Os meus amores: contos e balladas

Part 13

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Por últimos, e para não se dizer que eu neste país de má língua realizei o cúmulo de escrever um artigo só de palavras encomiásticas e sem a mínima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_, lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas páginas de um estilo formosíssimo num assunto que sem dúvida é verdadeiro, mas que não comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mínima impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus recursos de estilista, não precisava realmente do _Sultão_.

O livro faz parte da edição mensal de obras portuguesas, editada por António Maria Pereira, um trabalhador incansável a quem as letras portuguesas devem assinalados serviços.

Está impresso com o maior escrúpulo e revisto com um cuidado e esmero a que nem sempre estamos habituados.

Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas à sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos como este, para honra do seu nome de escritor já tão justamente laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a dedicatória que ele contém como nova prova de uma amizade a que somos profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço Caiola_.»

Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Colecção António Maria Pereira_, que sob aquele título contém alguns contos do apreciado contista Trindade Coelho.

Pela rápida leitura de dois deles--_O Sultão_ e _Tipos da terra_, parece-nos que a colecção é estimável, e que os contos são jóias de grande preço da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente portuguesa, e pela graça da contextura originalíssima, nacional, sem laivos de imitação estrangeira, em que se pintam cenas e episódios, cheios de verdade e de encantadoras descrições, da vida portuguesa nas províncias.»

O Século:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de contos, editado pela casa editorial do António Maria Pereira, a publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso meio literário, bem pouco acaroável e mazorro no fundo, sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escândalo de não ser rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionável também--diga-se a verdade.

Parece uma contradição; mas não é. Se o nosso bom público fosse dado a esbanjamentos de emoção artística, não o sobressaltaria tanto a pessoalidade, e o imprevisto.

O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de letras, nas suas horas de remanso.

É só, porém, como homem de letras, que nos compete em tal lugar aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoção, ou de atenção artística.

Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma adapta-se perfeitamente ao fundo, e é sempre fluente, vernácula, concisa, e precisa. É sóbrio no descritivo, e não raras vezes enternece. Não comete a velharia de desenterrar obsoletos termos clássicos, sem incisão, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portugueses, nem onomatopaicos, e que fizeram a delícia de Filinto. Nem perpetra também o mau gosto de empregar neologismos inúteis, e risíveis, possuindo na linguagem pátria instrumentos magníficos de expressão. Sabe a sua língua, como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais completa, e mais delicada da prosa, e também a mais transcendente e lapidar, achou nele um hábil e equilibrado intérprete. Os contos _Sultão_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a escola_, não contam muitos rivais na língua portuguesa nem nas estranhas.

O seu pequeno livro há-de ficar na literatura nacional, quando de centenas de romances em seiscentos volumes já ninguém rememorar o título sequer.--_Gomes Leal_.»

Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que deliciosa impressão me deixou aquele livro, tão adoravelmente simples e sentido!

Antes, porém, de começar a analisar, conto por conto, esse fino trabalho de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheço só.

Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondências de Portalegre, notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito, distinto em todos os exames.

Aqueles adjectivos de amigo bom e entusiasta fizeram-me convencer de que--o delegado de Portalegre--era um excelente rapaz.

E digo rapaz, porque todos nós temos o hábito de considerar sempre muito novos aqueles que são da nossa idade... Depois, graças a uma amiga minha, escritora de grande talento soube que Trindade Coalho era um grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração entusiasta que ele descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição publicá-las!

Traduzia ele então o «Pescador de Islândia»; tradução esplêndida que a _Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para ele era já uma sugestão, aquele trabalho primoroso.

E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a Loti todo o valor que ele tinha e que ultimamente alguém se comprazia em querer negar ao académico gentil.

Em seguida li uma suavíssima elegia escrita à memória de António Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia dúzia de palavras cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...

Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os jornais anunciaram que ele arrancara um preso à cadeia de Portalegre. Um preso que era um inocente, e que, como tantos outros, estava condenado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam também o efusivo telegrama em que Trindade Coelho agradecia ao nosso magnânimo rei o seu perdão.

E eu dessa vez chorei! Como me sucede sempre que um homem põe a lucidez do seu talento e o entusiasmo do seu coração ao serviço da humanidade que sofre...

O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha alma.

Eu só fixo o nome dos bons.

E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe daquele homem! Os filhos herdam, geralmente, o coração das mães...

* * * * *

Ultimamente a imprensa anunciou o livro que acabei de ler. Pedi-o rapidamente para Lisboa, e li-o de um fôlego.

Abre com um soneto delicioso, escrito pelo espírito gentil de Luís Osório--uma alma luminosa, que brilha na transparência dos seus versos filigranados e vibrantes...

Segue-se o _Idílio rústico_--um amor--através do qual nós vemos subir lentamente a estrela da alva que iluminava, coando a sua doce luz pelo colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da outra...

Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o Tomé nos comunica a sua alegria contagiosa levada à loucura com a volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!

A _Última dádiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma sepultura onde lhe ficara preso o coração para sair de lá no dia em que teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o Brasil.

A _Comédia da província_, magnifica de cor local. Magnífica, principalmente para quem conhece tipos semelhantes e já tem visto a _Morgadinha de Valflor_--essa pérola!--representada pelo Marques do correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valor a esse esplêndido estudo de costumes provincianos.

_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada... _Maricas_, uma adorável poesia escrita em prosa. _Para a escola_, um beijo de gratidão de uma singeleza adorável. _Tragédia rústica_, um vibrantíssimo estudo das misérias humanas.

_Abyssus abyssum_, o agonizar de dois anjos, sob o olhar de uma estrela... _Mãe_, a flor mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos... E, finalmente, as _Batalhas domésticas_.

Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho, que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro honesto, que não fatiga os homens nem faz corar as mulheres. Por isso aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.»

Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilíssimo livro _Os meus amores_, do nosso querido amigo e ilustre confrade, Trindade Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais legítimo, o mais espontâneo, o mais unânime e o mais carinhoso triunfo.

Bem o merece o cristalino talento, e a inelutável tenacidade no trabalho, do brilhante escritor, que em meio dos violentos paroxismos que na caça de sensações e efeitos novos hoje pavorosamente desarticulam o _meio_ literário europeu, tem uma força de restringir-se a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquila, a melodia emocionante, ingénua e simples do viver aldeão; e que por entre o estrídulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasfémias, dores, gemidos, que doloridamente reboam pelas soturnas naves deste imenso hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar, enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira nota afectiva, algum limpo e cativante movimento do coração.

Bem-haja.

Do coro uníssono de quase incondicional aplauso com que a imprensa tem celebrado a aparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnífico artigo do _Correio Elvense_, devido à pena de um dos mais lúcidos e impetuosos engenhos da novíssima geração.» (_Seguia-se a transcrição._)

Diário Ilustrado:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espírito à proporção que envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram às vezes de ouvir os velhos, e parece-me que têm razão, porque nem sempre o são juízo de uma experiência larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo circunspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com singular cepticismo, este meu século, que está no fim, e com ele tenho vindo estudando e aprendendo. Ruíram as teocracias literárias, revoluteou-se a filosofia, criaram-se novos processos de estilo, arrancou-se o chiró às velhas frases, e todo um mundo novo, extravagante e fantástico tem surgido,--mau grado as fúrias rábidas de escritores paleontológicos, aparafusados à Arte e à Crítica de há 50 anos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu século tem-me custado amarguras aterrantes, desequilíbrios de espírito e um desfolhar de verdes ilusões, que eu tenho visto irem-me fugindo num _marche-marche_ triunfal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca mais voltarem!...

A vida do escritor moderno, toda torturante e nevrótica, dá-me a impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida real de nossos dias. E lembro Camilo pedindo ao pedaço de chumbo de uma cápsula o ponto final redentor de agonias crudelíssimas; Júlio Machado, de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros, bom Deus! Dir-se-ia que uma _má sina_ persegue os homens de letras:--quando não é a navalha de barba, é o revólver, é a consumpção, é a tísica, é o retraimento amargo, é o abandono próprio e alheio! Por isso o meu vizinho Gervásio todo se ufana, com certo profundo bom-senso prático, da insistência com que quer fazer do filho um _artista_ pintor--de portas, e de fora de portas...

Na _troupe_ de escritores em flor do meu tempo,--parece-me que já lá vão 30 anos, e tudo isto é apenas de ontem!--havia, joeirados com singular amor de arte pura, uma dúzia de rapazes de incontestável valor literário, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, miniaturistas da poesia, do romance e da crónica, dessa plêiade de rapazes, um tanto insubmissos e um tanto boémios, alguns treparam triunfantes,--poucos; outros, quase o resto, ou foram ainda verdes da vida para os cemitérios das suas aldeias, ou, o que é quase o mesmo, deram-se a calejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos incipientes, nas minas de oiro e de ferro da luta pela vida. Dos _felizes_, dos que triunfaram,--como quem diz, dos vencidos da vida,--me sorria eu às vezes em horas de bom humor, lembrando-me como eles com um livro de versos foram nomeados cônsules; com um tratado sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com uma crítica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliotecários das belas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_ pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os filisteus do Pará, aplicando-lhes aos fígados hipertróficos a vermelha caudal da sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desapareceu em Paris pelo alçapão macabro da _correspondência_ barata; Gualdino Gomes anda aí amparando o seu reumatismo a uma certa _maneira_ de má língua e a uma bengala de cana; Leopoldino Gonçalves viaja como médico da armada; e Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alentejo, onde toma pulsos a doentes pela tabela da Câmara, e aparece às vezes nédio, cor de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tédio os copinhos de cognac do _Leão_...

De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cor-de-rosa, o que me traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara à minha a alma dele, num tempo em que dos salgueirais de Coimbra ele me fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas crónicas soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de afirmações de uma personalidade literária. A sua prosa, a um tempo humana e lírica, dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como sabem, além de bacharéis anónimos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É da tradição universitária, fazerem os doutores as suas primeiras armas de literatos e de poetas, na academia, a intervalos do pesado estudo do Lobão e do direito público, esvurmado às cavaleiras do nariz de Pedro Penedo... Toda a nossa legião distintíssima de poetas e prosadores modernos deriva literariamente da boémia coimbrã:--Teófilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Antero, etc. É a afirmação do bom António Ferreira feita axioma:

_Não fazem mal as musas aos doutores_.

E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquirir a Junqueiro das belezas do Código Civil, meio metafisicamente original e meio copiado dos códigos de Napoleão! Ah, mas em compensação que apareça aí o primeiro advogado a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em férias_!

Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descrições numa bela prosa colorida e transparente, trechos de psicologia trasmontana, e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_ do proceder literário deste escritor é deliciosa de cor e de verdade, sem grandes esmerilhamentos de frase, nem deslumbramentos de imagens na aparência cor de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios ingénuos dos cordões de latão... Tem-se chegado aí, no abuso da originalidade do estilo, a fazer uma prosa estrelicada, engomada, cabelinho à banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O burguês já conhece os processos da _chinoiserie_, e daí não há espantá-lo com nefelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe ele que debaixo dessas belezas está a oleografia reles de porta de escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em Alcântara...

O livro de Trindade Coelho tem um certo ressaibo de saudável trabalho, feito com honestidade e sem as preocupações deploráveis que levam os corifeus da escola moderníssima, mais que zolaísta, à descrição e estudo de patologias e casos esporádicos, ou não vivos, ou pouco vívidos. Este livro é quase um parêntesis aberto como uma clareira consoladora na torrente ultra-realista dos últimos trabalhos aparecidos, do _sujet_ de um dos quais, que é em todo o caso a monografia de um carácter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_ dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_...

A feição literária de Trindade Coelho parece-me que se define na parte do livro subtitulada _Baladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma dúzia de páginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma elegia... trágica, _encadrée_ numa linguagem cor de opala, em que a gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma obra-prima. Assim a _Tragedia rústica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco eu os _Prelúdios de festa_, _Idílio rústico_, os _Tipos da terra_, onde há páginas soberbamente observadas, sugestivas, _d'après nature_. Magnífico o assassino _José Gaio_.

Trindade Coelho é inquestionavelmente um lírico. E nem eu sei como ele chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os dicionários de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista encantador... soçobrado!--_Inácio da Silva_.»

Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade, que as palavras afectuosas que me endereçou no oferecimento do seu livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espírito um mundo de saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsâmicas de uma quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã?

Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa mas robusta, as _suas feições másculas e enérgicas_, e a sua _allure_ um pouco receosa ao dobrar a soleira da legendária Porta Férrea.

Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de grau apurado, sob a pasta de um quintanista, mirando à direita e à esquerda, entrou você nos _Gerais_ resignado a um dilúvio de troças, martírios, horrores...

Os segundanistas, de cuja respeitável corporação eu fazia orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não encontrassem uma fisionomia de chuchadeira, como a de um Armelim, nem um rosto gretado, empedernido, de homem terciário, como o do bom Rafael do Ranhados.

Mas em que diabo foram eles depois embicar, os malvados!

Em uma medalha de oiro que você trazia, à guisa de berloque, na corrente!

O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escândalo_, de forma que a tempestade de piada desanuviou-se a tempo no seu horizonte de novato.

Depois, um ou dois anos, aparece o amigo com acentuações de académico falado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolásticas, a sua individualidade a destacar-se, como se fora um _urso_. E assim se falava do Trindade, como do Luís Osório ou Feijó por causa dos versos, do Pássaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.

Você desencubou o seu nome, pô-lo em evidência--o Trindade--, mas foi por causa de um excelente resumo das lições de direito romano, de um belo discurso no centenário pombalino, e sobretudo das suas graciosas crónicas no _Diário Ilustrado_.

Ah! e lembra-se você daquele ano em que formámos «república» na Rua da Trindade, tendo por criada a Sr.^a Maria de qualquer coisa, que denominávamos a _Gorda_, matrona muito caroável e de enxundiosas formas?

Éramos uns poucos:

O Sousa, que já tem o galão branco dos tribunais administrativos, espírito fácil, perspicaz e alegre, nada para maçadas, que tinha orientações definidas em política partidária e expedientes reservados de galopim graúdo contra os progressistas da Barca.

O Manuel Nunes, hoje em Barcelos, muito lucianista, devorando o evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiúnculas com aquele por causa dos seus ideais políticos encontrados, grande passeador e jogador de manilha, um tanto lambaz porque saía mais cedo e sorrateiramente dos teatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatários, guardada pela _Gorda_ num cantinho do fogão.

E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe chamávamos o Pegas, o Covarruvias, e lhe líamos um imaginário plano, rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe dizíamos que ele se aplicava... 25 horas por dia!

Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, de aspecto _sournois_, olhos à bufo, que não falava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e contumaz!

Em seguida o Sérgio Carneiro, o Grilo, seu comprovinciano e hoje conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas, muito guitarrista e risonho, se bem que inteligente e aplicado.

Éramos mais--você e eu. Você que se metia muito com a literatura, fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por sinal dediquei um fado aos membros da república, o qual nas vésperas de feriado se cantava, em algazarra tonitruante, quando o Grilo condescendia em o acompanhar na guitarra.

Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribunais de Lisboa e eu no berço da monarquia.

Agora vejo-o, literato conhecido e conceituado, a publicar os seus belos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.

E belos na verdade, como todos dizem.

A _Mãe_, aquela cruciante tragédia da pobre _Ruça_, morta de terror e de amor, é para mim o mais apreciável e sentido conto da sua colecção.

Costuma-se dizer de uma mãe descaroável, de uma Francisca Fortunata--é uma cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando as caluniadas afeições dos pobres ruminantes.

Quem ler as angústias da mísera _Ruça_, na expectativa do filhito devorado pelo esfaimado lobo circunvagante, restituirá àquele inofensivo animal o sentimento de amor maternal, a natural compreensão das suas obrigações de mãe e protectora.

E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra. Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bela produção vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.

Nos restantes contos, entre os quais me não agradaram menos _V[ae] Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da sua educada fantasia, moderada por um largo pecúlio de observação; a sua poderosa intuição artística; o seu diálogo curto, vibrante e natural; o seu estilo já característico pela feição franca, _saccadèe_, de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos; a verdade das suas descrições e pinturas, que, ao contrário de muitos, não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, numa pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa semelhante.

Olhe, amigo. Eu careço de jeito para a crítica literária; mas, enquanto me é licito exprimir a minha humílima opinião, dir-lhe-ei que você alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de literato distinto e de contista precioso; e que este conceito é merecido, atestam-no os seus valiosos escritos dispersos e a sua elegante brochura recém-editada.

Resta-me felicitá-lo cordialmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.»

Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a oferenda do novo livro de Trindade Coelho,--o simpático e distinto escritor que de há tempos se vai honrosamente evidenciando no certame das letras pátrias, onde já agora a sua individualidade tem uma reputação firmada.