Chapter 9
--Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos, contra a _rotina_--que é a famosa trincheira erguida a impedir a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista.
Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.
Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...
É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.
Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.
Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse.
Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa, penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das escadas até ao primeiro andar.
Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:
--_Licet?_
--Entrae!--disse de dentro uma voz.
Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se encontrava na sua presença.
Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de estudo, sabedor e profundo.
Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.
--É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins--disse elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a sciencia, Mestre!
O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e respondeu grave e pausado:
--Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca que vá pouzar-lhe no pára-raios.
Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao recem-chegado:
--Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa demora...
--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.
--Um caso novo! O que temos, pois?
--Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende fazer victima um dos irmãos da _Mão-Negra_.
--A _Mão Negra_ tem já força e poder bastante para desviar de sobre a cabeça de seus _irmãos_ a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito alto que elles estejam collocados. De que se trata?
--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...
--Ah! O que lhe succede?
--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.
--E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
--Não o deve saber, pois que este nosso _irmão_, movido de honestos e nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.
--O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que precisa?
--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.
--Está na mão d'ella. Que recuse.
--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o que Paulo pretende evitar.
--Pois bem. A _Mão-Negra_ cumprirá o seu dever. Como se chama o pae d'essa menina?
--Custodio de Jesus?
--E o pretendido noivo?
--Eugenio de Mello.
--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
--Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.
--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos os _irmãos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as informações, procederemos como fôr de justiça.
Jorge inclinou-se.
--Temos ainda mais--disse elle.
--O quê?
--Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu nascimento...
--Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram, que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?
--Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua educação scientifica.
--Conhece elle esses protectores?
--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!
--N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus proprios paes?
--Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa o appellido Noronha...
--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos verdes com um leve tremôr na voz.
--Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.
O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em profunda reflexão.
Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o tremor da voz:
--Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira origem d'esse rapaz.
Depois accrescentou:
--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu amigo.
Jorge levantou-se.
--Amanhã--disse elle--deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de Eugenio de Mello.
--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos deliberar em capitulo o que convirá fazer.
Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.
Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa, encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar.
--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irmã Dorothêa_?
Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.
Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume encadernado a preto, que abriu e começou folheando.
As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um pensamento negro.
Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém, que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando o papel a sua brancura immaculada.
É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.
Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle occulta no seio?
IX
Amores faceis
Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.
O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em que se notava decencia e bom gosto.
Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever chamar a attenção do dono ou dona da casa.
Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher, trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.
--És tu, Eugenio?
--Sou eu, minha querida!
O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava, acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a longamente nos labios.
--Demorei-me, não é verdade?--perguntou elle, lançando-lhe um braço á roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella havia surgido.
--Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!
--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te quer, que tanto te adora?!
--Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz quando te vê, quando te tem a seu lado!
A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e voluptuoso que o primeiro.
--Mas tu não estiveste com outra, não?--disse n'um gemido em que havia receio e esperança, supplica e perdão.
--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...
--É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com outra para nunca mais!
Eugenio ria.
--Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras me estime senão tu?
--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama loura.--Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!
--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
E interrompeu-se suspirando.
--Se quê? Anda, acaba!
--Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não consentir que outro partilhasse os teus affectos...
--Mas eu não o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o não amo, Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o meu despreso por elle!
--Ah! se eu fôsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas, puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!
Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma attitude de heroe de melodrama.
Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas, em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:
--Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes que elle é velho... não póde durar muito... E como promette contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir de novo sobre o estofo do sofá.--Antes d'isso hei-de eu morrer de desespero!
--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--Não me falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e receias que um velho dure mais que tu?!
--Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel n'este mundo só existe na paz da sepultura!
--Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!
--O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia, que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro, habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso... o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.
--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse.
--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar? Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
--Não, não! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente.
Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:
--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos, todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses miseraveis!
O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes violentas uns amigos que nunca teve.
--Vamos! Não te afflijas!--aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua Leonor.
--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz, nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro, porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz, lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
--Generoso coração!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa veneração.
O bohemio continuou:
--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena d'elle!
--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.
--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, é claro que não pode pagar...
--Não deixou nada?
--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o _menino bonito_ da familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...
--Cruel pae!
--Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...
--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!
--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a guela ignobil!
Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.
--E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--não penses em fazer tolices...
--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»
--E assim lhe dirás, meu amigo!--exclamou fremente de indignação a apaixonada loura.--Não será por trezentos mil reis que esse canalha, quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos mil reis tel-os-has amanhã.
--Oh! mas eu não posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim... Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo consentir em que te sacrifiques mais...
--Cala-te, não sejas creança!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina mão na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e feliz!
--Como és boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a ardentemente nos braços com amoroso impulso.
Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que esta scena extraordinaria requer.
Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e sujos amores.
Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho commendador--o sr. commendador Garcia--encontrára um bello dia á sahida da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos, a preço de tres tostões por dia.
O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga, começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.
Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do generoso commendador.
Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza da sua figura gentilissima.
O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.
Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.
Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de reis em uma das nossas praias mais concorridas.
O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até--oh supremo instincto de imitação!--o apparente despreso pelo dinheiro que os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle raras vezes possuia, porque era pobre.
Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.
Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão diminuir-lh'os.
Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.