Chapter 12
--Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal... Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado, cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso, seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.
--Não é tanto assim, meu caro--protestou o João Lazaro frouxamente.
--Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio de Mello é um especulador amorôso... Vives dos _kalenderes do ideal_ como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.
--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!
--Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos, porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço cabalmente.
--Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão proseguir no caminho mau em que me lancei?
--Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada, porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes sustentar o prestigio da causa...
--Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres! Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil reis!
--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.
--Eu?
--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos tambem ás vezes ganham juizo...
--Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...
--E o que vens tu fazer ao Porto?
--Venho arranjar dinheiro...
--Para quem?
--Para mim.
--E suppões que t'o dêem?
--Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...
--Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?
--Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...
--Bem; anda lá!
João Lazaro levantou-se.
--E tu, sempre o mesmo?
--O mesmo sempre.
--És um homem singular!
--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente o livro mais curioso e mais difficil de lêr.
--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos vencem.
--Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!
João Lazaro consultou o relogio.
--Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?
--Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma hora da tarde.
--Irei dizer-te adeus.
--Pois sim.
Apertaram-se as mãos e despediram-se.
João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.
Já na rua, ia murmurando:
--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um capitalista!
Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.
--Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em fortuna e em posição social.
João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco, minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.
A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de maio, prenhe de trovões, e como a propria _parda_ brazileira de quem era filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos, nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.
De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.
Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de apreciar melhor em capitulos subsequentes.
Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica historia.
XII
Velhos conhecimentos
Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irmã Dorothea_ já conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,--_casa nobre_, como lá se diz,--mas de severo e melancholico aspecto.
Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa.
É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver tornava ainda mais profunda.
Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.
Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do santo sacrificio.
O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na _Irmã Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha, doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.
Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e alli se demorava de junho a setembro.
Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e já contava nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e á tristeza succediam o ruido e a alegria.
Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo campo.
E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.
--Aurelia--dizia-lhe o irmão--se vivesses um anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem.
--Não, Gustavo, não--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade dos que me fôram queridos.
--Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não é verdade?
--Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes que perdi.
No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital, sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um linitivo ás amarguras do seu espirito.
Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.
Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.
Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas composições mais em voga.
A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites claras do estio.
Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos, symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro pôde ainda devassar.
Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães, attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas continuando as conversações em que estavam entretidos.
--É verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o palacete que foi de Norberto de Noronha.
--Vende?--respondeu o advogado--Então o Pinho, o brazileiro para onde vae?
--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á Mathilde, á minha criada de quarto.
--É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.
--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra substituir o Negrão, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem economico... tem dispendido.
--Pois parece que não deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
--Pois é verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em dez annos.
Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.
--Não póde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe attribue.
--Pois ahi é que está a desgraça!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que chegou...
--A todo o mundo!?
--É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma contos de reis...
--Isso é verdade!--concordaram alguns do grupo.
--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!--contestou ainda Gustavo.
--Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios, tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda a gente e d'onde se tira e não se põe...
--Bem sei! Em todo o caso...
--Em todo o caso--concluiu o doutor--se não fossem os ultimos revezes soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente sem nada.
--Pobre homem! Tenho pena.
--O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A ultima não lhe ficou por menos de dez contos...
--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para elle...
--Que miseria!--disse Gustavo enojado.
--E até foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem: um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...
--Deve ser horrivel!
--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...
--E quanto quer elle agora pela casa?
--Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...
N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da casa de Gustavo.
--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.
--Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio até cá para se distrahir um pouco?
Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:
--Senhor doutor, saberá v. ex.^a que está lá em baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor....
--A qual de nós?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho recemchegado?
--Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.
--Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?
--Não quiz _dezer_... É um senhor de barbas...
--Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.
E voltando-se para os hospedes:
--Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me procure... Eu volto já.
Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido visitante.
Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres claras.
Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma expansão de velha amizade, dizendo:
--Já me não conheces, não é assim, Gustavo?
--Julio! Pois és tu?
--Sou eu, meu amigo!
E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos braços o seu amigo e companheiro de infancia.
--Mas o que é feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos não tenho tido noticias tuas!
--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...
--Singularissima ausencia!
--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções do imprevisto, porque precisava de esquecer...
--E esqueceste, afinal? Ainda bem!
--Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade ainda fallar d'ella!
Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam desgraçadamente transtornadas.
Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:
--Julgas-me doido, não é verdade?
--Não, não julgo...--replicou o irmão de Aurelia de Magalhães--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.
--Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar, é porque sinceramente não a amou.
--Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?
--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para Pariz, transferida para uma casa de _irmãs Dorotheias_ e pedindo-me que a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...
--E como pudeste esperar tanto tempo?
--Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi, pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha, percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a, e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irmã Dorotheia_, já não existe!
--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda compaixão--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua existencia!
--Bem pensado, não foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.
--Comprar a casa de Norberto de Noronha!
--Sim.
--Com que fim? O que pretendes fazer?
--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...
--Mas vens só, não tens familia?
--Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram, constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas recordações!
--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia emquanto me demorar por estes sitios.
--Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua interferencia n'este negocio.
--Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos, que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua ingratidão... Vem!
Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com grande curiosidade.
A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos circumstantes.
Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga e Guimarães--pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres da educação.
Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.
--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que regressa á casa de seus paes!
--É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um canto onde possa morrer descançado.
--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem ter cumprido a minha missão...
--É justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão a morte redemptora dos grandes desgraçados?