Chapter 24
--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem ter visto?
--É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...
--Póde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo.
--No emtanto, e seja como fôr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo trabalho que lhe está incumbido.
--Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...
XXIV
Estranho encontro
D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando nas palavras do sacerdote.
--Será realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.
Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.
Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que facilitava a chamada.
--Batem ao portão--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que vá vêr quem é...
D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:
--Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a urgencia.
--Que qualidade de homem é?
--Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.
--Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?
--O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo, mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que deseja dar só uma palavrinha á senhora.
--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum mal intencionado.
--Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para pedir abrigo por esta noite...
--Bem; vejamos o que elle quer.
Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre _Tomba_.
D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o logo.
--Ah! é vocemecê, mestre _Tomba_?
--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoará eu vir _trupar_ á porta a esta hora, mas ha um _causo_ que não póde deixar de ser...
--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraça?
--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ não acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo está aqui, está a dar o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o _assucedido_.., Mas lá _dixeram-me_ que elle _támem_ estava de _catrambias e atão_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta obra de caridade...
--Mas de que se trata, mestre? Falle.
--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!
--Uma mulher!?
--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _támen_ já trazia uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ não mexia com pé nem com mão... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o á cara, e era uma mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a _probe_ de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem grande e eu _támem_ já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está doente...
D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que o sapateiro terminasse.
Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.
--Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!
Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada, á frente do grupo, em soccorro da infeliz creatura.
Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia, conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o sapateiro encontrára abandonada no caminho.
A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão, acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam, deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma cama preparada.
A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento, julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da propria D. Aurelia.
--Então, quem temos por cá doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--Já vejo que não é v. ex.^a. E antes assim.
--Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros. Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo, na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.
--Onde está ella?
--Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.
--Vamos vêl-a.
E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.
A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.
Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos rotos e sujos da terra da estrada.
Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa que está habituada á limpeza--que é o primeiro indicio de uma boa educação.
O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.
Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.
Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa similhava um cadaver.
Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o rosto triste.
D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe assimilhasse.
--Esta pobre mulher--disse ella--não deve ser d'estes sitios.
--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, não é d'estas aldeias proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.
--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava de auscultar a doente.
--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a não amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará apenas recorrer á cosinha...
--Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia.
--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a doente.
--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...
--Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos restituir-lhe os sentidos.
D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.
Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.
O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D. Aurelia voltar no dia seguinte.
--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanhã veremos o tratamento a que temos de submettel-a.
--Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?
--De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa noite.
--Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a minha casa...
--Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.
--Coitadita!--murmurou compungidamente a irmã de Gustavo--E pensarmos que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!
--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os hombros--o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.
E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um _cache-nez_ enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.
--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de o acompanhar no trajecto até casa--Este _barbeirinho_ é o tal das pneumonias!
No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.
A febre consummia-a. Delirava.
Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.
O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante, prohibindo que dessem de comer á enferma.
--Então, doutor?--interrogou D. Aurelia.
--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.
--É então grave o estado d'essa infeliz?
--Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de nos vêr a contas com uma pneumonia...
--Pobre mulher!
--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.
--Oh! isso não!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor não terá recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?
--Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre acarretam...
--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.
--Faça-se a sua vontade, minha senhora.
D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.
--Que não falte nada a essa infeliz--disse a irmã de Gustavo--Não lhe façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.
Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.
--Está salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos é ter muito cuidado com a alimentação.
--Tel-o-hemos.
Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que, oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.
Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.
--É escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos de dias...
--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...
--É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.
--Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.
--O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do _Tomba_ com elle. Um homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!
--Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...
--Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e até hoje nunca vistas e apreciadas em remendão portuguez.
--Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do povo, e nada mais.
O padre fez uma carêta significativa.
--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a é uma santa, acha tudo muito natural porque não conhece o mundo... O _Tomba_ é bom homem, não digo que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o acolhimento de que este se póde gabar...
--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...
--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem beira... Ha tantas por esse mundo!
--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que, em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.
A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.
--Minha senhora--disse ella--a nossa doente...
--O que tem? Peorou?
--Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...
--O que lhe respondeu?
--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu disse-lh'o.
--E então?
--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...
--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou já vêl-a...
E voltando-se para o padre Manoel:
--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o seu soccorro espiritual...
--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida quer fazer-lhe revelações intimas...
--Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser...
--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae confiar-lhe.
--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...
--N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v. ex.^a lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais auctorisado mestre de casos...
--O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D. Aurelia sorrindo.--Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa. Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.
--V. ex.^a é inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo.
D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.
A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe permittia analysar as feições da enferma.
--Então, como está?--perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e carinhosa.
--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa. Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não era estranho.
Voltou-se para a criada e disse-lhe:
--Deixe-nos sós--ordenou.
--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu.
--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa?
--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco aquella janella e attentar no meu rosto...
D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder reconhecel-a.
--Não me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre lagrimas.--Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!
E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e abafado.
Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel alvoroço de espanto:
--Helena de Noronha! serás tu?!
--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!
Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.
--Vamos! não chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade sincera de sempre.
--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peço-te apenas que me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar bemdito, da tua santa caridade!...
--Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão digna.
--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te... Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...
D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu carinho.
--O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento far-se-ha breve e por completo.
Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.
--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.
--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D. Aurelia.
--Era! Como soubeste que eu estava alli?
--Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que não possuia a intima certeza...
--Esse alguem era...?
--Julio de Montarroyo...
A enferma soltou um grito.
--Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma allucinação dos meus sentidos?
--Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou antes, adivinhou-te nas trevas da noite...
--Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a d'elle...
--Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.
--Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?
--Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella, mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes não pense com saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia que os separa».
Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.
D. Aurelia proseguiu:
--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo lentamente, ralado de dôr e de saudade...
--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.