Chapter 13
--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom de convicta auctoridade.--Olha que não ha como o casamento para fazer um homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém, cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...» Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta.
--É assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada.
--Não temos tido filhos--tornou o commendador, muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas não é por falta de amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!
E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete, e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o rotundo abdomen.
Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
--Ora agora o que é preciso--propôz o juiz de direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas--é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua prolongada ausencia!
E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:
--Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho, pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!
Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do mundo, como o _infante D. Pedro_.
O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos.
Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.
--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me mortifica!
--Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que só aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!
--Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de tristezas!
--Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...
No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.
Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.
Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.
Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
--Bons dias!
O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:
--Muito bons dias!
--É o proprietario d'esta casa?
--Um seu criado!
--Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
--Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
E chamando pelo criado:
--Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou.
O _Manéca_, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e obedecer.
Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este dialogo:
--V. s.^a vende esta propriedade, não é assim?
--Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra tornar no Brazil...
--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto de Noronha...
--Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas informações que dão-me d'elle, hein!
--Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa?
--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por lá...
--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta casa?
--O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a familia de Norberto, já vejo...
--Conheci. A casa soffreu modificações?
--Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de que era uma vivenda _muito bôa ella_ e que se conservava quasi no mesmo estado em que o fidalgo a deixára.
Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem morria.
Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.
--Isto áqui me tem sérvido para arrumações--explicou o brazileiro.--Aqui encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?
--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio.
--Com mobilia ou sem ella?
--Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...
--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.^a me quizer comprar ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
--Não, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.
O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.
--Quer assim?--interrogou Julio.
--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle ágora...
--Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em o adquirir por menos do seu justo valor.
--Mas então a casa é de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda cortezia.
--V. s.^a não me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador á validade d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. Quando quizer, faremos a escriptura!
--O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.^a é hospede d'elle, já vejo...
--Sou. V. s.^a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo dar-lhe de signal.
--Signal!--protestou o brazileiro--não é priciso elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu?
--Como queira.
--Me dê v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no tabellião fazer a escriptura, hein!
--Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.
--Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellião...
Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.
--Já comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que chegou.
--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa ordem?
--Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha uma realisação legal.
--Por quanto a compraste?
--Por doze contos, tal como está.
--Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa alheia.
Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova propriedade.
Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo de Magalhães.
--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do espirito humano.
--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos costumes...
--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos.
--Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o _spleen_ dos inglezes--opinou o juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado. Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs, prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como é o de uma esposa por seu marido?...
--Pelo menos, quando não seja isso--disse o commendador--o casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da esposa!
Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro, com a D. Graciana.
--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulação--com bem o diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser...
--Nós tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua voz de assobio.
--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem tomar parte n'ella--não se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta, achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
--Isso é verdade!--accudiu o commendador--eu já tive uma epocha na minha vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão simples...
--Não tanto!--replicou o juiz--Quem não tem que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue ao divertimento...
--Agora não!--tornou o commendador.
--Por falta de pisco?--perguntou o medico.
--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente... Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros em casa.
A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os dois este dialogo:
--Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a já comprou a casa de Norberto de Noronha.
--A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.
--Na intenção de a habitar?
--Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da minha vida.
--É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...
--É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...
--A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...
--E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...
--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma religiosa pontualidade!
--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella?
--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.
--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...
--É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a vida.
--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser até que já tenha morrido...
--Não sei, não conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
--Se o _Tomba_ esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não foi estranho o raptor de Helena...
--O padre Anselmo?
--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome?
--Pois não sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a casa paterna?
--E v. ex.^a era sabedora das intenções de Helena?
--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque, apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão Gustavo, julgo-a irresponsavel.
--É esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha?
--É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso assegurar a v. ex.^a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.
--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...
--Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.
--E Helena amava o primo?