Os meus amores: contos e balladas

Part 15

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Abre-se o livro e depara-se com o _Idílio rústico_, que é uma soberba tela, amoravelmente tratada, denunciando logo às primeiras linhas um alto valor artístico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.

Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este um dos contos mais formosos do volume, em que pese às opiniões contrárias e até ao próprio autor, que não perde ocasião de o depreciar.

Assunto simples, esse, e todavia absolutamente verosímil. A descrição da eira, do labutar alegre, da paisagem e dos personagens deste pequeno quadro, são um primor notabilíssimo de execução artística, de rigorosa e completa observação.

_Última dádiva_, um episódio comovente, completa a primeira parte do livro, a que se segue a _Comédia da província_, onde há preciosos estudos da vida provinciana; as _Baladas_, onde se depara com o formoso conto _Para a escola_, de um alto valor literário; _Arrulhos_, uma esplêndida fantasia, etc.

Eis uma ligeira notícia do volume de contos _Os meus amores_, que tamanho êxito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia do nosso acanhado meio literário, com os merecidíssimos aplausos que lhe foram dispensados.

Dos méritos literários de Trindade Coelho falam mais alto do que a crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornais do país, especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudónimo de _Ch. A. Verde_, e na _Revista Ilustrada_, do editor António Maria Pereira. É um infatigável e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frívolo assunto um delicioso relevo literário, que prende e interessa o espírito do leitor.--_Luís Trigueiros_.»

Os Gatos:--«Vem a propósito de histórias, falar, bem sei que tarde, dos _Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro português que mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em poliedros de multíplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte uma bagagem de vida académica, assimilativa (Trindade Coelho, muito novo, findou há quatro ou cinco anos o curso jurídico) e como tal saem da pena do escritor ainda sem uma cristalização homogénea de forma e de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso de um espírito buscando a perfeição com escrúpulos de eleito; de sorte que o volume até como autobiografia se insinua, ele precisando as fases, nótulas, e predilecções literárias do contista, e enfim, depois de hesitações, emancipando-o num dos mais delicados microscopistas do coração, das nossas letras. Como é provinciano, provinciano de aldeia, e natureza contempladora inda por cima, Trindade Coelho cativa-se principalmente dos assuntos bucólicos, pequenas cenas de cabana, tempestades de campanário, pastorais, vida de povo, e sente-se que o não faça por diletantismo de escritor avocando de cor dramas lambidos, senão por esse estro de visão retrospectiva dos melancólicos despaísados em terras hostis, e que protestam contra o egoísmo ambiente, recluindo-se no passado, como num santuário de múmias adoradas. É a tendência geral dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes, especialmente dos campos, matéria-prima para seus contos e poemetos. Em poucos porém a predilecção se escora na sinceridade e conhecimento prático da vida rústica, e em menos ainda há perspicácias para uma autópsia sagaz da natureza psíquica e moral do camponês. Grande parte dos que têm posto o povo em cena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos num cenário de convenção, e com o fazer falar aos bonequinhos mancos que resultam, aravias mais ou menos inventadas de um pitoresco sorna, em cuja trama não há vislumbres de alma regional, de carácter profissional, de individualismo típico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra, mandem vir a colecção dos contistas rústicos portugueses, e riam à larga das fantasias lorpas que lá virem. Em diálogos amorosos há por exemplo coisas únicas! Cavadores de aldeia debitam às namoradas protestos de paixão, em linguagem que seria preciosa até na boca de um pisa-flores do Martinho e da Havanesa. Elas, de lhes retrucar em frase equivalente, e de se mexerem em cena com os ademanes que a _Dama das Camélias_ consagrou na cachimónia dos autores, como os mais próprios para mimar o amor que as enxaqueca.

Em paisagens e descrições de interior, a mesma ausência de detalhe certo e de visão própria, que reduzem esses quadros, a meras caganifâncias de aguarelistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal imitação da Rua do Ouro, e o camponês como uma arreglo grotesco do alfacinha.

Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essência da paisagem provincial, e a alma do provinciano e do campónio, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu critério do problema, em forma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo à vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os voos poéticos, e a singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de género, colhidos em prolongadas estações nas duas mais típicas províncias de Portugal, o Alentejo e Trás-os-Montes. Há assim nos _Meus amores_, a par dalgumas benignas composições representativas da transição crítica do rapaz para o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guisa iguais, sóbrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras-primas. _Tipos da terra_ e _Prelúdios de festa_, por exemplo, são duas narrações que mordem fundo a atenção de quem nas lê, e que por sua admirável sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido que ficarão modelarmente apontadas aos coleccionadores de literatura típica.

Qualquer das peças abrange apenas o fôlego de uma ou duas dúzias de páginas, deliciosas porém como factura, admiráveis de bonomia, e de uma saúde moral que faz desejos de estimar pessoalmente o seu autor.

Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante rico em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das mais finas intenções. _Tipos da terra_ é o quadro satírico de uma má língua de aldeia, tendo por clube a porta da tenda, por cenário a praça pública, e por personagens o pessoal burocrático e elegante da terriola. _Prelúdios de festa_ é um estímulo de festeiros preocupados de qual fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os tipos rápidos, a descrição dita a correr, mas no conjunto há um tal equilíbrio estético, a meia-tinta é tão fluida, e as intenções irónicas sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista, Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os sensaborões que por aí medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno romance português.--_Fialho de Almeida_.»

Jornal de Santo Tirso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e comovente para nós a gentilíssima oferta que Trindade Coelho nos fez do seu adorável livro de contos, que tem por título a epígrafe desta singela notícia.

O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje, porém, aparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a primorosíssima forma se alia com o mais delicado critério de artista d'_élite_ e com a fina observação de um talento verdadeiramente superior.

O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e obscura pena não está--seja este o seu único mérito!--habituada a vir entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se prodigalizam aos medíocres e aos banais, que se desvanecem entre as ondas desse barato incenso.

Os nossos leitores melhor ajuizarão, em presença do trecho que lhes oferecemos como mimo de rara valia.»

Diário Ilustrado, (com o retrato do autor):--«Trindade Coelho.--Nesta áspera vida das letras, cortada de tantas amarguras que ninguém sonha, há, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado experimentar, acrescente-se.

Essa alegria, sentem-na os poucos susceptíveis de compreendê-la,--na elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestígio do talento ao culto mental, e sobretudo no íntimo orgulho de adivinhar, logo aos primeiros passos, a revelação de Alguém, que vai ser unanimemente admirado.

Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na galeria do nosso jornal, este incomparável júbilo.

Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; admirei-o, muito antes dele trazer à literatura pátria o livro _Os meus amores_, que foi como que a súbita iluminação do seu nome.

Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos aparece em toda a sua inconfundível originalidade de narrador, em todo o desartificioso encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o temperamento de artista, impressionável e vibrante, na fluidez do estilo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...

O campo, que a maioria dos escritores conhecem superficialmente, de rápidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação, vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essência da paisagem provincial, e a alma do provinciano e do campónio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande crítico Fialho de Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu critério do problema, em forma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo à vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os voos poéticos, e a singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de género, colhidos em prolongadas estações nas duas mais típicas províncias de Portugal, o Alentejo e Trás-os-Montes.»

Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a afirmar a sua poderosa individualidade em uma secção do _Diário Ilustrado_, _Cartas alentejanas_, crónicas expedidas de Portalegre, em um arranque de talento, com exuberância de fantasia, modos de ver e dizer, flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo à Vacherai, velados a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante originalidade.

Por esse tempo, o nosso brilhante cronista empreendeu, no exercício das suas funções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitária de arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o condenara.

E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos voos, fez-se um coro de bênçãos, como que uma apoteose de amor, que deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma efusiva e entusiasta, um destes supremos júbilos, superiores a todas as desditas e inacessíveis a qualquer desencanto.

Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterizam e lhe assinalam o ponto culminante em que se evidenciam, uma dualidade, verdadeiramente fenomenal.

É que, sendo ele um artista, na rigorosa acepção titular da palavra, namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na extática adoração de tudo quanto ela sobredoira do seu brilho imortal, é ao mesmo tempo um funcionário exemplar, um delegado do procurador régio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu carácter e no correcto exercício da sua profissão, toda a prestigiosa soberania da Lei. Diz ainda Fialho de Almeida, inteiramente insuspeito, quando se trata de aquilatar o mérito de um autor:

«Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante rico, em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das mais finas intenções.»

Às vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade nostálgica ou treme de frio... legal.

É então que ele murmura, (perdoa a indiscreta alusão, meu caro Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o meu espírito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz ideia, não! Dentro desta jaula de ferro, veja! E lá fora, e lá em cima--que amplo céu azul para voar!»

Mas nesse azul para onde lhe foge o espírito, quantos triunfos ainda o esperam, meu ilustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.»

Revista de Portugal:--(Excerto de um artigo crítico acerca do _Só_ de António Nobre).--«Alma doente, o Sr. António Nobre soube extrair da sua doença efeitos de Arte singulares e às vezes intensos. Outros atingiram o mesmo objectivo pela descrição das emoções naturais e pelo apelo aos instintos sãos do coração humano. Acabo de reler o livro de um escritor também novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser compreendidos por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a afeição de dois pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida junto à cruz da sua vítima, o amor materno de uma cabra que se deixa morrer sobre o cadáver do filho recém-nascido, consegue o narrador interessar e comover vivamente o espírito de quem o acompanha através dessas duzentas páginas impregnadas dos sucos da terra e do suor dos lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade pessoal decisiva para a beleza das obras.--_Moniz Barreto_.»

Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face, olhando-o bem, medindo-o de alto a baixo,--o que não seria difícil mesmo no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se ele de nós, porque já então a gente não se atreve a separar-se dele, tem-se adquirido a certeza de que aquilo é o que é, e chegado à mais sólida convicção de que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais insubmissas ao menor propósito do menor disfarce, do que na sua fisionomia bem aberta, iluminada em cheio pelo brilho intensíssimo do seu olhar muito límpido, muito penetrante, se expressam toda a sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso temperamento.

E ao vê-lo partir pela rua fora, decidido e teso, resoluto e rijo, a cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que dá gosto vê-lo, não resistem os olhos ao desejo de acompanhá-lo de longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou pensa:--«Demónio!... Com meia dúzia assim, poderia fazer-se _alguma coisa_ ainda!...»

Porque no meio desta espécie de contágio, que os perversos e as suas perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos quando com eles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este solo e purificar esta atmosfera.

Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem da sua vida,--o mundo literário e o mundo judicial--afigura-se-me ele, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelével cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos para a dilacerante historia patológica da sociedade portuguesa neste agonizar de século, quando aponta o implacável índex do Ministério Público contra os altos réus de certas causas célebres,--ora imprimindo nalgumas obras de pura arte literária, em que a elegância da forma é posta sempre ao serviço das emoções mais doces e das mais penetrantes, esse outro cunho, dessa outra individualidade que nele há, e tão diversa é, tão original e tão rara, tão contemplativa e tão terna.

...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do seu impetuoso temperamento!

No tribunal, quando articule algum libelo acusatório em que as suas palavras se não limitam ao cumprimento do dever de ofício, não tardará que à serena exposição dos primeiros articulados suceda a expressão calorosa, indómita, sempre crescente, da indignação, e da cólera, que lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vai deduzindo a tremenda acusação contra o réu--...esse réu que ali está, ali! sentado naquele banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés! Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração acelera-se, a face ruboriza-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cérebro vigoriza-lhe os músculos, afirma-lhe a energia, parece transportá-lo ao império da força, num arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado a frenético!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta, quase ronca, vociferando, em discordâncias agudas que vêem ferir de arrepios a espinha dorsal do auditório... Já não é para a justiça dos homens que ele apela; não lhe bastam, não o saciam as penas máximas dos Códigos! Quer o castigo do Céu, quer a justiça de Deus!

...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem pior que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana havia condenado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito comentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministério Público, um feroz acusador, empenhasse dois anos agoniados da sua vida em apurar uma inocência... Trindade conserva, encadernada, a colecção desses jornais, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no princípio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Ele, em prémio da minha obediência, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo do meu coração. Queres ouvi-lo bater? Ausculta essas folhas... Bendito seja Deus! serão ainda minhas as tuas lágrimas enternecidas, e, ainda depois de morto, viverei na tua comoção e na tua alegria, para a comoção e para a alegria da minha obra...»

Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste nos oferece a outra fase desse mesmo espírito, quando o vulto austero do magistrado, cedendo o lugar à delicada individualidade do homem de letras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa, muito à vontade e à fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, dessa muito viva e muito afectuosa ternura que à sua alma de artista dá, e que a sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a que andam para sempre ligados, numa doce e meiga associação de ideias, certos lugares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo olmo, que já lá estavam quando ele nasceu, que o embalaram nos primeiros sonos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao baptismo o levaram, e o conduziram à escola; alegrando-se com as suas alegrias, entristecendo-se com as suas lágrimas...

Nesses momentos, sob o domínio desse lindo sonho, inundado do luar da sua terra, desanuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se pousar-lhe nos beiços e nas pálpebras a serenidade meiga de um sorriso, como que o doce agradecimento à alma de sua mãe, que tivesse vindo, muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito, aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos lábios a amorosa carícia dos seus beijos...

Por isso, a música do seu estilo produz sobre a nossa sensibilidade essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos músculos e a efusão das lágrimas realizam o fenómeno das emoções reais.

Os seus escritos obedecem sempre à lógica influência desta convicção em que ele está, quando me diz, bem medindo e pesando cada uma das suas palavras:

--«Positivamente, meu amigo, o público deseja, antes de mais nada, que o escritor preste na sua obra o culto que é devido à sua língua. Depois, deseja que o comovam, que honesta e consoladoramente o emocionem, preferindo que o assunto do quadro seja a exploração das coisas triviais da vida, certamente porque reside no Simples a fórmula mais natural da Verdade... Compreendo que o espírito dos que lêem está fatigado dessa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me, enfim, de que a obra de arte literária tem, como primeiro dever, e como condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferência, mesmo, às faculdades intelectuais...»

Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro deles, _Idílio rústico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarela, parece que feito sobre um esbatido de céu puríssimo, cor de sovaco de andorinha e não sei com que singular sabor eucarístico de primeira comunhão... É um sonho de absinto, que serve de aperitivo divino para a leitura sôfrega de todo o livro. Dois pastoritos ingénuos, a Rosária e o Gonçalo, encontram-se e aproximam-se, numa indecisa alvorada de derriço, cheios de boas tenções e puros ideais. Acontece, porém, que por viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada, imaginem os que como eles se amem a alegria que inunda aquelas duas almas! Duma vez, passada alguma dessas ausências longas, quis Deus que os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se põe, vagueiam nas frescuras marginais do rio, a par, e sós, ele dedilhando a flauta, ela recordando cantigas, com murmúrios de água correndo, e balidos suaves dos lanígeros, numa paz de alma idílica de iluminura. E quando a noite chega, porque lhes custe imenso a separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as ovelhas durmam em mistura e que passem eles a noitada sobre o mesmo colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instintiva relutância, Rosária aceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as mantas cobertor comum, e pousando as cabeças nos bornais unidos, parecer-vos-á, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos desmedidos... Nada disso, perversos! A pouco e pouco vai escurecendo, e os bons dos namorados, numa plácida orquestração final que se smorza, referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no sono e adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da maldade nossa.

Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fora, e que vamos bisando e saboreando a pequeninos golos, durante algumas horas bem fugidas, passeadas por aquelas paisagens e recantos provincianos que ele nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivéssemos; em companhia daqueles tipos que ele retrata, tão fotográficos, tão nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a falar-lhes, a deitar-lhes o braço pelo ombro...

Antes dos seus contos nunca a prosa portuguesa me havia dado, posta ao serviço da moderna arte, o inefável gozo de tão estranhas, tão novas, tão encantadoras surpresas! Quisera eu, inédita, bem fresca, pela primeira vez usada a respeito da sua escrita, esta flagrante comparação:--dir-se-ia traçada com uma pena de águia... arrancada de uma asa de pomba.

Os seus livros ficarão pertencendo ao número daqueles que parecem possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espírito de quem os lê. Reler o que ele escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de quando se contempla pela centésima vez algum querido, precioso objecto, que noventa e nove vezes se contemplara já: privilégio esse de eterna sedução, que só desfrutam as obras em que o artista deixou pedaços da sua alma.--_Alfredo Mesquita_.»

Do Poema do Ideal: