Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 14

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--Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum rapaz a quem quizesse mais...»

--Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....

--Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse. Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.

Os dois calaram-se por instantes.

--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?

--É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava...

--Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!

--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!

--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...

--Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?

--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.

Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella.

--Conclue portanto que Helena...

--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...

--Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra vontade que não fosse a sua.

--Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua evasão.

--Seria possivel?

--Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.

--Mas não sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a professar?

--Sei muito bem.

--Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as exigissem?

--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo... Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e á sociedade.

--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu!

--Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e a desgraça comsigo.

--E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!

--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D. Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce lenitivo de me fallar de Helena...

--A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer que hoje vivo, como v. ex.^a, só de tristes recordações...--replicou D. Aurelia com um fundo suspiro.

A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das festas em honra de Julio.

Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:

--Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?

--Póde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para se distrahir.

Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.

Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.

XIII

Denuncia

João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.

O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos, no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:

--Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem ao meu lado!

--Não será bem isso--replicou o outro delicadamente, para não o ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és alvo...

--Communhão de ideias!--tornou o João Lazaro desdenhoso--Que communhão de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja arroz cosido em vez de miolos?

--Talvez tenhas razão, talvez...

--Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os. Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se aproximarem de mim.

O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se que não dissesse:

--Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com franqueza?

--Dize lá.

--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o idiota és tu!

João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:

--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente, vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos. Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os amigos me darem de cear...

--Para que então?

--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação publica...

--Já lhes expuzeste o teu plano?

--O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha, é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me rodeiam!...

--Bom! Mas, a final, o que queres tu?

--Dinheiro!

--Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente o que todos querem...

--Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um!--exclamou o João Lazaro, convicto.--Não me falta mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz.

--Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...

--Quaes circumstancias?

--Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...

--Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes, ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.

--Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...

--Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é só para mim, o bem é para todos.

--Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...

--Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.

--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o impõe, o que havemos de fazer?

--Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha dinheiro!--exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.

--Eu não sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto são apenas considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas? Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá difficuldade em a conseguir.

--Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?

--Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.

João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.

--E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do _Deve_ e _Haver_! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a pedir João Branco e Pita Beserra!

Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que não lhe davam o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.

--Bem!--disse elle--tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...

E consultando o relogio:

--São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque á noite talvez retire para Lisboa.

--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?

--Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...

--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...

--Não, que eu não peço!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!

Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.

--Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?--perguntou o outro despedindo-se.

--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido que me não merece.

--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...

--Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas, se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se, porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses bilhostres.

Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.

--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro.

Pelo caminho, ia monologando:

--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim, á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes apanhar dinheiro para ir até Hespanha.

E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga:

--Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!

Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.

--Cuidei que não vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te conhecer.

O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:

--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos, que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os acompanham.

Seguiram-se as apresentações:

--Senhorita Lola...

--Senhorita Dolores...

--Senhorita Consuelo...

O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.

Abancaram á mesa e principiou o festim.

A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.

A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.

--Um moço de fretes com esta carta para a menina...

A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador, usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a sós com Leonor.

--Dê cá!--disse a loura, pegando na carta e examinando o sobrescripto.--Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma declaração?

--O portador não esperou _reposta_.

--Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que entregou a carta.

E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.

--É singular! O papel não vem perfumado--disse ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva vinha escripta.

--É de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios d'amôr.--Os _cheiros_ são para os pelintras que só querem agradar com bugigangas e a respeito de _louça_... nem um pires!... Homem sério, homem de _massas_, não está lá com essas coisas... Confia no seu dinheiro e é bastante...

Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:

--Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!

--O que é, menina?--perguntou a velha serviçal, n'um movimento de curiosidade.

--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoção--que Eugenio vae casar.

--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a _avoar_!

Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:

«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito breve.

«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado, discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento de Eugenio.

«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente, libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro, escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do commendador Garcia.

«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.

«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa _Leonor_, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.

«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»

Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha confidente, exclamando:

--Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!

--Crédo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso são tentações do demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _bô_! Homens ha muitos, tão _bôs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, não achava homem que lhe désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... Só eu é que sei!

--Que e o que você tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio.

--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr. Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!

--E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse outro namoro?

--Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como isto!

E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.

--Mas será verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na sala--Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?

--O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora p'ró oitro, menina...