Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 20

Chapter 203,882 wordsPublic domain

--Não é nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem é um de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis. O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.

Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de amigos.

Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma taciturnidade de espirito aterradora.

Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa entrevista.

Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a monologar as suas recordações e os seus desgostos.

Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a estrada.

Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido para as suas meditações ao ar livre.

De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.

Viu um pobre mendigo, um _ermitão_, de longas barbas brancas, vestindo um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito, pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.

--O que deseja?--interrogou Julio.

--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.

Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.

Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma pergunta.

--Você é d'estes sitios?

--Não, meu senhor... Eu sou de Braga.

--De Braga?!

--Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...

--Vem então de muito longe?

--Venho, meu senhor!

--Espere ahi.

Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.

--Entre!--disse elle.

O pobre entrou.

--Você é de Braga?--tornou a perguntar Julio.

--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre.

--Ha que tempo sahiu da sua terra?

--Ha muitos annos, meu senhor...

--Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado _Tomba_?

--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo... E eu _támem_ era muito amigo d'elle!

--Ah! você então era amigo do _Tomba_?

--Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle eramos como a unha e a carne...

--E o que foi feito d'elle? Não sabe?

--Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...

Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.

--Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou Julio a meia voz.

O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:

--Ora espera! Vossa _incellencia_ é o sr. Julinho de Montarroyo, pois não é?

--Sou.

--Cá me queria a mim parecer!

E batendo na testa desesperado:

--Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoará, mas eu estava agora bem longe de o _topar_ aqui! Antão _cumpassou_?--perguntou o _Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ está féro! Está que é uma bisarria!

--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho!

--Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que, graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda as pernas me levam p'r'a onde eu quero.

Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer minuciosamente, conduziu o _Tomba_ através do jardim, até ao interior da habitação.

--Venha cá, _Tomba_, venha cá, homem, que temos que fallar...

--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve inté_ aqui, por sua infinita _mesericordia_!

Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e disse-lhe:

--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer...

--Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...

--Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.

Julio ordenou que dessem de almoçar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume, honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.

Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da casa.

--Já matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fôr preciso!

--Conte-me cá, mestre _Tomba_, o que é feito de você? O que foi feito de D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de Noronha?

--Pois vossa _incellencia_ não sabe?--disse o sapateiro admirado.

--Nada! Não sei nada.

--Pois já tudo isso lá vae!

--Tudo?

--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Inté_ é de _inorar_ o sr. Julinho não saber as _desgracias_ todas que se déram logo assim que o sr. Julinho _arretirou_ p'ra Braga.

--Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.

--Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! lá deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--lá teceu taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido falsa com o sr. Julinho...

--Comigo!--exclamou Julio admirado.

--Pois _antão_ não sabia?

--Eu não sabia de nada...

--Bem digo eu! _Antão_ já vejo que não sabe nem da missa a metade!... Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto nós estavamos no Porto a ver se lhe deitavamos a luva, _vêo_ a Braga dizer ó _Custoido_ que a sr.^a D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo... E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras, _assubiu-lhe_ a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...

--Isso é extraordinario!--disse Julio.

--E lá em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi verdade, porque quem se _cia alhos come_...

--Mestre _Tomba_, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!

--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou n'aquelle tempo...

--E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os calumniadores?

--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos diabos tinham-me a jejum de pão e _auga_, que eu cuidei que não tornava mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam mais para os queixos do _Tomba_!

E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira que o guardava quasi á vista.

--Eu só queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi uma trépa co'as correias, que _inté_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr. Alvarinho--Deus lhe perdôe!--lá tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle... Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o enterrei!

--Ah! você foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre?

--Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr. Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da sr.^a D. Carlota--Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_ estava lá mettida com vossa _incellencia_...

--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais espantado.

--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se _acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lêr a carta e _escorda-me_ como se fosse hoje tudo quanto ella dezia...

--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta, pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!

--Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes, começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá e aquelle ladrão do _Perneta_ e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada! Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _atão_ é que eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do _Perneta_ que deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...» Fui-me á Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas como foram e como não foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas não confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, não teve mão em si, começou a _entoar_ e _dixe_ tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o levou seicentos diabos!

Julio ouvia espantado estas revelações do _Tomba_.

--Mas como é--disse elle--que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?

--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?

--Diga lá, mestre.

--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota não escreveu carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz! Vossa _incellencia_ não se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes que o patife do padre _Inxelmo inté_ uma vez escreveu uma carta muito bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer ó pae d'ella que estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de contas vae-se a vêr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_!

Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras do _Tomba_ é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma infame mystificação.

--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?

--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso _támem_ era capaz de fazer a outra...

Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?

Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a deixara.

--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo? Tornou a ter noticias d'elle?

--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!

--Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?

--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o patife do padre... Vae _óspois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava _escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que ninguem soube mais d'elle!

Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e procurava o fio mysterioso que devia explical-os.

--É singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu?

--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _bô casorio_... Foi co'uma brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha um _rôr_ de annos e que _vêo_ de lá rica que não sabia o que tinha de seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_ a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!

--De modo que--tornou Julio--você, mestre, não voltou mais a saber de Helena de Noronha?

--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr. Julinho _támem_ não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da _farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do diabo, que _inté_ co'a tripeça me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me tornar a estabelecer, eu já não tinha _farramenta_ nem freguezia... estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _inté_ Villaverde, á tia do sr. Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dôr de mim e deu-me uma libra d'esmola!

--E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a Helena de Noronha?

--Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual como o meu compadre _Longuinhos_ que _támem_ se arranjou muito bem co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...

--Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma incumbencia que eu desejo fazer-lhe?

--Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa _incellencia_ que lhe eu não faça?!

--Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou no _Sardão_, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre Paula...

--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este nome.--Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o _Sardão_ que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer tijolo!

--Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o pessoas que nunca lhe fallaram?...

--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas não levo o santo, porque se a policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no _Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...

--Pois não leve o santo...

--Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o não estraguem, que é o meu ganha-pão...

--Vá descançado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem cá lhe bulirá n'elle...

--_Atão_ quando quer o sr. Julinho que eu vá?

--O mais depressa que possa...

--Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o que quer que lhe diga?

--Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.

--E se lá não estiver?

--Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.

--Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o _Tomba_ radiante.

E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.

XX

Alma negra

Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia, apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas mãos de João Lazaro.

O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava á endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do encarquilhado protector.

Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico, consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse _sangue alvoroçado_, que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo, porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem posse do corpo é que custam mais a debellar.

Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar com aquella vida que não podia continuar assim.

--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu sem ti não podia viver...

E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente, a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a sua vida, senão a de ser commendador.

A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:

--Ah! maganão, você é que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ está de cada vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer desfazer, endosse-me a letra...

Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com outro.

Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e extraordinaria mulher.

E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices que nenhuma outra saberia fazer-lhe.

Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente do infeliz commendador.

E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do _seu peccado_!

Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a. Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.

N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.

A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir, deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe fallar em medicos.

Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.

Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.

Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no tapete, pôz se a mordiscar as unhas.

--O João Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me dizer?

Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de Eugenio?

N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e appareceu a figura de João Lazaro.

Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em que vinha embuçado.

--Tardei, não é verdade?--disse elle.

--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio?

--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...

--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.

João Lazaro sorriu.

--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu. N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se homisiar...

--Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que partiu...

--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.

--Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...

--E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...

--O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura irritada.

--Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber que elle diligenciava casar-se com Beatriz...

--A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte de Eugenio...

--Porque?