# Os meus amores: contos e balladas

## Part 5

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De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura...

Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?! Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D. Engrácia, pobre velha...

--A quem?--interrogaram uns poucos. À Dona quê?

--À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã aos missionários é ela. Presumo eu que é ela--fazia o Nunes das correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde deitei.

Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser com a D. Joana, a do--«_chá de erva-cidreira_.»--Outra canalhice! A D. Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se viu:--que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da correspondência. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu telegramas de... amor_.--Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria...

Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_, vocês deixem falar,--tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a frase, entalado,--por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém, alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

--Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar franco.

Saltaram-lhe:

--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas.

Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar...

--Léria!--disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então, para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quase agradecido:

--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente. Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que está...

--Vocês é um modo de falar,--emendaram alguns.

--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondências,--explicou sofisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente. Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimentá-las, submisso.

--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a mão:--Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo. Assim... assim...

Então? que diziam àquele calor?

--Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

--O Brasil tal e qual--reforçou o Nunes.

Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite de truz, aquilo sim!

--Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi pena! O Abelzito andava constipado.

A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas noitadas.--E em voz mais baixa, quase dolente:

--Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

--Não há tal!--fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar, senhor Nunes.

E por pouco que não chorava ao dizer isto.

O Nunes afectou um sentimento profundo:--Era melhor não falar nisso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:

--Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois... e depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição!

Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem aquele vestido à Amélia.

Não podiam subir, talvez à volta.

--Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase pronto, que trabalhão!

Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. Coisas de anjinhos:

--Verás.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,--homens com malhos, e mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

--Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo, afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E pedia a rir, boçalmente:

--Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

--É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó Fernando?

--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes. Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

--Então, ó Paula...--suplicava o administrador.

--Está fechado o realejo... Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

--Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_ se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! «gramou» um entalão que se consolou.

--Quatro coroas.--Na véspera tinha ganho um quartinho.

Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

--Quem eu te quero à perna é o _Aramis_...--rosnou o Teles escrivão que embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda ele não sabe tudo...--insinuava perfidamente.

--Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em verso--fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a analfabetos.

--E eu a brutos, sabe você?

Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício... Ó senhores, lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com o outro. Pelo contrário.

O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava essa importância, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas tesas.

--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras portuguesas,--ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

--Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o que mando para público sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho triunfante.--Não roubo! nunca roubarei!--afirmou mais alto o Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como ele!--E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria dizer.

--As provas...--e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com ímpeto:--as provas, vê-las aqui estão!

Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.--Era do ano que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho tinha entregado ele mesmo.

--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem.

O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos--zás! versalhada para o _Lembranças_...

--Era colaborador--disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de Teles.--Era colaborador.

--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da orelha.--Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é ele. Nunca o admitiram.

--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses versos--insistiu o Antunes.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade».

--Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.

E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em epígrafe.

Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.

«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria Teles, escrivão.»

--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Ele depois assinou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma complicada do Teles.

Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:

«Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois que ele os assinava.»

--E então?--perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

--«Pura ilusão!»--continuou solenemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume _Lira Matutina_.»

Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos comentários:

«Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara--por indigno.»

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,--vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!...--tinham dado uma sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro, por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles tinham mandado imprimir avulso--para lisonjear o Teles que tivera o trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma insídia,--um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca!

E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas, cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração, vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda, feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles, ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O homem--pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro. Arre! cavalgadura!

E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.

--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou comovido o Antunes.--Ó senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele intervalo do drama para a farsa?...

Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada uma! E relembravam:--levantara-se o pano quando os ouvintes menos o esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito.

--Ele que dianho é?--perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:

--Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como saíra do túmulo; aquela canalha da tropa--todos enfim!

Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.

Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião, durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um discurso na bochecha extática do Teles:

«Não era ele o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter frases, oratória, porque enfim estava falando a um poeta...--colaborador do _Almanaque de Lembranças_ para Portugal e Brasil--acrescentou voltado para o público, esclarecendo. Enfim, finalmente... vinha para aquilo: dar-lhe um abraço em nome de todos...--e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--acrescentou fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam--«ó Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules verdes e muita lantejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da «melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_ original do Peres do correio.

O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a Frei Inácio:--Era de mais, era de mais, ele não merecia...--Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros--seríamos ingratos se...

A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas do tecto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:

--Alto! suas bestas! Inda não!...

Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a ombro dizia em caracteres amarelos--_C'est fini_! O pano desceu então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, não tinham percebido... Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

--_É findo_!

V[AE] VICTORIBUS!

_A Maria Lucila_.

Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou, depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

--Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se.

Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada. Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de suplicas...

O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber donde, alguém chamou por ele, lugubremente:

--Ó José Gaio!

O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a mesma voz tornou-lhe mais de perto:

--Ó José Gaio!

Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela voz, como um prolongamento do trovão:

--Ó José Gaio!

Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz:

--Ó José Gaio!

E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a tempestade...

Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:

--Ó José Gaio!

Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia, como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer, abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas, sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o largava, imperturbável e monótona:

--Ó José Gaio!

E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.

