Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 11

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--Esse procurador Belchior--disse Jorge--é tambem um refinado patife. Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a quem pretendem casar com a tua namorada.

--E elle quem é?

--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.

--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos...

--Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece.

--Eu já tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o que precisamos agora é provas d'essa infamia.

--Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro d'elle--que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...

--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...

--E nós cá estamos!

--Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...

Jorge poz-se a rir.

--Desde que a _Mão-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu procedimento, se não fôr correcto.

Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se encontrava o sr. Custodio de Jesus.

--Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...

--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada.

--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois, receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.

--Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente?

--São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?

--Foi o Belchior.

--Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto, qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo. Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te diz.

--É extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade paternal!

--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de teu pae?...

--Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha mão e eu recusei...

--Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições, teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.

--O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...

Paulo reflectiu por alguns instantes.

--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos achaes...

--No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...

--Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.

--Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...

--Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar de resolução.

--Oxalá que assim seja!

O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha, ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com fingido carinho:

--Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?

--Já, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos.

--E o que resolves?

--Por emquanto, nada.

--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois é possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te apresentei?

Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:

--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.

--O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.

--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia.

--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar a vida...

--Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.

--Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.

--Alguma coisa temos já adiantado...

--O que?

--A resolução em que estou de salvar meu pae...

--Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha filha?

--Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.

--Pois olha que não tens outro recurso, crê!

--Veremos.

--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?

--Talvez.

--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes fallamos em dinheiro,--emigram!

Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e serena:

--Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida...

--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo--é bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para esposa...

--Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar reflectidamente sobre o caso...

--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor, comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que é, como sabes, nosso crêdor...

--Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...

--Sim, isso é justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!

--Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de me decidir...

--Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade... Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!

--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheço quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus ha de valer-nos...

--Tens essa fé, Beatriz?

--Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?

--Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente apaixonado por ti.

--É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...

--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de difficuldades: casar e deixar de tolices...

Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado casamento que sonhava para a filha.

--Naturalmente--ia dizendo comsigo--lá o tal franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!

E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.

Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!

XI

João Lazaro

Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar café, depois de jantar.

Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava, ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para matar tempo.

N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes, porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis nas folhas em branco.

Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:

--Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?

Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.

--És tu, João!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui!

Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.

--Ora o meu João Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao Porto!

--É verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho á casa torna...

--E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...

--Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.

--Quando chegaste?

--Hoje de manhã.

--Que tempo te demoras?

--Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante, e não posso calcular o tempo que isso me levará...

--Não tencionas fixar residencia no Porto?

--Não. Isto é pequeno demais para mim...

--Bravo, seu João! Você está crescido!--disse Jorge galhofeiramente.

--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com ella...

Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do charuto caro, com affectação, e exclamou:

--Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha receber as ordens?...

Jorge bateu as palmas, chamando o criado.

--O que tomas?--perguntou ao amigo.

--Vou tomar cerveja.

--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara.

Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de João Lazaro, e perguntou:

--Ingleza?

--Ingleza, sim!--respondeu o João Lazaro.

E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a ordem:

--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!

--Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...

--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o João Lazaro com olhar torvo.

--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és brazileiro...

--Mas portuguez pelo coração!--respondeu o outro com emphase.

E accrescentou:

--Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão pequeno como este?...

--Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal politico?

--Já te disse: sou portuguez pelo coração...

--E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão _negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...

A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle familiarmente:

--Ó João--preveniu o bohemio--não te compromettas para amanhã á noite, porque temos ceia de rapazes em tua honra...

--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e não sei se de dia ficarão concluidos...

--Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar de ser gentil para com as damas.

--Está bem: irei.

E voltando-so para Jorge:

--Não se conhecem?

--Não tenho essa honra--disse Jorge.

João Lazaro então apresentou:

--O meu amigo Eugenio do Mello...

E para este:

--O meu amigo Jorge de Gusmão.

Os dois cortejaram-se.

--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um.

--Igualmente--disse o outro.

E apertaram-se as mãos.

--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João--disse Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que é tambem amigo d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da noite.

--Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto, associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e inaddiaveis--respondeu Jorge.

--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer em o vêr lá...

Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.

O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:

--Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal perante a rapaziada.

Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o rival de Paulo, perguntou:

--Quem é este rapaz?

O outro sorriu desdenhosamente.

--Um aventureiro!--respondeu.

--A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...

--De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar com a gente da mais baixa especie.

--Mas este rapaz é...?

--É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não podemos fazer.

--E vive d'isso?

--Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.

--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...

--Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo, gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa de uma loura, que é a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia... Conheces?

--Conheço o commendador Garcia perfeitamente.

--E a loura?

--Poderei tel-a visto, mas não estou certo.

--Não sabes nada!--volveu o João Lazaro desdenhoso.

--Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo isso?

--Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas. Conta-me tudo.

--Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma rica herdeira...

--Elle!?

--Elle, sim!

--Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?

--Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva suppõe-n'o um rapaz riquissimo...

--É boa! E não me disse nada! Que grande patife!

--Pois é verdade.

--Tens bem a certeza?

--Conheço a noiva...

--Ella quem é?

--É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...

--Não conheço.

--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves conhecer...

--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do tempo em que vivi no Porto.

--Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...

--É bonita essa pequena?

--Creio que sim.

--Crês?

--Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella informações que a dão como uma belleza indiscutivel.

--É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um _escroc_... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de Mello?

--Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.

--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da cilada em que o querem fazer cahir.

--Eu!--replicou Jorge--Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz. Póde ser que a fortuna o regenere.

--A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro levando vida do principe e bellamente relacionado...

--E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se diz, está para breve...

--Os jornaes já deram noticia?

--Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os planos...

--É curioso!--tornou o João Lazaro--Como as mulheres são estupidas nos seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir. Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente... Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para isso lá estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!

--É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial para escolherem o peor.

--Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela materia contra o espirito!

O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos de suprema elegancia n'um salão aristocratico.

Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:

--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...

--Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela aristocracia.

--Sacrificas o amor á politica...

--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...