusculo _Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide_, Porto, 1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito viva entre as mais gratas lembranças do passado.

D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de 1901.

Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa--o que não sei se é proprio do teor das annotações--não posso ter mão em mim que não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide com as recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de Castilho e Thomaz Ribeiro.

* * * * *

Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...

Lembram-se? Vem nos _Logares selectos_, do padre Cardoso: é um excerpto da _Côrte na aldeia_, de Rodrigues Lobo--dois livros bons, cada qual no seu genero; bons como se faziam d'antes.

Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, o que nem sempre se faz agora.

Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.

Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os quaes convivi e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão bons, como foram esses.

[Ilustração: A ACACIA DO JORGE]

Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra--Lá vem um!

Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos, que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os comparo com os de hoje.

Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença--é como o frio de janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.

Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.

Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar á vontade.

Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior que elle.

Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.

Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o lume para as refeições do espirito. Mesa posta para os _gourmets_ da intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem gregos ou troyanos.

Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas.

Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz.

Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já vinha apurada de longe.

Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o seu _alter ego_. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma só.

Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel de todas as saudades.

Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de intelligencia vivacissima.

Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.

Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.

Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um morto que vivia longe dos vivos.

O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então, como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só alguns annos depois nos avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao Rato. Mas eramos já amigos velhos, todos nós, quando nos encontrámos frente a frente.

Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas _Patria, contra a Iberia_, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor officina de alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.

Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu amicissimo...» Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados na amisade, que nenhum de nós estranhou o superlativo.

Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o terreno e o clima em que nasciam: medravam á vontade.

Quanto á factura artistica, o poema _Patria_ trazia a marca da fabrica: Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem agora.

Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:

Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro? alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.

Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho aos loireiros do val á busca de algum ninho.

Sob este parreiral tão verde e tão fragrante beijei apaixonado a minha terna amante.

Costumava ir de tarde ao moinho da serra vêr como o sol transpunha as montanhas da terra.

Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.

Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.

Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.