# Os Lusíadas

## Part 14

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129 "Vês, corre a costa que Champá se chama, Cuja mata é do pau cheiroso ornada; Vês Cauchichina está, de escura fama, E de Ainão vê a incógnita enseada; Aqui o soberbo Império, que se afama Com terras e riqueza não cuidada, Da China corre, e ocupa o senhorio Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.

130 "Olha o muro e edifício nunca crido, Que entre um império e o outro se edifica, Certíssimo sinal, e conhecido, Da potência real, soberba e rica. Estes, o Rei que têm, não foi nacido Príncipe, nem dos pais aos filhos fica, Mas elegem aquele que é famoso Por cavaleiro, sábio e virtuoso.

131 "Inda outra muita terra se te esconde Até que venha o tempo de mostrar-se; Mas não deixes no mar as Ilhas onde A Natureza quis mais afamar-se: Esta, meia escondida, que responde De longe à China, donde vem buscar-se, É Japão, onde nace a prata fina, Que ilustrada será co a Lei divina.

132 "Olha cá pelos mares do Oriente Ás infinitas Ilhas espalhadas: Vê Tidore e Ternate, co fervente Cume, que lança as flamas ondeadas. As árvores verás do cravo ardente, Co sangue Português inda compradas. Aqui há as áureas aves, que não decem Nunca à terra e só mortas aparecem.

133 "Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam Da vária cor que pinta o roxo fruto; Às aves variadas, que ali saltam, Da verde noz tomando seu tributo. Olha também Bornéu, onde não faltam Lágrimas no licor coalhado e enxuto Das árvores, que cânfora é chamado, Com que da Ilha o nome é celebrado.

134 "Ali também Timor, que o lenho manda Sândalo, salutífero e cheiroso; Olha a Sunda, tão larga que üa banda Esconde pera o Sul dificultoso; A gente do Sertão, que as terras anda, Um rio diz que tem miraculoso, Que, por onde ele só, sem outro, vai, Converte em pedra o pau que nele cai.

135 "Vê naquela que o tempo tornou Ilha, Que também flamas trémulas vapora, A fonte que óleo mana, e a maravilha Do cheiroso licor que o tronco chora, --Cheiroso, mais que quanto estila a filha De Ciniras na Arábia, onde ela mora; E vê que, tendo quanto as outras têm, Branda seda e fino ouro dá também.

136 "Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta Tanto que as nuvens passa ou a vista engana; Os naturais o têm por cousa santa, Pola pedra onde está a pegada humana. Nas ilhas de Maldiva nace a pranta No profundo das águas, soberana, Cujo pomo contra o veneno urgente É tido por antídoto excelente.

137 "Verás defronte estar do Roxo Estreito Socotorá, co amaro aloé famosa; Outras ilhas, no mar também sujeito A vós, na costa de África arenosa, Onde sai do cheiro mais perfeito A massa, ao mundo oculta e preciosa. De São Lourenço vê a Ilha afamada, Que Madagáscar é dalguns chamada.

138 "Eis aqui as novas partes do Oriente Que vós outros agora ao mundo dais, Abrindo a porta ao vasto mar patente, Que com tão forte peito navegais. Mas é também razão que, no Ponente, Dum Lusitano um feito inda vejais, Que, de seu Rei mostrando-se agravado, Caminho há-de fazer nunca cuidado.

139 "Vedes a grande terra que contina Vai de Calisto ao seu contrário Pólo, Que soberba a fará a luzente mina Do metal que a cor tem do louro Apolo. Castela, vossa amiga, será dina De lançar-lhe o colar ao rudo colo. Varias províncias tem de várias gentes, Em ritos e costumes, diferentes.

140 "Mas cá onde mais se alarga, ali tereis Parte também, co pau vermelho nota; De Santa Cruz o nome lhe poreis; Descobri-la-á a primeira vossa frota. Ao longo desta costa, que tereis, Irá buscando a parte mais remota O Magalhães, no feito, com verdade, Português, porém não na lealdade.

141 "Dês que passar a via mais que meia Que ao Antártico Pólo vai da Linha, Düa estatura quási giganteia Homens verá, da terra ali vizinha; E mais avante o Estreito que se arreia Co nome dele agora, o qual caminha Pera outro mar e terra que fica onde Com suas frias asas o Austro a esconde.

142 "Até'aqui Portugueses concedido Vos é saberdes os futuros feitos Que, pelo mar que já deixais sabido, Virão fazer barões de fortes peitos. Agora, pois que tendes aprendido Trabalhos que vos façam ser aceitos As eternas esposas e fermosas, Que coroas vos tecem gloriosas,

143 "Podeis-vos embarcar, que tendes vento E mar tranquilo, pera a pátria amada." Assi lhe disse; e logo movimento Fazem da Ilha alegre e namorada. Levam refresco e nobre mantimento; Levam a companhia desejada Das Ninfas, que hão-de ter eternamente, Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.

144 Assi foram cortando o mar sereno, Com vento sempre manso e nunca irado, Até que houveram vista do terreno Em que naceram, sempre desejado. Entraram pela foz do Tejo ameno, E à sua pátria e Rei temido e amado O prémio e glória dão por que mandou, E com títulos novos se ilustrou.

145 Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.

146 E não sei por que influxo de Destino Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de contino A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes.

147 Olhai que ledos vão, por várias vias, Quais rompentes liões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias, A ferro, a fogo, a setas e pelouros, A quentes regiões, a plagas frias, A golpes de Idolátras e de Mouros, A perigos incógnitos do mundo, A naufrágios, a pexes, ao profundo.

148 Por vos servir, a tudo aparelhados; De vós tão longe, sempre obedientes; A quaisquer vossos ásperos mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. Só com saber que são de vós olhados, Demónios infernais, negros e ardentes, Cometerão convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido.

149 Favorecei-os logo, e alegrai-os Com a presença e leda humanidade; De rigorosas leis desalivai-os, Que assi se abre o caminho à santidade. Os mais exprimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade Pera vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem.

150 Todos favorecei em seus ofícios, Segundo têm das vidas o talento; Tenham Religiosos exercícios De rogarem, por vosso regimento, Com jejuns, disciplina, pelos vícios Comuns; toda ambição terão por vento, Que o bom Religioso verdadeiro Glória vã não pretende nem dinheiro.

151 Os Cavaleiros tende em muita estima, Pois com seu sangue intrépido e fervente Estendem não sòmente a Lei de cima, Mas inda vosso Império preminente. Pois aqueles que a tão remoto clima Vos vão servir, com passo diligente, Dous inimigos vencem: uns, os vivos, E (o que é mais) os trabalhos excessivos.

152 Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados, Mais que pera mandar, os Portugueses. Tomai conselho só d'exprimentados Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes muito cabe. Mais em particular o experto sabe.

153 De Formião, filósofo elegante, Vereis como Anibal escarnecia, Quando das artes bélicas, diante Dele, com larga voz tratava e lia. A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando.

154 Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado. Tem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente.

155 Pera servir-vos, braço às armas feito, Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito, De quem virtude deve ser prezada. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito Dina empresa tomar de ser cantada, Como a pres[s]aga mente vaticina Olhando a vossa inclinação divina,

156 Ou fazendo que, mais que a de Medusa, A vista vossa tema o monte Atlante, Ou rompendo nos campos de Ampelusa Os muros de Marrocos e Trudante, A minha já estimada e leda Musa Fico que em todo o mundo de vós cante, De sorte que Alexandro em vós se veja, Sem à dita de Aquiles ter enveja.

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Final de Os Lusíadas

