Chapter 3
--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim.
--Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu o mancebo com firmeza.
O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a olhal-o fixamente.
--Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino que lhe está traçado.
--Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu pae?
--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te apresentas.
--Mas não tinha nome esse homem?
--Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.
--Nem o nome de minha mãe?
--Nem o nome de tua mãe.
--Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?
--Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te chamasses.
--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram, porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?
--A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de seus paes.
--Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas pergunto.
--Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo, que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que por emquanto deves ignorar?
O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:
--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir na minha estranha situação...
--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua confiança.
--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos, reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que póde fazer falta a outro desgraçado como eu!
--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.
--É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.
--Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na sociedade.
Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e doçura, impressionaram-n'o profundamente.
--Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda a vida o nome de meus paes?
--E de que te valeria o sabel-o?
--De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso!
Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe:
--Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios, pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se desmoronou...
--Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o mancebo.
--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado, Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.
O mancebo guardou silencio por alguns instantes.
--É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?
--Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre Filippe--tens ido visitar madre Paula?
--Ha mais de quinze dias que a não vejo.
--És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas de carinhoso affecto te tem dado?
--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella existencia para mim tão cara!
--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á tua confiança... Ou não?
--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que lhe parecerão talvez pueris...
--Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos! quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote.
--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz, e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora do Dante.
--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_...
--Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na historia dos soffrimentos humanos...
O padre encarou-o gravemente.
--Fallas serio, Paulo?
--Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a historia do meu nascimento.
--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres são curiosas por indole...
--Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.
--Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada?
--Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a alliança de um homem de origem... desconhecida.
--Foi essa menina quem t'o disse?
--Disse-m'o a minha propria razão.
--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe.
--Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que lhe devo.
--Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do seu amor.
--Já o sou.
--Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...
O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe, que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.
--Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.
--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo, dando largas ao desespero que lhe ia na alma.
--O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
--Não sabe.
--É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.
--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que amo!
--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante. D'isso pódes estar certo.
--Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de vossa reverendissima--que são tambem os meus.
--E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição distincta na sociedade quem não quer.
Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.
III
Pae e filha
Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o sombrio progenitor da encantadora menina.
Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos olhos.
Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a palavra--Hypothecas.
--Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas bem estão... O peor são as outras...
Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de mau humor.
--Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as propriedades pelo preço da louvação...
Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.
Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe ensombrava o barbudo rosto.
Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo contentamento e exclamou:
--Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!
--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.
--É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas que tinha diante de si.
--Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?
--Você o dirá, amigo Belchior.
--O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!
--Sim?
--Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.
--Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os?
--Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto melhor...
--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus, indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu, meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!
--O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é dos meus constituintes...
--Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha. Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra cá!
--É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!
--Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.
--É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador, formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais pessoas de familia.
O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.
--O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.
--Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus... Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?
--Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor?
O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:
--Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.
--Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz...
--E ella, o que respondeu?
--Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.
--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?
--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...
--Bem! Mas supponha que ella recusa...?
--Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura, capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?
--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador.
--Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade differente da minha.
--Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...
--Por que?
--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado, não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...
--O que quer dizer com isso, amigo Belchior?