Chapter 27
--E o padre Hilario?--perguntou por fim.
--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.
--Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o torturava?
--Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração o odio por mim...
A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:
--Trahiste o teu novo amante?...
--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...
--Como?
--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.
Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a vêr...
--De modo que...
--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.
Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não atinava com palavras que dissesse.
Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.
--O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro! Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a acredital-o...
--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e sobre os meus?
--Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...
--O que é que te surprehende, pois?
--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o teu plano...
--Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para junto de mim...
--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a Companhia.
--Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo, minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura, minha amiga!...
--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque não amaste... Se tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...
--Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.
--E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e que pelo teu amor se fez parricida?
--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos... Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..
--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...
--Fallas de...?
--De teu filho, Helena de Noronha!
--Elle vive ainda?
--Vive e é um bello e gentil rapaz...
--Padre tambem?
--Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes, longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos victimou.
--Não te conhece então?
--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz honra aos nobres sentimentos da sua alma.
--Sabe esse rapaz quem foram seus paes?
--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de Noronha.
--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.
--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.
--Oh! nunca... nunca!
--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos, jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo, esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo, reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso homem que foi teu pae.
--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? Não tem na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?
--Queres vêl-o?--perguntou madre Paula.
--Não, não!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga, no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...
Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:
--E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana... Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não... não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!
--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te proponho não é bem isso que tu suppões...
--O que me propões então?
--Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e feliz da minha maternidade.
--E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?
--Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...
--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...
--Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher--o sentimento do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce, tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos! não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.
Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias... Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho, Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre pae.
Helena guardou silencio.
--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos... e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo tencionas demorar-te aqui, minha amiga?
--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...
Helena teve um sorriso estranho.
--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra significação não escapou a madre Paula.
A freira atalhou:
--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que, conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte, justamente porque a vida te offereceria encantos.
--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que, sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta, minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo, conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...
--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava... Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para aquelle que te perdeu...
--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse já indigna da estima de um homem de bem.
--Fallas de Julio de Montarroyo?
--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!
--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?
--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras... Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu, minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...
Calou-se offegante e exhausta.
--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a trouxe...
--Uma grande riqueza, dizes?
--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao _in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas porque o seu thesouro ninguem o descobriria...
Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de Helena...
--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos momentos...--disse ella.
--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli... manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o inferno confunda!
--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do pae?
--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida... Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso... Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de lá...
--E viverá ainda?
--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura, mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.
--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.
Disse e saiu deixando a doente em repouso.
XXVIII
Coração morto
Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia, consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.
O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia, foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.
Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.
O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam gozar na plenitude da ventura que sonharam.
No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles. Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na sua retina de allucinada.
E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos dezoito annos decorridos.
Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia crudelissima.
Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se encararam, quasi sem se reconhecerem.
Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.
--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?
--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa... Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é assim?
Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e, levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:
--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua procura.
--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia, Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu pobre coração de mulher...
--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!
--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora em rosto a minha recusa!
--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...
--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.
Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos labios respeitosamente exclamando:
--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para a felicidade...
--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo... amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...
--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!
--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em Paris.
--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse noticias suas?
--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.
--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não foi realmente para Paris?
--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me perdeu!
--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!
--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!