Chapter 17
--Ai, já? Você já é da minha opinião?--replicou o Custodio, triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e agora é tarde para tomar outro caminho...
--Qual outro caminho?
--O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a façam entrar na ordem?
--Mas não é preciso nada d'isso, homem!
--Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja nada e acha que não é preciso empregar a força?
--Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae cruel...
--Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua. Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!
--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...
--Mas que força é essa então?
--É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força das circumstancias?
--Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim consegui convencêl-a.
--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho.
--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender.
--Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a largal-a a ella...
--Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a obriguem a acceitar este casamento...
--Ninguem falla em empregar esses meios violentos...
--Não?
--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o caso é outro...
--Mas então diga lá.
O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:
--A questão é você querer...
--Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!
--O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...
--Se dá resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Então como é isso?
--É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...
--Hein! O que? Rapta-se?
--É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...
--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu não percebi bem?...
--Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...
--Sim... E depois?
--Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá, agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é tarde--não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...
--O resto... Mas qual resto?
--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio senão acceitar por marido o homem que a raptou...
--Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...
--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...
--E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?
--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella desacreditada, só se elle não tiver vergonha.
--Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não... isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e andar fallado nas bôccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D. Carlota.
--Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma _planta-fórma_ para obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada, uma vez que o raptor a receba por mulher?
O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que ruminando o plano do seu amigo Belchior.
--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso era um escandalo de seiscentos diabos!
--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que convinha...
--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio escandalisado--Então você quer que eu, como pae--porque afinal ella não tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em escandalos?
--Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que convinha...
--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio.
--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem, senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora, não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da _praça_ abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?
--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher, senão debaixo de certas condições?
--Quaes condições?
--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a coberto...
--O Eugenio não é capaz d'isso!--protestou o Belchior.
--Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle impuzer... Nada, isso não é bom plano.
--Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não vejo outro meio...
--Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao namoro, isso desse bom resultado.
--Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com quem se não póde tratar nada a sério...
--O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar--volveu o Custodio coçando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...
--Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus interesses como se fossem meus...
--Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...
--Não é outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado, cumpre com toda a certeza.
--E se não cumprir?
--Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a justiça...
--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso velhaco.
--O que lucrava?
--Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres pela maroteira feita a mim?
--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?
--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso.
--Então, se comprehende, que mais quer?
--E você compromette-se a fazel-o cumprir?
--Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso salvar as apparencias...
--Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.
--Justissimo! É isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereço-me a proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja encontrado com ella.
--Justo!--disse o Custodio.
--Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que elle terá de se haver... Está bem assim?
--Está optimo!--apoiou o Custodio radiante.
--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada...
--Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.
XVI
O rapto
Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz, que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo prazer.
O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez lhe puzesse a saude em risco.
--Ora a minha desgraça!--clamava elle--Não basta ter tanta coisa que me afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!
--Mas se o papá não quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que está doente e não vamos...
--Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...
--Mas se é um caso de força maior...
--Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...
A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam açodadamente, gritando:
--Então vamos?
--Vamos lá... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena tambem já está preparada, acho eu...
A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz n'uma grande alegria:
--Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?
--Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas coisas que mandei preparar...
--O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que chega para um regimento!...
--Por demais não perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que são horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...
Entraram no carro, um _char-á-bancs_ enorme, e seguiram as duas familias aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.
A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.
A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.
Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo, dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro pelos dois homens.
O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para a cidade.
--Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha, amigo Custodio?
--A distancia, realmente, não é grande...
--Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres desce-se bem...
--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de Belchior.
--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...
Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.
O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador, esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore frondosissima, começaram a cabecear com somno.
Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.
Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.
Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão horroroso.
Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas noites que não apparecia a fallar-lhe.
Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse ella, porque elle voltaria com boas novas.
--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o mancebo intentava.
--Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu procedimento.
Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios, quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não communicasse, impressionou-a.
E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe pelo menos antipathicas.
Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.
A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio pela fresca.
--São horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.
--É verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de braço de Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava interessado.
E voltando-se para as senhoras:
--Andem lá adiante...
Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.
As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns numeros mais populares de uma revista em voga.
--Ah! que dia tão bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--Não ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao campo!
--E a noite está linda!--accudiu a mulher do Belchior--dá mesmo gosto passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?
--Não desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de ignoto receio.
O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia, paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo argumentos sem tom nem som.
Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que queriam encontrar-se no momento do assalto.
--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva á pequena.
Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.
Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do carro, que partiu em carreira desabrida.
--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande afflicção.
Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito açodados, perguntando:
--O que é? O que aconteceu?
--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram com ella dentro d'aquelle trem!
E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.
--E ella não gritou?--disse o procurador.
--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a pobresinha não se tornou a ouvir!
--Talvez a amordaçassem...--aventurou o Belchior.
--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher.
O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos á cabeça, não fazia senão gritar:
--Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a minha filha!
--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia e apresentemos-lhe a queixa...
--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio.
--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?
-- Sim... foi elle...
--Está visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella não queria... raptou-a!
E em tom mais baixo:
--Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente, que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.
--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto não é coisa que se faça a um pae!
--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a maior consternação.--Ainda não estou em mim!
--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo nós nos mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a mim!
--Á senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso escarninho.
--E então?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira, e elles eram dois...
--Ahi está a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram só uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com o regedor para perseguir os fugitivos!
Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois das nove horas da noite.
Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e contaram-lhe o succedido.
--E para onde fôram elles?--perguntou o funccionario.
--Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e afinal perdemol-os de vista...
--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?
--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer, deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no Porto e que se chama Eugenio de Mello.
--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração. Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.
E preparando-se para tomar nota n'um papel:
--Os seus nomes, fazem favor?
O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.
--Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse o regedor--a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr. administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias precisas...
--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio.
--E demais a mais, menor!--declamou o procurador--É crime de casamento ou penitenciaria!
--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor.
--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando á cidade, vamos direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...
--Está visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos, póde muito bem fazel-os capturar...
--O que vale é que nós conhecemos o raptor...
--Sim, isso é meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem photographias, ainda melhor...
--A verdadeira photographia é o nome--accudiu o procurador--Elle é conhecido.
--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr. administrador dará as ordens.
Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu sahir.
--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior já na rua.
Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.
--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...
--Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!
--E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro remedio senão casar com o Eugenio...
--Sim... isso é verdade.
--Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos convinha...
--Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque já hoje não vão á policia...
--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de casar, quer queira, quer não!
Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia dos dois mascarados que a raptaram.
Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a commoção que soffreu, que perdeu os sentidos.
Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada de ternura, pegando-lhe na mão:
--Beatriz!
Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.
--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e delicada.
O mesmo silencio e a mesma immobilidade.
Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto, poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a filha do Custodio não respirava.
--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido.
--É natural--replicou o companheiro.--Compleição franzina e delicada, assustou-se e desmaiou.
--E agora?--perguntou o que primeiro fallara.
--Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.
E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e afflicto:
--Não te assustes--tranquillisou.--Isso passa. É um ligeiro deliquio, que até nos favorece o bom exito da empreza.
--Parece-me que não somos seguidos.--tornou o outro, inquieto.
--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos foram os proprios que nos auxiliaram?...