Chapter 25
--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a encontrar-te.
--Ah! não! não!--bradou Helena de Noronha, pondo as mãos supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!
A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de lagrimas.
--Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto, sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de fazer?
--Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga! Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal... corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh! salva-me! salva-me!
E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem sentidos...
Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico, a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em deliquio.
O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de extrema fraqueza.
--Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo--disse elle.
Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.
A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança, matava-a.
A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.
Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?
Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a parte?
Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher, leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.
Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo. Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do criminoso.
Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse seguida da condemnação eterna para a sua alma.
As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava havia já dezeseis annos.
Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.
--Aurelia--disse-lhe ella--tu não sabes a grande desgraçada que acolhes em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a esmola da tua compaixão.
--Helena!--volveu-lhe a irmã de Gustavo--peço-te que não voltes a atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a consolação de te poder chamar minha irmã.
--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o arrependimento de tantos crimes...
--Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que ha de ainda conceder-te dias venturosos.
--Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?
--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.
--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...
--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe.
--Como o sabes?--interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.
--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.
--E esse homem viu-a, fallou-lhe?
--Fallou.
--Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?
--Porque não!?
Fez-se um instante de silencio.
--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?
--Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.
--Não o digas a ninguem, por ora.
--Socega. Cumprirei a tua vontade.
Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que fechou em seguida n'um _enveloppe_.
--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D. Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva.
O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto.
XXV
Pobre Helena!
Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas conversas com quem quer que fosse.
Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula era viva e podia ser encontrada no Porto.
--Fallou-lhe, mestre _Tomba_?
--Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás Sereias _préscural-a_ e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei, que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com _auga benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro.
--Fallou-lhe de Helena de Noronha?
--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa _incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde...
--Ah!
--Ella ficou toda _estifeita_ e tratou-me com muito bô agrado, mas a respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu támem não precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, não era o filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella tivesse um migalho de cortezia commigo...
Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do sapateiro escandalizado.
--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem--murmurou.
--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?
--Sim... unicamente para fallar com ella...
--Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu levo-lh'a?
--O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...
--Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...
--Não, não... É preciso ir eu...
O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:
--O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer _minga_. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa _incellencia_ lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...
--Vá, vá, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que póde ser-me preciso de um momento para o outro...
--Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás _incasiões_...
E sahindo dos aposentos do doente:
--Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia, está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre _Inxelmo_ que o pôz assim!...
De repente bateu na testa, exclamando:
--Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!
Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:
--Dá licença, snr. Julinho?
--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se achava sentado.
--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, é raça de patife de que ninguem me soube dar relações...
--Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no Porto--volveu Julio com um fundo suspiro.
--Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de _santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a corôa de meio a meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da _seve de pedreiro_ é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.
--É natural--respondeu Julio.
O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á descoberta.
--Parece que já não se importa muito com o padre...--resmungou--_Támem_, n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas _galhetas_, não podia...
Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorára em conferencia com o doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse obedecido.
É que notára no enfermo um novo accesso de febre.
Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.
--Era um favor--dizia elle--deixar que a doença acabasse com isto!...
Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidiço, não podendo ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D. Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.
--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou.
--Porque? Vae fallar com ella?
--Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D. Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava qualquer recado para Madre Paula.
Julio ficou pensativo.
--Não... não quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me. Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um serviço a prestar-lhe...
E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a cabeça sobre o peito.
O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua natural expansibilidade, exclamou:
--_Ameno_, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho _acaijo_ carro e meio d'annos, e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...
E concluindo:
--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a vir por ahi arriba, assim como coisa minha?
--Como é que você havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do sapateiro.
--Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de grande inducação... Eu sou p'rá aqui um _probe_ sapateiro, fazem á de conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.
--Não, não, mestre _Tomba_, não pense n'isso, que é uma coisa que não pode fazer-se...
--Está bô! Vossa _incellencia_ que o diz, lá sabe a _rezão_ porquê...
O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.
--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha está muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque não póde escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me enganei no caminho e passe por lá muito bem...
E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua lembrança não produzisse resultado.
--Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula, senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette em cabeça hade ficar assim em _augas_ de bacalhau!
Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.
A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares; e que não era esperada ainda por aquelles dias...
Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:
--Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.
O criado foi e voltou pouco depois.
Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande profusão de zumbaias.
--Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou? Passou bem?
--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante.
--Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de Villaverde manda muitas _bugitas_ á senhora madre e mais esta cartinha...
E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com grande surpresa leu:
«_Minha querida Paula_:
«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada _irmã Dorothêa_ que no seculo se chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa, antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te e que só tu poderás receber.
Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da
Tua _Helena_.»
--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta os olhos turvos de lagrimas.
E voltando-se para o sapateiro:
--Onde está ella?--perguntou.
--Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prática o seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.--Ella deu-me essa carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi p'ra lá tratar de uma _probe_ senhora que está lá a morrer... E _díxe-me_ de bôcca: «Diga á madre Paula--e senhora na _presencia_--que lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo, que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra cá e p'ra lá, que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá... Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe dixe:--_Esteje_ descançada, menina, não se _affleija_, que a snr.^a madre Paula não tem _caratle_ de dezer que não a uma coisa d'essas...»
--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas temos comboio?
--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui _dereito_ a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...
--Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...
--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que não vae nada, seja pelo que fôr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao lembrar-se da cilada do Sardão.
--Porque? Vocemecê jantou?
--Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não tenho... já estou desafeito...
--O que! está desafeito de comer!?
--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma _promessia_ que fiz de jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...
Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro recusando a refeição que se lhe offerecia.
--Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de esperar que eu me aprompte para a partida...
--Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá amor d'isso, não seja a duvida.
--Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.
Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge de Gusmão.
--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de me conceder alguns minutos de attenção em particular?
--Pois não, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente.
Paulo e Jorge levantaram-se.
--Dêem-me licença, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.
E dirigindo-se a Paulo:
--Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás desculpa da minha impertinencia...
Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe, exclamou:
--Helena de Noronha, a _irmã Dorotheia_, vive ainda!
--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido.
--Lê!
E apresentou-lhe a carta de Helena.
O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:
--É a letra d'ella!
--É, não ha duvida... Minha pobre Helena!
--E o que tencionas fazer?
--O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...
O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural, respondeu sem hesitar:
--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres partir?
--Hoje mesmo.
--Porém, Beatriz?...
--Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é, como sabes, austera e de são conselho.
--Pois sim.
--Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto, a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como ella propria o diz...
--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...
Madre Paula sorriu.
--E porque não ha de vir?
--É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...
--Dizes bem.
--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?
XXVI
Um amigo dos diabos
Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_, tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães, por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de Campo.
O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua astucia.
A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém, em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do secerdote.
--Este parece que é vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o sapateiro--Mas _támem_ se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o, porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe metter juizo á força na cachola...
Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador. Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _bô_ sujeito; aquelle _támem_ não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de tudo dava relação exacta e minuciosa.