Os netos de Camillo

Part 2

Chapter 23,901 wordsPublic domain

Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados de mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns _croquis_ do Jorge, e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.

Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seus _croquis_, prestei attenção aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como companheiros fieis e amigos intimos.

São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.

Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o chefe do estado-maior no exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do romantismo.

A sua _toilette_ caracterisa nitidamente essa época literaria, em que os neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica e _épater le bourgeois_ exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e do córte.

Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os literatos e os pintores.

Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de cortezãos de Luiz XV.

Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa noção historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.

A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de hoje.

Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça humana.

Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava ainda, veste casaco de alamares--esse casaco-broquel, que defendia os corações romanticos.

O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.

No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro antigo.

Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao pescoço humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de marmore ou de um granadeiro em formatura.

Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma encadernação condigna, forte e austera.

Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de fitas garridas para adorno de damas.

E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso, se foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as gravatas que adelgaçaram por amor dos pescoços.

O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem buço e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o effeito da _toileite_ compensa, como excentricidade de _pose_, a deficiencia da cabelladura.

Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço, e sobre ella um amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um jardineiro, como a um escriptor em actividade--porque tudo isso foi o auctor das _Guépes_, sendo elle proprio uma obra em trez volumes.

Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.

Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e Karr.

Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.

* * * * *

Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de Correia Botelho, igualmente desmobilado.

Foi ali que essa linda mulher, de fórmas esculpturaes, envelheceu e expirou.

D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.

Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte surprehendel-a.

Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.

Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.

Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega quando morreu.

Já não podia lêr, nem escrever.

Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.

Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes o mesmo calix de amargura.

Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de «pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.

Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.

Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:

--Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o chefe da estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir para Seide?» Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o «bacharel» annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha comprado no Porto.

* * * * *

Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do grande romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.

--O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?

Obtive esta resposta:

--Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que os não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.

Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.

Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu conhecêra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse n'aquella praia: «Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha casa. Assumiu a dictadura e não sabe governar d'outro modo: dava um bom ministro... constitucional.»

Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.

O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe:

--V. Ex.ª vai sem paletot?

Camillo respondeu passivamente:

[Ilustração: NUNO]

--A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.

Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:

--V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.

Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot chegasse.

Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa, passámos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, olhou para dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço. Por isso é que eu o soffro.»

Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o Brazil, onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre do que tinha ido.

Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.

E de repente ataquei um assumpto novo:

--Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.

A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:

--Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.

Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:

--V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no Porto?

--Estou, sim, senhor.

--Tambem eu, minha senhora.

O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com grande hombridade:

--Negal-o foi uma loucura.

Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara que me constrangia.

--Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.

O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com indulgente cortezia, dizendo:

--Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_; no dia seguinte tornámos a vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.

O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente, esperando a occasião de dizer:

--A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa: «Este não é o Alberto Pimentel?»

E o sr. Adriano Trêpa confirmou:

--Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.

--O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.

--Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.

O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu ali fôra visitar Camillo.

A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me officialmente o sr. Carvalho:

--É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito.

E, sorrindo, acrescentou:

--É o «José Fistula» do _Eusebio Macario_...

O sr. Carvalho atalhou jovialmente:

--Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar o _Fado_. Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o.

* * * * *

É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é um camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se João de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o grande romancista em horas de bom humor. Por exemplo:

Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um pontapé no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.

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Em francez, _bonne nuit_ é boa noite; e _bon soir_, boa tarde.

Em inglez, _good night_ é boa noite.

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O verbo ser conjuga-se assim em francez

Je suis Tu es Il est Nous sommes Vous êtes Ils sont

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A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em territorio.

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Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de Camillo, ha um botequim conhecido pelo _Café do Gato_.

«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com filhos pequenos.

Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.

Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.

--Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.

Resposta d'elle:

--Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.

É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do Minho, não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o proprietario do café de Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para dentro.

Mas o caso vem a proposito para mostrar que n'estas e outras rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o não isolou em Seide na treva e no desespero.

O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.

Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome bucolico de _boninas_ as stratificações fecaes que matizam e embalsamam os caminhos nas villas e aldeias do Minho.

Tem verdadeira graça pastoril: boninas!

* * * * *

Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce.

A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo.

O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:

--Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do _Protesto_, disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»

--Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido e não tinha odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima.

Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto.

No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do _Protesto_ me causou.

Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.

O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.

A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:

--Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr. visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva, procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção.

* * * * *

D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus: _A Jornada dos Seculos_ e a _Flor de myosótis_.

Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava temporadas.

É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de montes longinquos.

Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.

A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a floresta dormente.

Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.

Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu camilliano.

[Ilustração: RACHEL]

Foi n'esse mesmo andar que Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia.

Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da casa. Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano--esse piano que era de sua mãe e que ella havia levado para a Cadea da Relação do Porto--mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das muitas aptidões artisticas do Jorge. Eu já disse algures que elle, em noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta.

Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.

No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.

A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:

--Sr. Jorge, são horas do almoço.

Elle respondeu:

--Já vou.

Mas passou tempo sem que se levantasse.

Tornaram a chamal-o.

--Já vou, repetiu elle.

Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela janella, o que foi empreza difficil.

Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico que, n'esse momento, lhe pareceu não offerecer maior gravidade.

* * * * *

D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da illustre casa do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por mim já publicada.

Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de uma folha diaria:

«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos.

«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de Landim, que logo previu o desenlace fatal.

«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo com desmaios e não podendo conciliar o somno.

«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando gemia e invocava a Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em que morreu, foi ungido.

«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes apparece nas doenças mentaes.

«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.

«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral.

«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado, feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe ficar mais a geito.

«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste.

«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre

De V. etc.

_José de Azevedo e Meneses._

S/C do Vinhal, 16-9-900.»

* * * * *

Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello Branco, logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão, os netos de Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria.

Dizia o correspondente de Famalicão para _O Commercio do Porto_:

«FAMALICÃO, 12.--Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.

«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos e passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande romancista, pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava tambem a educação das creanças, que agora ficam ao desamparo.--(_M. G._)»

Escrevia o _Lusitano_, de Famalicão, no mesmo dia 12:

«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello Branco, o pobre louco tão amado pelo immortal auctor do _Amor de Perdição_ e tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na litteratura nacional.

«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia completamente do convivio social.

«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa pena a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos no seu perfil, que muito se parecia com o de seu pae.

«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge.

«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.

«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve o governo continuar a dar a seus netos a pequena quantia que deu ao Jorge durante alguns annos.

«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao desamparo.

«Quem sabe até se, educados os netos do genial _Solitario de Seide_, algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido Mestre?»

* * * * *

A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:

«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras patrias pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é concedida a seu filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e vitalicia de 1:000$000 réis.

«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de quaesquer impostos, e será abonada desde a data do decreto que a concedeu, ao visconde de Correia Botelho, em quanto vivo fôr.

Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»

Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem chronologica do nascimento:

Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.

Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu o avô, que era seu padrinho.

Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.

Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.

Simão, nascido a 6 de julho de 1891.

Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.

Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas transcripções do jornal de Famalicão, _O Lusitano_, apezar de em qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu.

Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.

Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.

Dizia _O Lusitano_ no seu numero de 29 de agosto do corrente anno: