# Os Lusíadas

## Part 7

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33 "Da espessa nuvem setas e pedradas Chovem sobre nós outros sem medida; E não foram ao vento em vão deitadas, Que esta perna trouxe eu dali ferida; Mas nós, como pessoas magoadas, A resposta lhe demos tão tecida, Que, em mais que nos barretes, se suspeita Que a cor vermelha levam desta feita.

34 "E sendo já, Veloso em salvamento, Logo nos recolhemos para a armada, Vendo a malícia feia e rudo intento Da gente bestial, bruta e malvada, De quem nenhum melhor conhecimento Pudemos ter da índia desejada Que estarmos ainda muito longe dela; E assim tornei a dar ao vento a vela.

35 "Disse então a Veloso um companheiro (Começando-se todos a sorrir) -"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro É melhor de descer que de subir." --"Sim, é, (responde o ousado aventureiro) Mas quando eu para cá vi tantos vir Daqueles cães, depressa um pouco vim, Por me lembrar que estáveis cá sem

36 "Contou então que, tanto que passaram Aquele monte, os negros de quem falo, Avante mais passar o não deixaram, Querendo, se não torna, ali matá-lo; E tornando-se, logo se emboscaram, Por que, saindo nós para tomá-lo, Nos pudessem mandar ao reino escuro, Por nos roubarem mais a seu seguro.

37 "Porém já cinco Sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca doutrem navegados, Prósperamente os ventos assoprando, Quando uma noite estando descuidados, Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem que os ares escurece Sobre nossas cabeças aparece.

38 "Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo o negro mar, de longe brada Como se desse em vão nalgum rochedo. --"Ó Potestade, disse, sublimada! Que ameaço divino, ou que segredo Este clima e este mar nos apresenta, Que mor cousa parece que tormenta?"--

39 "Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar, robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura, O rosto carregado, a barba esquálida, Os olhos encovados, e a postura Medonha e má, e a cor terrena e pálida, Cheios de terra e crespos os cabelos, A boca negra, os dentes amarelos.

40 "Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te, que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso, Que um dos sete milagres foi do mundo: Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso, Que pareceu sair do mar profundo: Arrepiam-se as carnes e o cabelo A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.

41 "E disse:--"Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, E por trabalhos vãos nunca repousas, Pois os vedados términos quebrantas, E navegar meus longos mares ousas, Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:

42 --"Pois vens ver os segredos escondidos Da natureza e do úmido elemento, A nenhum grande humano concedidos De nobre ou de imortal merecimento, Ouve os danos de mim, que apercebidos Estão a teu sobejo atrevimento, Por todo o largo mar e pela terra, Que ainda hás de sojugar com dura guerra.

43 --"Sabe que quantas naus esta viagem Que tu fazes, fizerem de atrevidas, Inimiga terão esta paragem Com ventos e tormentas desmedidas. E da primeira armada que passagem Fizer por estas ondas insofridas, Eu farei d'improviso tal castigo, Que seja mor o dano que o perigo.

44 --"Aqui espero tomar, se não me engano, De quem me descobriu, suma vingança. E não se acabará só nisto o dano Da vossa pertinace confiança; Antes em vossas naus vereis cada ano, Se é verdade o que meu juízo alcança, Naufrágios, perdições de toda sorte, Que o menor mal de todos seja a morte.

45 --"É do primeiro Ilustre, que a ventura Com fama alta fizer tocar os Céus, Serei eterna e nova sepultura, Por juízos incógnitos de Deus. Aqui porá da Turca armada dura Os soberbos e prósperos troféus; Comigo de seus danos o ameaça A destruída Quíloa com Mombaça.

46 --"Outro também virá de honrada fama, Liberal, cavaleiro, enamorado, E consigo trará a formosa dama Que Amor por grã mercê lhe terá dado. Triste ventura e negro fado os chama Neste terreno meu, que duro e irado Os deixará dum cru naufrágio vivos Para verem trabalhos excessivos.

47 --"Verão morrer com fome os filhos caros, Em tanto amor gerados e nascidos; Verão os Cafres ásperos e avaros Tirar à linda dama seus vestidos; Os cristalinos membros e perclaros A calma, ao frio, ao ar verão despidos, Depois de ter pisada longamente Co'os delicados pés a areia ardente.

48 --"E verão mais os olhos que escaparem De tanto mal, de tanta desventura, Os dois amantes míseros ficarem Na férvida e implacável espessura. Ali, depois que as pedras abrandarem Com lágrimas de dor, de mágoa pura, Abraçados as almas soltarão Da formosa e misérrima prisão."--

49 "Mais ia por diante o monstro horrendo Dizendo nossos fados, quando alçado Lhe disse eu:--Quem és tu? que esse estupendo Corpo certo me tem maravilhado.-- A boca e os olhos negros retorcendo, E dando um espantoso e grande brado, Me respondeu, com voz pesada e amara, Como quem da pergunta lhe pesara:

50 --"Eu sou aquele oculto e grande Cabo, A quem chamais vós outros Tormentório, Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo, Plínio, e quantos passaram, fui notório. Aqui toda a Africana costa acabo Neste meu nunca visto Promontório, Que para o Pólo Antarctico se estende, A quem vossa ousadia tanto ofende.

51 --"Fui dos filhos aspérrimos da Terra, Qual Encélado, Egeu e o Centimano; Chamei-me Adamastor, e fui na guerra Contra o que vibra os raios de Vulcano; Não que pusesse serra sobre serra, Mas conquistando as ondas do Oceano, Fui capitão do mar, por onde andava A armada de Netuno, que eu buscava.

52 --"Amores da alta esposa de Peleu Me fizeram tomar tamanha empresa. Todas as Deusas desprezei do céu, Só por amar das águas a princesa. Um dia a vi coas filhas de Nereu Sair nua na praia, e logo presa A vontade senti de tal maneira Que ainda não sinto coisa que mais queira.

53 --"Como fosse impossível alcançá-la Pela grandeza feia de meu gesto, Determinei por armas de tomá-la, E a Doris este caso manifesto. De medo a Deusa então por mim lhe fala; Mas ela, com um formoso riso honesto, Respondeu:--"Qual será o amor bastante De Ninfa que sustente o dum Gigante?

54 --"Contudo, por livrarmos o Oceano De tanta guerra, eu buscarei maneira, Com que, com minha honra, escuse o dano." Tal resposta me torna a mensageira. Eu, que cair não pude neste engano, (Que é grande dos amantes a cegueira) Encheram-me com grandes abondanças O peito de desejos e esperanças.

55 --"Já néscio, já da guerra desistindo, Uma noite de Dóris prometida, Me aparece de longe o gesto lindo Da branca Tétis única despida: Como doido corri de longe, abrindo Os braços, para aquela que era vida Deste corpo, e começo os olhos belos A lhe beijar, as faces e os cabelos.

56 --"Ó que não sei de nojo como o conte! Que, crendo ter nos braços quem amava, Abraçado me achei com um duro monte De áspero mato e de espessura brava. Estando com um penedo fronte a fronte, Que eu pelo rosto angélico apertava Não fiquei homem não, mas mudo e quedo, E junto dum penedo outro penedo.

57 --"Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano, Já que minha presença não te agrada, Que te custava ter-me neste engano, Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada? Daqui me parto irado, e quase insano Da mágoa e da desonra ali passada, A buscar outro inundo, onde não visse Quem de meu pranto e de meu mal se risse,

58 --"Eram já neste tempo meus irmãos Vencidos e em miséria extrema postos; E por mais segurar-se os Deuses vãos, Alguns a vários montes sotopostos: E como contra o Céu não valem mãos, Eu, que chorando andava meus desgostos, Comecei a sentir do fado inimigo Por meus atrevimentos o castigo.

59 --"Converte-se-me a carne em terra dura, Em penedos os ossos sefizeram, Estes membros que vês e esta figura Por estas longas águas se estenderam; Enfim, minha grandíssima estatura Neste remoto cabo converteram Os Deuses, e por mais dobradas mágoas, Me anda Tétis cercando destas águas."--

60 "Assim contava, e com um medonho choro Súbito diante os olhos se apartou; Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro Bramido muito longe o mar soou. Eu, levantando as mãos ao santo coro Dos anjos, que tão longe nos guiou, A Deus pedi que removesse os duros Casos, que Adamastor contou futuros.

61 "Já Flegon e Piróis vinham tirando Com os outros dois o carro radiante, Quando a terra alta se nos foi mostrando, Em que foi convertido o grão Gigante. Ao longo desta costa, começando Já de cortar as ondas do Levante, Por ela abaixo um pouco navegamos, Onde segunda vez terra tomamos.

62 "A gente que esta terra possuía, Posto que todos Etíopes eram, Mais humana no trato parecia Que os outros, que tão mal nos receberam. Com bailos e com festas de alegria Pela praia arenosa a nós vieram, As mulheres consigo e o manso gado Que apascentavam, gordo e bem criado.

63 "As mulheres queimadas vêm em cima Dos vagarosos bois, ali sentadas, Animais que eles têm em mais estima Que todo o outro gado das manadas. Cantigas pastoris, ou prosa ou rima, Na sua língua cantam concertadas Com o doce som das rústicas avenas, Imitando de Títiro as Camenas.

64 "Estes, como na vista prazenteiros Fossem, humanamente nos trataram, Trazendo-nos galinhas e carneiros, A troco doutras peças, que levaram. Mas como nunca enfim meus companheiros Palavra sua alguma lhe alcançaram Que desse algum sinal do que buscamos, As velas dando, as âncoras levamos.

65 "Já aqui tínhamos dado um grã rodeio A costa negra de África, e tornava A proa a demandar o ardente meio Do Céu, e o pólo Antarctico ficava: Aquele ilhéu deixamos, onde veio Outra armada primeira, que buscava O Tormentório cabo, e descoberto, Naquele ilhéu fez seu limite certo.

66 Daqui fomos cortando muitos dias Entre tormentas tristes e bonanças, No largo mar fazendo novas vias, Só conduzidos de árduas esperanças. Colo mar um tempo andamos em porfias, Que, como tudo nele são mudanças. Corrente nele achamos tão possante Que passar não deixava por diante.

67 "Era maior a força em demasia, Segundo para trás nos obrigava, Do mar, que contra nós ali corria, Que por nós a do vento que assoprava. Injuriado Noto da porfia Em que colo mar (parece) tanto estava, Os assopros esforça iradamente, Com que nos fez vencer a grão corrente.

68 "Trazia o Sol o dia celebrado, Em que três Reis das partes do Oriento Foram buscar um Rei de pouco nado, No qual Rei outros três há juntamente. Neste dia outro porto foi tomado Por nós, da mesma já contada gente, Num largo rio, ao qual o no e demos Do dia, em que por ele nos metemos.

69 "Desta gente refresco algum tomamos, E do rio fresca água; mas contudo Nenhum sinal aqui da Índia achamos No Povo, com nós outros quase mudo. Ora vê, Rei, que tamanha terra andamos, Sem sair nunca deste povo rudo, Sem vermos nunca nova nem sinal Da desejada parte Oriental.

70 "Ora imagina agora coitados Andaríamos todos, perdidos, De fomes, de tormentas quebrantados, Por climas e por mares não sabidos, E do esperar comprido tão cansados, Quanto a desesperar já compelidos, Por céus não naturais, de qualidade Inimiga de nossa humanidade.

71 "Corrupto já e danado o mantimento, Danoso e mau ao fraco corpo humano, E além disso nenhum contentamento, Que sequer da esperança fosse engano. Crês tu que, se este nosso ajuntamento De soldados não fora Lusitano, Que durara ele tanto obediente Por ventura a seu Rei e a seu regente?

72 "Crês tu que já não foram levantados Contra seu Capitão, se os resistira, Fazendo-se piratas, obrigados De desesperação, de fome, de ira? Grandemente, por certo, estão provados, Pois que nenhum trabalho grande os tira Daquela Portuguesa alta excelência De lealdade firme, e obediência.

73 "Deixando o porto enfim do doce rio E tornando a cortar a água salgada, Fizemos desta costa algum desvio, Deitando para o pego toda a armada; Porque, ventando Noto manso e frio, Não nos apanhasse a água da enseada, Que a costa faz ali daquela banda Donde a rica Sofala o ouro manda.

74 "Esta passada, logo o leve leme Encomendado ao sacro Nicolau, Para onde o mar na costa brada e geme, A proa inclina duma e doutra nau; Quando indo o coração que espera e teme E que tanto fiou dum fraco pau Do que esperava já desesperado, Foi duma novidade alvoroçado

75 "E foi que, estando já da costa perto, Onde as praias e vales bem se viam, Num rio, que ali sai ao mar aberto, Batéis à vela entravam e saíam. Alegria muito grande foi por certo Acharmos já pessoas que sabiam Navegar, porque entre elas esperamos De achar novas algumas, como achamos.

76 "Etíopes são todos, mas parece Que com gente melhor comunicavam; Palavra alguma Arábia se conhece Entre a linguagem sua que falavam; E com pano delgado, que se tece De algodão, as cabeças apertavam; Com outro, que de tinta azul se tinge, Cada um as vergonhosas partes cinge.

77 "Pela Arábica língua, que mal falam, E que Fernão Martins muito bem entende, Dizem que por naus, que em grandeza igualam As nossas, o seu mar se corta e fende; Mas que lá donde sai o Sol, se abalam Para onde a costa ao Sul se alarga e estende, E do Sul para o Sol, terra onde havia Gente, assim como nós, da cor do dia.

78 "Muito grandemente aqui nos alegramos Com a gente, e com as novas muito mais: Pelos sinais que neste rio achamos O nome lhe ficou dos Bons Sinais. Um padrão nesta terra alevantamos, Que, para assinalar lugares tais, Trazia alguns; o nome tem do belo Guiador de Tobias a Gabelo.

79 "Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos, Nojosa criação das águas fundas, Alimpamos as naus, que dos caminhos Longos do mar, vêm sórdidas e imundas. Dos hóspedes que tínhamos vizinhos, Com mostras aprazíveis e jocundas, louvemos sempre o usado mantimento, Limpos de todo o falso pensamento.

80 "Mas não foi, da esperança grande e imensa Que nesta terra houvemos, limpa e pura A alegria; mas logo a recompensa A Ramnúsia com nova desventura. Assim no céu sereno se dispensa: Com esta condição pesada e dura Nascemos: o pesar terá firmeza, Mas o bem logo muda a natureza.

81 "E foi que de doença crua e feia, A mais que eu nunca vi, desampararam Muitos a vida, e em terra estranha e alheia Os ossos para sempre sepultaram. Quem haverá que, sem o ver, o creia? Que tão disformemente ali lhe incharam As gengivas na boca, que crescia A carne, e juntamente apodrecia.

82 "--Apodrecia com um fétido e bruto Cheiro, que o ar vizinho inficionava; Não tínhamos ali médico astuto, Cirurgião subtil menos se achava; Mas qualquer, neste ofício pouco instructo, Pela carne já podre assim cortava Como se fora morta, e bem convinha, Pois que morto ficava quem a tinha.

83 "Enfim que nesta incógnita espessura Deixamos para sempre os companheiros, Que em tal caminho e em tanta desventura Foram sempre conosco aventureiros. Quão fácil é ao corpo a sepultura! Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros Estranhos, assim mesmo como aos nossos, Receberão de todo o Ilustre os ossos.

84 "Assim que, deste porto nos partirmos Com maior esperança e maior tristeza, E pela costa abaixo o mar abrirmos Buscando algum sinal de mais firmeza. Na dura Moçambique enfim surgimos, De cuja falsidade e má vileza Já serás sabedor, e dos enganos Dos povos de Mombaça pouco humanos.

85 "Até que aqui no teu seguro porto, Cuja brandura e doce tratamento Dará saúde a um vivo, e vida a um morto, Nos trouxe a piedade do alto assento. Aqui repouso, aqui doce conforto, Nova quietação do pensamento Nos deste: e vês aqui, se atento ouviste, Te contei tudo quanto me pediste.

86 "Julgas agora, Rei, se houve no mundo Gentes que tais caminhos cometessem? Crês tu que tanto Eneias e o facundo Ulisses pelo inundo se estendessem? Ousou algum a ver do mar profundo, Por mais versos que dele se escrevessem, Do que eu vi, a poder de esforço e de arte, E do que ainda hei de ver, a oitava parte?

87 "Esse que bebeu tanto da água Aónia, Sobre quem tem contenda peregrina, Entre si, Rodes, Smirna e Colofónia, Atenas, Ios, Argo e Salamina: Esse outro que esclarece toda Ausónía, A cuja voz altíssona e divina Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece, Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;

88 Cantem, louvem e escrevam sempre extremos Desses seus Semideuses, e encareçam, Fingindo Magis Circes, Polifemos, Sirenas que com o canto os adormeçam; Dêem-lhe mais navegar à vela e remos Os Cicones, e a torra onde se esqueçam Os companheiros, em gostando o Loto; Dêem-lhe perder nas águas o piloto;

89 "Ventos soltos lhe finjam, e imaginem Dos odres e Calipsos namoradas; Harpias que o manjar lhe contaminem; Descer às sombras nuas já passadas: Que por muito e por muito que se afinem Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas, A verdade que eu conto nua e pura Vence toda grandíloqua escritura."

90 Da boca do facundo Capitão Pendendo estavam todos embebidos, Quando deu fim à longa narração Dos altos feitos grandes e subidos. Louva o Rei o sublime coração Dos Reis em tantas guerras conhecidos; Da gente louva a antiga fortaleza, A lealdade de ânimo e nobreza.

91 Vai recontando o povo, que se admira, O caso cada qual que mais notou; Nenhum deles da gente os olhos tira, Que tão longos caminhos rodeou. Mas já o mancebo Délio as rédeas vira Que o irmão de Lampécia mal guiou, Por vir a descansar nos Tétios braços; E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.

92 Quão doce é o louvor e a justa glória Dos próprios feitos, quando são soados! Qualquer nobre trabalha que em memória Vença ou iguale os grandes já passados. As invejas da ilustre e alheia história Fazem mil vezes feitos sublimados. Quem valerosas obras exercita, Louvor alheio muito o esperta e incita.

93 Não tinha em tanto os feitos gloriosos De Aquiles, Alexandro na peleja, Quanto de quem o canta, os numerosos Versos; isso só louva, isso deseja. Os troféus de Melcíades famosos Temístoeles despertam só de inveja, E diz que nada tanto o deleitava Como a voz que seus feitos celebrava.

94 Trabalha por mostrar Vasco da Gama Que essas navegações que o mundo canta Não merecem tamanha glória e fama Como a sua, que o céu e a terra espanta. Si; mas aquele Herói, que estima e ama Com dons, mercês, favores e honra tanta A lira Mantuana, faz que soe Eneias, e a Romana glória voe.

95 Dá a terra lusitana Cipiões, Césares, Alexandros, e dá Augustos; Mas não lhe dá contudo aqueles dois Cuja falta os faz duros e robustos. Octávio, entre as maiores opressões, Compunha versos doutos e venustos. Não dirá Fúlvia certo que é mentira, Quando a deixava António por Glafira,

96 Vai César, sojugando toda França, E as armas não lhe impedem a ciência; Mas, numa mão a pena e noutra a lança, Igualava de Cícero a eloquência. O que de Cipião se sabe e alcança, É nas comédias grande experiência. Lia Alexandro a Homero de maneira Que sempre se lhe sabe à cabeceira.

97 Enfim, não houve forte capitão, Que não fosse também douto e ciente, Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação, Senão da Portuguesa tão somente. Sem vergonha o não digo, que a razão De algum não ser por versos excelente, É não se ver prezado o verso e rima, Porque, quem não sabe arte, não na estima.

98 Por isso, e não por falta de natura, Não há também Virgílios nem Homeros; Nem haverá, se este costume dura, Pios Eneias, nem Aquiles feros. Mas o pior de tudo é que a ventura Tão ásperos os fez, e tão austeros, Tão rudos, e de engenho tão remisso, Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.

99 As Musas agradeça o nosso Gama o Muito amor da Pátria, que as obriga A dar aos seus na lira nome e fama De toda a ilustro e bélica fadiga: Que ele, nem quem na estirpe seu se chama, Calíope não tem por tão amiga, Nem as filhas do Tejo, que deixassem As telas douro fino, e que o cantassem.

100 Porque o amor fraterno e puro gosto De dar a todo o Lusitano feito Seu louvor, é somente o pressuposto Das Tágides gentis, e seu respeito. Porém não deixe enfim de ter disposto Ninguém a grandes obras sempre o peito, Que por esta, ou por outra qualquer via, Não perderá seu preço, e sua valia.

Canto Sexto

1 Não sabia em que modo festejasse O Rei Pagão os fortes navegantes, Para que as amizades alcançasse Do Rei Cristão, das gentes tão possantes; Pesa-lhe que tão longe o aposentasse Das Européias terras abundantes A ventura, que não no fez vizinho Donde Hércules ao mar abriu caminho.

2 Com jogos, danças e outras alegrias, A segundo a polícia Melindana, Com usadas e ledas pescarias, Com que a Lageia António alegra e engana Este famoso Rei, todos os dias, Festeja a companhia Lusitana, Com banquetes, manjares desusados, Com frutas, aves, carnes e pescados.

3 Mas vendo o Capitão que se detinha Já mais do que devia, e o fresco vento O convida que parta e tome asinha Os pilotos da terra e mantimento, Não se quer mais deter, que ainda tinha Muito para cortar do salso argento; Já do Pagão benigno se despede, Que a todos amizade longa pede.

4 Pede-lhe mais que aquele porto seja Sempre com suas frotas visitado, Que nenhum outro bem maior deseja, Que dar a tais barões seu reino e estado; E que enquanto seu corpo o espírito reja, Estará de contino aparelhado A pôr a vida e reino totalmente Por tão bom Rei, por tão sublime gente.

5 Outras palavras tais lhe respondia O Capitão, o logo as velas dando, Para as terras da Aurora se partia, Que tanto tempo há já que vai buscando. No piloto que leva não havia Falsidade, mas antes vai mostrando A navegação certa, e assim caminha Já mais seguro do que dantes vinha.

6 As ondas navegavam do Oriente Já nos mares da Índia, e enxergavam Os tálamos do Sol, que nasce ardente; Já quase seus desejos se acabavam. Mas o mau de Tioneu, que na alma sente As venturas, que então se aparelhavam A gente Lusitana, delas dina, Arde, morre, blasfema e desatina.

7 Via estar todo o Céu determinado De fazer de Lisboa nova Roma; Não no pode estorvar, que destinado Está doutro poder que tudo doma. Do Olimpo desce enfim desesperado; Novo remédio em terra busca e toma: Entra no úmido reino, e vai-se à corte Daquele a quem o mar caiu em sorte.

8 No mais interno fundo das profundas Cavernas altas, onde o mar se esconde, Lá donde as ondas saem furibundas, Quando às iras do vento o mar responde, Netuno mora, e moram as jocundas Nereidas, e outros Deuses do mar, onde As águas campo deixam às cidades, Que habitam estas úmidas deidades.

9 Descobre o fundo nunca descoberto Das areias ali de prata fina; Torres altas se vêem no campo aberto Da transparente massa cristalina: Quanto se chegam mais os olhos perto, Tanto menos a vista determina Se é cristal o que vê, se diamante, Que assim se mostra claro e radiante.

10 As portas douro fino, e marchetadas Do rico aljôfar que nas conchas nasce, De escultura formosa estão lavradas, Na qual o irado Baco a vista pasce; E vê primeiro em cores variadas Do velho Caos a tão confusa face; Vêem-se os quatro elementos trasladados Em diversos ofícios ocupados.

11 Ali sublime o Fogo estava em cima, Que em nenhuma matéria se sustinha; Daqui as coisas vivas sempre anima, Depois que Prometeu furtado o tinha. Logo após ele leve se sublima O invisível Ar, que mais asinha Tomou lugar, e nem por quente ou f rio, Algum deixa no mundo estar vazio.

12 Estava a terra em montes revestida De verdes ervas, e árvores floridas, Dando pasto diverso e dando vida As alimárias nela produzidas. A clara forma ali estava esculpida Das águas entre a terra desparzidas, De pescados criando vários modos, Com seu humor mantendo os corpos todos.

13 Noutra parte esculpida estava a guerra, Que tiveram os Deuses com os Gigantes; Está Tifeu debaixo da alta serra De Etna, que as flamas lança crepitantes; Esculpido se vê ferindo a terra Netuno, quando as gentes ignorantes Dele o cavalo houveram, e a primeira De Minerva pacífica oliveira.

14 Pouca tardança faz Lieu irado Na vista destas coisas, mas entrando Nos paços de Netuno, que avisado Da vinda sua, o estava já aguardando, As portas o recebe, acompanhado Das Ninfas, que se estão maravilhando De ver que, cometendo tal caminho, Entre no reino d'água o Rei do vinho.

