Os meus amores: contos e balladas

Part 14

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_Os meus amores_ é o título que o Sr. Trindade Coelho escolheu para o seu livro de contos e baladas, e se assim lhe chama, segundo cremos, não é porque estas 200 páginas sejam um auto-historiográfico dos idílios romanescos do autor, naquela áurea quadra da sua vida académica, ou um repositório de alheias aventuras amorosas com acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendário.

Não. A razão do título parece-nos antes proceder da afectividade psicológica do autor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto com que Luís Osório prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:

_Folhas dispersas dos meus anos de ouro, Vivo enxame das minhas alvoradas, Tenho zelos de vós, folhas sagradas, As Desdémonas sois de um outro mouro_.

Se não fosse assim, afirmar-se-ia mais uma vez a verdade do aforismo--o hábito não faz o monge--, porque o _Idílio rústico_, com que abre esta bela colecção de contos, não seria bastante para justificar o título sob que se enfeixam.

Mais que o idílio, preponderam no correr do livro a comédia, o drama e a tragédia: e basta percorrê-lo em rápida leitura, para averiguar-se que se há na urdidura dos vários contos muitas situações que nos pintam o ridículo, a desgraça ou o crime, poucas há, entretanto, que nos prendam o espírito ao devaneio piegas de um Romeu e de uma Julieta.

Mas, ou bem ou mal baptizado, o que é consoladoramente verdadeiro é que os contos do Sr. Trindade Coelho constituem uma das mais belas colecções que no género conhecemos.

Uma urdidura fácil e clara, movimentada em harmonia com os melhores preceitos da arte.

Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das situações e dos diálogos.

Uns assuntos de felicíssima escolha, a reproduzirem fielmente costumes, a pôr em jogo com a maior verdade os vícios e as virtudes do povo.

Como os contos magníficos de Bento Moreno, os contos do Sr. Trindade Coelho são a fiel expressão da vida rústica do nosso povo, e fácil é de compreender a importância moral que estes livros terão quando as gerações que nos sucedam queiram inventariar nas suas tradições o modo de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, neste período histórico em que vamos.

Sem descer aos excessos da escola ultra-realista, a que Zola preside como Sumo Pontífice, o Sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade inexcedível, de um realismo incontestável, de um naturalismo a toda a prova, que por igual se evidenciam no assunto, na narração e nos personagens.

E, sobretudo isto, há nos seus contos, como nos de François Copée e Theodore de Bauville, a artística encenação que, sem desvirtuar-lhe a naturalidade da forma e do fundo, lhes imprime o atractivo romanesco que fala à imaginação do leitor.

O _Idílio rústico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa, e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.

A _Última dádiva_ é a expressão fiel de muitas cenas que a emigração multiplica cruelmente pelas nossas províncias do norte.

A acção deste conto é conduzida com uma tal unção de sentimentalidade, que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a comoções, se poderá esquivar a partilhá-la.

O conto--_Tipos da terra_ é a descrição fiel, fidelíssima, da mesquinha intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de província.

_Os Prelúdios de festa_ são de um cómico admirável; _Maricas_ é de um sentimentalismo comovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragédia Rústica_, tudo, tudo neste livro é bom, e de útil e agradabilíssima leitura.

A forma--já o dissemos--é correctamente vernácula e elegantemente rendilhada.

A título de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este belo _croquis_ de uma tarde de Agosto:

«Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as suaves e brandas pulverizações doiradas da última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.

Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»

E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra à altura da boa reputação do autor.

A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu ilustre colega por tão brilhante produção, e daqui lhe envia um cordialíssimo aperto de mão.»

A Independência:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações, modestamente, apenas com a consciência tranquila de quem escreve bem e com critério,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, que acaba de dar à estampa, algumas produções literárias que a sua vida de jornalista tinha atirado para a vala comum das páginas de revistas e diários.

Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogéneo o que se nos oferece para apreciar: são pequenas jóias literárias, buriladas por mão de artista e de um fino sabor de naturalismo.

Considerado assim, sem dependência de escola e confrontação de originais, o livro é bom.

As suas descrições são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se acostumou, desde criança, a ler muita e a adivinhar mais na bíblia riquíssima e inexaurível da Natureza.

Há vida e colorido em tudo. As telas dos céus pincelaram-se com as tintas próprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os olhos, romanescos e sérios uns, grotescos e ridículos outros, deixam-nos uma impressão agradável de realismo, e alta compreensão. São tipos exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem frases banais que enjoam. António Fagote é um espécime do juiz de festa das nossas aldeias, basofão e vingativo, pronto, olá! a gastar as últimas moedas da venda do últimos gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e a deliciosa balada _Mãe_ é uma preciosidade literária, magnificamente pensada escrita, digna da pena dos nossos primeiros escritores.

Não encomiamos, pois, o valor do livro, dizendo que ele é digno de figurar ao pé das mais belas produções dos nossos escritores mais consagrados.»

Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e baladas por Trindade Coelho.

Acorda-lhes no espírito um eco de simpatia o nome do autor, pois não?

Eu creio bem isso, porque a verdade é que apesar da celeuma que Trindade Coelho aí levantou, granjeando com o seu génio turbulento algumas antipatias nenhuma delas alvejou o seu talento, que os senhores jamais negaram, e lhes ficou sendo simpático. É por isso que escolhemos para encetar esta secção a produção brilhante do distinto literato, editada há pouco por António Maria Pereira, um incansável editor escrupulosíssimo.

Li o livro que o talento do autor recomenda, impondo-o, quase, a atenção do nosso cérebro, à contemplação da nossa alma; e essa leitura, feita numas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me d'_Os meus amores_ a agradabilíssima impressão de uma carícia, que persiste a sorrir consoladora.

Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Comércio_ e da _Gazeta_, tem, como viram, o poder invejável de dar à ideia,--algumas vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta forma, iriada sempre da limpidez mais viva; e isso, num trabalho feito agora para aparecer amanhã, à pressa sempre, numa fugida aos calhamaços manuscritos que demandam a sua atenção de magistrado, e em que o período mais sugestivo é o do _Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo_.

É-lhes fácil por isso pressupor o livro, que o vagar do autor desbasta, remodela, lima, muito tranquilamente, muito sossegadamente, sob a vigilante direcção do seu delicado gosto artístico.

_Os meus amores_ têm poesia, e têm verdade; e na maioria dos seus diferentes quadros, adorável descrição das cenas simples da vida do campo, da natureza singelamente formosa, o sentimento vibra intensíssimo, e é encantadora a frase, que um conhecimento profundo ditou, de que uma subtil observação ressai. Há ali retratos de um brilho sem limite, _tipos_ que resumem um estudo fidelíssimo.

É um cofre de belas jóias, o livro, que nos deixa embaraçadíssimo, se queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas.

Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae] victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estilo, _Para a escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de criança, e os admiráveis contos de fina graça e tão verdadeiros, _Prelúdios de festa_ e _Tipos da terra_, são os meus eleitos, depois de uma dificuldade enormíssima de escolha, de entre tantos quadros da perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ cativam também a minha admiração.

O livro é, como todos os saídos na _Colecção António Maria Pereira_, esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em percalina.

Nesta notícia breve, digne-se o distintíssimo autor d'_Os meus amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradável como sinceramente.»

O Nordeste:--«Editado pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, em volume de impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em relevo as complexas e brilhantíssimas qualidades literárias do autor, um _novo_ que já hoje ocupa, por direitos justamente adquiridos, um lugar proeminente entre os nossos melhores escritores.

_Os meus amores_ têm obtido na imprensa do país uma acolhida entusiástica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso conterrâneo quase, cometeríamos uma flagrante descortesia se nos leitores do _Nordeste_ não déssemos conta da aparição desse livro, juntando ao coro uníssono de aplausos as nossas sinceras saudações.

Escritos em prosa vibrante, fluente e musical, correctíssima, esses contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro primoroso, constituem um verdadeiro encanto, cativando-nos com a espontânea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha dumas histórias aldeãs, de uma simplicidade campesina, repassadas por vezes de um sentimentalismo suave, lírico...

A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima simpatia, um afecto antigo e veemente, seguindo com interesse quaisquer particularidades da sua vida, consolando-nos com os triunfos literários que têm glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado inteligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do procurador régio, estava-nos impacientando o desejo de ler o seu livro, e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio no-lo trouxe. E, agradabilíssima coincidência! sucedeu-nos deparar com o conto _Para a escola_, quadro tocantíssimo que marca distintamente os dois mais notáveis estádios da vida do escritor: a altura em que entra na escola primária, regida por um mísero professor, bondoso e marcial, de vilota sertaneja, e aquela em que sai de uma outra, habilitado com as suas cartas de formatura a encetar a carreira pública, na qual de contínuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e carácter diamantino.

Essa história, exposta num estilo formosíssimo, maleável e correntio, deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o confessamos...--de lágrimas espontâneas nos marejarem os olhos, tão enternecedoras são essas páginas que evocam em nós as reminiscências queridas de um passado que não volta, e no espírito nos reproduzem, com uma precisão fotográfica, completa, cenas iguais da nossa infância, como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lê-las e senti-las...

Terminado esse conto, foi de um fôlego, a bem dizer ininterruptamente, que _devorámos_ o livro, onde o autor, num esbanjamento pródigo de verdadeiras pérolas literárias, se expande em ligeiras narrativas, descritas numa prosa colorida e vibrátil, cintilante e rítmica, apresentando-nos uma série de quadros, colhidos em flagrante, _d'après nature_, com uma extraordinária lucidez de observação, e um outro _caso_ humano trasladado para páginas de uma forma impecável, acentuadamente artista, e que são uma eloquente afirmação da distinta personalidade de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assinaláveis e esmerados cultores da prosa portuguesa.

Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve notícia a uma crítica a todo o livro, impossível se nos torna enumerar todos os contos em que ele se reparte, emitindo detalhadamente as impressões que nos sugeriram. Por isso o nosso aplauso caloroso para todo o livro, sem predilecções por este ou por aquele conto; e daqui, desta coluna de modesto jornal de província, enviamos ao nosso queridíssimo Trindade Coelho, numa efusão de acrisolada estima, com um aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não deixe de ser um cultor assíduo da literatura nacional, e continue a honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons livros.--_José Pessanha_.»

Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo à luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplêndidos como aquele cujo título serve da epígrafe a esta notícia. Em todas as suas páginas se reúne o belo e o agradável, tornando esta obra de sólido mérito, e estimável debaixo de todos os pontos de vista.

Este volume pertence à formosíssima colecção António Maria Pereira, e é devido à brilhantíssima pena de um dos nossos mais festejados escritores--Trindade Coelho.

Não precisamos alongar-nos em chamar a atenção do público para esta obra, pois é ela sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons livros.»

Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_.--Há tempo,--não há muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando, umas cartas de província,--_Cartas alentejanas_, nos parece,--assinadas pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de aparecer de todo.

Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada jubilosa e cantante de um bom escritor. Trindade Coelho entrava nas letras portuguesas pela porta áurea dos vitoriosos, apresentando natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira numa só peça o seu talento aliado com a sua observação e o seu estudo, sem esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovelar os que avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamelas de apaniguados e sequazes.

Escrevia de um canto da província, da sua terra, em horas desocupadas; escrevia de assuntos comezinhos, de coisas que tinha ali à mão, das cenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua alma encontrava no tracto simpático da natureza inteira. Falava de um ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar à solidão do seu eremitério, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas. Era um talento e era um carácter.

Depois, houve na sua vida literária um momento de eclipse. Cremos que deve ter correspondido ao período ocupado e trabalhoso da sua formatura. Bom sinal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciências do amor próprio, sacrificando às altas ocupações do seu curso os brilhos atraentes da fácil nomeada. O escritor experimentara já o pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.

Eis que nos aparece um dia, súbito, no foro, honrando e glorificando num processo de reabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de letras, que ele soubera fazer distinto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.

Alguns meses de colaboração diária, num jornal bem lançado e bem redigido, avigoraram no conceito público o renome conquistado, e Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa do país, o lugar a que tinha direito, sem ninguém lho discutir nem contestar.

Estreia-se agora no livro, e dificilmente imaginaríamos apresentação mais prometedora e mais simpática.

_Os meus amores_ são uma colecção de esbocetos, alguns dos quais, como o _Idílio rústico_, _Última dádiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros. Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o autor os trabalhou, solícito na sua obra, no empenho de uma execução imaculada. Não porque se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem ele era impossível conseguir tão completo efeito, tão seguro resultado.

O estilo do prosador é, quase sempre, firme, opulento, erudito, original e variado. Não tem reminiscências deste ou daquele, e realiza uma das condições essenciais que deve ter em mira todo o escritor consciencioso: conservar uma feição própria e individual, sem se afastar da pureza da língua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso arcaico, e contribuindo para a evolução progressiva dela.

Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cansaremos de louvar, em vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria fácil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estilistas, procurou modo de iluminar a sua frase e de colorir a sua palavra, na fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas mais primitivas do povo campesino, enriquecendo nesse manancial o tesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, cenas e quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e adorável.

É de indiscutível beleza a pastoral com que abre o volume. Afigura-se-nos estar lendo algumas páginas de Longo. A descrição da madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e Rosária,--Daphnis e Chloe,--têm um sabor antigo, como o de uma narrativa idílica, passada nos tempos legendários da Grécia, e ao mesmo tempo toda a verdade de uma cena campestre dos nossos dias. É de um bom gosto supremo a forma subtilmente delicada como o narrador, deixando primeiro recear a queda dos seus personagens numa brutalidade instintiva, os conduz por fim nas asas da inocência e da candura a uma situação divinamente sublime.

E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, numa doce e prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espírito aqueles dois vultos de criança a esfumarem-se nas distâncias do espaço e do tempo, longe, muito longe, numa paisagem ideal, vista nos dias da infância, vista talvez em sonhos, talvez em Virgílio ou Teócrito, talvez mais longe ainda, na Bíblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida contemplação, longe, muito longe,

«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»

Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, há como que um misto do trágico fatalismo grego e do supersticioso horror cristão. Não é vulgar a concepção do assunto, nem vulgar, também, o desenvolvimento que o escritor lhe deu, o cenário é horrível e magnífico. Está bem descrito; bem descrita a tempestade, que primeiro se anuncia, depois se aproxima, depois finalmente cresce e se desencadeia numa convulsão pavorosa e enorme; bem descrito o terror angustioso e supliciante do mísero assassino, o qual vê, na chama de cada relâmpago, projectada a cruz negra que marca o lugar do seu crime e que lhe prende os pés ao chão, enquanto o seu ouvido, alucinado pelo terror, lhe dá a sensação de uma voz insistente, que detrás de cada árvore, da espessura de cada moita, de cima de cada pedra, da ressonância de cada trovão, o chama inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!

Bastava simplesmente esta narrativa para granjear a Trindade Coelho foros de distinto e primoroso escritor. Edgar Poe não enjeitaria o assunto, se lhe ocorresse, nem o trataria com muita maior perfeição. Dar-lhe-ia pasto para algumas páginas tão engenhosas como as da _Génese de um Poema_, para alguma composição tão extraordinária e tão transcendentalmente bela como _O corvo_ ou _Ulalume_.

Mas como se quisesse mostrar a maleabilidade da sua pena, ou como se quisesse certificar-se a si próprio da multiplicidade e da variedade das suas aptidões literárias, o prosador que recortou nos mais perfeitos moldes aquelas páginas clássicas ou estas sinistras, detém-se na comovente e lacrimosa narrativa da _Última dádiva_ e nas ligeiras e facetas descrições dos _Tipos da terra_, dos _Prelúdios de festa_, do _Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcástica, de ironia graciosa e de bem humorado espírito.

Um livro de tantas promessas não pode ser, contudo, e por isso mesmo, um livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se abalançar a empresa maior, estamos certos disso. Já no final do presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas domésticas_, se anuncia a transição da presente fase literária e artística do autor, para uma outra fase progressiva.

Progressiva, dizemos nós, porque assim o cremos. Qual há-de ser, porém, a predominante característica dessa fase? Pode a crítica conjecturá-la desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazê-lo. Porque, a verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que o seu temperamento literário tem energias que lhe hão-de abrir novos caminhos, e que, na sua vida de homem de letras, há já precedentes, que enormemente o obrigam.

Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-á ainda de um ou outro francesismo escusado, e há-de adquirir novos dotes de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde procurá-los. Não é em léxicos, nem em alfarrábios, nem em cartapácios. É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a falar o português do povo, os seus tipos populares.

Não se pode ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som, da melodia. Uma das maneiras de adquirir perícia nesta forma de escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um exercício útil para chegar a fazer boa prosa. Não é, porém, indispensável, bem entendido.

Contudo, não admitimos que repute possuir as qualidades completas de escritor, aquele que só de uma das duas formas da arte de escrever seja conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.

Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza artística, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na frase e maior cadência no período, se praticasse um pouco a arte do verso, embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena empregar todos os esforços para atingir uma perfeição, que não está longe, e de que o seu talento próprio e a sua estudiosa boa vontade continuamente o aproximam.--_Fernandes Costa_.»

Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade Coelho. Quando prometi à _Aurora do Lima_ esta ligeira notícia bibliográfica acerca do livro do brilhante escritor e meu querido amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os últimos da última fila, nas saudações entusiásticas à obra e ao seu autor.

Tenho para mim como certeza indiscutível que o público se começou a fatigar dessas obras torturantes de análise fria, cruel, desoladora. Os que se encontram feridos das aspérrimas lutas da vida--e estes constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triunfa sobre Zola, apesar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da escola realista.

Ora o livro do Sr. Trindade Coelho pertence ao número dessas obras consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende pela emoção íntima, que interessa pela simplicidade elegante com que está trabalhado, que impressiona pela correcção impecável do seu estilo, maleável e harmónico.