Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 21

Chapter 213,985 wordsPublic domain

--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão açodado em perseguição do raptor da filha.

João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.

--É bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica. É pena que o raciocinio esteja muito longe da verdade...

--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o que hei-de pensar!

--Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que venho fazer.

Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos n'elle:

--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio a conhecer que eu a informára da verdade.

--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou Leonor.

--Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias, porque eu ainda não me esqueci...

E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:

--Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém, influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe disseram as suas informações?

--É.

--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto que se effectuou como se havia projectado...

--Por Eugenio?

--Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se combinou comigo.

--Mas é isso o que Eugenio nega...

--Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que não admitte duvidas.

--Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais depressa realisaria o casamento?

--É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas enormes á conta d'este casamento...

--Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a Eugenio?...

--Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os charutos...

--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto.

--Minha querida amiga--tornou João Lazaro com modo affavel--não é isto desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo esse dinheiro...

--Tanto, não...

--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do rapto...

--Mas para quê! meu Deus! para quê?--exclamou a loura de cada vez mais aturdida.

--Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a augmentar o dote da filha...

--Mas isso é uma infamia!

--Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...

--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?--interrogou Leonor com os olhos chammejantes de colera.

--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado em confidencia pelo proprio Belchior.

--Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde elle se encontra...

--Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o reembolsar logo depois do casamento.

--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada.

--Verdade, verdade--observou João Lazaro, rindo--a partida foi bem pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada, emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu natural desenlance na egreja da freguezia.

--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame perfidia!

--O que quer fazer?--perguntou João Lazaro fleugmaticamente.

--O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.

--E depois?

--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.

João Lazaro soltou uma gargalhada.

--A escolha está feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem duvidas?

Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.

--Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?--perguntou.

--Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em casar?

--Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...

--E casa-se com ella por amor.

--Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o casamento...

--Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo, pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle impuzer.

Leonor bateu o pé furiosa.

--O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á gente!--disse ella.

--Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.

Houve uns momentos de silencio.

--Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa rapariga?--perguntou por fim.

--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em expedientes para se esquivar á perseguição da policia...

--Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?

--Que juizo fórma de mim?--perguntou João Lazaro encarando-a com desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero, julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?

--Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo...

--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa, senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...

--Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente prevenida...

--Elle ainda não casou...

--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe mil protestos, mil juras de amor!

--Tudo isso, porém, não é casar--tornou João Lazaro com placidez.

--Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!--gritou Leonor n'um despedaçamento do coração.

--Bem! E o que quer a senhora?

Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de colera:

--Pois ainda não comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me!

--Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...

--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro, que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar--Essa não é a vingança que me satisfaz, a vingança que eu sonho!

João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:

--Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?

A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em cheio uma bofetada na face.

--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula de colera.

--Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia á vingança ruidosa contra Eugenio...

--Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á _qualidade_ da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!

--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do commendador Garcia?

--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?

--Punir, disse?

--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu, ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não! Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto de ficar viuva...

João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de uma ameaça realisavel.

--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de excitação nada podemos fazer...

--Mas se eu já não quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...

--Venha cá, Leonor!--exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?

--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um estremecimento nervoso.

--Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?

--A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!

--Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves responsabilidades perante a justiça--ponderou João Lazaro.

--E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me ludibriou, porque me trahiu!»

--A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo o rigor da lei...

--Embora! Mas eu ficarei vingada.

--Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e nos affectos do seu coração?

--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!

--Mas, minha amiga--tornou João Lazaro com a voz mais doce e persuasiva--não é isso tambem o que lhe estou dizendo...

--O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!

--Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e é punida rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem, chama-se _desastre_, _doença_, _fatalidade_, e a justiça não tem alçada para a punir.

--Não entendo!--disse Leonor.

--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á justiça?

--De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o _amor que mata_.

--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança que deseja?

--Como poderia eu recompensal-o?

--Amar-me-hia?

--O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz amar-me comprehende assim o amôr?

--Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada, pertencer-me-hia?

--Em espirito, não. Materialmente, sim.

--É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o corpo...

--Imponho uma condição, porém--objectou Leonor.

--Diga.

--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia ás minhas complacentes attenções...

--Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.

--É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o senhor onde está Eugenio?

--Talvez...

--Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha tranquillidade...

--Diga antes--de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...

--Seja! Onde está Eugenio?

--N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...

--Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?

--Nunca é tarde para a vingança.

--Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!

--Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.

--Como o sabe?

--Disse-m'o elle.

--Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...

XXI

Tal vida, tal fim

Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.

No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave, traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e de que tudo lá dentro estava em silencio.

Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução, encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas, voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando com rancôr profundo:

--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima, roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então quanto custa ludibriar uma mulher como eu!

E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.

Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel. Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança seria terrivel!

Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.

Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.

Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.

Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:

--Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e recommendou que a não acordassem.

--Essa ordem não pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.

--Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.

Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho atrevimento, a que não estava habituado.

--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?

--O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo na mesma.

--Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra. Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?

--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!

--Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta da rua e se fechou no quarto, por dentro?

--Olhe, senhor, eu não sei!--rematou a velha.--Ella não me dá contas nem _estifações_ do que manda fazer... Ella é que dá as _ordes_, é a senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.

O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:

--Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?

--Quem ha de estar? Está a senhora...

--Só?

--Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. _encommendador_, não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais ninguem....

--Parece-lhe? Não tem a certeza...

--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Então ella, coitadinha, que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam aqui estas rodilhices...

--Rodilhices de quem?

--Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera! Outra qualquer faria o mesmo.

Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.

--Leonor tem-se então affligido muito?--perguntou elle.

--Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda ruim que não ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é uma coisa por demais!

O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.

--É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse elle--principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de pêtas.

--São pêtas, são pêtas--retorquiu a velha com um sorriso de incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá ella deitar a mão...

E depois n'um tom de reprehensão amigavel:

--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha! Quem se fia n'elles está perdida.

--Pois você tambem acredita, Marianna?

--Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.

--O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?

--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade... O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra amor de quem agora andam estas _questães_...

E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de prudencia: