Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 15

Chapter 153,957 wordsPublic domain

--Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando um golpe de morte ao meu coração!

E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.

A velha apaziguava:

--Ás vezes _támem_ se diz mais do que é,..

--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!--exclamou por fim, rompendo em soluços.

--Desgraçado é o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Gracía_ dar por ella e não tornar cá... _Antão_ sim, _antão_ é que a menina se devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se arranja nada...

--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de desespero--Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha posição--o proprio amor do homem que me sustenta--ás suas necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta affronta!

No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade irritada, o odio, o ciume, emfim.

A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de prudencia ou de banal consolação.

De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz lamurienta:

--Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!

Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla, pareceu tomar uma resolução.

--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma palavra ao sr. Eugenio.

--Ó menina! Crédo!--protestou a velha--a minha bôcca não se abre para nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu _tàmem_ faço de conta que nada _assucedeu_... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e começar-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia...

--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...

--Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, já fica sabendo quem tem...

--É justamente isso o que eu quero.

--Porque ás vezes--commentou a velha--_támem_ são _malquerencias_... Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _támem_ hão muitas _invejidades_!...

--Pois é por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar... Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...

--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle não desconfiar...

--É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?

--Ora essa! A'gora esqueço!...

--Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...

--Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa, não tem senão chamar...

Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar as horas com a rapidez de minutos.

Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro horas da manhã, no quarto da amante.

Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes, recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.

Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer, tranquilla.

--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!

Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:

--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada... Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...

--Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?

--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...

--Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr quando eu chegava, e deu-te esse resultado!

--Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...

--Mas estás melhor, não é verdade?

--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...

--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente.

--Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto passa.

A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.

O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas feições.

Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um transporte de ternura infinita que lhe disse:

--Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me melhor...

--Não, eu venho cêdo...

--A que hora?

--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé, filhinha...

--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...

--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?

--Pois sim.

Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.

Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e começou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo correspondente lhe havia indicado.

Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de conhecer toda a verdade.

Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um chapéo de feltro.

A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.

Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa curiosidade.

O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e, parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e disse, inclinando-se em garboso cumprimento:

--Não esperava que fosse eu, não é verdade?

--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições de João Lazaro.

--Eu mesmo, é verdade!--replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com a ausencia.

--Mas, perdão!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de impaciencia--creio que não foi para insistir nos seus protestos de estima que aqui veio...

--Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem recebeu...

--Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses factos para explicar o seu procedimento...

--Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente; e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma... Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora Leonor sabêl-o...

--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!

--É então certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso ironico.

Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel desespêro:

--Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...

--Aliás?--interrogou João Lazaro, sorrindo.

--Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.

E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.

--É justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?

--O que quer dizer?

--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!

Leonor encarou-o com altiva dignidade:

--É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?

--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia de Eugenio!

Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente, como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu:

--O meu coração, por emquanto, não está livre.

--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado recanto do seu peito, Leonor?

--Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e estima sincera.

--Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!

A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe ficava proximo.

--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicações que me prometteu.

--Perdão, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo amavelmente--Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a nada obrigam...

--O que deseja então?

--Que me prometta, que me jure duas coisas...

--Dirá.

--A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio.

--Prometto.

--A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar que, n'esta casa, occupava Eugenio...

A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração de mulher ciumenta.

--E se eu recusar essa ultima condição?--perguntou.

--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que póde ficar sabendo desde já.

--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!

--Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...

--É de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a brincadeira!

--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso cynico.--Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue frio, para procedermos com acerto e prudencia.

--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me vae fazer.

--Ora muito bem!--principiou o João Lazaro.--Disse-lhe na minha carta que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a verdade.

--Como se chama essa menina?

--Beatriz.

--Onde mora?

--Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.

--Diz então que o casamento está projectado para breve?

--Digo.

--N'esse caso, essa menina ama-o?

--Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que pediu a sua mão.

--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?

--Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o seu segredo...

--Como o soube então?

--Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!

--Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se divertir á custa alheia?

--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me informações a seu respeito.

--O que lhe disse?

--O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.

--Mas é forçoso impedir esse casamento!

--Talvez não seja impossivel.

--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?

--De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja d'elle?

--Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...

--Está doida! E o commendador Garcia?

--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação indescriptivel.

--Venha cá, socegue!--disse João Lazaro, tomando-lhe a mão.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso que cumpra o que prometteu.

--Pois sim... Diga então o que devo fazer...

--Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.

--Como?

--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...

--Merece...

--Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este mundo.

--E obtida a certeza?

--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar. Faz isto?

--Faço.

--Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.

--Não suspeitará.

--E eu voltarei a informál-a.

--Quando?

--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.

--E até lá nada devo dizer nem fazer?

--Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do Custodio de Jesus.

--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente! Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...

--As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.

--As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás circumstancias?

--Todas. No seu caso, todas--replicou João Lazaro com reflexiva gravidade.

E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:

--Ora venha cá!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto. E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e a attender-me...

--Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os seus torpes intentos!

--Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á senhora...

--Só a mim, diz?

--Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante para impedir o casamento?

Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:

--O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem toma a sério.

A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma indignação suprema.

--Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?

João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava nos labios.

--Tem razão--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão, que ninguem attende.

--Ha de pelo menos attendel-a elle!

João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.

--Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se. Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem sério_ por meio de uma alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.

--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que é!--bradou Leonor completamente dementada.

--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim, minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê, Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está fallando.

--Mas o que devo então fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero.

--Ter prudencia e esperar.

--Ter prudencia! Esperar... o que e como?

--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se, Leonor...