Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 18

Chapter 184,007 wordsPublic domain

--É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras adiante...

--Já esperavam o lance, os patifes!

--Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam assignalado...

--Era para Villar do Paraiso, pois não era?

--Era.

O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.

--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos.

--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.

Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um largo portão de ferro.

--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores.

E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo, seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos campos que a circumdavam.

Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz, ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.

Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez aspirar a Beatriz um frasco de saes.

Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em Beatriz, sem preferir palavra.

Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.

--Paulo! És tu?--disse ella.

--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe na mão e beijou-lh'a com transporte.

--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que é isto? Como me encontro eu aqui?

--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de um enorme perigo...

--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.--Mas como pudeste tu saber?

--Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te estava armada e em que te queriam fazer cahir...

--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada.

--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.

--Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram dentro do carro...

--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr, estás ao lado do escolhido do teu coração!...

Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.

--E esta senhora--disse ella--quem é?

Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á pergunta:

--É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha filha.

--É minha mãe!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.

Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:

--Este louco--disse ella--teima em querer impôr-me um titulo que me não pertence e a que de forma alguma tenho direito...

--Não diga isso, minha mãe!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?

--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida.

--Meu filho! vês?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz que não é minha mãe e chama-me seu filho!

Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:

--«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...

--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja não a conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por ella indifferença.

--Paulo, não digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos paes?

--Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração, minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois, minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me abandonaram?

E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta scena:

--Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens fallado com tão viva saudade?

Beatriz corou e disse:

--Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora, nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia... inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos, gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal, este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e o meu coração ficava frio e indifferente.

Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.

--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de não sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...

--Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os sentimentos do meu coração.

E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.

--E todavia--observou Paulo--esse homem não tem o minimo direito á obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um pae!

--Paulo! Paulo... então!--supplicou Beatriz.

Madre Paula interveio:

--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.

E dirigindo-se a Beatriz:

--Minha menina--accrescentou--agradeça ao céo o havel-a protegido e amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?

--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!

--Paulo virá vêl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois, que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a honra e a reputação dos meus queridos filhos.

Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil abbadessa.

Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal, disse para Beatriz, levantando-a nos braços:

--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.

E dirigindo-se a Paulo:

--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.

XVII

Quem semeia ventos...

O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.

O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.

A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio, esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos acontecimentos.

--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu á medida dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a fazer-se...

--Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem em bôa occasião.

--Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao fundo...

Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.

Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para, saber que novidade tinha havido.

--É bôa!--disse o procurador á mulher--Este maluco rapta a rapariga e quer que eu lhe diga a novidade que houve!

--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete?

--Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o por algum portador de confiança, depois do rapto.

--Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...

--É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella para Villar do Paraiso como haviamos combinado?

--Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...

--Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido... Nada, aqui houve tolice do rapaz...

Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que levava o negocio do casamento a bom caminho.

No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio entrou:

--Então?--disse-lhe o procurador.--Você já aqui, em vez de estar a convencer a pequena!

--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender.

--Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?

--O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...

--Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a Beatriz?

--Eu?!

--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!

--Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...

--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava gracejando.--Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas brincadeiras!

--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois d'isto, fosse raptar a pequena?

--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Você, quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!

E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira grossa:

--Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar... Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se deixe enganar!

O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio zombeteiro, meio ameaçador:

--Você está doido, amigo Belchior?

--Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!

--O que quer você dizer com isso, Belchior?

--Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei, com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você lhe pareça o contrario!...

O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.

--Homem, não se zangue e fallemos sério--disse elle, procurando serenar o Belchior.--Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a dizer...

--Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que o aventureiro o queria enganar.--É preciso que se lembre de que eu estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o contrario, que eu não o acredito.

--Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!--protestou Eugenio, verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.

--Não foi! Então quem foi?

--Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...

--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?

--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde, conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem, que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:--«Onde está o sr. Belchior?»--«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria você que eu fosse raptar a pequena?

O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.

Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do bohemio.

--Sim... tudo isso está muito bem--disse elle.-- Mas o peor é que a rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada viram, e ninguem podia ter sido senão você...

--Mas você não está gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada?

--Essa agora! Então não sabe que o foi?

--Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...

--Dos prejuizos... Que prejuizos?

O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:

--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois, entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...

--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Então já o ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli, e o preto no branco falla como gente!

E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.

--É verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!

--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o procurador n'um gesto de ameaça.

--Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.

--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se lá fóra! ponha-se lá fóra!

O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido de medo, foi recuando até á parede.

Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa sobre o hombro, disse:

--Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena. Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!

O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se apressado a casa de Custodio.

Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos haviam combinado dar-lhe.

--É incrivel--murmurava elle--a desfaçatez com que aquelle maroto nega uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise... Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!

Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no momento mesmo em que este se preparava para sahir.

--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota.

--Sim? Então o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera tempo de serenar e recobrar o sangue frio.

--Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que fizemos hontem ao regedor e á policia...

--Pois está claro que sim!--tornou o procurador--Agora é carregar-lhe com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo que elle não possa negar ainda que queira...

--Você julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto.

--Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.

--Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio desconfiado.

--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar. Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...

--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga você como quer que puxe...

O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame negocio.

--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vêr se faz jus a mais dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!

E voltando-se para o Custodio de Jesus:

--É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci, porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de dizer comnosco... não nos póde contradizer...

--Ágora contradigo! N'essa não caio eu...

--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...

--Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o Custodio de cada vez mais apprehensivo.

--A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...

--Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.