Chapter 22
--P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei... E dinheiro _támem_ não lhe havia de faltar, que se não fosse o _encommendadôr_, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella querer.
--Está bem, Marianna, acabe com o sermão!--ordenou o bohemio, de mau humor.--Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.
E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.
Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.
Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um amplexo carinhoso.
A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:
--Tu por cá! Que novidade é essa?
--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio com artificial commoção.
Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando a Eugenio que a imitasse.
--O que é então que desejas?--perguntou.
--A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente--principiou dizendo o bohemio--de modo que não só me é impossivel continuar a viver no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...
--E d'ahi?
--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o pensamento de te deixar...
A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.
--Faço ideia!--disse ella friamente.
O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante, proseguiu:
--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti! Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!
--Foi talvez feitiçaria que te fizeram!--disse a amante com um aggressivo sorriso de sarcasmo.
O bohemio encarou-a espantado.
--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?--lamuriou elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.
--Eu? Que lembrança!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso lá escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por força a mulher que por bem não quiz amal-o?!
Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e de odio mal reprimido.
Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume, e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece querido:
--Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na injustiça que me fazes...
--Injustiça?!
--Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo, que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho!
Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro, continuou:
--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha. Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua honra e do seu bom nome...
--Como é então que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um olhar que o gelou.
--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio, desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a esta hora sabedor das nossas relações?
--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua causa, não lh'o consinto!
--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!
E encolhendo os hombros com desprezo.
--Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe tirou.
Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o capote.
Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.
--Adeus!--disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.
Leonor avançou para elle:
--Foi para isso que o senhor cá veio?--rugiu indignada--Foi unicamente para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo para essas distracções...
O bohemio retrocedeu.
--Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam e atraiçôam os que dizem que amam...
--O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça favor!
--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas para as horas negras da desgraça.
Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.
--Venha cá!--disse ella.--A accusação que o senhor acaba de fazer é mais uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?
--Vinha despedir-me da mulher que amava e...
--E...?
--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...
--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio cá? Vamos! explique-se! O que desejava?
O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto, sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.
--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?
--Talvez se engane... talvez ainda não acabasse _tudo_ como o senhor suppõe...
Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor, tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.
--Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?--bradou elle.
--O que desejas de mim? Dize!
--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro, está tudo na tua mão!
--Como? O que posso eu fazer?
--Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer, emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome... Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me recusam...
Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da perfidia do amante.
João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração, arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.
Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da vingança.
--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--Não é isso o que precisas?
--Sim, é isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita--Quinhentos mil reis é quanto eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...
Leonor sorriu e disse:
--E se eu fosse comtigo?
O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.
--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid?
--E porque não?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.
Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr das suas joias e pouco mais.
Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.
Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.
Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal passo, respondeu:
--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro e do teu bem estar o que um tal passo importa!
O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.
--Eu já esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me trocaste, vil!
--Leonor!
--Não tentes negar! Sei tudo, canalha!
--Leonor! Juro-te...
--Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de mulheres!...
E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á fronte direita e disparou.
O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.
Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada, a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando por soccorro em brados afflictivos.
A primeira que acudiu foi a velha Marianna.
--Meu Deus! o que foi, senhora?
--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá depressa!
E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro lancinantissimo.
O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que iam passando.
Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações, participando o caso para o commissariado.
XXII
Mysterio
Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula, passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os personagens d'esta singela narrativa.
Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.
D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do rendimento de sua casa.
Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial contrahido entre os dois.
Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.
Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o marido e com o filho, prematuramente mortos.
Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_ e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a _irmã Dorotheia_.
--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia elle--não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida, pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da sua passagem?
--As congregações religiosas--observou sensatamente Aurelia de Magalhães--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar frequentemente o nome das _irmãs_; de modo que a que aqui se chama irmã Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não terá succedido o mesmo?
--Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse, Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações. Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.
D. Aurelia sorriu tristemente.
--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade absolutamente conhecida?
--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do meu segredo?
--Isto é apenas uma supposição que eu faço--apressou-se a dizer D. Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr. Julio para encontrar Helena...
--Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmará, estou certo, esta minha funesta previsão...
--E se, pelo contrario, Helena viver ainda?
Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.
--Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de sacrificar os ultimos dias da minha vida!
Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de Norberto de Noronha.
Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra de consolação para todas as amarguras.
Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.
D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a noticiar.
--Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu eterno sorriso bondoso--mas não foi culpa minha...
--Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse amavelmente D. Aurelia.
--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho de Thayde contando-me um caso extraordinario...
--Sim?
--É verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se vê todas as noites na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres do dia, some-se e ninguem mais a vê!
--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo--É lá crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o caminho que toma e o destino que leva?
--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida e que já vae formando lenda.
--Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse Julio.
--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.
--Mas o que julgam elles que seja?
--As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em corpo e alma para o inferno...
--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio.
--Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural, então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas culpas.
Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel, como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças perdidas.
--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a oração, por tal modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma alanceada de remorsos?
--Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma força humana póde dar-nos.
--Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e apavora a propria creatura que os commetteu...
--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que, a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de suas culpas...
--Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante modo.
--Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa compaixão...
Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do sacerdote.
--Ás vezes--concluiu por fim--a imaginação exagera em nós a gravidade de erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não commetteram...