Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 8

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--Perdão, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar, interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver feliz da sua felicidade...

Beatriz baixou os olhos.

--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de que já ouvi fallar meu pae...

--Não me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu coração, e dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a. Fiz mal?

--No logar de v. ex.^a, eu não teria procedido assim...

--Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor dos seus dias?

--V. ex.^a esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu...

--Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que eu, infeliz, morro por v. ex.^a.

--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr. Eugenio de Mello.

--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu coração?

--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.^a e á minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar, ainda persistir no seu proposito...

--Consentirá em ser minha esposa?

--É possivel.

--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu amôr!

--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente Beatriz--é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente auctorisada por elle.

--Virei então ámanhã--disse Eugenio.--Mas, por Deus, não me roube a esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.

Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.

--Amanhã!--disse ella.

Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D. Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.

Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da retirada.

A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.

Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:

--E então?

--Então... nada!

--Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão por ella?

--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a dizer-me...

--Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar até á morte...

--Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer... Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... Que quererá dizer-me?

--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar da ponte abaixo--disse rindo o procurador.

--Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella quer...

--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da sua quinta--porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!

--Não parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho outra coisa...

--O que?

--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente confessar-m'a antes de casar...

--Pois você suppõe?...

--Não sei... Mulheres são mulheres...

--Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...--preveniu o procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.

--Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer cá são os vinte contos...

--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_ completa!--accrescentou o Belchior.

--Nem mais nem menos!

Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do Custodio.

O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.

Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o mancebo.

--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...

--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as suas palavras como um inestimavel thesouro!

--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me tomar para sua esposa...

--De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v. ex.^a... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração apaixonado! Se errei, v. ex.^a saberá perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me moveram.

--É v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara, franca e leal da minha situação...

--Dos labios de v. ex.^a está dependente a minha sorte, o meu futuro, a minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!

--Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre--disse Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...

Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.

--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da joven--não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz, passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar, de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!

--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa existencia, o nosso destino...

--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa declaração de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me transmittiu ácerca do nosso enlace...

--É justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões de v. ex.^a á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Quererá v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace que v. ex.^a lhe propõe?

Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada dignidade dos seus sentimentos.

--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.

--Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma união em taes circumstancias.

--N'esse caso, o que é que v. ex.^a exige de mim?

--Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.

--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na reputação de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?! Repare v. ex.^a que isso é exigir-me mais que a propria vida!

--Pois bem; não diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços emprevistos, uma viagem longa, demorada...

--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada eloquencia--E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor sem esperança, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!

Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.

--Peço perdão--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio de que v. ex.^a, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre banido da sua lembrança...

--Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e perfeições que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo, agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu coração a amal-a doidamente! V. ex.^a está pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v. ex.^a depende não só o seu futuro tranquillo e feliz, mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem póde dar!

A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por uma commoção indescriptivel.

--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de indignação--o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V. ex.^a persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia consentir em conceder-lhe a mão de esposa?

--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a!

--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma só vez na vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.

Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.

--V. ex.^a é livre, minha senhora--replicou elle--Póde impunemente matar seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto amor que lhe consagro.

Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre dois sêres.

--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informará da minha resolução.

Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade.

--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mãos, eu te porei macia que nem velludo!...

No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.

Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.

--Então?--perguntaram ao mesmo tempo.

--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.

--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio.

--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a querer para esposa...

--Mas você nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de tudo.

--Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...

--E ella?--interrogou o Custodio.

--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria resposta definitiva...

--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do usurario--o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...

--Não tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, a fingir que me mato... E ella ha de ir!...

VIII

Entre irmãos

Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mão-Negra_, não obstante saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.

Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe perguntasse o nome de seus paes.

O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto, buscando para a filha uma alliança _limpa_, e o sigillo que o padre Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que não podia responder.

Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que, se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse homem não era seu pae.

O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse dever dar-lhe.

Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.

Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o mesmo que o iniciára nos mysterios da _Mão-Negra_.

--Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?--perguntou-lhe elle.

--Como se fallasses a um irmão--replicou o outro--Desde hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como verdadeiros irmãos.

--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal prestarás attenção ao que vou dizer-te.

--Falla.

--Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!

--Já m'o disseste.

--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu, simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a mão da filha...

--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?

--A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.

--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena?

--Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe inffligir...

--Não estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se chama esse _amavel_ progenitor?

--Custodio de Jesus....

--Mora?

--Na rua do Principe.

--E o outro?

--Qual outro?

--O teu pretendido rival?

--Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.

--Eugenio de de Mello... É do Porto?

--Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.

--Já _entrado_ na edade, não?

--Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.

--Os homens ricos são sempre _rapazes_ em questão de casamento... A mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...

--Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.

Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.

--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos depois o que convem fazer...

--Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...

--Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz não será maltratada pelo pae...

--Obrigado, meu amigo, meu irmão!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos braços.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre nós não deve haver segredos...

--Falla, meu irmão!

Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.

--Chamas-me _irmão_--e comtudo eu creio que não posso ser irmão de ninguem.

--Porque?

--Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou!

Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a protecção e amparo.

--Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu fazel-o não sabendo o nome de meus paes?

--Os irmãos da _Mão-Negra_--disse Jorge gravemente--são todos filhos do mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma mãe--a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus!

--Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas, pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da origem honesta do nosso nascimento...

--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, não póde ser jamais responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir. Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei, elle é sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles só póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.

--Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens a comprehendessem assim!