Chapter 28
--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações, aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia, á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a minha unica aspiração n'este mundo.
Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.
--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de mais ventura! ....................................................... .......................................................
Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a narrativa de Julio.
Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:
--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!
E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:
--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê, recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga, comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!
Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.
Julio de Montarroyo tentou socegal-a.
--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na companhia d'aquelles a quem mais queremos?
Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a estas palavras.
Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.
--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha, quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...
--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...
--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.
--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a confiou?
--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!
--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui, deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...
Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e, extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.
XXIX
Confidencias
Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de Paulo dava o tractamento de _Mestre_.
O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece ser o seu discipulo querido.
--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão?
--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro, persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha, inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.
--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.
--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu indicio compromettedor.
--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?
--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.
--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada com a eliminação d'aquella existencia...
--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo, partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.
--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos occulos, frazindo o sobr'olho.
--Partiu.
--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula n'esse logar?
--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos annos, e que se encontrava perigosamente enferma...
O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma explicação para este facto.
--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...
--Tambem me quiz parecer isso.
--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho chamamento ha de saber-se...
--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...
--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de si madre Paula.
--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a prodigiosa importancia que conquistou.
O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os olhos no seu interlocutor e disse:
--Jorge, a _Mão Negra_ póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra, e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a _Mão Negra_ dispõe».
--É certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, senão o do Mestre, poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.
O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:
--Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é realmente grandiosa.
--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para tamanha empreza.
--Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes, eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo depois da minha morte.
--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido.
--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia deixar de pensar em ti como meu continuador...
--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido.
--És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és, portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da _Mão Negra_. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.
--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo, essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?
O Mestre sorriu.
--Quando eu faltar--disse elle--virás a esta casa, encerrar-te-has n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir desassombradamente o caminho que encetei.
Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a preto e com fechos de metal.
--Este livro--disse elle, abrindo-o--está em branco. Quando eu morrer, basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro, aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces. Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.
Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente commovido.
--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de ternura--afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico Mestre.
Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns instantes.
Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que, consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar, dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e terriveis associações secretas dos nossos dias.
--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito, assume a direcção suprema da _Mão negra_, e o meu espirito será comtigo.
XXX
Mãe
Madre Paula enviára o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto de si o filho da _Irmã Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.
No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de Helena e disse-lhe sorrindo:
--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?
--O que queres dizer?
--Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...
--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da minha deshonra?
--Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão perto de sua mãe...
--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa angustia!
--Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...
Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma acquiescencia.
As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a doente nada tinha a oppôr-lhes.
--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...
--E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?--tornou a religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...
--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforço.
Paulo foi introduzido no quarto da doente.
O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.
--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque, em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados direitos... de filho.
--Não é minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e estudando-lhe demoradamente as feições.--Quando escrevi á minha amiga Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...
--Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto é mero gracejo da minha parte e tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.^a se me affigura em via de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita vida... Antes assim!
--É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...
--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a hesitação de Helena.
--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--não pôde Helena impedir-se de perguntar.
--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem porquê...
--Naturalmente, appellido de seus paes...
--Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...
--Sua mãe!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o sobresalto--Conhece-a?
Paulo indicou rindo madre Paula:
--Pois eu não disse ainda a v. ex.^a que minha mãe é esta santa senhora que v. ex.^a tem por amiga?
Madre Paula interveio:
--Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _mãe_, não obstante saber que não é a mim que deve a existencia...
--Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se para a superiora,--É bem certo--creio-o e não discuto--que devo a existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.
--Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...--balbuciou Helena com os olhos fitos nos do filho.
--Não os odeio, minha senhora, lamento-os.
--Por natural instincto do coração talvez...
--Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram no crime ou na cobardia.
--É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde saber se elles fôram cobardes ou criminosos?
--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me _filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e ao cumprimento dos seus deveres.
--Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito que teem á sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de cada vez mais sumida.