Chapter 2
--Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que lucta!
--Vence-o!
--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me mandaes anniquilar com aquella existencia!
--Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas?
--Pois bem, fico!... para partir com ella!
Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao pôtro, parecia cahida em profundo lethargo.
--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!
Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou do peito da victima, que não soltou um gemido.
O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos e immoveis:
--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo como se mata e como se morre!
E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço e cravou o punhal no coração.
A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma homicida.
Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de encontro ao corpo.
--Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem comprehender.--Estamos nós representando uma farça?
--Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto valor!
Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_ de Paulo, continuou:
--Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.
O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia.
--Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da _Mão-negra_...
--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo.
--É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam indignos de pertencerem á nossa Associação.
--Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo.
--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a tua admissão. Queres prestar juramento?
--Sim!
--Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto!
Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.
--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_.
Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo.
--Irmão Golias!--disse o chefe.
--Eis-me, senhor!
--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
--Do fundo da minha alma.
--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo na mão uma salva de prata coberta por um crepe.
O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena deveras surprehendente.
De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se, transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.
Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_, e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.
Ao mesmo tempo uma voz resoou:
--Está aberto o templo!
Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e na dextra um punhal.
Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_, abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes desembainhados.
Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o ruido dos passos.
Então o chefe, erguendo a voz, disse:
--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação? Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os sentimentos do teu coração?
Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:
--Juro!
Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na mão, voltou-se para o neophyto, dizendo:
--Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de _Mão-negra_!
Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
--Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos vossos olhos!
O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava á sua vista.
Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os florêtes apontados ao novo irmão.
Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si.
O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno.
O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na testa.
--Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle.
A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha.
Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do throno, dizendo:
--Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno d'elles.
Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um abraçál-o e beijál-o na testa.
--Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime capitulo. Está encerrado o _templo_.
As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que caminho levavam.
II
Amôr e esperança
Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua proxima da de Cedofeita.
Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.
O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.
Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da perdiz.
Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina disse, tremula e quasi sumida:
--Como vens tarde, meu amigo!
--Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada. Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz.
--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou afflicta!
--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus!
--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?
Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento, occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços.
--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me!
O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta pancada no peito.
--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem?
--Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos amigos de meu pae...
--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço.
--Eugenio de Mello--soluçou Beatriz.
--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.
--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de meu pae...
--Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração não repelliria um semelhante enlace.
--Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende!
--É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento em que tu nem sequer tinhas pensado?
--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua vontade é a unica que predomina...
--Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.
--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu destino ao de um homem que elle julga digno de mim.
--E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.
--Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas palavras! Não te mereço isso...
As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora, pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.
--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas desculpal-o?
--Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa.
--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção?
Beatriz pareceu hesitar na resposta.
--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que devo fazer...
--Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle que te responda e te diga a resolução que deves tomar...
--Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és...
--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
--Oh! não, não, Paulo!
--N'esse caso, o que receias?
--É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a...
--Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...
Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de 18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito, não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações offensivas da mulher que adorava.
--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua piedade!
--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?
--Eu...
--Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós...
--Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo fazer...
--O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz; tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo, porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho. Paciencia!
--Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.
E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo:
--Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que o meu amôr me dá direito...
--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se, soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos inspirou tão fervoroso culto!
--Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade?
--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção.
--É que tu não conheces meu pae!
--Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr.
--Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr, jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.
--Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos, contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como _irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos. Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança em mim, que havemos de vencer».
O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras pareceu transmittir novo alento á joven.
--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de uma sorte cruel e adversa!
Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.
O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.
Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança ao lance ingenuamente sentimental.
Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter.
Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e ingenua leitora das novellas de Camillo?
Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras balbuciações do seu amoroso coração de creança.
Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.
Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa saber ao leitor inimigo de divagações.
Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta.
O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da Academia.
O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.
Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã.
Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha no seu coração o primeiro logar.
Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo não pôde dormir.
Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso que encobria o seu nascimento.
No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa:
--Diga-me, padre: quem é meu pae?
O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos.