Os meus amores: contos e balladas

Part 12

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A quem o ler, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas horas muito bem passadas, passeadas por aquelas paisagens e recantos provincianos que ele pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se estivesse; em companhia daqueles tipos que ele retrata, tão fotográficos, tão nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a falar-lhes...

--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!»

O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a colecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela livraria do Sr. António Maria Pereira.

Há muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escritor de Trindade Coelho, desde quando lhe lemos as suas produções literárias num jornal de Coimbra, e que eram as primícias de trabalhos mais primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.

O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira à última página sem um momento de cansaço ou de fastio. O espírito do leitor delicia-se seguindo todas aquelas cenas campesinas, de uma singeleza tão comovente, e que nos _Meus amores_ são descritas numa forma em que se revelam todas as qualidades de um distinto e notável escritor. Só pode apreciar bem o mérito daqueles contos quem souber quanto cuidado há no labor paciente do artista para conseguir dar ao estilo o tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer neste género de pequenas novelas, talvez o mais difícil de todos.

Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas jóias literárias, e ao qual está, sem dúvida, destinado um honroso lugar na nossa literatura contemporânea.»

Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado escritor publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas que deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de António Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa de Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto estilista.

Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons e sinceros amigos.

Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus amores_.»

O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no século passado, os fazedores de proémios, prólogos e conversações preambulares com os pios leitores, à falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo aproveitariam a ocasião para sobre o nome do autor glosarem vários elogios ao livro, visto que aquele se chama Trindade e é ao mesmo tempo um poeta sincero, um escritor de raça, e um observador atento, qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjunto nasceu uma obra formosíssima, animada de verdadeira comoção, sentida nas suas mais pequenas minúcias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.

A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo nesta reunião de contos, que o Sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso, copiando do natural, e em que os personagens foram surpreendidos nos seus labores de cada dia ou nas suas íntimas cogitações.

Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na notícia deste livro, e por isso nos limitamos a recomendá-lo como leitura atraente, como obra de arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma igualdade nem com o mesmo fôlego, como uma grande lição literária aos fazedores de naturalismo brutal.

Ao autor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para que eles sejam tantos, que afoguem os autos e libelos em cujo meio o magistrado tem de viver, e donde sai amiudadas vezes para nos provar que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não prejudica a índole do escritor.»

Novidades,(entrevista com João de Deus acerca dos _novos_):--«_Literatura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos, porque não leio jornais, e não os leio porque os literários ocupam-se na propaganda da imoralidade, e os políticos na propaganda do suicídio, e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da sua vida. E enquanto o rico joga o supérfluo, o pobre joga os trinta réis de três quartos de um pão.

Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que ele dispa a toga, que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem lho ler.

--Li já todo o livro.

--E depois, meu amigo, nós andávamos precisados de uma coisa casta, onde fossemos purificar o espírito dessas tais observações fisiológicas, e não sei que mais, que por aí aparecem todos os dias. O livro do Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem definir-lhe. Olhe: ali está aquele quadro, em que os traços são correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma bela cabeça de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus por ter graça. A graça na literatura é tudo, mas é muito rara.»

Novidades:--«_Novelas rústicas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_ (contos e baladas.)--Lisboa, livraria de António Maria Pereira--1891.

No seu penúltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse céptico amável e pirrónico, que tem sido o terrível sapador de todas as doutrinas axiomáticas da crítica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou mauvais.»

O conto moderno é como o romance, essencialmente analítico e psicológico, escrito em estilo técnico, e destinado sobretudo a apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma humana. A literatura contemporânea tem procurado, quase invariavelmente, os seus temas entre os vícios, as paixões e todas as energias depravadas do coração. A arte do Sr. Trindade Coelho é muito diferente disso, porém. O seu idílico livro de contos e baladas, aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da paisagem trasmontana, e habitado por heróis simples, colhidos com intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem, decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros dos escritores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas páginas suaves e simples, sem pedantescas pretensões a passarem como tratado didáctico de psicologia.

Disse-se de Júlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que as suas figuras só serviam para dar expressão e vida à paisagem.

O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensação visual particularmente desenvolvida, e as suas descrições são também, como as do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade. Chega-se às vezes a ter a ilusão de que o artista está ali, páginas a dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a álacre impressão das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal, cuja lembrança, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador Rueda:

Por donde voy me sigue como memoria tierna tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar; ¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna el coro que tus árboles entonan á la mar!

Aí têm, para prova, esse trecho de um descritivo de manhã aldeã, quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horizonte:

«A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seivas e mais fácil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada para a labuta interminável do dia.»

No notável estudo de psicologia literária de M. Fr. Paulhan sobre a descrição pitoresca, então habilmente apreciados os elementos constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na qualidade e na intensidade.

«Chama-se imaginação sensível», diz o distinto observador, «o acto pelo qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação, como tem sido há bastante tempo notada, não é,--principalmente se considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma cópia enfraquecida de uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar um momento, um quadro, uma estátua, qualquer coisa que imagino, se as minhas recordações são bastante nítidas, é uma espécie de cópia enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o quadro ou a estátua. A imaginação, tomada até no sentido restrito que lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas têm as imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da sensação; outras, pelo contrário, são inclinadas para as ideias abstractas e têm necessidade de um esforço para se representarem as sensações de uma maneira um pouco nítidas. Tem-se reparado que a visão mental, nitidíssima em geral nas crianças e nas mulheres, torna-se muito fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual. Eis uma pequena experiência indicada por Wundt, que, mostrando as analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo também as diferenças individuais com relação à intensidade com que a imagem concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfície parda, vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul-índigo, a mancha será amarela, etc. Ora é possível, mas isto não sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar não só depois de ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lançando em seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se há uma boa imaginação visual.»

Essa imaginação parece tê-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade, tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo, que nos dá conjuntamente a impressão da forma, da cor, do som, e até às vezes do aroma, representa um fenómeno especial de evocação sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois desse, a íntima satisfação que faz aflorar, aos lábios do leitor inteligente, um sorriso de doce comoção, a cada singelo episódio das suas narrativas, todas frescas e sadias, e cujo menor mérito não é, decerto, o de serem escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e legitimamente portuguesa.

O livro do Sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas análises introspectivas, o papel da crítica perante _Os meus amores_ é bem fácil, porque ela deve quase cingir-se à afirmação do seu aplauso incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escritor, o que pode muito bem representar uma livre depravação de gosto.

Por mim confesso sinceramente que me deixou no espírito a mais amável recordação, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas rústicas, todas impregnadas de uma ideal graça campesina, tilintando de um eco amorável de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.»

Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder de observação e uma enorme justeza de expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades literárias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de verdadeiro artista, aberta à compreensão ampla da natureza, e fundindo os fenómenos, as coisas e as criaturas num conjunto nítido que se desata em descrições opulentas de vida e de calor, fulgurantes de energias dominadoras, pródigas de imagens que o melhor cristal de Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias possantes que prendem o espírito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar e a compreender o objecto que o autor quis frisar.

E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o coração tem parte, ou seja o coração de qualquer daqueles dois pequenos do _Idílio rústico_, ou o da _Ruça_, a bela cabra que no meio de mil angustias de mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele próprio, a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida, vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras.

Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descrições naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um pedaço caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da vilória da _Comédia na província_, que entretêm a tarde na praça a dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos hábitos. E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Véspera da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer.

No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas domésticas_, onde me pareceu descobrir uma novíssima orientação do autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovações que vai por aí. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a característica literária de Trindade Coelho, evidenciada em tantos escritos, não a sacrificaria a coisa alguma.

O que o livro é, em suma, é um conjunto de belezas que tem sido largamente apreciado pelos fanáticos da Arte; e oxalá seja apenas a promessa de muitos outros, que penas como aquela não devem calotear-nos na contribuição que nos devem.

--Mas,--perguntou-me um dia destes alguém--porquê _Os meus amores_, e não qualquer outro título?

Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao livro onde há tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma lama deste mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.»

Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e baladas por Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns contos singelos, atraentes, delicadíssimos, admiráveis de observação e de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirável simplicidade de colorido em alguns deles e que tons inapagáveis de verdade!

Uma bela obra de arte e uma altiva lição.

Ali está como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem estropear a língua e sem chegar às torpezas da pornografia. Para atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento, para conquistar o aplauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não precisou de escrever extravagâncias, nem de escalavrar pústulas, nem de escancarar bordéis.

Aí fica uma rápida notícia do livro. Voltaremos a falar dele, se o tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.»

Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias de intervalo as letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria.

Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de análise, de profunda observação, ressentida do exagero do naturalismo e do carácter quase científico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem ser exclusivamente literários, mas que, não obstante este pequeno senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel Botelho criara com os seus livros anteriores, a crítica tem de render respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu espírito, pela sua notável orientação literária e pelo esplendor de forma que caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente feitos.

Sinto um delicioso prazer de consciência ao traçar estas linhas. Momentos como este são mesmo os únicos oásis em que se reconfortam os que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina improdutiva e inglória do jornal.

Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de alguém a quem me unem íntimas relações de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o meu juízo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo de um sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira de uma admiração justamente sentida, solidamente baseada.

O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo corresponde ao encanto deste título.

Com que saudade li as últimas páginas!

Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer que sentia, noutras precipitava-a sôfrego de admirar a naturalidade das descrições, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio, até à recordação saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em que entrou na aula de instrução primária da sua modesta aldeia.

Dando a impressão singela e despretensiosa que me causaram _Os meus amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na época actual quando os vícios da sociedade e a decadência dos nossos dias nos gravam no espírito, a cada hora, um carimbo de desânimo e descrença, quando a literatura, obedecendo à vertigem mais do que nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de siècle_, cria as escolas mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em apedrejar as normas mais impecáveis e até agora consagradas da arte, e em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se ânimo, desanuvia-se o espírito ao ver que ainda há alguém, a quem sobeja talento e tenacidade, que escreve 200 páginas de prosa sã, eminentemente sentida, deliciando-se na descrição das cenas mais simples e tocantes, na apoteose da natureza em toda a sua magnificência e no convívio da vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das convenções e pretensiosidades que dão um tom falso e mentido aos sentimentos da sociedade em que vivemos.

Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este propósito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto amor o escreveu. Ao contrário, sinto que não posso, a não transformar este artigo num hino laudatório, referir-me especialmente a cada um daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de não poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.

Muitas das páginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as havíamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes jornais. Como escritor conhecíamos também o primoroso estilista dos _Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalísticos, já na boémia coimbrã, já em pequenas folhas de província e ultimamente nos jornais da capital, trabalhos em que ele empregava o escrúpulo e a correcção que nunca abandonam os verdadeiros artistas.

Pelos seus trabalhos literários há muito que formara a opinião de que ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirós que, no meu parecer, são, em Portugal, os mais distintos escritores contemporâneos deste género, na aparência tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difícil, a que se denomina: _Contos_.

A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.

Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade do diálogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mínimo esforço a todas as impressões que pretende transmitir, o autor dos _Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do género de literatura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na amizade a opinião dos que, não obstante ele terçar agora quase as primeiras armas, o consideram já como um escritor distintíssimo e num futuro muito próximo um mestre consagrado.

O livro abre com um soneto formosíssimo e nem podia deixar de ser assim desde que se saiba que o firma Luís Osório. Pórtico apropriado às belezas que nas páginas que se seguem se acumulam com uma riqueza oriental.

Não obstante o meu propósito de não me referir nomeadamente a nenhum dos pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que me causou a _Última dádiva_, um primor de sentimento, uma página emotiva arrancada em flagrante a uma das cenas em que tão variadamente se divide a tragédia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_, onde passa um fôlego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase desconhecidas, casando-se com uma verdade admirável a grandiosa ideia em que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura cada um de nós sente acordar uma recordação muito querida de infância descuidada e alegre, e por últimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo tão maleável e tão justo.

Além destes contos, que especialmente destaco pela admiração que me inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Prelúdios de festa_ e _Tipos da terra_.

Quem escreveu os _Prelúdios de festa_ e especialmente os _Tipos da terra_, é porque estudou com muita atenção, com muito cuidado, os personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras pequenas. São tipos tirados do natural, com uma perfeição fotográfica em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na descrição da natureza nos seus mais variados aspectos.