Chapter 5
--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria mais...
--Porque, minha filha?
--Porque eu não o amo.
--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.
--Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz.
--Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares, e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade, viveremos remediados e livres de maiores privações...
--Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!
--O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que preço fôr...
--Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!
--Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um affecto que eu não posso sentir por elle!
--Historias! Affecto não é coisa que se coma!
E recahindo nas lamentações primitivas:
--Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a minha desgraça!
Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.
Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.
O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se lamuriava, dizia comsigo:
--Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!
Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:
--E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?
--Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada!
--Mas haviamos de viver...
--Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente.
--Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...
D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão habitual.
--Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso de teres causado a morte de teu pae!
Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.
--Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero que lhe ia na alma--mato-me, porque não tenho animo para soffrer os horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa traz comsigo!
--Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir aos golpes da adversidade.
--Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!
Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel, perguntou:
--O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de teu pae!...
A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar abertamente.
--Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir até amanhã.
O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar a victoria.
--Amanhã será tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o sei!...
Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:
--Paciencia! Tinha de ser assim... seja!
E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:
--Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!
--Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela commoção--Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem que eu falle primeiro com esse rapaz!
--Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.
--Com esse... sr. Eugenio.
--Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim, filha!
--Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a declaração de que me quer por mulher.
--E casarás?
--Casarei, se não houver outro remedio.
O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.
--Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior.
E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.
IV
Dois patifes
O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira, conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar.
Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado, mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança.
Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz.
Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.
--O velhote está enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha, além de uma linda mulher, uma bôa maquia--uma maquia de se lhe tirar o chapéo!
--Pois é o que se quer--responde o outro--o que se quer é _massa_. Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar?
--Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso... Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem. Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve ter para mais de setenta contos.
--Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso está ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer estes dez annnos mais chegados...
--E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da mãe?--accudiu o procurador.--Esses é que lhe passam já para as unhas assim que o casamento se fizer...
--Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commissões, o que é que me fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.
--Sim, que você agora tem mais!--contraveio o procurador sarcasticamente.--Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem mais querem!
--Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você...
--É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?
--Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...
--Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.
--Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos. Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte contos, não é isso?
--Perfeitamente.
--Você quanto leva de commissão?
--Trinta por cento, por sermos amigos.
--Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre vinte contos, são seis contos de réis...
--Muito justos.
--E venho eu a ficar só com quatorze!...
--E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é dinheiro...
--Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer?
O procurador fez uma carêta.
--Você está a fazer-se de manto de sêda!--disse elle descontente.--Se acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue.
--O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer acreditar...
--Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? Não que o meu tempo é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo!
--Bem sei--tornou o Mello--mas eu é que tambem não estou para perder a minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde pague...
--Mas você póde arranjar uma coisa.
--O que é?
--Faça uma concordata com elles antes de casar...
--Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o estroina.
--Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos depois se elles lhe pedem alguma coisa.
O Mello pareceu meditar.
--Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda não iria muito longe...
--Menos a mim!--protestou o procurador--a mim é que você me ha-de pagar tudo por inteiro.
--Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para liquidar de prompto antes de casar?.
--Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá arranjarei isso da melhor maneira...
--Abona você o dinheiro?
--Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e depois nós cá nos entenderemos.
--Pois bem, arranje lá isso.
--Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questão a decidir...
--Diga lá.
--O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe essa _caraminhola_ em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava a filha...
--Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...
--A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa?
--Disse e ha.
--Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado...
--Para que?
--Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.
O bohemio soltou uma gargalhada.
--Você é o diabo, Belchior!--disse elle.
--E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos e de muito credito...
--Como?
--Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia. Comprehende?
--Não comprehendo muito bem...
--Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer _provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que você tem igualmente de me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?
--Agora, percebo!
--Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?
--Em Borba.
--Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a certidão.
--Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao Custodio?
--Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois fallaremos...
--E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio.
--Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...
--E escolhem sempre o peor...
--É a unica probabilidade que você tem a seu favor!--exclamou o procurador rindo--Porque peor do que você, com franqueza, não conheço!
--Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!
Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.
--Ora agora--disse por fim o Mello--não se esqueça de que estou a precisar de dinheiro.
--Já?
--Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros terriveis!
--Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.
--E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...
--Mas você, que diabo! está hospedado no _Francfort_, um hotel de primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer fóra...
--Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.
--Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres da noiva estão espatifados...
--Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?
--Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de defuncto...
--Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos convier...
--Você seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso indescriptivel de cynismo.
--Nós somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando intencionalmente a palavra _nós_.
--Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou sem dinheiro...
--Pois sem _massas_ não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo, mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_ teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que não ficam baratos...
--Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior, indignado.
--Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de _povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_ que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa, e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles...
--Você tem razão!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos.
--Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as _massas_, porque eu preciso de mostrar quem sou.
--Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!--clamou o procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico.
O Mello riu com vontade.
--Você nasceu para mim, e eu nasci para você!--disse elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá buscar o dinheiro.
O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com um livro na mão.
--Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro--disse.
--Quanto?
--Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu?
--Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!
--É isso. Os cincoenta mil réis são de juros.
--Ladrão! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura.
--E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou eu!
--Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.
--O que me anima é que o gado ruim não tem perigo--disse Belchior gracejando.
O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.
--Você ande-me com o velho!--disse elle.--Não o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo.
--Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!
--Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas...
--Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!
--Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não é tamanha como parece...
Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.
--Isto é que é um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--Não ha dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar mal este patife!
V
Madre Paula
Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irmã Dorothêa_ certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.
Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.
A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e constante director espiritual.
Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes a communicar-lhe.
A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da mais solida confiança.
--Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã Dorothêa...
--Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e conta-me: como está elle?
--Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _á bóla_, o rapaz tem-n'a um pouco transtornada...
--O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel interesse--Notaste n'elle qualquer alteração?
--Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem é meu pae?!»
--Elle fez-te essa pergunta?
--E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.
--Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante coisa?
--Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o fez.
--E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa creança?
--Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi isso o que fiz.
--Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?
--Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario n'aquella alma juvenil...
--E indagaste?
--Indaguei e soube.
--O que é, pois?
--O nosso Paulo ama!
--Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!
--Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...
--Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso protegido...
--Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma d'ellas...
--Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve censura.--Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o segredo do seu nascimento...
--Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã--replicou o padre Filippe--Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber quem são ou quem fôram seus paes...
Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.